Monday, October 18, 2010

1. o corpo, a palavra, a foto: as fotos do corpo que a palavra faz

minha primeira exposição se chamou "corpo, teatro do precário" e teve curadoria do meu amigo e antonio-conselheiro-particular ricardo domeneck. ele selecionou as fotos, escreveu um texto de apresentação, me ajudou a colar as fotos na parede e ainda aguentou meu ataque de diva em dia de estreia que, já nesta época, me atacava. eu tinha vinte anos.

ricardo escolheu as fotos que eu fazia obsessivamente, do primeiro leandro. e também de porcos, auto-retratos e de outros musos, igualmente lindos mas bem menos importantes do que aquele ariano leandro.





meses depois, ricardo publicou seu primeiro livro, "carta aos anfíbios".

na época minhas fotos tentavam poetizar o corpo. no caso, o de leandro, que para mim consistia naquele instante de contração, no caminhar do universo, em que todas as moléculas mais perfeitas que existem se colam para fazer existir a coisa mais possível e passível de ser amada, admirada, olhada do mundo (do meu).

na época os poemas de ricardo tentavam criar imagens do corpo. o corpo de ricardo é um em extensão. e os poemas de ricardo viraram fotografias em tamanho para passaporte, dessas que você carrega na carteira da memória.

os poemas, ou melhor, as imagens de ricardo (d)escrevem um corpo que se estende além de seus limites nada metafóricos, e que se espalha sobre a comunidade em forma de secreções - as limpas e as sujas, as amarelas, as verdes e as cor de detergente de coco. as de lágrima, as sanguíneas, as que escorrem, as que grudam, as que cheiram.

o corpo sobre o qual ricardo se debruça (como poeta e como homem) é também aquele que afeta o nosso próprio - que nos levanta pêlos, nos esfria o estômago, aquele que nos faz lacrimejar, umidecer, suar e enrijecer.

apesar dos gregos terem acreditado que o corpo é isso que temos por fora e é lindo, a lepra, a sarna, a peste nos fazem lembrar que o corpo pertence à terra, e não aos deuses.

e, muito embora os românticos vitorianos tenham achado que a tuberculose - catarro, sangue, mau hálito - fosse uma doença dos que amavam demais, o bacilo isolado por koch comprovou que a doença não era nada sublime.

o corpo é tão orgânico e tão estragável quanto um mamão. e eu gosto quando ricardo nos faz lembrar que entre a linda bunda temos ele, o cu.

é que nessa metáfora-contradição reside, para mim, todo o tormento da vida humana: nos disseram que somos filhos de deus, criados iguais a ele, mas a todo momento temos que lidar com isso que somos, monstruosos e brutos, em nada celestiais.

afinal, temos um fiofó, que não nos deixa esquecer o quão terráqueos somos.

§

quando se diz que uma imagem vale mais que mil palavra, cai uma lágrima de tristeza da minha cara. as imagens ficam, isso sim, me devendo mil palavras. e não são "porques" que eu quero, que eu não tenho mais seis anos para perguntar o por quê das coisas, mas sim "para quê".

o poema que ricardo escreveu para o acordeonista de bruxelas não me deve nada: ele é uma polaróide.

O acordeonista da Catedral de Bruxelas
De Bruxelas eu
esperava tudo, talvez
a reprise
do que ali já vivera,
uma noite ao lado
de Jey Crisfar,
chuva e cansaço,
conversas com taxistas
e árabes, mas não
este acordeonista
loiro de 20 anos
diante da Catedral,
sim, a de Bruxelas,
acordeonista loiro e imberbe,
alto e imundo,
a quem doei 2 euros
num excitativo segundo de tacto
entre sua mão e meus dedos fechados
abrindo-se em bojo sobre sua palma,
após fazer com a visão
o rodízio contemplativo e luxurioso,
alternando o foco dos olhos
entre a catedral imberbe e loira
e o acordeonista alto e imundo,
a quem ensaiei, por 20 minutos
que mais pareceram seus 20 anos,
perguntar seu nome, quiçá filmá-lo
com a câmera que deixara
no Berlimbo,
ou imaginá-lo fotografado em série
por Adelaide Ivánova,
Heinz Peter Knes
ou qualquer fotógrafo
íntimo que me cedesse
os direitos autorais
desta imagem loira,
imunda,
para que eu de alguma forma
possuísse
este acordeonista imberbe e alto
em seus 20 anos,
a quem então batizo
em minhas glândulas
e passarei a chamar de Loïc
ou quem sabe Guillaume
pelo resto dos meus dias
após falhar em criar os colhões
de pedir seu nome,
e é assim, sr. Loïc ou Guillaume
aos 20 anos imundo e acordeonista,
que a você eu dedico
diante da alta e imberbe
Catedral de Bruxelas,
estes 2 euros
e uma ereção.


eu gosto muito quando consigo conversar com pio (ou ouvi-lo falar) sobre estas coisas. ele é o fotógrafo mais desapegado com a imagem que eu conheço. pio consegue reconhecer um discurso imagético em muita coisa. foi com ele que comecei a pensar que a própria fotografia é apenas uma ramificação da fotografia.

bem do jeito que ricardo mesmo diz, que a poesia não é uma ramificação da literatura: a literatura é que é uma das ramificações da poesia.

e instaurou a poesia como sendo uma das ramificações da fotografia.

§

pensando nas palavras criando imagens, cito mais dois exemplos com os quais me deparei esses dias:

ernst jandl, poeta suíço cujos poemas sonoros criam imagens claras quando a gente os ouve:



e essa música que eu estava ouvindo ontem, "lamento borincano", escrita em 1930 por rafael hernández. a letra é tristíssima e é ela também uma foto:

sale loco de contento con su cargamento para la ciudad,
lleva en su pensamiento todo un mundo lleno de felicidad,
piensa remediar la situación del hogar que es toda su ilusión

y alegre el jibarito va pensando así, diciendo así, cantando así por ela camino
"si yo vendo la carga mi dios querido, un traje a mi viejita le voy a conmprar"

(...)

pasa la mañana intera sin que nadie quiera
su carga comprar
todo está desierto, el pueblo está muerto de necesidad


1 comments:

Jowzinha said...

N sei o q dizer disso.
É td mto profundo.
Vc devia estudar Filosofia.
Já pensou nisso?

=**, Jowzinha