Sunday, September 13, 2015

schengen goddam




pudessem os homens brancos em bruxelas
e thomas de maizière
ouvir este meu poema estaria resolvida
a questão das fronteiras e seus
problemas veja bem senhor ministro
em minha cama não se pede visto
já troquei lençóis e fronhas
sujos de sêmem made in espanha
hungria áustria zimbábue iraque
alemanha
fazemos a alegria uns dos outros
e diga-me senhor ministro
se não fôssemos nós
quem mais a faria?
e quem faria seu demográfico
crescimento? dele somos
responsáveis - diz fatou diome -
em 40% e sem nós
expatriados diga mesmo
senhor ministro
de onde viriam tantas delícias
as teses os ensaios a vida as baladas
os bares os quadros com quais
lucram vossos museus os livros
premiados com os quais
lucram (ou lucravam) suas poeirentas
livrarias?
haveria para pasolini este
homem europeu
um futuro mais duradouro
tivesse pasolini se refugiado?
talvez fosse morto na síria na líbia
ou na casa de caralho mas menos
por ser refugee e mais por ser viado
(sim um grande problema mas esse
não é hoje o tema do poema)
já deitei em futons tapetes colchões
e carpetes de toda sorte de gente
inclusive os de budapeste que se
mostram agora os mais cabrões
(os jogadores de golf de melilla
não são menos sinistros) o segredo
senhor ministro deixa eu explicar
é abrir não somente as fronteiras
mas o coração sermos bons como lou
salomé que fez a caridade de comer
nietzsche e para o próprio deleite ainda deu
pra rée e (dizem) rilke sermos bons com
quem vier não importando a cor do
passaporte nem do sujeito apenas dando
muito seja lá do quê - um visto um teto
um trabalho um hallo um meio
de transporte mais seguro e
ventilado que um caminhão
e um destino mais humano
que o injusto e raso para onde
eu você e petra laszlo mandamos
o pai anônimo e seu filho (o chão).





apenas aprendam
(rée, salomé e nietzsche)

Friday, September 11, 2015

o beijo, de anne sexton



O BEIJO

Minha boca lateja como uma úlcera.
Fui o ano inteiro ignorada, noites
chatíssimas, nada além de cotovelos ásperos
e caixinhas de Kleenex gritando crybaby
crybaby, sua abestalhada!

Até ontem meu corpo era inútil.
Agora se rasga nas partes ossudas.
Faz do manto de Maria pó, de nó em nó
e olhe – Agora atingida por um certo raio:
Bum! Ressuscitou!

Antigamente havia um barco, de madeira
e sem utilidade, sem mar embaixo
e precisando de uma demão de tinta. Não era muito
além de um bocado de tábua. Mas ela você alçou e laçou.
Ela foi escolhida.

Meus nervos à beira de um ataque. Posso ouvi-los como
instrumentos musicais. Onde antes havia silêncio:
bateria, irremediavelmente as cordas tocam. Você é o responsável.
Trabalho de gênio. Querido, o compositor se mete
fogo adentro.






THE KISS

My mouth blooms like a cut.
I've been wronged all year, tedious
nights, nothing but rough elbows in them
and delicate boxes of Kleenex calling crybaby
crybaby, you fool! 


Before today my body was useless.
Now it's tearing at its square corners.
It's tearing old Mary's garments off, knot by knot
and see — Now it's shot full of these electric bolts.
Zing! A resurrection!

Once it was a boat, quite wooden
and with no business, no salt water under it
and in need of some paint. It was no more
than a group of boards. But you hoisted her, rigged her.
She's been elected.

My nerves are turned on. I hear them like
musical instruments. Where there was silence
the drums, the strings are incurably playing. You did this.
Pure genius at work. Darling, the composer has stepped
into fire.





"o beijo" é o segundo poema do livro love poems. tanto poema quanto livro não são os melhores de anne, mas o que faz de love poems especialmente atraente para mim é o livro de poesia como projeto. é a análise laboratorial que ela desenvolve em torno de um único tema e, ainda que ela aqui e ali fale de outras coisas, o tema ou mote é o adultério e seus protagonistas, com o corpo como arma do crime, por assim dizer.

nos pontos altos, anne transfere a obsessão que antes tinha com a morte e historização da própria biografia, prum homem (o marido e o amante). poemas como for my lover returning to his wife, pelo qual sou especificamente obcecada e cuja tradução pretendo postar aqui um dia antes de 2019, têm uma força mãe-natureza e um nível de empatia que ainda me deixam besta.

os love poems foram escritos durante o romance que anne sexton teve com seu segundo analista. sem saber dessa informação, é mais difícil entender por quê da linguagem às vezes encriptada que anne - uma senhora casada e mãe de filhos, dos subúrbios de boston - utiliza no livro, publicado em 1969. essa linguagem encriptada resulta eventualmente num tom solene que às vezes cai na cafonice, com metáforas fábio júnior distantes da força crua que aparece no livro anterior, all my pretty ones. essa "solenidade" tem sido minha maior dificuldade traduzindo outros dos love poems. nem por isso o livro é menos sexy. se não me engano, foi o que mais vendeu (até a publicação de transformations, em 1971).

nesse livro, anne também relaxa com métrica-e-musicalidade que lhe consagraram em to bedlam and part way back, seu livro de estreia. o cuidado com a versificação que ela mostrou nos seus primeiros dois livros têm, na minha opinião, muito a ver com a doença mental de que ela sofria. em love poems, no entanto, ela transfere a obsessão pela estética em uma obsessão pelo sujeito. uma troca tão ou mais arriscada.

esse poema eu gosto pela imagem da mulher febril que, depois dum período de seca, volta a ser beijada (e comida, né, assim esperamos); eu gosto da descrição da explosão interna que anne faz, de como ela lida com o tesão e a adoração que ela dedica ao boy que a tirou do limbo sexual, chamando-o de gênio.


essa foi então a minha tradução-traição pro português nordestino (tentando diminuir as "solenices" do poema original; tentando me afastar da semântica e me aproximar do que o poema quer dizer, mas mantendo algumas rimas/ecos internos).

Friday, August 28, 2015

having a coke with you, de frank o'hara





tomar uma coca contigo

é ainda mais legal do que ir pra praia
ou passar mal na festinha da praça da prefeitura
em parte por causa da tua camisa de flanela tu parece um kurt cobain                              mais animado
em parte por causa do meu amor por você em parte por causa do seu                          amor por iogurte
em parte por causa dos alecrins ressequidos ao redor da montanha
em parte por causa da ilegalidade da nossa troca de sorrisos quando                       estamos em público
é difícil acreditar quando estou contigo que bem diante das minhas                                     fuças existe
algo tão calmo tão solene tão fuderosamente definitivo quanto essas                                     fotografias
na luz encandeante das 4 da tarde de barcelona a gente perambula
como perambulariam as árvores se pudessem
e naquela exposição os retratos não pareciam ter cara
e tu se pergunta por que caralho alguém nesse mundo faria algo assim


eu olho
pra tu e prefiro mil vezes te olhar do que olhar qualquer outra foto
quer dizer, talvez prefira olhar uma foto tua em alguma exposição
à qual você ainda não teria ido e à qual iríamos juntos
o fato de que tu és tão lindo mais ou menos resolve o futuro da                                               fotografia
até porque quando tô sem fazer nada eu nunca penso em Gursky ou                                               Soth
e quando tô ocupada é uma foto de Diane Arbus que me tira o sossego
que importa tantas fotos tantos fotógrafos se eles
nunca encontraram a pessoa perfeita para comer pão com queijo na                                       montanha
tipo Richard Prince que escolheu o cavalo certo e o cowboy errado


na minha opinião eles foram todos privados de uma vivência                                              maravilhosa
que não passou despercebida por mim e é por isso que te digo tudo                                                 isso.











nota:

#1
essa é a primeira tradução minha que arrisco publicar. existem umas escolhas de contextualização que ainda me sinto meio insegura - o poema original se refere a uma exposição de esculturas e fala de outros artistas, em outra cidade etc. além disso, porque o poema original tem um ritmo de fala, misturei os pronomes ou fiz uso 'errado' deles ("tu se pergunta (...)") e das conjugações, porque é assim que se fala (bom, ao menos em recife a gente fala assim haha). o original tem poucas vírgulas (de novo, a coisa da fala) em elas estão em outros lugares; eu tentei usar vírgulas o menos possível.
#2
para ler o original em inglês
#3
perdi horas lutando com metrificação original e as configurações do blogger, essa foi a solução que encontrei,
forgive me a ignorância de html.

Monday, August 24, 2015

introducing

com alguns dos coautores do projeto que estamos desenvolvendo durante a residência artística em el bruc, sábado passado. aff é muita fofura.


os mano pow, as mina pá

Sunday, August 16, 2015

de "manhã"



adília maravilha
no dia do meu
e do aniversário
de mainha

Saturday, August 15, 2015

"nem pense em jogar essa camiseta fora"

minha mãe fazendo limpeza das coisas que deixei na casa dela e me consultando via skype:



mas minha filha esse trapo já tem 17 anos...



Friday, August 14, 2015

poema inédito na modo de usar & co.

em breve saindo meu segundo livro, até agora chamado de "o martelo", pela douda correria.



um dos poemas foi publicado hoje na modo de usar & co., em postagem do meu amigo e companheiro no vale do rímel borrado, ricardo domeneck.





beijos e boa sexta!

Wednesday, August 12, 2015

Tuesday, August 11, 2015

dr. cornel west

é um vídeo longo, mas vale a pena cada segundo. é tão difícil alguém que tem aceso aos holofotes usar essa chance para aliar num discurso ao mesmo tempo denúncia e enaltecimento da empatia. geralmente só se faz um ou outro.

eu posto esse vídeo hoje desejando que inspire quem o assistir a pensar não somente na sua situação de oprimido - se oprimido for - mas pensar também no outro, pensando de uma outra perscpectiva, daquele "lugar" em que você não sofre.





isso serve para pensar também o que está acontecendo no brasil. como estamos sendo todos manipulados, tentando nos fazer desacreditar no processo democrático, processo esse abalado apenas por um filhinho-de-papai (ou podia apenas dizer "homem cis branco e rico" ou seja, alguém nascido e criado com todos os provilégios - ou seja, alguém que não representa você) que não sabe perder. como podemos nos deixar levar por isso, sem pensar uns nos outros? eu não sei.

esse vídeo foi postado por ricardo domeneck no facebook da modo de usar & co. obrigada, amiga.

Monday, August 10, 2015

Sunday, August 09, 2015

Saturday, August 08, 2015

Friday, August 07, 2015

ricardo domeneck,

meu amigo e bruxo, em trecho de leitura/performance que fez dia desses no berlimbo:


Let me use language to feel feverish. Give me your fever too. Give me your Language, teach me your language again.






como não sei se estou autorizada a postar toda a performance aqui, vou me limitar a postar esse trecho e a repassar os links de onde ele escreve - graças a deus - regularmente:
blog pessoal
coluna na deutsche welle
modo de usar & co. (junto com angélica freitas e marília garcia)

e, sem querer ser groupie mas já sendo, o próximo livro desse tabacudo parece que sai em setembro.

graças a deus.


Wednesday, August 05, 2015

minha vida explicando pro povo

que eu não tenho smart stupid phone:

se quiser miliga



Tuesday, August 04, 2015

Thursday, July 30, 2015

obrigada técia


amar adília

fantasmas, contorcionistas

fantasmas, essa raça que não responde RSVP porque sempre pressupõe que foi convidada.

fantasmas, essa raça que cabe nas malas.

fantasmas, essa raça que não me deixa sentar em paz de costas pra porta. e assim tenho que ficar de costas pra lua (soa poético mas é a pura descrição da minha posição na sala, e do meu incômodo).

fantasmas, essa raça incômoda.


Wednesday, July 22, 2015

em montserrat


se encontra alecrim, erica e tomilho.







Qui ve de Montserrat i no porta romaní ni té amor ni en vol tenir.




Thursday, July 16, 2015

erste lektionen + FOG Platform

já que depois da resenha de joerg colberg sobre erste lektionen, milhares de pessoas (duas haha) perguntaram se o livro ainda estava à venda - não, acabou! - aqui vai a solução para este pesadelo:






trechos da história foram publicados na revista-livro alemôa FOG Platform, e na versão online dá para ver o trabalho na íntegra (ou seja, as 87 fotografias, 7 textos e 7 desenhos). 

além do meu trabalho, há coisas ainda mais maravilhosas, como a série do jovem e gatinho emile alain - que fotografa desde os 17 anos um projeto na transnistria (pois é, nem eu); excertos dos diários de michael schade, escritos enquanto fotografava uma série sobre prostituição infantil na tailândia nos anos 90 (quando schade voltou dessa empreitada estava tão deprimido que cometeu suicídio) e os retratos frios-como-geladeira de uli hagel. 

a revista custa custa 22 euros por ano e vem com c-print assinado de uli hagel, além de acesso exclusivo a todas as histórias que vierem a ser publicadas na plataforma virtual, durante um ano. vale MUITO a pena. vai lá: FOG Platorm de momõe.










Tuesday, July 14, 2015

joerg colberg fez uma review pro meu TCC minha gente


Photobook Review: erste Lektionen in Hydrologie by Adelaide Ivanova from Joerg Colberg on Vimeo.


e ainda dá uma citadinha no fim desse artigo MARAVILHOSO.

ganhei um 3.4, muito mais do que eu tirava em geometria!

(para quem não sabe, colberg é editor/escritor da excelente revista cphmag e um dos especialistas em fotografia e fotolivros mais inteligentes - e gente boa! - da face dessa terrinha).

Sunday, July 12, 2015

chega batendo, rafaella carrá


todos dizem que o amor 
é amigo da loucura 
mas para mim 
que já estou louca 
é o unico que me cura.




(obrigada, amiga jéssica)

Saturday, July 11, 2015

maria meu deus callas



"the center of my life is to be able to not be bored"
PUTA QUE PARIU!


i had a husband and i had a lover
and that's that.








Friday, July 10, 2015

Thursday, July 09, 2015

Wednesday, July 08, 2015

marianna e chamilly

"Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim"


Adilia Lopes in Caderno, 2007

Tuesday, July 07, 2015

Monday, July 06, 2015

363 horas


"Por que precipícios e abismos
andou Maria Cristina
para conseguir aquela fotografia?"
Adília Lopes in Maria Cristina Martins, 1992








dia 1
hora #1

Saturday, July 04, 2015

Friday, July 03, 2015

silvia (e anne sexton)






"I have found the warm caves in the woods,
filled them with skillets, carvings, shelves,
closets, silks, innumerable goods;
fixed the suppers for the worms and the elves:
whining, rearranging the disaligned.
A woman like that is misunderstood.
I have been her kind."


Thursday, July 02, 2015

viva sylvia!

se estivesse viva, sylvia rivera completaria hoje 64 anos. celebremos!








Saturday, June 27, 2015

viva marsha!

se estivesse viva, marsha p. johnson completaria hoje 71 anos. eu tenho andado transtornada com a quantidade de feministas hard core se voltando contra as pessoas trans e queria apenas lembrar que quando marsha lutava pelos direitos das mulheres trans estava lutando pelos direitos de TODAS as mulheres. transfobia e misoginia andam de maos dadas, entao olho aberto diante de discursos desagregadores, quyridas.




marsha maravilhosa 



Friday, June 19, 2015

yeats e uma palavra que eu nao soube traduzir

uma das coisas mais maravilhosas que eu li na minha vida eh a serie "crazy jane" de yeats. desculpa que vai nao-traduzido, eh que o post eh exatamente sobre isso:



I.  CRAZY JANE AND THE BISHOP

Bring me to the blasted oak
That I, midnight upon the stroke,
(All find safety in the tomb.)
May call down curses on his head
Because of my dear Jack that's dead.
Coxcomb was the least he said:
The solid man and the coxcomb.

Nor was he Bishop when his ban
Banished Jack the Journeyman,
(All find safety in the tomb.)
Nor so much as parish priest,
Yet he, an old book in his fist,
Cried that we lived like beast and beast:
The solid man and the coxcomb.

The Bishop has a skin, God knows,
Wrinkled like the foot of a goose,
(All find safety in the tomb.)
Nor can he hide in holy black
The heron's hunch upon his back,
But a birch-tree stood my Jack:
The solid man and the coxcomb.

Jack had my virginity,
And bids me to the oak, for he
(All find safety in the tomb.)
Wanders out into the night
And there is shelter under it,
But should that other come, I spit:
The solid man and the coxcomb.



eu não sabia o que era coxcomb, e existem três definições. no dicionário em português, aparece: "janota" (Janot, figura cômica do século 18), corpete de vestido ou alguém que se veste com afetação. no dicionário em inglês aparece: dandy; crista de um galo; crista-de-galo (celosia cristata), a planta.

dei um google a achei as flores lindas. pronto, era so isso que queria dizer.






(parenta da cristata, essa se chama celosia coccinea)




ps: derramei cha no computador e a tecla dos acentos morreu, o blogger corrige automaticamente algumas palavras, outras não, por isso o texto ta meio feioso, desculpa).

Thursday, June 18, 2015

@ FOG Platform




www.fog-platform.com

Saturday, June 13, 2015

filomela e lavínia em shakespeare

em "tito andrônico", shakespeare aborda o estupro de lavínia por aarão, quirão e demétrio. a história de filomela é citada várias vezes como comparativo (ambas tiveram as línguas cortadas pelos seus agressores, para que nunca pudessem contar o que aconteceu com elas).

a peça inteira em português dá pra ler aqui. 

Friday, June 12, 2015

filomela em ts eliot

alusão ao estupro de filomela por tereu na parte dois de "a terra arruinada". tradução de júlia rodrigues.


II. Uma Partida de Xadrez

O assento em que ela se sentou, como um trono reluzente,
Brilhava sobre o mármore, onde o espelho,
Sustentado em estandartes cobertos por parreiras
De onde um Cupido dourado espiava
(Um outro ocultou seus olhos atrás das asas)
Fazia dobrar as chamas do candelabro de sete braços,
Refletindo a luz sobre a mesa enquanto
As joias dela brilhavam ao encontro da luz,
Surgindo de cofres aveludados, elevavam-se em rica profusão.
Frascos de marfim e vidros coloridos
Destampados, dispersavam os perfumes sintéticos dela,
Unguentos em pó ou líquidos – confundiam
E afogavam os sentidos em aromas; espalhados pelo ar
Refrescante da janela, que ascendiam,
Que avolumam as chamas alongadas,
Atiram sua fumaça em laquearia,
Agitando a estampa do teto decorado.
Imensas madeiras-do-mar cobertas de cobre,
Queimadas de verde e laranja, adornadas pela pedra colorida,
Em cuja luz melancólica nadava um golfinho esculpido.
Sobre a antiga lareira se encenava,
Como uma janela que permite ver a paisagem silvestre,
A metamorfose de Filomela pelo bárbaro rei
Tão rudemente violada; ainda o rouxinol cobre
Todo o deserto com sua voz inviolável,
E ainda ela pranteia, e ainda corre o mundo,
‘Jug Jug’  para ouvidos imundos.
E outros tocos mutilados do tempo,
Foram cantados além dos muros; observando formas para fora
Lançadas, lançando, cobrindo de silêncio a sala trancada.
Passos lentos ressoavam na escada.
Sob a luz do fogo, sob um pente, os cabelos dela
Espalhavam-se em pontos rubros
Brilhavam em palavras, selvagemente silenciadas.

            ‘Estou mal dos nervos essa noite. Sim, mal. Fica comigo.
Fala comigo. Por que você nunca fala. Fala.
O que você está pensando? Que pensando? Que?
Eu nunca sei o que você está pensando. Pensa.’

            Acho que estamos na toca dos ratos
Onde os mortos perderam os ossos.

            ‘Que barulho é esse?’
                                       O vento debaixo da porta.
‘E agora? Que barulho é esse? O que o vento está fazendo?’
                                        Nada mais uma vez nada.
                                                                        ‘Você
Sabe de alguma coisa? Vê alguma coisa? Se lembra de

Alguma coisa?


                        Eu lembro
Das pérolas que foram os seus olhos.
‘Você está vivo ou não?  Você não tem nada na cabeça?’

Thursday, June 11, 2015

física quântica

sônia rovinski, psicóloga judiciária e professora:

"O vínculo com o agressor torna os sentimentos mais nebulosos. E para romper o vínculo negativo a mulher vai ter de romper também o positivo. Às vezes é preciso sair de casa, mudar de cidade, de emprego, mudar radicalmente de vida, o que não é fácil. Para romper esta cadeia de violência e culpabilização, é preciso que as mulheres se posicionem, denunciem, mantenham a queixa, sigam com os processos. É preciso mudar do micro para o macro, de dentro de casa para fora, de dentro da mulher para o resto da sociedade".





Wednesday, June 10, 2015

"a cabeça da medusa", por freud

é um texto curto, dá pra ler traduzido aqui. nele, freud fala da castração, mais analisando o mito do que aludindo à história da medusa.

a medusa foi estuprada por poseidon no templo de atena e esta, ofendidíssima, considerou medusa a culpada da heresia (não se podia transar nos templos, ladies & gentlemen). por isso transformou-a numa horrorosa com cabelo de cobra. nas suas "metamorfoses" ovídio afirma que o castigo foi justo. no fim, medusa foi decapitada por perseu.

quer dizer, a culpa é da vítima desde sempre, amigas.

jane ellen harrison (1850-1928) no entanto diz que "a medusa nasceu do horror, e não o horror nasceu da medusa". pois muito bem. para baixar o livro (em inglês, se alguém tiver/se existir uma tradução, indiquem nos comentários!), que é domínio público e faz parte do acervo de harvard, clicaqui.


Tuesday, June 09, 2015

medusa, de sylvia plath

(tradução é de rodrigo garcía lopes)

Longe dessa península de bocais pétreos,
Olhos revirados por varetas brancas,
Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,
Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,
Lente de piedades,

Seus parasitas
Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,
Empurrando como corações,
Estigmas vermelhos bem no centro,
Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.

Arrastando seus cabelos de Jesus.
Escapei, me pergunto?
Minha mente sopra até você
Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,
Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.

Em todo caso, você está sempre ali,
Respiração trêmula no fim da minha linha,
Curva d’água pulando
Em meu caniço, ofuscante e agradecida,
Tocando e sugando.

Não chamei você.
Não chamei você mesmo.
No entanto, no entanto
Você veio a vapor em minha direção,
Obesa e vermelha, uma placenta

Paralisando amantes impetuososos.
Luz de naja
Espremendo o hálito das rubras campânulas
Da fúcsia. Sem poder respirar,
Morta e sem dinheiro,

Superexposta, como num raio-x.
Quem você pensa que é?
Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?
Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,
Garrafa aonde vivo,

Vaticano espectral.
O sal quente me mata de enjôo.
Imaturos como eunucos, seus desejos
Sibilam para meus pecados.
Fora, fora, coleante tentáculo!

Não há mais nada entre nós.