Saturday, December 12, 2015

hoje, no rio de janeiro

a exposição {livros possíveis} abre hoje, no ateliê da imagem, no rio! a mostra "apresenta um panorama heterogêneo da produção contemporânea de fotolivros" com publicações de 24 autores de brasil, EUA, japão, alemanha, espanha, dinamarca, venezuela, méxico e portugal.

eu participo da expo com "autotomy (...)", o que de fato me deixa bem feliz, já que as duas edições do livro estão esgotadas. pelo menos assim mais gente pode ver esse trabalho sem ter que pagar um tostão ;)






o ateliê da imagem fica na av. pasteur, 453, na urca e a expo vai até 13 de fevereiro. todxs convidadxs.

Friday, December 11, 2015

o'hara e pasolini




não salvam o mundo, mas salvam muitos minutos.






Thursday, December 10, 2015

M.I.A em "borders"


seus privilégio, porré essa?






não consigo entender esse vídeo. não sei se é bom ou se é uma farsa. não sei se pegar uma situação de violação dos direitos humanos (a crise ds refugiados) e criar imagens que parecem anúncio da nike é perverso ou maravilhoso.

eu não sei como entender esse vídeo. tudo o que em mim se apaixonou por ele é frágil, e o que me faz ter ódio desse vídeo tampouco é forte o suficiente.

cadê adorno e seus bróder pra ajudar a gente a entender? porra.

Wednesday, December 09, 2015

minutos de sabedoria com samantha jones




ela falando sobre O Pau

ela falando sobre ozomi


Tuesday, December 08, 2015

nossa adelaide da conceição


abençoando recife nesse oito de dezembro

Monday, December 07, 2015

marisa paredes e cindy sherman




marisa paredes em "a flor do meu segredo",
1995, de almodóvar



cindy sherman, da série
Untitled Film Still #58, 1980

Wednesday, December 02, 2015

breve história da polícia militar brasileira

minhas amigas paula faraco e carol almeida compartilharam no facebook os dizeres de uma pessoa chamada luiz antonio simas (a quem agradeço de coração pela simplicidade da explicação):


Não sou especialista em questões de segurança, longe disso, mas minha formação é em História. A ela recorro. A polícia militar foi criada por D. João, no início do século XIX. Me parece ser impossível falar dela sem considerar o contexto em que a revolução dos pretos do Haiti apavorava, pelo poder de inspirar movimentos similares, as elites do Brasil. A função original da polícia era, não nos enganemos com os discursos oficiais, basicamente, defender a propriedade e as camadas dirigentes contra as "gentes perigosas e de cor". Tal fato me faz crer que, em pouco mais de duzentos anos, a PM carioca é uma das instituições mais bem sucedidas do Brasil. Sou dos que acham, portanto, que não adianta dotar esta polícia de um suposto "perfil cidadão", ensinado em algumas aulas mequetrefes, e ponto. O buraco é muito mais embaixo. A PM foi criada para matar. Alguém conhece aí a fábula da natureza do escorpião? Pois é. A PM é, historicamente, uma UPP permanente: Unidade de Pancada em Pobre/Preto. Não sou otimista. Há, evidentemente, policiais do bem, mas a missão que justifica a corporação, inscrita em sua história, é essa: defender o status quo contra as ameaças a ele, fundamentando essa defesa no monopólio da violência, prioritariamente voltada contra os mesmos pretos e pobres dos tempos do rei. A única solução para a PM (com uma soldadesca de maioria pobre e preta, como a gritar que somos um país de complexidades escancaradas) é a extinção/refundação ou coisa do tipo. Como fazer isso? Não sei; mas é necessário. A discussão sobre o que deu errado na polícia parte de um pressuposto equivocado. O problema da PM não é ter dado errado. É ter dado certo.





em são paulo
©fernando sato/jornalistas livres



ps: a foto acima foi publicada por todo lado no face sem menção a seu autor, se alguém souber, por favor me avisa.


no rio







Cop Homicide in Brazil
Five young black men were killed in Rio de Janeiro in what seems to have been a botched police operation.
Posted by AJ+ on Tuesday, 1 December 2015

Friday, November 27, 2015

sophie calle disse que ela mesma ia sei lá, confundir todo mundo?

numa palestra na uni de artes da california, sophie calle diz uma frase de efeito astrás da outra. mas é a partir do 1:11:44 que ela me deixa particularmente louca, quando começa a explicar a realização do filme no sex last night. aqui a aula inteira:




"i was in love with man that didn't love me. as usual. because this is what i like"

"he wanted to make movies and i wanted to marry him".

"i married him because i was in love, he married me because he thought i would add climax to the movie".



e aqui um trecho do filme:










ps: dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Thursday, November 26, 2015

minha amiga secreta é pilar del rio





"pra ver se solucionamos o que os 100% de homens estragaram"
HAHAHAHAHAHAHA
lacrou oclinhos escuros!

Monday, November 23, 2015

últimas vagas última semana


ainda tem 500 vagas pro nosso WS "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" e quem fizer as inscrições até o dia 30 de novembro ganha um bloquinho de anotações costuradinho à mão por esta que vos escreve. 


frente do bloquin da ingrid

verso do bloquin de todxs







Saturday, November 21, 2015

leia golgona anghel

recebi, junto com a edição portuguesa do livro novo de ricardo, duas bombas atômicas em casa.

a primeira delas, "vim porque me pagavam", é um livro da autora romena radicada em lisboa golgona anghel. golgona faz um uso loucão da língua portuguesa, criando umas imagens intensas, que misturam situações surreais com outras possíveis, quase clichês da vidinha adulta -  e esse jogo entre o improvável e o cotidiano provocam uma empatia imediata. a linguagem de golgona não é uma empoeirada, pelo contrário, e é alucinógena mas é fresca; é fresca mas é asmática; é feminina mas não é.

eu vou copiar aqui na íntegra meu poema preferido (hoje) do livro, mas já adianto que assim deixo de fora outras coisa talvez tão ou mais maravilhosas. recomendo MUITO MUITO MUITO o livro inteiro, que pode ser encomendado no site da editora mariposa azual.


Quando me chamaram, temia o pior,

porque eu sei que,
mesmo habitando a cidade dos imortais,
há um rio algures que nos devolve a mortalidade
e tenho pena
que me tenha calhado beber dessas águas
ainda que seja claro que,
até no melhor dos mundos possíveis,
é necessário atravessar a nado a onda
do deserto do Arizona,
sofrer de peste num fragmento de Boccaccio,
demorar séculos em todas as declinações do passado
para depois poder chegar ao fim da noite
como quem volta a casa.

Queria eu própria fantasiar esse regresso
mas só pode voltar quem já partiu
e eu continuo aqui
tão lenta como um processo de recurso,
embora contente por ainda conseguir ler estas palavras ao
contrário - é por isso que estão a rir? -
apesar de saber que talvez, sim, lhes falte alguma acção
embora já não me impressionem os estrondos
nem as odes.

Paro por isso, por um segundo.
Olho-vos de frente, outra vez,
e, sem poder regressar,
começo a contar as vítimas.


O meu corpo foi sempre um campo de batalha.
Passaram tantos soldados por aqui,
mas a revolução ficará sempre sem futuro.




(ATENÇÃO: TODOS OS GRIFOS SÃO MEUS!)

e uma vocalização de "no segundo caso", cujos versos finais me deixam especialmente macambúzia, mas que são tão lindos:




(um presente pra schneider)



Friday, November 20, 2015

your + 1

texto meu publicado pela primeira vez nas alemanha, com tradução do legendário manuel wetscher, vai pra gráfica semana que vem. a coletânea "Your + 1: some Berlin-based international writing" sai pela editora gully havoc e a impressão está sendo financiada através das pré-vendas do livro!

o projeto gráfico é de tobias faisst e sophie schiewe, com ilustrações de seb holl-trieu. a quem interessar possa, clica aqui.





tem as amiga ricardo domeneck,
william zeytonlian e érica zíngano, 
e muitos outros - como o maravilhoso black cracker. e eu 
na página 38, equivalente à minha idade.


Wednesday, November 18, 2015

mrs. dalloway disse #6



ru paul disse que ela ia dizer uma verdade do caralho atrás da outra!




dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Monday, November 16, 2015

vovó disse que ela mesma ia botar a calcinha na fuça

INTERROMPEMOS NOSSA PROGRAMAÇAO PRA GRITAR: FELIZ ANIVERSARIO VOVO ESCORPIANA MARAVILHOSA!

Saturday, November 14, 2015

o telefonema

o telefone não tocou o dia inteiro
hoje ninguém lembrou de mim

ainda estou no meu corpo e isso
é uma sorte mas às vezes já
foi azar hoje o telefone não tocou
o dia inteiro mas teve gente que
acordou e já não tinha mais
corpo algum um pangaré
nascido em minas hoje já
deve ter chegado em santo
espírito às terras capixabas e
atrás de portas que não se abriram
em paris há uma centena
de mortos tão-somente
corpos meu telefone não
tocou o dia inteiro mas o
de georg tocou e era eu

"você está vivo?" "não sei"
eu nunca liguei pra ninguém
pra perguntar isso além da
costumeira ligação "oi,
sumido" que a gente faz quando
tem vontade de transar e finge
que a pessoa morreu um pouquinho
porque sumiu e as fazemos
ressuscitar para que possam
nos comer (se tudo der certo)
georg não morreu meu deus
mas outros tantos sim e outros
tantos antes dele em outros lugares
cavalos também morreram e eu
só penso em georg o corpo de
georg está em paris georg
não morrer não significa
seguir vivo.

o filho de lígia morreu
no méxico faz uma semana
mataram um rio no brasil
meu telefone não tocou
o dia inteiro ninguém lembrou
de mim tenho vergonha de
ter escrito esse poema mas
mesmo assim vou publicá-lo
e outros morrerão e outros
não e meu telefone
às vezes tocará.

Friday, November 13, 2015

mrs. dalloway disse #5

jéssica disse que ela mesma ia ser musa inspiradora da amigadelaide
(na revista cesárea #3, de maio de 2015)






dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Wednesday, November 11, 2015

mrs. dalloway disse #4


adelaide disse que ela merma ia tirar um 
trabalho com 10 anos de vida da gaveta
só por causa desse WS (que aliás começa

daqui a um mês!)




dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Tuesday, November 10, 2015

mrs. dalloway disse #3

gena rowlands disse que ela mesma ia ser a maior atriz do mundo
(ai queria uma legenda menos histérica mas com gena não consigo)


dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Monday, November 09, 2015

Saturday, November 07, 2015

mrs. dalloway disse #2

svetlana alexiyevich disse que ela mesma ia falar de guerra
e que ela mesma ia ganhar o nobel






dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Thursday, November 05, 2015

mrs. dalloway disse #1

billie zangewa disse que ela mesma ia ser vênus
(the rebirth of the black venus, 2010)





dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Wednesday, November 04, 2015

medir com as próprias mãos o livro

a versão portuguesa do livro de ricardo domeneck, "medir com as próprias mãos a febre" (mariposa azual), já está nas minhas próprias mãos!!!!



aeeeeee



(ainda preciso escrever sobre o livro aqui - que é foda-, por enquanto vocês com essa linda foto do meu picumã assanhado).






ps: dias 11 e 12 de dezembro, eu e jéssica mangaba vamos promover um workshop em são paulo - "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" - sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas. ainda algumas tem vagas e a gente tá interessado em todas as pessoas. para saber mais, clica aqui http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Tuesday, November 03, 2015

mrs. dalloway disse

tanta aconteceu nesse mês. PL 5069, #primeiroassedio, madonna e sean (haha). tem gente até chamando esses tempos de "primavera das mulheres". sei não. sou meio desconfiada com essas denominações de farmácia, mas néam. é nóis.



gloria steinem disse que ela mesma ia falar sobre aborto


enfim, por causa de tanta vida não falei mais do "workshop" que eu e jéssica vamos dar em são paulo dias 11 e 12 de dezembro e queria lembrar vocês e convidar vocês. ainda tem algumas vagas! vai ser muito lindo, eu acho. todo dia montando esse WS eu aprendo uma coisa nova, foda. eu fico tão emocionada hahahaha


para saber mais, ou para ajudar a gente na divulgação (hashtag eternamente gratas), clica aqui: http://mrsdallowaydisse.tumblr.com/

Monday, November 02, 2015

aquele dia, de anne sexton

Aquele dia

Essa é a mesa à qual me sento
e essa é a mesa onde te amo bem muito
essa diante de mim é a máquina de escrever, posta
onde ainda ontem estava posto teu corpo
com seus ombros curvados como os de um microscopista,
com sua língua de rei baixando decretos,
com sua língua de gato bebendo leite,
com sua língua – e nós dois enrolados nela, escorregadia.
Isso foi ontem, aquele dia.

Aquele foi o dia da tua língua,
tua língua que sai de teus lábios,
dois viajantes, metade animal, metade pássaro
enjaulados no teu átrio direito.
Aquele foi o dia que segui as regras do rei,
correndo pelas tuas veias, as vermelhas e as azuis,
descendo minhas mãos pela tua espinha dorsal, rápida como um
                           [paramédico,
até entre as tuas pernas, onde se apresenta tua sabedoria interior,
onde se escondem minas de diamantes, urgentes,
mais surpreendentes que cidades reconstruidas.
Em segundos está erguido, o monumento.
O sangue, ainda que líquido, faz a torre.
As pessoas deviam se juntar para admirar essa construção.
Já que por um milagre elas jogam confete e esperam em filas.
Certamente a imprensa aparecerá, em busca de uma manchete.
Certamente alguém estará na calçada segurando um cartaz.
Se constroem uma ponte, o prefeito não vai lá cortar a faixa?
Se em Belém nasce uma estrela, não aparecem reis com presentes?
Ontem foi o dia em que eu trouxe presentes para o teu presente
e vim de longe para te encontrar na calçada.
Isso foi ontem, aquele dia.

Aquele foi o dia do teu rosto,
tua cara depois de transar, no travesseiro: uma canção de ninar.
Meio dormindo ao meu lado, deixando aquele relógio velho parar,
nossa respiração virou uma, juntas viraram uma respiração infantil,
enquanto eu desenhava bolinhas nos teus olhos,
enquanto eu desenhava risinhos na tua boca,
enquanto eu desenhava TE AMO no teu peito, no coração batendo,
e cochichei “acorda!” e tu murmuraste qualquer coisa:
“sssssh estamos dirigindo até a praia. Atravessamos uma
ponte. Passamos pela orla”. Praia!
Então em teus sonhos eu te entendi e orei pelo dia
em que eu seria a terra e tu as raízes
e eu carregaria teu fruto, carregaria
a ti ou a teu fantasma na minha horta interior.
Ontem eu não queria me deixar levar
mas é só a máquina de escrever que está na minha frente
e ontem é onde o amor está.


"caraio"



That Day

This is the desk I sit at
and this is the desk where I love you too much
and this is the typewriter that sits before me
where yesterday only your body sat before me
with its shoulders gathered in like a Greek chorus,
with its tongue like a king making up rules as he goes,
with its tongue quite openly like a cat lapping milk,
with its tongue - both of us coiled in its slippery life.
That was yesterday, that day.

That was the day of your tongue,
your tongue that came from your lips,
two openers, half animals, half birds
caught in the doorway of your heart.
That was the day I followed the king's rules,
passing by your red veins and your blue veins,
my hands down the backbone, down quick like a firepole,
hands between legs where you display your inner knowledge,
where diamond mines are buried and come forth to bury,
come forth more sudden than some reconstructed city.
It is complete within seconds, that monument.
The blood runs underground yet brings forth a tower.
A multitude should gather for such an edifice.
For a miracle one stands in line and throws confetti.
Surely The Press is here looking for headlines.
Surely someone should carry a banner on the sidewalk.
If a bridge is constructed doesn't the mayor cut a ribbon?
If a phenomenon arrives shouldn't the Magi come bearing gifts?
Yesterday was the day I bore gifts for your gift
and came from the valley to meet you on the pavement.
That was yesterday, that day.

That was the day of your face,
your face after love, close to the pillow, a lullaby.
Half asleep beside me letting the old fashioned rocker stop,
our breath became one, became a child-breath together,
while my fingers drew little o's on your shut eyes,
while my fingers drew little smiles on your mouth,
while I drew I LOVE YOU on your chest and its drummer
and whispered, 'Wake up!' and you mumbled in your sleep,
'Sh. We're driving to Cape Cod. We're heading for the Bourne
Bridge. We're circling the Bourne Circle.' Bourne!
Then I knew you in your dream and prayed of our time
that I would be pierced and you would take root in me
and that I might bring forth your born, might bear
the you or the ghost of you in my little household.
Yesterday I did not want to be borrowed
but this is the typewriter that sits before me
and love is where yesterday is at.




eu gosto muito desse poema, sinto ele como sendo muito "meu", por isso tomei a ousadia de fazer uma tradução ainda mais traidora que as anteriores. traidora no sentido semântico das palavras, ignorando o 'significado' no original. 

anne gostava de umas pieguices (quem nunca?) das quais eu tento escapar (já falei isso antes, i know), se posso. sem mudar muito a ideia do poema, mas propondo novas imagens. por exemplo a forma metafórica que ela usa
heart que, na tradução, eu transformei literalmente no órgão que pulsa o sangue ("enjaulados no teu átrio direito"). é e não é a mesma coisa, mas funcionou bem, já que mais para frente ela fala de veias e depois, de sangue. 

é bonito ver que o traduzir é vivo e à medida que você avança versos afora, acaba voltando pra outros anteriores e depois seguindo em frente. por exemplo: exatamente por ter dado a heart um caráter fisiológico, acabei "des-traduzindo" o que antes tinha traduzido como "bombeiro" (quando ela fala "my hands down the backbone, down quick like a firepole") e passei para "paramédico" e voltei para a primeira estrofe para fazer de "Greek chorus" "microscopista" (tô ligada, não tem nada a ver).

outro motivo de eu ter especial respeito por esse poema é porque ela traça esse paralelo insolente entre vida e obra. sexo e trabalho.

para mim não está muito claro sobre quem exatamente ela fala nesse poema. algumas interpretações apontam para o marido de anne, kayo, e "aquele dia" seria um dia muito tempo atrás em que o casal casado era feliz. quando ela diz, no antepenúltimo verso, "Yesterday I did not want to be borrowed" seria uma alusão que ontem ela não queria ter transado com
o outro. 

outras análises dizem que o texto foi sobre algum dos vários amantes escritores que ela teve (que com anne também "compartilhariam" a escrivaninha).
 eu não sei. nem sei se importa muito, porque o sujeito do poema é menos o amante/marido e mais o ato mesmo de escrever o poema, ou onde se (ins)escreve o poema.

por fim, particularmente me move a homenagem que ela faz ao pau e à ereção. lindo demais.

Sunday, November 01, 2015

sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015



de que adianta esse pôster de madonna na
parede da cozinha indicando de qual lado
estou se na papua nova guiné continuam
linchando mulheres a quem chamam de bruxa
a papua pode até ser guiné mas nisso não
tem nada de nova e se for para queimar uma
mulher por bruxaria que queimem logo todas

de que adianta beyoncé avisando que vai sentar
o rabo na cara do boy e de que adianta eu me
inspirar nisso para fazer igual ou parecido se na
papua nova guiné sentam senhoras em telhas de
brasilit e com elas amordaçadas abrem nacos de
carne e sangue que na foto escorria pelas rugas da
telha pelas rugas das costas da mulher essa mulher
de cabelo curto e preto de costas na foto parecia a
minha mãe eu perdi o controle não consegui mais
almoçar e sei que não vou conseguir dormir mas

de que adianta minha insônia e meu jejum e esse
poema se na papua nova guiné não iriam entendê-lo
e mesmo a compreenãso dele não salvaria a vida da
mulher e mesmo no brasil onde se pode entendê-lo já
se sabe que poemas tal qual leis não mudam nada tudo
sobre isso já foi legislado e dito em todas as línguas
também em português mas meu deus

de que adiantaria meu silêncio?
de quem estaria meu silêncio a serviço?


Friday, October 30, 2015

uma verdade

chantal akerman disse que ela mesma ia dizer uma verdade




hoje é dia de manifestação contra o PL 5069, em são paulo, amigas. não deixem de ir!

Sunday, October 25, 2015

FACEBOOK DOS DEPUTADOS QUE VOTARAM A FAVOR DO PL 5069

queridas, perdi minha preciosa manhã de domingo procurando os facebooks dos 37 deputados que votaram a favor do PL 5069/13 - e infernizando suas vidas online, até chegar ao deputado nº 15, quando meu facebook foi temporariamente desativado haha. adelaidinha terrorista.

isso foi o que colei nas páginas dos senhores: #naoaoPL5069 https://www.youtube.com/watch?v=Cei1HUf1wHY

por favor, repassem essa lista!



1. Aguinaldo Ribeiro - (PP/PB)

2. Alceu Moreira - (PMDB/RS)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: ESSE FECHOU PRA COMENTÁRIOS!!!

3. BISPO Antônio Bulhões - (PRB/SP)

4. Arnaldo Faria de Sá - (PTB/SP)

5. Arthur Lira - (PP/AL)

6. Bruno Covas - (PSDB/SP)

7. CAPITÃO Augusto - (PR/SP)

8. Covatti Filho - (PP/RS)

9. DELEGADO Eder Mauro - (PSD/PA)

10. Diego Garcia - (PHS/PR)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU OS COMENTÁRIOS!!!

11. Evandro Gussi - (PV/SP)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU OS COMENTÁRIOS!!!
UPDATE DO DIA 27 DE OUTUBRO: FECHOU PARA COMENTÁRIOS!!!


12. Fausto Pinato - (PRB/SP)

13. Francisco Floriano - (PR/RJ)

14. João Campos - (PSDB/GO)

15. Juscelino Filho - (PRP/MA)

16. Marco Tebaldi - (PSDB/SC)

17. Marcos Rogério - (PDT/RO)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU E FECHOU PARA COMENTÁRIOS!!!

18. Pedro Cunha Lima - (PSDB/PB)

19. PASTOR Eurico - (PSB/PE)

20. Pastor Marco Feliciano - (PSC/SP)

21. Rogério Rosso - (PSD/DF)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU E FECHOU PARA COMENTÁRIOS!!!

22. Ronaldo Fonseca - (PROS/DF)
esse só dá pra mandar mensagem!

23. Sergio Souza - (PMDB/PR)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: esse começou a moderar os comentários!!!

24. Veneziano Vital - (PMDB/PB)

25. Alexandre Leite - (DEM/SP)

26. Delegado Waldir - (PSDB/GO)

27. Eduardo Bolsonaro - (PSC/SP)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: apagou todos os comentários relacionaos ao PL.

28. Elmar Nascimento - (DEM/BA)

29. Gonzaga Patriota - (PSB/PE)

30. Gorete Pereira - ( PR/CE)

31. Jefferson Campos - (PSD/SP)

32. Laerte Bessa - (PR/DF)

33. Lincoln Portela - (PR/MG)

34. Paulo Freire - (PR/SP)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: ESSE FECHOU PRA COMENTÁRIOS!!!

35. Renata Abreu - (PTN/SP)

36. Sóstenes Cavalcante - (PSD/RJ)

37. Vítor Valim - (PMDB/CE)
ESSA é UMA FANPAGE HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA NO PUEDO!


poesia negra e simone de beauvoir no enem...

... na mesma semana em que o PL 5069/13 foi aprovado.

#naoaoPL5069






simone disse que ela mesma ia cair no enem

Saturday, October 24, 2015

(interrompendo a programação)

criei meu primeiro, meme, gente, e ele é genial HAHAH ALOK.



hello ops olar

Friday, October 23, 2015

#naoaopl5069 - algumas formas de se mobilizar

queridas,

é importante a gente se mobilizar e mostrar nas ruas e nas redes o que a gente acha do PL 5069/13. aqui alguns links importantes:

. mude sua foto de perfil

. assine a petição contra o PL 5069/13 (já vamos em 43 mil assinaturas, 13 mil a mais que o esperado!)

. questione o PL no facebook de eduardo cunha e evandro gussi. faça da vida deles um inferninho! : )

. vá às manifestações

em porto alegre  (dia 27 de outubro)

no rio (dia 28 de outubro)

no recife (dia 28 de outubro)

em são paulo (dia 30 de outubro)

em brasília (dia 31 de outubro)


. se não puder ir às manifestações, organize uma em sua cidade!

. se não puder ir, nem organizar, ao menos clique em "eu vou" em todas os eventos linkados acima, para demonstrar apoio!

. pílula fica, cunha sai no facebook (já são quase 20 mil pessoas!!!)

. use a hastag! #naoaopl5069

. repasse pras amigue anti-aborto esse link, em que o dr. drauzio varella explica o que é a pílula do dia seguinte. ou simplesmente copie isso aqui:

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".


madonna pró-vida das muié

Thursday, October 22, 2015

in celebration of my uterus, de anne sexton



ontem, o projeto de lei 5069/13, de autoria de eduardo meu cu-nha, que restringe os direitos das vítimas de violência sexual de receberem o atendimento (e acesso um atendimento humanitário e direitos reprodutivos e sexuais básicos), foi aprovado. não é apenas um absurdo, é realmente um passo atrás, um retrocesso, um desavanço, já que retira um direito proposto pela lei 12845/13. (para quem quiser ler mais sobre essas duas leis, por favor clique aqui, é importante saber que não somos soberanas e que existem leis regulando nossos corpos, queridas).

a dificuldade que é alcançar direitos reprodutivos e sexuais é bem clara. o que me dá pavor e saber que um direito alcançado possa ser revogado. é difícil imaginar a construção de uma sociedade menos desigual quando os direitos concedidos começam a ser RETIRADOS.

esse ano, a mobilização popular na alemanha conseguiu fazer com a pílula do dia seguinte passasse a ser vendida sem receita médica - agilizando a decisão e a eficácia do medicamento e, portanto, reiterando o direito da mulher de ter soberania sobre seu corpo. enquanto isso, no brasil, damos esse enorme passo pra trás.

eu mal consegui dormir ontem. preocupada com as 103,5 milhões de brasileiras, que são a maioria da população no país, abandonadas à própria sorte num país governado por coroneis.

eu traduzi esse poema dos love poems hoje de manhã, nas carreiras, com uma tristeza profunda. para celebrar nós mesmas e nosso útero, que é e foi casa de toda gente - inclusive destes vermes em brasília, que esquecem que saíram de dentro de uma mulher.

CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO

Tudo em mim é pássaro.
Bato todas minhas asas.
Eles queriam te tirar de mim
mas eles não vão.
Eles disseram que você é imensamente vazio
mas você não é.
Eles disseram que você estava morrendo
mas eles estavam errados.
Você canta como uma menina.
Você não é em vão.

Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
e a alma dessa mulher que sou
e a criatura central e a sua luz,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, troféu.
Fixo, envólucro. Cobertor e conteúdo.
Olá para a terra destes campos.
Raízes: bem-vindas.

Cada célula existe.
Aqui há o suficiente para satisfazer a nação.
Já chega que essa ralé se apodere desse bem.
Qualquer um, qualquer comunidade diz dele,
“Que bom que esse ano poderemos plantar de novo
e nos alegrar pela colheita.
A vacina contra a praga foi o vaticínio”.
Muitas mulheres, unidas, cantam sobre isso:
ela está na fábrica de sapatos, xingando a máquina,
ela está no zoológico cuidando de uma onça,
ela está triste dirigindo seu Fiesta,
ela está trabalhando no guichê do pedágio,
ela está no desfile da escola de samba,
ela está afinando um violoncelo na Rússia,
ela está mexendo o almoço no Egito,
ela está pintando as paredes do quarto,
ela está morrendo mas lembrando de um café-da-manhã,
ela está fazendo ioga na Tailândia,
ela está limpando a bunda de um filho,
ela está olhando pela janela do ônibus
no meio do Tocantins e ela está
em lugar nenhum e outras estão em todos os lugares e todas
parecem cantar, ainda que algumas sejam
desafinadas.

Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
me deixe usar uma écharpe de 3 metros,
me deixe paquerar os meninos de 19 anos,
me deixe levar as oferendas
(se for o caso).
Me deixe analisar os tecidos cardiovasculares,
e examinar as distâncias entre os meteoros,
me deixe chupar o caule das flores
(se for o caso).
Me deixe ser Iemanjá
(se for o caso).
Por aquilo que o corpo precisa
me deixe cantar
para celebrar o jantar
o beijo
o sim
certeiro.





IN CELEBRATION OF MY UTERUS

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.




ps: existem algumas observações sobre essa tradução que eu gostaria de fazer, mas vou me abster, hoje, de falar sobre isso, porque queria me ater ao assunto da PL 5069/13 e a house of cunha. 

Wednesday, October 21, 2015

medir com os limões a própria febre

queridas leitorinhxs em/de lisboa que não tiverem nada melhor pra fazer amanhã: é o lançamento da versão portuguesa "medir com as próprias mãos a febre" (mariposa azual), livro novo da minha amiga querida ricardo domeneck.

eu acho que vai ser uma noite super linda, com apresentação de miguel martins e leituras das maravilhosas alexandra lucas coelho e matilde campilho, ederval fernandes e ricardo domeneck, mais performance de daniel monteiro. aqui tá link do evento no facebook.

o lançamento no porto vai ser dia 25, ainda não sei onde, mas aviso aqui.

e como se o livro por si só não bastasse, vale dizer que a foto de capa da versão portuguesa é desta que vos amola:



ricardo e a cria


a capa da cria 
e a barriga do primeiro leandro
em 2003 
(gente...)





nos brasil, o livrin já pode ser comprado no site da 7letras. falando em 2003, a dedicatória de ricardo:







Wednesday, October 14, 2015

tire seu collant do armário e save the fate


gente querida, dias 11 e 12 de dezembro eu e jéssica mangaba vamos coordenar uma coreô grupo de auto-ajuda carnificina oficina em são paulo, sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas.

o nome do negócio é "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" (vocês sabem da minha obsessão com virginia woolf, fotógrafa) e o objetivo é aquecer a reflexão sobre esse assunto, e pensar a mulher como construtora da própria imagem. e falar de astrologia. BRINKS.

o público-alvo é todo mundo, mas só tem doze vagas (e mais 3 para bolsistas), então corre! para saber todos os detalhes de preço, inscrição, onde-e-quando etc., clica aqui.



ana mendieta disse que ela
mesma ia chafurdar na neve

Tuesday, October 13, 2015

363 horas



Rimbaud também chegou andando em Paris, Johannes, como eu chego hoje até aqui, e é engraçado lembrar de Rimbaud agora, porque era assim que eu te chamava, porque você parece com Leonardo di Caprio quando ele era jovem e se ele fosse ruivo, e porque você morou na África e porque eu e Paul Verlaine temos você em comum. Johannes, você abriu minhas cartas?





"this route crosses through france"





trecho do texto mais obcecado que eu escrevi na vida, publicado na nova edição do suplemento pernambuco.



Thursday, October 08, 2015

vem aí e mais






Pequena Nota sobre a Dispersão da Língua
Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck

uau cara eu disse
quando você inclinou meu queixo e nutriu
de cabeça em cuspe a libação de minha língua em fluidos

e uau cara eu disse quando caímos nos trapos e espuma
e uau era a aurora: nós fervemos os cafezais
numa panela batida

uau cara eu disse o dia em que caí de sua graça
(apenas o tom foi outro)
uau cara uai uau eu colhi meu pente
e meus dois livros e sumi e pronto e acabou


com esse post maravilhoso de ricardo domeneck

Wednesday, October 07, 2015

vem aí


eu e jéssica mangaba tamo de colant preparando a pista.


gena








Sunday, October 04, 2015

#ocupeestelita #resisteestelita


quinta-feira passada
em recife
durante uma manifestação
(pacífica)
aí quando vejo uma merda dessa
lembro do que nina simone
dizia
"i'm not non-violent".
tarra certa

Friday, October 02, 2015

carta em que a autora de 33 anos celebra o livro de estreia de sua crush literária (literária, an-ran) de 26 anos*




---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Adelaide Ivánova
Data: 25 de agosto de 2015 01:58
Assunto: volta
Para: William Zeytounlian

1.
a vida facebookiana tá muito sem graça depois que a senhora saiu do FB. ainda tentei dar uma azucrinada em TEXTO CENSURADO hoje, queria TEXTO CENSURADO CENSURADO CENSURADO CENSURADO mas ele não é tia como a gente. 


então volta, amiga.


2.

william,

eu sei que teu livro tá pronto e prescinde de pitacos. sei também que elogio não faz ninguém andar pra frente. o problema é que eu sei que tem ali mais coisa do minha leitura consegue ver. não tenho repertório suficiente pra "traduzir" tudo que tem ali dentro, então minha leitura foi bem roberta miranda: não sei o que dizer, apenas sentir.

é muito bonito observar as ondas que diáspora tem, william, tu passando do coletivo pro privado de um jeito tão "soberano" (essa palavra é um pouco exagerada, mas não achei outra mais calma. eu queria dizer algo entre autônomo e soberano). gosto muito de como na primeira parte tu fala de todo mundo; depois tu convida a gente a chorar tuas pitangas, as privadas mas também as coletivas.

ah uma coisa que eu queria dizer: nos agradecimentos do livro tu fala "sem vocês eu não teria corrido o risco" e de fato é muito arriscado esse passo: combinar texto com foto. sempre acho perigoso quando um tenta me dizer com o outro o que devo sentir. como os poemas são muito sólidos, ao final tiram qualquer chance de auto-indulgência. é um exercício corajoso, tem que ter muito cojones pra não ter medo de botar foto em livro de poesia. tu merecia um nude só por isso hahaha

tenho pensando muito no livro de poesia enquanto projeto (tipo os livros de fotografia) e
diáspora me fez pensar muito em anna akhmatova tematizando a guerra em requiem ou caetano tematizando exílio no disco que tem london, london (não tô comparando os dois pelamor, tô apenas pensando nesses modos operandi aí).

pensei na máquina emotiva de corbusier, mas não sei se pensei certo quando pensei isso. 

também lembrei de joão cabral (capricorniano, claro) que dizia que o material da sua poesia era a memória. tem muita memória no teu livro, as tuas, as que não são tuas. é de novo o risco - nesse caso, o de se misturar aos fatos. numa entrevista com oprah (puro amor), maya angelou disse que os fatos encobrem a verdade, e que a verdade se encontra quando a pessoa se pergunta não o que aconteceu, mas o que ela sentiu quando o acontecido aconteceu. é bonito, né? acho que tu fez isso, ou quis fazer isso. tô certa ou num tô? ALOK.


pensei em john wieners, quando ele diz: "again we go driven by forces/we have no control over", em "a poem for painters" é a gente, william, bicha signo de fogo, escrevendo/vivendo (ainda que john wieners fosse capricorniano como joão cabral). 

tu sabia que celan também era sagitariano feito tu?

falando em fogo, eu gosto MUITO que a primeira palavra do livro é "quente" e a última é "entenderemos". um monte de "E". na tabela pitagórica E, N e W (primeira letra do teu primeiro nome, btw.) têm o valor 5, que é o número da liberdade. acho bonito pensar nisso no contexto dum livro que se chama diáspora, em que a palavra "livre"  aparece sete vezes e "liberdade", duas. e nenhuma vez  "amor" (ainda que a coisa-amor esteja lá; não sou tão burra haha).

o trecho de poema com o gagarin que tu antes tinha mandado começa cantando caetano e fiquei feliz. foi a única coisa que reconheci, além das maiakosvkadas que tu dás no português, obrigada. eu sei que tem mais coisa ainda ali preu descobrir, que passa despercebida na minha leitura analfabeta. desculpa não ter comentários mais inteligentes pra fazer como tu tiveste em relação ao meu!

vai ser bom passar mais tempo com teu livro, vai ser a minha mala educacion hahaha "com o velho dedo que envereda na ferida" (que lindo isso, william, vai tomar no cu).

muitos beijos orgulhosos,
da sua tia.




diáspora é o livro de estreia de de william zeytounlian. vai ser lançado amanhã em são paulo, pelo selo demônio negro e dá pra comprar aqui. no livro, william "traz para sua escrita a experiência diaspórica de sua família, de sua própria avó, sobrevivente dos extermínios do Governo Otomano contra a população armênia do Império no início do século XX. Essa história pessoal, familiar, informa com poder metonímico todo o livro" (trecho do posfácio de ricardo domenek). eu acho importante, ainda, apontar a importância da memória como ferramenta de trabalho, e apontar que a experiência diaspórica é usada também como alegoria para falar de outros contextos, de outras experiências. é um livro muito bonito.

para ler trechos dos poemas, crica aqui.


*o título dessa postagem é roubado do poema "texto em que o poeta celebra o amante de 25 anos" de ricardo domeneck.

o sismógrafo


um sismógrafo não gira em torno de
si mesmo como faria um compasso
(objeto sincero que demarca território ou
ritmo) um sismógrafo vai em frente como faria
uma pessoa decente e entregue como
(não) são as pessoas bernardo que não
são como eu eu sigo bernardo
me movendo em círculos em torno
disso e de você dessa busca
o sismógrafo mede terremotos
no chile e olha para o futuro e para
a segurança de todos os envolvidos
os culpados os absolvidos
seria o sismógrafo bernardo capaz
de medir os batimentos cardíacos e
aquilo que é imprevisível aquilo
que ele mesmo causa?
seria o sismógrafo ignorante de si mesmo
capaz de medir os abalos sísmicos
que a visão de você procurando a nota
de cinco euros no fim da noite
causa em mim? eu poderia bernardo
traduzir em escalas richter todas as desgraças
deste mundo sem nunca poder
traduzir em algarismos romanos ou
arábicos os efeitos desse terremoto
interno causado exclusivamente pela
existência dos seus músculos
bernardo
eu poderia esvaziar esse bar
levar seus donos a falência
pelo puro desejo insaciável
de te ouvir falar.

Thursday, October 01, 2015

todos conhecem a história da outra, de anne sexton

TODOS CONHECEM A HISTóRIA DA OUTRA

É um Walden particular.1
Ela está sozinha na cama
enquanto o corpo dele se ajeita e dispara,
decidido como uma flecha.
Mas isso tá mal explicado.2
A luz do dia não é amiga de ninguém.
Deus chega como se fosse cobrar o aluguel
e acende a luz quando não convém.3
Agora ela está assim-assado.4
Ele põe seus ossos de volta no lugar,
atrasa o relógio em uma hora.
Ela conhece a carne, o balão feito de pele,
os membros partidos, o assoalho,
o teto, o teto removível.5
Ela é meio-período sua eleição.
Você conhece essa história. Fique olhando:
quando termina ele a coloca,
como um telefone, no gancho.6




YOU ALL KNOW THE STORY OF THE OTHER WOMAN

It's a little Walden.
She is private in her breathbed
as his body takes off and flies,
flies straight as an arrow.
But it's a bad translation.
Daylight is nobody's friend.
God comes in like a landlord
and flashes on his brassy lamp.
Now she is just so-so.
He puts his bones back on,
turning the clock band an hour.
She knows flesh, that skin balloon,
the unbound limbs, the boards,
the roof, the removable roof.
She is his selection, part time.
You know the story too! Look,
when it is over he places her,
like a phone, on the hook.


notas
#1Walden é o livro de Thoreau sobre vida simples, isolada, em conexão com natureza (é sobre outra coisa, na verdade, mas esse é o cenário do livro). ao contextualizar a ação do poema citando Walden, Anne faz alusão a um lugar idílico, onde "dentro" é que se passam os conflitos (dentro da casa, no poema; dentro do sujeito, em Thoreau).

#2
"tá" porque no poema ela escreve "it's" em vez de "it is". como sabemos o apreço de Anne pela língua falada, deixei assim.


#3
no original, ela prefere adjetivar a luz do que a ação de deus. como não achei nenhuma traudção pra brassy que me agradasse, e pra manter a musicalidade que aparece aí (nobody's friend/brassy lamp), ficou assim, adjetivando não a lâmpada, mas a própria ação de acender a luz.

quando a luz é acesa ou o dia amanhece (deus acendendo a luz), é quando somos pegos no flagra, é a hora de sentir culpa.

#4
como o poema tem duas perspectivas (a do homem e a da "outra"), confesso que não sei se ela diz
she is so-so no sentido de estar de humor mais ou menos, ou de estar apenas marromeno bonita. tipo: depois que se acende a luz (ou seja, acabou a festa), o humor dela fica abalado - que nunca? - ou depois de se acender a luz (ou seja, acabou a festa), ele a pode ver e já não acha tão bonita assim, acha ela apenas "mais ou menos". então a tradução ficou meio neutra, embora neutra de cu é rola. mas tive que ficar em cima do muro porque não sei o que fazer. por ora, essa é a solução, mas vou continuar pensando nisso. aceitamos mastercard e sugestões.

#5
esses três versos são muito bonitos, como ela mistura descrição de corpo com contexto.
teto removível é uma alusão clara àquelas casas de barbie que se pode retirar o teto e manipular e olhar a boneca desde cima. e quando a brincadeira acaba, metemos a barbie dentro da casa, tampamos com o teto e tchau, até que se tenha vontade de brincar de novo (enquanto isso a boneca fica lá...).

#
6
 o original tem o
look!, que é um recurso não raro de anne (aparece inclusive em o nado nu). quem diz look! aponta um dedo pra alguma coisa, e é disso que esse livro inteiro trata. eu demorei muito pra decidir como traduzir essa estrofe, porque "fique olhando" tem essa denotação voyeuristica também, mas é menos acusativa, é mais sutil do que "olha!". mas como queria respeitar a musicalidade de look/hook, optei por essa solução, porque tampouco não consegui pensar em nenhum sinônimo para 'colocar o telefone no gancho' que rimasse com 'olha'.

outro comentário
eu acho o título desse poema tão triste, no sentindo do autoesculacho que ela mesma se impõe. primeiro porque é importante lembrar que o amante também era casado, mas apenas 
ela tinha o papel de criminosa. cabe apenas a Anne o estigma, porque ela vivia a sexualidade fora do contrato social. já para o amante (casado e que seria "o outro" em relação ao marido de anne) não cabe nenhum julgamento, já que o casamento privilegia a figura masculina em seus acordos (ou seja, ter uma amante faz parte do pacote, tudo ok). 

eu sei, o poema foi escrito na década de 60 nos EUA - mas estamos falando dele hoje. a "outra" é uma personagem a quem ainda não foi conferido nenhum status social. como a sexualidade feminina, regulamentada pelo Estado, é legitimizada unicamente através da figura da esposa, todo tipo de sexualidade experimentada em outros contextos, em outros papeis sociais ("a outra", "a solteira sexualmente ativa (gay ou hetero)", "a assexuada" etc.) é visto como rompimento com o contrato social e é, portanto, marginal, digna de condenação.


pronto, termino afinal essa tradução-ladainha - desculpem o incômodo, mas de que serviriam os poemas se não nos fizessem pensar em outra coisa além do poema em si?




outras traduções de anne sexton:
o beijo
o nado nu