queridas,
é importante a gente se mobilizar e mostrar nas ruas e nas redes o que a gente acha do PL 5069/13. aqui alguns links importantes:
. mude sua foto de perfil
. assine a petição contra o PL 5069/13 (já vamos em 43 mil assinaturas, 13 mil a mais que o esperado!)
. questione o PL no facebook de eduardo cunha e evandro gussi. faça da vida deles um inferninho! : )
. vá às manifestações
em porto alegre (dia 27 de outubro)
no rio (dia 28 de outubro)
no recife (dia 28 de outubro)
em são paulo (dia 30 de outubro)
em brasília (dia 31 de outubro)
. se não puder ir às manifestações, organize uma em sua cidade!
. se não puder ir, nem organizar, ao menos clique em "eu vou" em todas os eventos linkados acima, para demonstrar apoio!
. pílula fica, cunha sai no facebook (já são quase 20 mil pessoas!!!)
. use a hastag! #naoaopl5069
. repasse pras amigue anti-aborto esse link, em que o dr. drauzio varella explica o que é a pílula do dia seguinte. ou simplesmente copie isso aqui:
"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".
"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".
"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".
"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".
madonna pró-vida das muié
Friday, October 23, 2015
Thursday, October 22, 2015
in celebration of my uterus, de anne sexton
ontem, o projeto de lei 5069/13, de autoria de eduardo meu cu-nha, que restringe os direitos das vítimas de violência sexual de receberem o atendimento (e acesso um atendimento humanitário e direitos reprodutivos e sexuais básicos), foi aprovado. não é apenas um absurdo, é realmente um passo atrás, um retrocesso, um desavanço, já que retira um direito proposto pela lei 12845/13. (para quem quiser ler mais sobre essas duas leis, por favor clique aqui, é importante saber que não somos soberanas e que existem leis regulando nossos corpos, queridas).
a dificuldade que é alcançar direitos reprodutivos e sexuais é bem clara. o que me dá pavor e saber que um direito alcançado possa ser revogado. é difícil imaginar a construção de uma sociedade menos desigual quando os direitos concedidos começam a ser RETIRADOS.
esse ano, a mobilização popular na alemanha conseguiu fazer com a pílula do dia seguinte passasse a ser vendida sem receita médica - agilizando a decisão e a eficácia do medicamento e, portanto, reiterando o direito da mulher de ter soberania sobre seu corpo. enquanto isso, no brasil, damos esse enorme passo pra trás.
eu mal consegui dormir ontem. preocupada com as 103,5 milhões de brasileiras, que são a maioria da população no país, abandonadas à própria sorte num país governado por coroneis.
eu traduzi esse poema dos love poems hoje de manhã, nas carreiras, com uma tristeza profunda. para celebrar nós mesmas e nosso útero, que é e foi casa de toda gente - inclusive destes vermes em brasília, que esquecem que saíram de dentro de uma mulher.
CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO
Tudo em mim é pássaro.
Bato todas minhas asas.
Eles queriam te tirar de mim
mas eles não vão.
Eles disseram que você é imensamente vazio
mas você não é.
Eles disseram que você estava morrendo
mas eles estavam errados.
Você canta como uma
menina.
Você não é em vão.
Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
e a alma dessa mulher que sou
e a criatura central e a sua luz,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, troféu.
Fixo, envólucro. Cobertor e conteúdo.
Olá para a terra destes campos.
Raízes: bem-vindas.
Cada célula existe.
Aqui há o suficiente para satisfazer a nação.
Já chega que essa ralé se apodere desse bem.
Qualquer um, qualquer comunidade diz dele,
“Que bom que esse ano poderemos plantar de novo
e nos alegrar pela colheita.
A vacina contra a praga foi o vaticínio”.
Muitas mulheres, unidas, cantam sobre isso:
ela está na fábrica de sapatos, xingando a máquina,
ela está no zoológico cuidando de uma onça,
ela está triste dirigindo seu Fiesta,
ela está trabalhando no guichê do pedágio,
ela está no desfile da escola de samba,
ela está afinando um violoncelo na Rússia,
ela está mexendo o almoço no Egito,
ela está pintando as paredes do quarto,
ela está morrendo mas lembrando de um café-da-manhã,
Você não é em vão.
Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
e a alma dessa mulher que sou
e a criatura central e a sua luz,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, troféu.
Fixo, envólucro. Cobertor e conteúdo.
Olá para a terra destes campos.
Raízes: bem-vindas.
Cada célula existe.
Aqui há o suficiente para satisfazer a nação.
Já chega que essa ralé se apodere desse bem.
Qualquer um, qualquer comunidade diz dele,
“Que bom que esse ano poderemos plantar de novo
e nos alegrar pela colheita.
A vacina contra a praga foi o vaticínio”.
Muitas mulheres, unidas, cantam sobre isso:
ela está na fábrica de sapatos, xingando a máquina,
ela está no zoológico cuidando de uma onça,
ela está triste dirigindo seu Fiesta,
ela está trabalhando no guichê do pedágio,
ela está no desfile da escola de samba,
ela está afinando um violoncelo na Rússia,
ela está mexendo o almoço no Egito,
ela está pintando as paredes do quarto,
ela está morrendo mas lembrando de um café-da-manhã,
ela está fazendo ioga na
Tailândia,
ela está limpando a bunda
de um filho,
ela está olhando pela janela do ônibus
no meio do Tocantins e ela está
em lugar nenhum e outras estão em todos os lugares e todas
parecem cantar, ainda que algumas sejam
desafinadas.
Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
me deixe usar uma écharpe de 3 metros,
me deixe paquerar os meninos de 19 anos,
me deixe levar as oferendas
(se for o caso).
Me deixe analisar os tecidos cardiovasculares,
e examinar as distâncias entre os meteoros,
me deixe chupar o caule das flores
(se for o caso).
Me deixe ser Iemanjá
(se for o caso).
Por aquilo que o corpo precisa
me deixe cantar
para celebrar o jantar
o beijo
o sim
certeiro.
no meio do Tocantins e ela está
em lugar nenhum e outras estão em todos os lugares e todas
parecem cantar, ainda que algumas sejam
desafinadas.
Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
me deixe usar uma écharpe de 3 metros,
me deixe paquerar os meninos de 19 anos,
me deixe levar as oferendas
(se for o caso).
Me deixe analisar os tecidos cardiovasculares,
e examinar as distâncias entre os meteoros,
me deixe chupar o caule das flores
(se for o caso).
Me deixe ser Iemanjá
(se for o caso).
Por aquilo que o corpo precisa
me deixe cantar
para celebrar o jantar
o beijo
o sim
certeiro.
IN CELEBRATION OF MY UTERUS
Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.
Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.
Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.
Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.
ps: existem algumas observações sobre essa tradução que eu gostaria de fazer, mas vou me abster, hoje, de falar sobre isso, porque queria me ater ao assunto da PL 5069/13 e a house of cunha.
Wednesday, October 21, 2015
medir com os limões a própria febre
queridas leitorinhxs em/de lisboa que não tiverem nada melhor pra fazer amanhã: é o lançamento da versão portuguesa "medir com as próprias mãos a febre" (mariposa azual), livro novo da minha amiga querida ricardo domeneck.
eu acho que vai ser uma noite super linda, com apresentação de miguel martins e leituras das maravilhosas alexandra lucas coelho e matilde campilho, ederval fernandes e ricardo domeneck, mais performance de daniel monteiro. aqui tá link do evento no facebook.
o lançamento no porto vai ser dia 25, ainda não sei onde, mas aviso aqui.
e como se o livro por si só não bastasse, vale dizer que a foto de capa da versão portuguesa é desta que vos amola:
nos brasil, o livrin já pode ser comprado no site da 7letras. falando em 2003, a dedicatória de ricardo:
eu acho que vai ser uma noite super linda, com apresentação de miguel martins e leituras das maravilhosas alexandra lucas coelho e matilde campilho, ederval fernandes e ricardo domeneck, mais performance de daniel monteiro. aqui tá link do evento no facebook.
o lançamento no porto vai ser dia 25, ainda não sei onde, mas aviso aqui.
e como se o livro por si só não bastasse, vale dizer que a foto de capa da versão portuguesa é desta que vos amola:
ricardo e a cria
a capa da cria
e a barriga do primeiro leandro
em 2003
(gente...)
nos brasil, o livrin já pode ser comprado no site da 7letras. falando em 2003, a dedicatória de ricardo:
Wednesday, October 14, 2015
tire seu collant do armário e save the fate
gente querida, dias 11 e 12 de dezembro eu e jéssica mangaba vamos coordenar uma
o nome do negócio é "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" (vocês sabem da minha obsessão com virginia woolf, fotógrafa) e o objetivo é aquecer a reflexão sobre esse assunto, e pensar a mulher como construtora da própria imagem. e falar de astrologia. BRINKS.
o público-alvo é todo mundo, mas só tem doze vagas (e mais 3 para bolsistas), então corre! para saber todos os detalhes de preço, inscrição, onde-e-quando etc., clica aqui.
ana mendieta disse que ela
mesma ia chafurdar na neve
Tuesday, October 13, 2015
363 horas
Rimbaud também chegou andando em Paris, Johannes, como eu chego hoje até aqui, e é engraçado lembrar de Rimbaud agora, porque era assim que eu te chamava, porque você parece com Leonardo di Caprio quando ele era jovem e se ele fosse ruivo, e porque você morou na África e porque eu e Paul Verlaine temos você em comum. Johannes, você abriu minhas cartas?
"this route crosses through france"
trecho do texto mais obcecado que eu escrevi na vida, publicado na nova edição do suplemento pernambuco.
Thursday, October 08, 2015
vem aí e mais
com jéssica mangaba
Pequena Nota sobre a Dispersão da Língua
Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck
uau cara eu disse
quando você inclinou meu queixo e nutriu
de cabeça em cuspe a libação de minha língua em fluidos
e uau cara eu disse quando caímos nos trapos e espuma
e uau era a aurora: nós fervemos os cafezais
numa panela batida
uau cara eu disse o dia em que caí de sua graça
(apenas o tom foi outro)
uau cara uai uau eu colhi meu pente
e meus dois livros e sumi e pronto e acabou
com esse post maravilhoso de ricardo domeneck
Wednesday, October 07, 2015
Sunday, October 04, 2015
#ocupeestelita #resisteestelita
quinta-feira passada
em recife
durante uma manifestação
durante uma manifestação
(pacífica)
aí quando vejo uma merda dessa
lembro do que nina simone
dizia
"i'm not non-violent".
"i'm not non-violent".
tarra certa
Friday, October 02, 2015
carta em que a autora de 33 anos celebra o livro de estreia de sua crush literária (literária, an-ran) de 26 anos*
---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Adelaide Ivánova
Data: 25 de agosto de 2015 01:58
Assunto: volta
Para: William Zeytounlian
1.
a vida facebookiana tá muito sem graça depois que a senhora saiu do FB. ainda tentei dar uma azucrinada em TEXTO CENSURADO hoje, queria TEXTO CENSURADO CENSURADO CENSURADO CENSURADO mas ele não é tia como a gente.
então volta, amiga.
2.
william,
eu sei que teu livro tá pronto e prescinde de pitacos. sei também que elogio não faz ninguém andar pra frente. o problema é que eu sei que tem ali mais coisa do minha leitura consegue ver. não tenho repertório suficiente pra "traduzir" tudo que tem ali dentro, então minha leitura foi bem roberta miranda: não sei o que dizer, apenas sentir.
é muito bonito observar as ondas que diáspora tem, william, tu passando do coletivo pro privado de um jeito tão "soberano" (essa palavra é um pouco exagerada, mas não achei outra mais calma. eu queria dizer algo entre autônomo e soberano). gosto muito de como na primeira parte tu fala de todo mundo; depois tu convida a gente a chorar tuas pitangas, as privadas mas também as coletivas.
ah uma coisa que eu queria dizer: nos agradecimentos do livro tu fala "sem vocês eu não teria corrido o risco" e de fato é muito arriscado esse passo: combinar texto com foto. sempre acho perigoso quando um tenta me dizer com o outro o que devo sentir. como os poemas são muito sólidos, ao final tiram qualquer chance de auto-indulgência. é um exercício corajoso, tem que ter muito cojones pra não ter medo de botar foto em livro de poesia. tu merecia um nude só por isso hahaha
tenho pensando muito no livro de poesia enquanto projeto (tipo os livros de fotografia) e diáspora me fez pensar muito em anna akhmatova tematizando a guerra em requiem ou caetano tematizando exílio no disco que tem london, london (não tô comparando os dois pelamor, tô apenas pensando nesses modos operandi aí).
pensei na máquina emotiva de corbusier, mas não sei se pensei certo quando pensei isso.
também lembrei de joão cabral (capricorniano, claro) que dizia que o material da sua poesia era a memória. tem muita memória no teu livro, as tuas, as que não são tuas. é de novo o risco - nesse caso, o de se misturar aos fatos. numa entrevista com oprah (puro amor), maya angelou disse que os fatos encobrem a verdade, e que a verdade se encontra quando a pessoa se pergunta não o que aconteceu, mas o que ela sentiu quando o acontecido aconteceu. é bonito, né? acho que tu fez isso, ou quis fazer isso. tô certa ou num tô? ALOK.
pensei em john wieners, quando ele diz: "again we go driven by forces/we have no control over", em "a poem for painters" é a gente, william, bicha signo de fogo, escrevendo/vivendo (ainda que john wieners fosse capricorniano como joão cabral).
tu sabia que celan também era sagitariano feito tu?
falando em fogo, eu gosto MUITO que a primeira palavra do livro é "quente" e a última é "entenderemos". um monte de "E". na tabela pitagórica E, N e W (primeira letra do teu primeiro nome, btw.) têm o valor 5, que é o número da liberdade. acho bonito pensar nisso no contexto dum livro que se chama diáspora, em que a palavra "livre" aparece sete vezes e "liberdade", duas. e nenhuma vez "amor" (ainda que a coisa-amor esteja lá; não sou tão burra haha).
o trecho de poema com o gagarin que tu antes tinha mandado começa cantando caetano e fiquei feliz. foi a única coisa que reconheci, além das maiakosvkadas que tu dás no português, obrigada. eu sei que tem mais coisa ainda ali preu descobrir, que passa despercebida na minha leitura analfabeta. desculpa não ter comentários mais inteligentes pra fazer como tu tiveste em relação ao meu!
vai ser bom passar mais tempo com teu livro, vai ser a minha mala educacion hahaha "com o velho dedo que envereda na ferida" (que lindo isso, william, vai tomar no cu).
muitos beijos orgulhosos,
da sua tia.
diáspora é o livro de estreia de de william zeytounlian. vai ser lançado amanhã em são paulo, pelo selo demônio negro e dá pra comprar aqui. no livro, william "traz para sua escrita a experiência diaspórica de sua família, de sua própria avó, sobrevivente dos extermínios do Governo Otomano contra a população armênia do Império no início do século XX. Essa história pessoal, familiar, informa com poder metonímico todo o livro" (trecho do posfácio de ricardo domenek). eu acho importante, ainda, apontar a importância da memória como ferramenta de trabalho, e apontar que a experiência diaspórica é usada também como alegoria para falar de outros contextos, de outras experiências. é um livro muito bonito.
para ler trechos dos poemas, crica aqui.
*o título dessa postagem é roubado do poema "texto em que o poeta celebra o amante de 25 anos" de ricardo domeneck.
o sismógrafo
um sismógrafo não gira em torno de
si mesmo como faria um compasso
(objeto sincero que demarca território ou
ritmo) um sismógrafo vai em frente como faria
uma pessoa decente e entregue como
(não) são as pessoas bernardo que não
são como eu eu sigo bernardo
me movendo em círculos em torno
disso e de você dessa busca
o sismógrafo mede terremotos
no chile e olha para o futuro e para
a segurança de todos os envolvidos
os culpados os absolvidos
seria o sismógrafo bernardo capaz
de medir os batimentos cardíacos e
aquilo que é imprevisível aquilo
que ele mesmo causa?
seria o sismógrafo ignorante de si mesmo
capaz de medir os abalos sísmicos
que a visão de você procurando a nota
de cinco euros no fim da noite
causa em mim? eu poderia bernardo
traduzir em escalas richter todas as desgraças
deste mundo sem nunca poder
traduzir em algarismos romanos ou
arábicos os efeitos desse terremoto
interno causado exclusivamente pela
existência dos seus músculos
bernardo
eu poderia esvaziar esse bar
levar seus donos a falência
pelo puro desejo insaciável
de te ouvir falar.
Thursday, October 01, 2015
todos conhecem a história da outra, de anne sexton
TODOS CONHECEM A HISTóRIA DA OUTRA
É um Walden particular.1
Ela está sozinha na cama
enquanto o corpo dele se ajeita e dispara,
decidido como uma flecha.
Mas isso tá mal explicado.2
A luz do dia não é amiga de ninguém.
Deus chega como se fosse cobrar o aluguel
e acende a luz quando não convém.3
Agora ela está assim-assado.4
Ele põe seus ossos de volta no lugar,
atrasa o relógio em uma hora.
Ela conhece a carne, o balão feito de pele,
os membros partidos, o assoalho,
o teto, o teto removível.5
Ela é meio-período sua eleição.
Você conhece essa história. Fique olhando:
quando termina ele a coloca,
como um telefone, no gancho.6
YOU ALL KNOW THE STORY OF THE OTHER WOMAN
It's a little Walden.
She is private in her breathbed
as his body takes off and flies,
flies straight as an arrow.
But it's a bad translation.
Daylight is nobody's friend.
God comes in like a landlord
and flashes on his brassy lamp.
Now she is just so-so.
He puts his bones back on,
turning the clock band an hour.
She knows flesh, that skin balloon,
the unbound limbs, the boards,
the roof, the removable roof.
She is his selection, part time.
You know the story too! Look,
when it is over he places her,
like a phone, on the hook.
notas
#1Walden é o livro de Thoreau sobre vida simples, isolada, em conexão com natureza (é sobre outra coisa, na verdade, mas esse é o cenário do livro). ao contextualizar a ação do poema citando Walden, Anne faz alusão a um lugar idílico, onde "dentro" é que se passam os conflitos (dentro da casa, no poema; dentro do sujeito, em Thoreau).
#2
"tá" porque no poema ela escreve "it's" em vez de "it is". como sabemos o apreço de Anne pela língua falada, deixei assim.
#3
no original, ela prefere adjetivar a luz do que a ação de deus. como não achei nenhuma traudção pra brassy que me agradasse, e pra manter a musicalidade que aparece aí (nobody's friend/brassy lamp), ficou assim, adjetivando não a lâmpada, mas a própria ação de acender a luz.
quando a luz é acesa ou o dia amanhece (deus acendendo a luz), é quando somos pegos no flagra, é a hora de sentir culpa.
#4
como o poema tem duas perspectivas (a do homem e a da "outra"), confesso que não sei se ela diz she is so-so no sentido de estar de humor mais ou menos, ou de estar apenas marromeno bonita. tipo: depois que se acende a luz (ou seja, acabou a festa), o humor dela fica abalado - que nunca? - ou depois de se acender a luz (ou seja, acabou a festa), ele a pode ver e já não acha tão bonita assim, acha ela apenas "mais ou menos". então a tradução ficou meio neutra, embora neutra de cu é rola. mas tive que ficar em cima do muro porque não sei o que fazer. por ora, essa é a solução, mas vou continuar pensando nisso. aceitamos mastercard e sugestões.
#5
esses três versos são muito bonitos, como ela mistura descrição de corpo com contexto. teto removível é uma alusão clara àquelas casas de barbie que se pode retirar o teto e manipular e olhar a boneca desde cima. e quando a brincadeira acaba, metemos a barbie dentro da casa, tampamos com o teto e tchau, até que se tenha vontade de brincar de novo (enquanto isso a boneca fica lá...).
#6
o original tem o look!, que é um recurso não raro de anne (aparece inclusive em o nado nu). quem diz look! aponta um dedo pra alguma coisa, e é disso que esse livro inteiro trata. eu demorei muito pra decidir como traduzir essa estrofe, porque "fique olhando" tem essa denotação voyeuristica também, mas é menos acusativa, é mais sutil do que "olha!". mas como queria respeitar a musicalidade de look/hook, optei por essa solução, porque tampouco não consegui pensar em nenhum sinônimo para 'colocar o telefone no gancho' que rimasse com 'olha'.
outro comentário
eu acho o título desse poema tão triste, no sentindo do autoesculacho que ela mesma se impõe. primeiro porque é importante lembrar que o amante também era casado, mas apenas ela tinha o papel de criminosa. cabe apenas a Anne o estigma, porque ela vivia a sexualidade fora do contrato social. já para o amante (casado e que seria "o outro" em relação ao marido de anne) não cabe nenhum julgamento, já que o casamento privilegia a figura masculina em seus acordos (ou seja, ter uma amante faz parte do pacote, tudo ok).
eu sei, o poema foi escrito na década de 60 nos EUA - mas estamos falando dele hoje. a "outra" é uma personagem a quem ainda não foi conferido nenhum status social. como a sexualidade feminina, regulamentada pelo Estado, é legitimizada unicamente através da figura da esposa, todo tipo de sexualidade experimentada em outros contextos, em outros papeis sociais ("a outra", "a solteira sexualmente ativa (gay ou hetero)", "a assexuada" etc.) é visto como rompimento com o contrato social e é, portanto, marginal, digna de condenação.
pronto, termino afinal essa tradução-ladainha - desculpem o incômodo, mas de que serviriam os poemas se não nos fizessem pensar em outra coisa além do poema em si?
outras traduções de anne sexton:
o beijo
o nado nu
É um Walden particular.1
Ela está sozinha na cama
enquanto o corpo dele se ajeita e dispara,
decidido como uma flecha.
Mas isso tá mal explicado.2
A luz do dia não é amiga de ninguém.
Deus chega como se fosse cobrar o aluguel
e acende a luz quando não convém.3
Agora ela está assim-assado.4
Ele põe seus ossos de volta no lugar,
atrasa o relógio em uma hora.
Ela conhece a carne, o balão feito de pele,
os membros partidos, o assoalho,
o teto, o teto removível.5
Ela é meio-período sua eleição.
Você conhece essa história. Fique olhando:
quando termina ele a coloca,
como um telefone, no gancho.6
YOU ALL KNOW THE STORY OF THE OTHER WOMAN
It's a little Walden.
She is private in her breathbed
as his body takes off and flies,
flies straight as an arrow.
But it's a bad translation.
Daylight is nobody's friend.
God comes in like a landlord
and flashes on his brassy lamp.
Now she is just so-so.
He puts his bones back on,
turning the clock band an hour.
She knows flesh, that skin balloon,
the unbound limbs, the boards,
the roof, the removable roof.
She is his selection, part time.
You know the story too! Look,
when it is over he places her,
like a phone, on the hook.
notas
#1Walden é o livro de Thoreau sobre vida simples, isolada, em conexão com natureza (é sobre outra coisa, na verdade, mas esse é o cenário do livro). ao contextualizar a ação do poema citando Walden, Anne faz alusão a um lugar idílico, onde "dentro" é que se passam os conflitos (dentro da casa, no poema; dentro do sujeito, em Thoreau).
#2
"tá" porque no poema ela escreve "it's" em vez de "it is". como sabemos o apreço de Anne pela língua falada, deixei assim.
#3
no original, ela prefere adjetivar a luz do que a ação de deus. como não achei nenhuma traudção pra brassy que me agradasse, e pra manter a musicalidade que aparece aí (nobody's friend/brassy lamp), ficou assim, adjetivando não a lâmpada, mas a própria ação de acender a luz.
quando a luz é acesa ou o dia amanhece (deus acendendo a luz), é quando somos pegos no flagra, é a hora de sentir culpa.
#4
como o poema tem duas perspectivas (a do homem e a da "outra"), confesso que não sei se ela diz she is so-so no sentido de estar de humor mais ou menos, ou de estar apenas marromeno bonita. tipo: depois que se acende a luz (ou seja, acabou a festa), o humor dela fica abalado - que nunca? - ou depois de se acender a luz (ou seja, acabou a festa), ele a pode ver e já não acha tão bonita assim, acha ela apenas "mais ou menos". então a tradução ficou meio neutra, embora neutra de cu é rola. mas tive que ficar em cima do muro porque não sei o que fazer. por ora, essa é a solução, mas vou continuar pensando nisso. aceitamos mastercard e sugestões.
#5
esses três versos são muito bonitos, como ela mistura descrição de corpo com contexto. teto removível é uma alusão clara àquelas casas de barbie que se pode retirar o teto e manipular e olhar a boneca desde cima. e quando a brincadeira acaba, metemos a barbie dentro da casa, tampamos com o teto e tchau, até que se tenha vontade de brincar de novo (enquanto isso a boneca fica lá...).
#6
o original tem o look!, que é um recurso não raro de anne (aparece inclusive em o nado nu). quem diz look! aponta um dedo pra alguma coisa, e é disso que esse livro inteiro trata. eu demorei muito pra decidir como traduzir essa estrofe, porque "fique olhando" tem essa denotação voyeuristica também, mas é menos acusativa, é mais sutil do que "olha!". mas como queria respeitar a musicalidade de look/hook, optei por essa solução, porque tampouco não consegui pensar em nenhum sinônimo para 'colocar o telefone no gancho' que rimasse com 'olha'.
outro comentário
eu acho o título desse poema tão triste, no sentindo do autoesculacho que ela mesma se impõe. primeiro porque é importante lembrar que o amante também era casado, mas apenas ela tinha o papel de criminosa. cabe apenas a Anne o estigma, porque ela vivia a sexualidade fora do contrato social. já para o amante (casado e que seria "o outro" em relação ao marido de anne) não cabe nenhum julgamento, já que o casamento privilegia a figura masculina em seus acordos (ou seja, ter uma amante faz parte do pacote, tudo ok).
eu sei, o poema foi escrito na década de 60 nos EUA - mas estamos falando dele hoje. a "outra" é uma personagem a quem ainda não foi conferido nenhum status social. como a sexualidade feminina, regulamentada pelo Estado, é legitimizada unicamente através da figura da esposa, todo tipo de sexualidade experimentada em outros contextos, em outros papeis sociais ("a outra", "a solteira sexualmente ativa (gay ou hetero)", "a assexuada" etc.) é visto como rompimento com o contrato social e é, portanto, marginal, digna de condenação.
pronto, termino afinal essa tradução-ladainha - desculpem o incômodo, mas de que serviriam os poemas se não nos fizessem pensar em outra coisa além do poema em si?
outras traduções de anne sexton:
o beijo
o nado nu
Wednesday, September 30, 2015
poema-protesto do livro novo de ricardo domeneck
dedicado a esta que vos escreve:
a quem interessar possa, "medir com as próprias mãos a febre" saiu essa semana pela editora 7letras e em outubro sai pela mariposa azul, em portugal.
ricardo.
a foto é do FB de yasmin nigri
a quem interessar possa, "medir com as próprias mãos a febre" saiu essa semana pela editora 7letras e em outubro sai pela mariposa azul, em portugal.
ricardo.
Saturday, September 26, 2015
o estupro de lucrécia
lucrécia foi estuprada enquanto dormia por sexto tarquínio, filho de lúcio, que viria a ser o último rei de roma. depois da violação, lucrécia se mata em público, clamando por justiça e assim deu-se início uma guerra que acabou com monarquia romana.
lucrécia e suas amas
(não achei o autor)
(não achei o autor)
ilustração do século 16, mostrando o ataque e depois
lucrécia pedindo por justiça diante de testemunhas
o suicídio, do estúdio delucas cranach, o autor
assinou como I. W. em 1525
o suicídio por rembrandt, 1664
o estupro por rubens, 1619
o estupro por simon vouet
a pintura é de ticiano, 1571,
mas o que mais me impressiona é
a legenda do wikipedia português
Friday, September 25, 2015
the nude swim, de anne sexton
O NADO NU1
No sudoeste de Capri
encontramos uma grutinha secreta
onde não havia ninguém e nós
nos metemos nela até o fim e
liberamos nossos corpos de toda
solidão.
Tudo o que em nós é peixe
se deixou levar.
Os peixes de verdade não deram a mínima.
Não atrapalhamos suas vidas íntimas.
Nadamos tranquilos por cima
e por baixo deles, compartilhando
bolhas de ar, brancas, ínfimas
bexigas, que emergiam rápido
até o sol banhando o barco
onde o italiano tirava uma soneca
cobrindo a cara com um chapéu.
A água era tão clara
que dava para ler um livro.
A água era tão tranquila
que se podia boiar sem medo.
Me deito nela como me deito no divã2.
Me deito nela como
a odalisca vermelha de Matisse.
Sendo a água a flor estranha,
é preciso imaginar uma mulher
sem toga nem lenço
num sofá cavado como um túmulo3.
As paredes daquela gruta
tinham todos os tons de azul
e tu disseste "Ó! Teus olhos
são da cor do mar. Ó! Teus olhos
são da cor do céu". E meu olhos
se fecharam em
repentina vergonha4.
The Nude Swim
On the southwest side of Capri
we found a little unknown grotto
where no people were and we
entered it completely
and let our bodies lose all
their loneliness.
All the fish in us
had escaped for a minute.
The real fish did not mind.
We did not disturb their personal life.
We calmly trailed over them
and under them, shedding
air bubbles, little white
balloons that drifted up
into the sun by the boat
where the Italian boatman slept
with his hat over his face.
Water so clear you could
read a book through it.
Water so buoyant you could
float on your elbow.
I lay on it as on a divan.
I lay on it just like
Matisse's Red Odalisque.
Water was my strange flower,
one must picture a woman
without a toga or a scarf
on a couch as deep as a tomb.
The walls of that grotto
were everycolor blue and
you said, 'Look! Your eyes
are seacolor. Look! Your eyes
are skycolor.' And my eyes
shut down as if they were
suddenly ashamed.
No sudoeste de Capri
encontramos uma grutinha secreta
onde não havia ninguém e nós
nos metemos nela até o fim e
liberamos nossos corpos de toda
solidão.
Tudo o que em nós é peixe
se deixou levar.
Os peixes de verdade não deram a mínima.
Não atrapalhamos suas vidas íntimas.
Nadamos tranquilos por cima
e por baixo deles, compartilhando
bolhas de ar, brancas, ínfimas
bexigas, que emergiam rápido
até o sol banhando o barco
onde o italiano tirava uma soneca
cobrindo a cara com um chapéu.
A água era tão clara
que dava para ler um livro.
A água era tão tranquila
que se podia boiar sem medo.
Me deito nela como me deito no divã2.
Me deito nela como
a odalisca vermelha de Matisse.
Sendo a água a flor estranha,
é preciso imaginar uma mulher
sem toga nem lenço
num sofá cavado como um túmulo3.
As paredes daquela gruta
tinham todos os tons de azul
e tu disseste "Ó! Teus olhos
são da cor do mar. Ó! Teus olhos
são da cor do céu". E meu olhos
se fecharam em
repentina vergonha4.
The Nude Swim
On the southwest side of Capri
we found a little unknown grotto
where no people were and we
entered it completely
and let our bodies lose all
their loneliness.
All the fish in us
had escaped for a minute.
The real fish did not mind.
We did not disturb their personal life.
We calmly trailed over them
and under them, shedding
air bubbles, little white
balloons that drifted up
into the sun by the boat
where the Italian boatman slept
with his hat over his face.
Water so clear you could
read a book through it.
Water so buoyant you could
float on your elbow.
I lay on it as on a divan.
I lay on it just like
Matisse's Red Odalisque.
Water was my strange flower,
one must picture a woman
without a toga or a scarf
on a couch as deep as a tomb.
The walls of that grotto
were everycolor blue and
you said, 'Look! Your eyes
are seacolor. Look! Your eyes
are skycolor.' And my eyes
shut down as if they were
suddenly ashamed.
reclining odalisque (harmony in red)
matisse, 1927
matisse, 1927
1.
"o nado nu" não somente me parece solene, como quase antipático, pretensioso. uma tradução que pensei muito foi "nadar pelada", que seria também o jeito mais "normal" de falar da mesma coisa. mas como a última estrofe revela uma "confissão", um momento de "nudez", achei melhor deixar assim.
"o nado nu" não somente me parece solene, como quase antipático, pretensioso. uma tradução que pensei muito foi "nadar pelada", que seria também o jeito mais "normal" de falar da mesma coisa. mas como a última estrofe revela uma "confissão", um momento de "nudez", achei melhor deixar assim.
2.
é preciso lembrar da relação de anne com a psicanálise e, mais ainda, do fato de que esse livro foi escrito no período que o analista dela era o amante. eu acho a imagem desse verso tão piegas ("deitar na água como se fosse um divã" - pelamor de deus) mas, por outro lado, é um jeito lindo de aludir a ela mesma pensando no amante, enquanto viaja com o marido. no original ela fala do divã de maneira impessoal ("on A divan") mas eu traduzi para "no divã", querendo falar daquele específico, já que os dates de anne e seu analista se davam no consultório dele, ou seja, durante as consultas.
3.
dessa relação com a psicanálise vem o jogo sofá/divã que anne faz. escolhi traduzir como "cavado como um túmulo", ainda que no original ela use "deep", que é fundo/profundo. "cavado" é sim sinônimo pra fundo, mas se usa mais como particípio que como adjetivo e ideia de medida (ao menos não na linguagem falada). de toda forma, escolhi "cavado como um túmulo" primeiro pela sonoridade: "sofá fundo", "sofá profundo" soam mal.
além disso, no sofá da psicanálise se "cavam" as coisas (da vida interna) e, neste sofá especificamente, ela não somente fazia sessões de análise como fazia amor com o analista (a alusão à nudez nos versos "é preciso imagina uma mulher/sem tonga nem lenço" também faz esse paralelismo, entre se desnudar pra fazer amor e se desnudar diante do analista, falar das entranhas). uma relação de transferência complexa - meio a morte da terapia, sei lá. fiquei pensando muito tempo nisso. enfim, ela fala de túmulo do fim do verso, então achei melhor usar "cavado", que lembra cova, cavar a própria cova, sem deixar de ser sinônimo pra "fundo"/"deep".
eu podia ter escrito "fundo como uma cova", que seria uma opção simples e boa, mas ia criar musicalidade com "toga" do verso anterior (e não queria tirar "toga"; que genial essa palavra aí no meio) e no original não há musicalidade entre esses 2 versos.
4.
foi muito difícil traduzir o último verso, por sua simplicidade. "ashamed" é uma vergonha relacionada a culpa, diferente da vergonha embaraço (que é quando há "público"). pensei em traduzir por "remorso", que é bem próximo, ou simplesmente "culpa" (e ainda filosofei pensando em "tristeza" "cansaço" "pesar"), mas nenhuma se aproxima tanto da ideia de "embaraço culpado" de "ashamed". fiquei entre "remorso" e "vergonha". optei pela última, simples e eficaz, que é o que provavelmente uma pessoa falaria na vida real. mas sei que não é a tradução ideal. aceito sugestões.
é preciso lembrar da relação de anne com a psicanálise e, mais ainda, do fato de que esse livro foi escrito no período que o analista dela era o amante. eu acho a imagem desse verso tão piegas ("deitar na água como se fosse um divã" - pelamor de deus) mas, por outro lado, é um jeito lindo de aludir a ela mesma pensando no amante, enquanto viaja com o marido. no original ela fala do divã de maneira impessoal ("on A divan") mas eu traduzi para "no divã", querendo falar daquele específico, já que os dates de anne e seu analista se davam no consultório dele, ou seja, durante as consultas.
3.
dessa relação com a psicanálise vem o jogo sofá/divã que anne faz. escolhi traduzir como "cavado como um túmulo", ainda que no original ela use "deep", que é fundo/profundo. "cavado" é sim sinônimo pra fundo, mas se usa mais como particípio que como adjetivo e ideia de medida (ao menos não na linguagem falada). de toda forma, escolhi "cavado como um túmulo" primeiro pela sonoridade: "sofá fundo", "sofá profundo" soam mal.
além disso, no sofá da psicanálise se "cavam" as coisas (da vida interna) e, neste sofá especificamente, ela não somente fazia sessões de análise como fazia amor com o analista (a alusão à nudez nos versos "é preciso imagina uma mulher/sem tonga nem lenço" também faz esse paralelismo, entre se desnudar pra fazer amor e se desnudar diante do analista, falar das entranhas). uma relação de transferência complexa - meio a morte da terapia, sei lá. fiquei pensando muito tempo nisso. enfim, ela fala de túmulo do fim do verso, então achei melhor usar "cavado", que lembra cova, cavar a própria cova, sem deixar de ser sinônimo pra "fundo"/"deep".
eu podia ter escrito "fundo como uma cova", que seria uma opção simples e boa, mas ia criar musicalidade com "toga" do verso anterior (e não queria tirar "toga"; que genial essa palavra aí no meio) e no original não há musicalidade entre esses 2 versos.
4.
foi muito difícil traduzir o último verso, por sua simplicidade. "ashamed" é uma vergonha relacionada a culpa, diferente da vergonha embaraço (que é quando há "público"). pensei em traduzir por "remorso", que é bem próximo, ou simplesmente "culpa" (e ainda filosofei pensando em "tristeza" "cansaço" "pesar"), mas nenhuma se aproxima tanto da ideia de "embaraço culpado" de "ashamed". fiquei entre "remorso" e "vergonha". optei pela última, simples e eficaz, que é o que provavelmente uma pessoa falaria na vida real. mas sei que não é a tradução ideal. aceito sugestões.
Wednesday, September 23, 2015
gente bora ajudar o daniel!
o sonho de daniel é ir pra sua formatura com a mastectomia masculinizadora feita.
eu fiquei tão emocionada com a sinceridade e a simplicidade do pedido dele que tive que compartilhar aqui.
clica aqui pra ajudar o rapaz e aproveita e compartilha o link nas ruas redes!
eu fiquei tão emocionada com a sinceridade e a simplicidade do pedido dele que tive que compartilhar aqui.
clica aqui pra ajudar o rapaz e aproveita e compartilha o link nas ruas redes!
Tuesday, September 22, 2015
a profeta lendo meu livro
érica zíngano fez uma leitura fundamental do meu livro (reclamando da quantidade de pontos finais e da minha incapacidade de pontuar os verbos no passado - entre outras coisas, mais importantes que gramática), em VINTE páginas de um pdf com comentários. mas o que eu queria compartilhar mesmo é o afeto, no final:

"eu tô agarrada com você desde ontem"
ps: o livro sai pela douda correria em 2016.
Sunday, September 20, 2015
Friday, September 18, 2015
Sunday, September 13, 2015
schengen goddam
pudessem os homens brancos em bruxelas
e thomas de maizière
ouvir este meu poema estaria resolvida
a questão das fronteiras e seus
problemas veja bem senhor ministro
em minha cama não se pede visto
já troquei lençóis e fronhas
sujos de sêmem made in espanha
hungria áustria zimbábue iraque
alemanha
fazemos a alegria uns dos outros
e diga-me senhor ministro
se não fôssemos nós
quem mais a faria?
e quem faria seu demográfico
crescimento? dele somos
responsáveis - diz fatou diome -
em 40% e sem nós
expatriados diga mesmo
senhor ministro
de onde viriam tantas delícias
as teses os ensaios a vida as baladas
os bares os quadros com quais
lucram vossos museus os livros
premiados com os quais
lucram (ou lucravam) suas poeirentas
livrarias?
haveria para pasolini este
homem europeu
um futuro mais duradouro
tivesse pasolini se refugiado?
talvez fosse morto na síria na líbia
ou na casa de caralho mas menos
por ser refugee e mais por ser viado
(sim um grande problema mas esse
não é hoje o tema do poema)
já deitei em futons tapetes colchões
e carpetes de toda sorte de gente
inclusive os de budapeste que se
mostram agora os mais cabrões
(os jogadores de golf de melilla
não são menos sinistros) o segredo
senhor ministro deixa eu explicar
é abrir não somente as fronteiras
mas o coração sermos bons como lou
salomé que fez a caridade de comer
nietzsche e para o próprio deleite ainda deu
pra rée e (dizem) rilke sermos bons com
quem vier não importando a cor do
passaporte nem do sujeito apenas dando
muito seja lá do quê - um visto um teto
um trabalho um hallo um meio
de transporte mais seguro e
ventilado que um caminhão
e um destino mais humano
que o injusto e raso para onde
eu você e petra laszlo mandamos
o pai anônimo e seu filho (o chão).
apenas aprendam
(rée, salomé e nietzsche)
(rée, salomé e nietzsche)
Friday, September 11, 2015
o beijo, de anne sexton
O BEIJO
Minha
boca lateja como uma úlcera.
Fui o ano inteiro ignorada, noites
chatíssimas, nada além de cotovelos ásperos
e caixinhas de Kleenex gritando crybaby
Fui o ano inteiro ignorada, noites
chatíssimas, nada além de cotovelos ásperos
e caixinhas de Kleenex gritando crybaby
crybaby,
sua abestalhada!
Até ontem meu corpo era inútil.
Agora se rasga nas partes ossudas.
Até ontem meu corpo era inútil.
Agora se rasga nas partes ossudas.
Faz do manto de Maria pó, de nó em nó
e
olhe – Agora atingida por um certo raio:
Bum! Ressuscitou!
Antigamente havia um barco, de madeira
e sem utilidade, sem mar embaixo
Bum! Ressuscitou!
Antigamente havia um barco, de madeira
e sem utilidade, sem mar embaixo
e
precisando de uma demão de tinta. Não era muito
além de um bocado de tábua. Mas ela você alçou e laçou.
Ela foi escolhida.
Meus nervos à beira de um ataque. Posso ouvi-los como
instrumentos musicais. Onde antes havia silêncio:
bateria, irremediavelmente as cordas tocam. Você é o responsável.
Trabalho de gênio. Querido, o compositor se mete
além de um bocado de tábua. Mas ela você alçou e laçou.
Ela foi escolhida.
Meus nervos à beira de um ataque. Posso ouvi-los como
instrumentos musicais. Onde antes havia silêncio:
bateria, irremediavelmente as cordas tocam. Você é o responsável.
Trabalho de gênio. Querido, o compositor se mete
fogo
adentro.
THE KISS
My mouth blooms like a cut.
I've been wronged all year, tedious
nights, nothing but rough elbows in them
and delicate boxes of Kleenex calling crybaby
crybaby, you fool!
Before today my body was useless.
Now it's tearing at its square corners.
It's tearing old Mary's garments off, knot by knot
and see — Now it's shot full of these electric bolts.
Zing! A resurrection!
Once it was a boat, quite wooden
and with no business, no salt water under it
and in need of some paint. It was no more
than a group of boards. But you hoisted her, rigged her.
She's been elected.
My nerves are turned on. I hear them like
musical instruments. Where there was silence
the drums, the strings are incurably playing. You did this.
Pure genius at work. Darling, the composer has stepped
into fire.
I've been wronged all year, tedious
nights, nothing but rough elbows in them
and delicate boxes of Kleenex calling crybaby
crybaby, you fool!
Before today my body was useless.
Now it's tearing at its square corners.
It's tearing old Mary's garments off, knot by knot
and see — Now it's shot full of these electric bolts.
Zing! A resurrection!
Once it was a boat, quite wooden
and with no business, no salt water under it
and in need of some paint. It was no more
than a group of boards. But you hoisted her, rigged her.
She's been elected.
My nerves are turned on. I hear them like
musical instruments. Where there was silence
the drums, the strings are incurably playing. You did this.
Pure genius at work. Darling, the composer has stepped
into fire.
"o beijo" é o segundo poema do livro love poems. tanto poema quanto livro não são os melhores de anne, mas o que faz de love poems especialmente atraente para mim é o livro de poesia como projeto. é a análise laboratorial que ela desenvolve em torno de um único tema e, ainda que ela aqui e ali fale de outras coisas, o tema ou mote é o adultério e seus protagonistas, com o corpo como arma do crime, por assim dizer.
nos pontos altos, anne transfere a obsessão que antes tinha com a morte e historização da própria biografia, prum homem (o marido e o amante). poemas como for my lover returning to his wife, pelo qual sou especificamente obcecada e cuja tradução pretendo postar aqui um dia antes de 2019, têm uma força mãe-natureza e um nível de empatia que ainda me deixam besta.
os love poems foram escritos durante o romance que anne sexton teve com seu segundo analista. sem saber dessa informação, é mais difícil entender por quê da linguagem às vezes encriptada que anne - uma senhora casada e mãe de filhos, dos subúrbios de boston - utiliza no livro, publicado em 1969. essa linguagem encriptada resulta eventualmente num tom solene que às vezes cai na cafonice, com metáforas fábio júnior distantes da força crua que aparece no livro anterior, all my pretty ones. essa "solenidade" tem sido minha maior dificuldade traduzindo outros dos love poems. nem por isso o livro é menos sexy. se não me engano, foi o que mais vendeu (até a publicação de transformations, em 1971).
nesse livro, anne também relaxa com métrica-e-musicalidade que lhe consagraram em to bedlam and part way back, seu livro de estreia. o cuidado com a versificação que ela mostrou nos seus primeiros dois livros têm, na minha opinião, muito a ver com a doença mental de que ela sofria. em love poems, no entanto, ela transfere a obsessão pela estética em uma obsessão pelo sujeito. uma troca tão ou mais arriscada.
esse poema eu gosto pela imagem da mulher febril que, depois dum período de seca, volta a ser beijada (e comida, né, assim esperamos); eu gosto da descrição da explosão interna que anne faz, de como ela lida com o tesão e a adoração que ela dedica ao boy que a tirou do limbo sexual, chamando-o de gênio.
essa foi então a minha tradução-traição pro português nordestino (tentando diminuir as "solenices" do poema original; tentando me afastar da semântica e me aproximar do que o poema quer dizer, mas mantendo algumas rimas/ecos internos).
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