outra tradução dominical, dessa vez feita na varadinha, já não tem mais menino que foi passear, mas tem um livro (pra ler a tradução de domingo passado, clica aqui).
O divórcio
Primeiro era apenas um tremor na pele -
"Como tu preferir" -, ali onde a carne é mais escura.
"O que é que tu tem?" - Nada. Sonhos leitosos
de abraços, mas na manhã seguinte
o outro parece outro, estranhamente ossudo.
Mal-entedidos afiados. "Naquele dia em Roma -"
Eu nunca disse isso. - Pausa. O coração bate acelerado,
um tipo de ódio estranho. - "Não é disso que eu tô falando."
Repetições. Uma certeza brilhantemente clara:
de agora em diante tá tudo errado. Inodora e nítida,
como uma foto de RG, essa pessoa que desconheço
com uma xícara de chá na mesa, olha fixamente.
Isso é inútil é inútil é inútil:
ladainhas na cabeça, náuseas se aproximando.
Fim das acusações. Devagar o quarto inteiro
vai se enchendo de culpa.
A voz que soa é estranha, só os sapatos,
que fazem barulho no piso, os sapatos não são.
Da próxima vez, num restaurante vazio,
em câmera lenta, migalhas de pão, se falará de dinheiro,
rindo. A sobremesa tem gosto de metal.
Duas pessoas que não se tocam. Sensatez aguda.
"As coisas não são tão ruins assim". Mas à noite
o desejo de vingança, a briga burra, anônima,
como dois advogados esqueléticos, dois caranguejos grandes
na água. Depois a exaustão. Devagar
a ferida se abre. Encontrar uma tabacaria nova,
um endereço novo. Párias assustadoramente aliviados.
Sombras que vão ficando menos escuras. Eis aqui o papel assinado.
Eis aqui as chaves. Eis aqui a cicatriz.
Showing posts with label hans magnus enzensberger. Show all posts
Showing posts with label hans magnus enzensberger. Show all posts
Sunday, August 21, 2016
Sunday, August 14, 2016
as roupas, de hans magnus enzensberger
traduzi esse poema hoje de tarde, deitada na rede, mais feliz do que triste, depois de lavar e estender as roupas de um outro menino, que passeava.
As roupas
Lá estão elas, quietas e felinas
no sol, meio-dia,
tuas roupas, folgadas,
reais como um acidente.
Elas cheiram a você, de leve,
se parecem com você.
Elas entregam tua sujeira,
teus maus costumes,
teu cotovelo na mesa.
Elas têm tempo, não respiram,
são sobras, moles, cheias de botões,
funções e manchas.
Nas mãos de um policial,
uma costureira ou um arqueólogo,
elas lhes dariam seu preço de custo
e teus segredos mais fúteis.
Mas onde tu tás, se tás triste,
as coisas que tu queria ter me dito
e nunca dissesse
se as coisas que aconteceram, se foram por amor
ou por necessidade ou por esquecimento
e os motivos das coisas
terem sido assim
como foram
como fatalmente morreram
se tu tás morta, ou se
tu tás deixando o cabelo crescer,
isso tuas roupas não dizem.
Subscribe to:
Posts (Atom)


