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Thursday, September 28, 2017

diz-me o nome da seita, angélica freitas


quando estava escrevendo o texto sobre angélica freitas para o suplemento pernambuco, pedi pra 25 poetas brasileiras me mandarem textinhos curtos, de até 5 linhas (claro que elas não conseguiram - mas a culpa é de angélica haha) sobre a relação delas com "um útero é do tamanho de um punho". nem todas conseguiram ou puderam enviar algo e, das 17 que toparam, não deu pra publicar todas, por falta de espaço mesmo :/

então publico aqui, na íntegra, os depoimentos dazamigas fazendo essa public display of affection pra angélica.

o artigo está na edição de setembro de 2017 do suplemento pe.



ANA MARTINS MARQUES (MG)

Em Um útero é do tamanho de um punho, Angélica Freitas adota o caminho arriscado de incorporar (e desviar) o clichê, a frase feita, o lugar comum (que ela capta tanto nas canções populares quanto por meio do dispositivo de busca do google). A desmontagem dos estereótipos se dá na linguagem, em poemas em geral curtos e cortantes, que incorporam a sátira, o jogo, o nonsense, embaralham referências literárias e da cultura de massas, demonstrando que dimensão política e trabalho de linguagem não são necessariamente antagônicos, que o humor não afasta a reflexão, o cômico não impede o desvelamento da violência, a aparente leveza e simplicidade podem conviver com a tensão e a complexidade.

São poemas políticos, sem dúvida, mas não é fácil reduzi-los a um slogan ou retirar deles algum discurso claro e inequívoco: assim como a boia mencionada em um dos textos, que não se explica, se usa, nesses poemas interessa menos um discurso que os antecederia e explicaria do que os procedimentos que acionam, os efeitos que são capazes de produzir, as forças que podem pôr em movimento. E também, talvez sobretudo, o prazer da leitura e a surpresa e a alegria da linguagem que eles são capazes de proporcionar.

Um amigo livreiro certa vez me contou que Um útero era o livro mais roubado na livraria. A informação me agradou (como curiosamente agradava também o livreiro), mas não me surpreendeu: quem rouba livros, imagino, são sobretudo jovens estudantes, meninas e meninos com pouco dinheiro, muito desejo de conhecer e pouco gosto por solenidades. É compreensível que Um útero se torne para eles um objeto de desejo. Talvez o que mais impressione na poesia da Angélica seja essa capacidade de falar ao mesmo tempo a jovens recém-chegados à praia da poesia e a poetas e leitores experientes, que encontram na sua poesia forças novas, uma lufada de ar.


CECILIA FLORESTA (SP)

“diz-me com quem te deitas/ angélica freitas”, amélias, rosângelas, robertas, solanges, denises, cristinas, carolinas, cecílias.

um útero caiu nas minhas mãos faz uns anos já, não por acaso. foi o primeiro livro que me fez pensar numa literatura nacional fancha e eu me lembro de ler cada um dos poemas incansavelmente (ainda hoje o faço) porque ali encontrei contrários, que Angélica jamais deixa espaço pro não-dito, essa instância tão presente na literatura feita por mulheres para mulheres. a força lesbiana dos poemas da Freitas me ajudou a dar voz aos meus próprios e me apontou o caminho pra estrada que hoje traço: visibilizar a literatura lésbica brasileira.


ERICA ZINGANO (CE)

A Adelaide me pediu pra escrever algumas linhas sobre o livro da Angélica. O que o livro causou em mim. Mas eu vou escrever um pouco mais, não tenho mais facebook, perco muitas vezes a linha. Mas eu vou falar meio por cima, ok? Um esmalte que cobre a unha cobre a unha sempre por cima. 5 a 8 linhas? Por cima. Começa aqui (mentira), Começa assim (mentira). O livro dela foi lançado em 2012. Eu comprei em 2012. Em Lisboa. Naquela livraria da Cotovia eu acho. Ou alguém mandou do Brasil pra mim? Não consigo me lembrar. Se você está lendo e você me deu esse livro de presente me desculpe. Ou você foi um atravessador? Não me lembro. Eu li em Lisboa. Porque eu morava em Lisboa. Faz mais de 5 anos. Em Lisboa, isso é um clichê, mas é verdade: é minha Senhôra, é Rapariga. É bicha, é fila. É um clichê sobre as nossas diferenças, mas para eles é normal. Também tenho um outro livro que fala de mulher logo assim, de cara. Aliás, muitos livros não param de falar de mulher. E têm outros que não falam de mulher de jeito nenhum, mas a mulher está lá. Mas daí entender como é que eles tão falando de mulher ou não tão falando de mulher já é outro rolê. E que mulheres são essas? É Maria, é Madalena, são as Mulheres de Atenas? São a Marcha das Mulheres? São as Madres de Mayo? É a Medusa? É a Mil uma utilidades? É negativo, é positivo, é zona de perigo? Esse outro livro que eu tava falando é do Péter Esterházy. Chama “Uma mulher”. Também foi lançado pela Cosac. Em 2010. Na “uma mulher (6)”, lemos logo no começo: “[…] E se trata de uma mulher limpa, ou seja [apesar de ter mau hálito, a mulher 6 tem mau hálito], tudo acontece em meio a uma abundância de escovação de dentes, não raro de um excesso de pastas de dentes” (continua). Lembro do poema sereia, não sei se é uma sereia, se é o do ovo do micro-ondas, mas tem a pasta Colgate e a dentatura. Não sei se está nesse livro. Ou se foi publicado depois. Eu não vou entrar muito em detalhes, mas vou ser um pouco spoiler do final, porque o texto do Esterházy termina assim: “[…] Mas isso não é importante [o fato de ele ser louco por ela e ela, a mulher 6, não ter descoberto isso ainda], o importante é que eu [ele, o narrador personagem participativo do texto da mulher 6] possa vê-la.” É. Digamos que 50% do trabalho já foi feito. Ver/ reconhecer/ perceber/ dar-se conta já é um começo. Mas ver também já é um abismo. Tem o ponto cego, o trompe l’oeil etc. Abre um outro tipo de abismo. O que é que você vê, quando você vê? O que é que você lê quando você lê? Vamos começar de novo: “Uma mulher limpa.” Eu escrevi no final do poema dela assim, "limpinha". Uma mulher é uma mulher é pau pra toda obra. A Angélica me deu de presente a Susana Thénon. Sem ela saber. Sem ninguém saber. Os melhores presentes são os presentes surpresa.



KATIA BORGES (BA)

Olha, eu fiquei realmente muito feliz quando foi lançado Um útero é do tamanho de um punho, porque, sabe como é, eu gostava muito da Angélica Freitas bem antes. Então é como fosse se um segredo que ganha o mundo. Mas, claro, Angélica Freitas ganhou o mundo de cara com Rilke Shake, que antes de ter em mãos, lia os poemas nos blogs em que ela escrevia e tal. E, quando saiu, entrevistei Angélica em Salvador, de olho naquela estética forte. E, de certo modo, aquele apreço se manteve resistência. Tem sempre um antes, e antes, eu havia participado de uma oficina de criação com ela e a convidei para abrir um sarau que eu tinha por aqui. Angélica é mesmo essa força, porque ela não se rende e está de olho no fluxo das coisas. Não tem medo da poesia, entende? E tasca um verso assim: “você é mulher e se de repente acorda binária e azul e passa o dia ligando e desligando a luz?”. E se você pergunta qual é a sua? Eu digo que sim, que essa menina é das minhas.


MARIA ISABEL IORIO (RJ)

Eu sempre ficava de recuperação em biologia, eu gosto muito de biologia, essa matéria do corpo. Eu sempre quis escrever sobre mulher, eu gosto muito de mulher, mas nunca soube dizer do que é feita, onde cabe, pra onde vai. Esbarrei nO útero é do tamanho de um punho e logo assustei possível, chegar, assim tão perto, do que somos e nunca seremos. A poesia da Angélica é olho da diferença. Se coloca, antes, lugar – que chance de nascimento, pra gente, é no braço – depois se abre, e extende, os dedos. Talvez não exista lá muita biologia: mas ficamos sabendo certo que a mulher, em geral, ao cuspir sentia-se muito melhor.


FERNANDA MORSE (RJ)

A ginecologista falou que meu útero é pequenininho, mas Angélica Freitas diz que um útero é do tamanho de um punho. Já sabemos em quem devo acreditar. Angélica, a propósito, assume não só o risco de ter contra si as leis das ciências biológicas mas também as leis da poesia e do machismo nosso de cada dia. Nunca me senti tão alegre com um desconforto como quando li os seus poemas. Os peritos da sacra literatura se roem e os machos se enervam enquanto Catulo goza esteja ele onde estiver. O caráter provocativo, satírico e, tantas vezes, até pueril dos poemas parece querer aplacar todo tipo de fetichização que pode existir acerca dos assuntos tratados, da imagem da mulher, da vida cotidiana, para abordá-los em sua crueza ora niilista e dura, ora cômica e nonsense.

PATRICIA LINO (PORTUGAL)

O Útero foi apresentado em Portugal pela primeira vez em 2013. Nós, as que o tínhamos podido ler antes, sabíamos o quão ele era urgente. Também sabíamos que, quando a Angélica assinava os exemplares acrescentando ao título um ponto de interrogação, “O útero é do tamanho de um punho?”, a pergunta era retórica. O Útero é de uma inteligência e sensibilidade mordazes, de um humor que faz engolir em seco — desconfortável e terno; o Útero é a representatividade pela qual, sem saber, esperei durante décadas (que foram, na verdade, séculos e milénios). É, em língua portuguesa, o começo de um novo discurso poético que vive desse ponto de interrogação: quem continuamos a deixar de fora?



REGINA AZEVEDO (RN)

O livro “Um útero é do tamanho de um punho”, da Angélica Freitas, me pegou de jeito aos 12 anos. Achei um exemplar meio escondido em uma livraria em Natal, onde as estantes de poesia parecem ser ainda menores. Na primeira página que abri, o poema “mulher de regime”, cuja personagem se chama Regina. E nos anos seguintes, nas páginas seguintes, caminhei sabendo que há muito de mim – e de todas nós – nesse livro: o útero da Angélica é um útero de muitas mulheres. É um livro pra não sair da mochila, um livro pra ser falado e lido.


GABRIELA POZZOLI (SP)

Do punho fechado ao útero, que me fazem sempre associar a luta, o título já me encantou, assim como a capa com suas costuras & rastros. “Uma mulher boa é uma mulher limpa” – aos poucos, prosseguia a leitura com meus olhos enfeitiçados e com uma espécie de raiva, me identificando com as letras e sensações, sendo eu, uma mulher feia, suja, ruim. Do que nos esperam enquanto ‘limpas’, ‘higienizadas’, ‘boas’, também me sobressalto com os papeis de gênero que não recordo de ter assinado contrato algum me comprometendo a ser, demarcados na maternidade com cores impostas que não foram minha escolha, bem como condutas. Queria eu ser mulher barbada, desconstruída de outra maneira, sem esse útero, sem esse binarismo. Demora um tanto aprender que há mulhereS, no plural. Anti-heroicas, fora do modelo, da forma, padrão. É toda uma pressa na qual desde cedo aprendemos, por amores e dores, que útero, antes de tudo, além de marcado na alma, também é arma.


ESTELA ROSA (RJ)

Conheci Angélica Freitas não sei bem como. Sei que, em um primeiro momento, o que me encantou nela foi o bigodinho. Pensava sempre no bigodinho, aquele poema do Rilkeshake, seu primeiro livro. O bigodinho era a metáfora perfeita para uma série de coisas na vida, pensava queria ter um bigodinho metafórico. Quando peguei um útero na mão (dia desses falei para uma amiga que eu tinha um útero em pdf) entendi de fato o segredo metafórico do bigodinho. Na verdade, lá atrás, um útero me disse que com bigodinho eu poderia ser uma mulher suja. Um útero, um punho e eu suja com o meu bigodinho. Podem jogar no Google: uma mulher suja é uma mulher de bigode. E com uma mulher de bigode, bem, cês já sabem.


YASMIN NIGRI (RJ)

Feminismo e poesia brasileira: impressões sobre Um útero é do tamanho de um punho
Estabeleci um contato mais estreito com a poesia em 2015, ano em que conheci Um útero, por intermédio de um amigo, numa mesa de bar. Folheei o livro e logo de cara encontrei o poema da mulher limpa, na contracapa outro poema genial falava da mulher mais ou menos bonita. Fiz campanha pra que o livro fosse estudado na oficina que eu frequentava, me comprometi a entrar em contato com a autora e convidá-la a estar presente. Angélica estava viajando, mas topou uma entrevista por email. A partir daí mergulhei cada vez mais no seu trabalho, culminando na redação de um artigo apresentado na Abralic em 2016 e uma nova entrevista feita esse ano será vinculada na Revista Caliban. Artigo: http://www.abralic.org.br/anais/arquivos/2016_1491264022.pd


ANA KIFFER (RJ)
pilhagem poética em voltagem sublime

1.flagre como os discursos tornam-se verdades e consensos; 2.saqueie esse mesmo conjunto – frases, ditados, interjeições rítmicas da infância afásica; 3.agora meu véio mostre a que veio – assuma a sua estatura. estou aí quando leio A. Freitas. antes da onda feminista de hoje. ao mesmo tempo numa certa espiral do modernismo “pau”- brasil que contra/põe o útero – em forma de punho. que apunhala os nossos clichês. deslocamento radical do sentido instituído no que há de mais vulgar – um certo ar sublime vigora nessa inversão tática: uma poética da crueza. comigo condiz. cansada do cozimento brando e incessante das nossas carnes. 



JULIA RAIZ (PR)

Quando eu abri o Um útero é do tamanho de um punho pela primeira vez, numa página aleatória, lembro de ter pensado que nunca tinha lido nada igual. Alguns anos depois, quando comecei a dar aula no cursinho solidário “Tô Passada”, iniciativa do Transgrupo Marcela Prado em Curitiba, decidi dar aula de literatura a partir da ideia de amor na poesia. Era um recorte pretencioso que começava no século XIX e chegava na produção contemporânea. A discussão mais marcante foi por causa do último poema lido: “eu durmo comigo”, principalmente, porque todo mundo cabia naquele “eu”. No mesmo dia a turma escreveu e compartilhou outros poemas sobre amor. Foi legal demais!


MICHELINY VERUNSCHK (PE)

Era 2013 e eu estava no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier, interior de São Paulo. Eu já havia lido sobre “O útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas, e o que havia lido não era nada elogioso. Numa noite, comprei o livro em uma tenda e o levei comigo. No dia seguinte, fui almoçar sozinha, o livro e eu. E o li inteiro ali mesmo e compreendi o motivo de ele ser tão atacado. Poesia em alta voltagem sobre o que é ser mulher numa sociedade patriarcal. Esse livro tem uma potência que me impressiona. É um documento importante sobre a barbárie mas, sobretudo, não perde em carga poética. É um livro para o presente e para o futuro.


BRUNA MITRANO (RJ)

lembro, com incontinência de riso aqui, do incômodo que o livro causou, como causa uma mulher suja, “porque uma mulher boa/é uma mulher limpa”, como causa “uma mulher gorda”, como causa uma mulher “gorda e bêbada”, como causa uma mulher escrevendo. “eu vim pra incomodar”, né, Karol Conka? viemos. a Angélica veio. é um levante. nada faz parar mais, não.


JARID ARRAES (CE)

Vejo “Um útero é do tamanho de um punho” como um livro de combate. Ele te diz a que veio já de cara e acho muito significativo que associe o útero à força, briga – assim, na capa. Coisa que se repete nele inteiro. É um livro de luta. Em muitos poemas, é um livro de raiva, de grito. E ao mesmo tempo tem um humor que me despertou muita identificação. Sempe acho bonito quando vejo mulheres o descobrindo porque chegam atraídas por esse tom, e aí também acabam descobrindo a poesia como uma possibilidade de ser entendida, de fugir de qualquer padrão de escrita poética, ou do que se relaciona à poesia geralmente. Percebo esse livro como uma porta que se abre para que mulheres escrevam poesia que morde, ri e ainda abre mais caminhos.


CARLA DIACOV (SP)

as mulheres de O Útero é do Tamanho de um Punho vieram se somar às mulheres que tenho espalhadas pelo corpo e pelo corpo do caminho até aqui (minha mãe, minhas avós, tias, primas, namoradas e minhas outras carlas nas fotografias dos acontecimentos). essas mulheres se instalaram, estão aqui, de mãos dadas com as minhas. essas mulheres todas estão em debate o tempo todo e lendo e relendo os poemas restauramos passagens, momentos em que me fiz valer do PunhoÚtero, da imensa força gerada desde o todo fêmea, que precisa, constantemente, estar de útero empunhado. intuitivamente e então com o livro, reconheci e pude batizar as várias ocasiões-porrada em ser mais uma mulher num mundo macho. posso afirmar que O Útero é do Tamanho de um Punho alimenta minhas tantas reentradas nesse mundo. O livro está em constante diálogo com minhas mulheres. é bonito o rebuliço.


Tuesday, January 24, 2017

o martelo no brasil


agora tem "o martelo" no brasil, leitorinhas. vai sair pela garupa, com posfácio da deusa carol almeida,  e vai tá à venda na lojinha da garupa no facebook, depois de hoje.



esse é o belíssimo flyer do evento:




e essa é a belíssima foto usada nele,
do glorioso poeta and tradutor sergio maciel
(que btw lança livro mês que vem fiquem de olho)




Monday, October 17, 2016

são paulo, piva



o viaduto que liga a rio branco à rudge, 
da varanda de jessica





"já é quinta-feira na avenida Rio Branco onde um enxame de Harpias
       vacilava com cabelos presos nos luminosos e minha imaginação
       gritava no perpétuo  impulso dos corpos encerrados pela
       Noite
os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos
       secos  enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembléias
       de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar
       asilo na  tua face?"




(trecho de visão 1961, de "paranoia")



Tuesday, August 30, 2016

sobre o nonsense (uma tradução de celan e um poema de italo)


traduzi esse poema nas carreiras hoje de manhã, mal-dormida depois de ontem; dilma, imensa, tendo que dar satisfação àquela cambada de ladrão, e a gente aqui, suspenso, sem entender nada. e traduzindo esse texto de celan (de die niemandsrose, 1963) me lembrei de outro, de italo diblasi ("gaia ciência", tirado de no limite da navalha, seu primeiro e tão-lindo livro), que copio logo abaixo.








Havia terra neles, e
eles cavavam.

Eles cavavam e cavavam, assim passavam
o dia, a noite. E eles não davam glória a Deus,
esse, ouviam, que queria que tudo fosse assim,
esse, ouviam, que sabia que tudo era assim.

Eles cavavam e não ouviam mais nada,
eles não ficavam mais sábios, não compunham canções,
não inventavam mais nenhuma linguagem.
Eles cavavam.

Veio o silêncio, veio também a tempestade,
todos os mares vieram.
Eu cavo, tu cavas e o verme também cava,
e aquele cantante ali diz: cavem.

Ai de algum, ai de nenhum, ai de ninguém, ai de ti:
Para onde foi, já que não foi a lugar algum?
Ai de ti que cavas e eu cavo, cavo até você
e no nosso dedo desperta a aliança.

(paul celan em tradução minha com colaboração de jakob ganslmeier)






Gaia Ciência

é proibido
cuspir
no prato

é proibido
dormir
no asfalto

é proibido
trepar
no mato

é permitido
açoitar
as massas

é permitido
erigir
as farsas

é permitido
morrer
às traças

paremos, portanto, de fingir
que Nietzsche estava errado
quando enlouqueceu às portas
de explicar esse caralho





Wednesday, August 24, 2016

um poema de flávio morgado e uma foto feita por ele


água

o espelho de narciso
o estige de aquiles
o batismo de são joão
o recurso da hidrelétrica
a usina a barragem
o rio a sede
sua luz gutural
seu desprendimento de chuva
os dois átomos de hidrgênio
os fitoplânctons o pulmão
a remissão do solo à pétala

em última escala,
a permissão desse poema
e a última vida humana
a sua ausência

... desconhecem seu nome

ao ver tunico, meu sobrinho,
sair de seu banho dando
tchau para a aguinha


(esse poema coisa-mais-linda está no segundo livro de flávio, uma nesga de sol a mais, que dá pra comprar no site da 7letras)


uma nesga de sol no sol
©morgado




Thursday, July 28, 2016

ewout lendo gregory corso na beira do rio e duas fotos desse dia





Looking at the map of the world
(do livro "the happy birthday of death", 1960)

Germany has lots of meat
O what a treat!
Yet I thought of monkey meat
And dared not eat.

Holland has beautiful blond children
Different than Brueghel's children
Who are cheruby potatosacks

Sweden has sinister schemes to create
the airports of space and time

St. Paul's of England
is God's men's room

France has created the weird guillotine

Italy has given beauty to the world

Spain where the cult of bloodstream
roils sad gayety

Monaco is useless to the world.

Mexico is enslaved in Ten Commandments
-- the brightest catch of God

America is the most promising of empires
-- stamp collectors will have to re-geminate
their American albums

Venezuela had a dead man on the shore.











Saturday, July 23, 2016

douda correria em berlim


no começo do mês, nuno moura e joana bagulho, os pais da douda correria, organizaram uma série de leituras em berlim com ricardo, érica, sean, o próprio nuno e esta vaca profana que vos escreve. posto aqui alguma documentação das leituras, foi tudo lindo.




foto de ricardo da leitura de érica,
que convidou luísa nóbrega e lotte 
para lerem com ela


ricardo na segunda noite
 lendo o belíssimo carta a antínoo

Carta a Antínoo

Que me importam o império as vilas
as efígies nas moedas se o teu cheiro
ocupa ainda cada canto angular
da arquitetura
mas teu pescoço teus pés teu tórax
já não os habitam
e as águas do Nilo não permitem
que este teu cheiro
agora se evada se exale e me excite ou exalte
uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte
outros que tua influência se tornara indesejável
nunca houve lugar para Eros
entre as intrigas de corte
eu já não me lembro tua morte talvez
a tenha ordenado quiçá tenha sido
castigado por meus inimigos
os mais cruéis sugerem que o ato
fora uma fuga tua dos meus cafunés
das minhas mãos geriátricas
não sei não sei tua lembrança
ocupa o espaço de todo o resto
que eu poderia agora memorizar
ordens execuções missões diplomáticas
a fundação de cidades já não me alegra
se tu já não serás um dos cidadãos
as revoltas de bárbaros tão-só
me entediam
se tu não me acompanhas nas campanhas
divinizar-te é consequência lógica
doravante estarás no panteão
entre aqueles que agora
por um motivo a mais invejo
se teu exercício de natação sem volta
foi mesmo sacrifício ou autoimolação
eu me pergunto que deus te merecia
mais do que eu
dizem as boas bocas pelas ruas de Roma
que eu chorei por ti como uma mulher
como se eles pudessem distinguir o gênero
das águas salinizadas
Pancrates de Alexandria comparara
uma flor-de-lótus a ti e não o contrário
e com isso ganhou meus favores
tu eras o parâmetro
de todos os sistemas da simetria
Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia
ser varrida vasculhada
jamais outro com teu pescoço
teus pés teu tórax
tu eras o príncipe das belugas
Antínoo tu foste meu antinão







livrosh da douda


eu li uns poema pornô d'o martelo
e suas traduções pro inglês 
que manuel wetscher e eu fizemos
(foto feita pela joana)





sean bonney é um poeta inglês que vive em berlim e cujo livro cartas contra o firmamento foi lançado pela douda esse ano, traduzido por miguel cardoso. a leitura de sean foi maravilhosa. dentre outros, ele leu esse poema aqui:


ACAB: A nursery rhyme

 for “I love you” say fuck the police / for
“the fires of heaven” say fuck the police, don’t say
“recruitment” don’t say “trotsky” say fuck the police 
for “alarm clock” say fuck the police
                                                       for “my morning commute” for
“electoral system” for “endless solar wind” say fuck the police
don’t say “I have lost understanding of my visions” don’t say
“that much maligned human faculty” don’t say
“suicided by society” say fuck the police / for “the movement
of the heavenly spheres” say fuck the police / for
“the moon’s bright globe” for “the fairy mab” say
fuck the police / don’t say “direct debit” don’t say “join the party”
say “you are sleeping for the boss” and then say fuck the police
don’t say “evening rush-hour” say fuck the police / don’t say
“here are the steps I’ve taken to find work” say fuck the police
don’t say “tall skinny latté” say fuck the police / for
“the earth’s gravitational pull” say fuck the police / for
“make it new” say fuck the police
                                                       all other words are buried there
all other words are spoken there / don’t say “spare change”
say fuck the police / don’t say “happy new year” say fuck the police
perhaps say “rewrite the calendar” but after that, immediately
after that say fuck the police / for “philosopher’s stone” for
“royal wedding” for “the work of transmutation” for “love
of beauty” say fuck the police / don’t say “here is my new poem”
say fuck the police 
                say no justice no peace and then say fuck the police






nuno leu na íntegra o seu letras para dance music. fiz este vídeo desastroso (desastroso não somente por estar com uma qualidade super baixa - não sei como ajeitar isso na câmera, help! - mas por terminar bruscamente, porque causa da bateria vazia) porém com amor:






(pra compensar a horrorosidade do meu vídeo,
uma foto nítida, com ricardo domeneck
roendo as unhas)






ps: o martelo está à venda em lisboa nas livrarias pó dos livrosletra livre, sr. teste e na fnac. para quem estiver no brasil e quiser comprar, dá pra encomendar por pay-pal. é só mandar email pra editora (miasoave@sapo.pt).

Wednesday, July 20, 2016

ricardo lendo hilda machado na sua sala e três fotos desse dia





(com intervenção especial de érica zíngano)


Miscasting

“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles


estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga


ewout













Saturday, July 02, 2016

um poema de wislawa no aniversário de wislawa


scan de [poemas], coletânea de wislawa szymborska querida, 
em tradução de regina przybycien

Monday, June 27, 2016

outra coisa


hoje é o lançamento de "ficcionais vol. 2" uma coletânea organizada por schneider, que (agora vem o ctrl+c ctrl v do release) "foi arquitetada a partir da seção Bastidores. A cada edição, um autor é convidado a escrever livremente sobre o processo de composição de sua obra".

a lista de autores: angélica freitas, micheliny verunschk, ana paula maia, andrea del fuego, luci collin, débora ferraz, maria valéria rezende, carola saavedra, paula fábrio, sérgio sant'anna, joão almino, ronaldo correia de brito, marcelino freire, estevão azevedo, tiago novaes, bruno liberal,  silviano santiago, everardo norões, raimundo carrero, josé luiz passos, caco ishak, antonio geraldo figueiredo ferreira, julian fúks, antonio xerxenesky,  antonio carlos viana, joão paulo parísio, luis henrique pellanda, eucanaã ferraz, sidney rocha and essa vaca profana que vos escreve.


o lançamento nacional do livro é hoje,  na livraria blooks do shopping frei caneca, com um debate com três dos autores presentes na obra: julián Fuks, sidney rocha e micheliny verunschk. aqui é o link do evento no facebook.

capa and travesti



ps: desculpa dois posts de merchandising num dia só às vezes acontece :)

Friday, June 17, 2016

poema inédito na modo

plus uma foto belíssima da minha pessoa (num vou mentir).








(cenas do documentário "under the spell of horses")









aproveito pra agradecer a ricardo domeneck que deu um tapa no meu vocabulário de pangaré e revisou lindamente o poema.





Tuesday, June 14, 2016

audre lorde e james baldwin



"And nobody can say a thing
about our being lesbians
because
I am president now"








diante dos ataques de ontem em orlando, essa semana esse blog vai ser gay (como se já não fosse). 

#loveislove

Monday, June 13, 2016

ricardo #2


20.
Na rua, empertigo-me todo,
alinho omoplatas e ombros,
os cabelos bem penteados,
as roupas novas e limpas,
pois, de cada janela 
de bonde ou ônibus,
talvez seus olhos

ricardo domeneck em "cigarros na cama"







2003

2011


















Carta ao pai

Agora que o senhor
mais assemelha pedaço
de carne com dois olhos
dirigidos ao teto escuro
no leito em que provável
só não há-de morrer só
porque nem a própria
saliva poderá engolir
por si na companhia
somente desta sonda
que o alimenta
me pergunto se ainda
em validade a proibição
da mãe em confessar
ao senhor os hábitos
amorosos das mucosas
que são minhas
e se deveras me amaria
tanto menos soubesse
quanta fricção já tiveram
que não lhes cabia
biológica ou religiosa
-mente e se também
pediria para sua filhoa
a morte que desejou
a tantos de minha laia
quando surgiam na tela
da Globo da Record
da Manchete do SBT
que sempre constituíram
seu cordão umbilical
com a tradição
e se deveras faria
sobrevir sobre eles
grande destruição
pela violência
com que urrava
seus xingamentos
típicos de macho
nascido no interior
desse país de machos
interiores e quebrados
em seus orgulhos falhos
de crer que o pai
é o que abarrota
geladeiras e não deixa
que falte à mesa
o alimento que nutre
as mesmas mucosas
em que corre
o seu sangue
mas não seu Deus
e ora neste leito partido
o cérebro em veias
como riachos insistentes
em correr
fora das margens
se o senhor
soubesse o dolo
com que manchei
a mesa
de todos os patriarcas
ainda pergunto-me
se me receberia
com a mansidão
que aceita na testa
o beijo desta sua filhoa
que nada mais é
que a sua imagem
e semelhança invertidas
tal espelho
que refletisse opostos
de gênero e religião
ou o desenho
animado na infância
de uma Sala de Justiça
onde numa tela
podia-se observar
um mundo ao avesso
e se o Pai e o pai
odeiam deveras
o gerado nas normas
da Biologia e Religião
mais tarde porém geridos
na transgressão das leis
que o Pai e o pai
impõem-nos na ciência
de sermos todos falhos
nessa Terra onde procriar
é tão frequente
que gere prazer
nenhum e olho
o senhor
com essas pupilas
que talvez jamais
reflitam o Pai
mas ora veem o pai
eu
mesmo pedaço
de carne
com dois olhos
peço perdão
em silêncio
pois sequer posso
dizer que não
mais há tempo
e mesmo assim
e porém
e no entanto
e contudo
pelo medo adversativo
de talvez abalar
uma sistema rudimentar
de alicerces
sob a casa
sob o quarto
sob esta cama
de hospital
emprestada
escolho
uma vez mais
o silêncio




diante dos ataques de ontem em orlando, essa semana esse blog vai ser gay (como se já não fosse). 

#loveislove

Sunday, June 12, 2016

stela do patrocínio, parte 8 (e última), procurando falatório

pág. 141

Eu já falei em excesso em acesso muito e demais
Declarei expliquei esclareci tudo
Falei tudo que tinha pra falar
Não tenho mais assunto mais conversa fiada
Já falei tudo
Não tenho mais voz pra cantar também
Porque eu já cantei tudo que tinha que cantar
Eu cresci engordei tô forte
Tô mais forte que um casal
Que a família que o exército que o mundo que a casa
Sou mais velha do que todos na família

pág. 143

Me transformei com esse falatório todinho
Num homem feio
Mas tão feio
Que não me aguento mais de tanta feiúra
Porque quem vence o belo é o belo
Quem vence a saúde é outra saúde
Quem vence o normal é outro normal
Quem vence um cientista é outro cientista



essa semana teremos só stela do patrocínio, porque é tempo de stela. os textos que vão aparecer aqui são do livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2002), organizado por vivane mosé. agradeço a ricardo domeneck por ter me emprestado o livro.

stela do patrocínio, parte 7, botando o mundo pra gozar e sem gozo nenhum

pág. 121

Perdi o gosto o prazer o desejo a vontade de querer

pág. 122

Eu não tenho coragem de enfrentar nada
Eu tenho que enfrentar a violência
A brutalidade a grosseria
E ir à luta pelo pão de cada dia

pág. 123

Eu sou mundial pobre
Tudo pra mim é merda durinha à vontade
Até ser contaminada e contaminada até ser merda pura
E é merda fezes excremento bosta cocô
Bicha lombriga verme pus ferida vômito escarro porra
Diarréia disenteria água de bosta e caganeira

pág. 125

Eu não sei o que fazer da minha vida
Por isso eu estou triste
E fico vendo tudo em cima da minha cabeça
Em cima do meu corpo
Toda hora me procurando me procurando
E eu já carregada de relação sexual
Já fodida
Botando o mundo inteiro pra gozar e sem nenhum gozo

pág. 127

Você já está me comendo tanto com os olhos
Que eu já não tenho de onde tirar força
Pra te alimentar

pág. 130

É quadrilha exército povoado
Bloco médico escoteiros e bandeirantes
Isso é família porque família é família
Tudo é família
Você não é família?

Uma família é uma reunião uma reunião
Uma família pra mim é uma reunião de médicos e cientistas
Minha família era a família que se garantia
E sumiu de repente desapareceu mudou
Mudou não sei se foi porque mudaram as vestimentas
A família toda com as mesmas roupas
Com roupas iguais
E aí mudou as roupas
Pra poder ficar mais difícil a diferença entre nós

Escoteiros quem vence são bandeirantes
Bandeirantes quem domina e vence são escoteiros
Família é quadrilha exército povoado
Bloco médico escoteiros bandeirantes
Corpo de bombeiros quadrilha exército
Povoado bloco médico corpo de bombeiros

pág. 131

Se eu pegar a família toda de cabeça pra baixo
E perna pra cima
Meter tudo dentro da lata do lixo e fazer um aborto
Será que acontece alguma coisa comigo?
Vão me fazer alguma coisa?

Se eu pegar durante a noite novamente a família
toda de cabeça pra baixo
E perna pra cima
Jogar lá de dentro pra fora
Lá de cima pra baixo
Será que ainda vai continuar acontecendo
alguma coisa comigo?

pág. 133

Me ensinaram a morder chupar roer lamber e dar dentadas





essa semana teremos só stela do patrocínio, porque é tempo de stela. os textos que vão aparecer aqui são do livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2002), organizado por vivane mosé. agradeço a ricardo domeneck por ter me emprestado o livro.

Saturday, June 11, 2016

stela do patrocínio, parte 6, reino dos bichos e dos animais é o meu nome

pág. 109

A vida a gente tem que aceitar como a vida é
E não como a gente quer
Se fosse como eu queria
Eu não queria ver ninguém no mundo
Não queria ver ninguém na casa
Queria estar toda hora comendo bebendo fumando
Assim é que eu queria que fosse meu gosto

Mas como eu pulei muro despulei muro
Pulei portão despulei portão
Pulei lá de cima pro lado de fora
Do lado de fora pro lado de dentro
Quer dizer que eu...

Não é como eu gosto
Eu não esperava pular janela despular janela

pág. 113

Lá no portão eu disse
Quero pastar à vontade que nem camelo
Pra ver como fica o resultado da história da vida de Cristo

pág. 116

Depois do entre a vida e a morte
Depois dos mortos
Depois dos bichos e dos animais
Só fica a vontade como bicho e como animal

pág. 118

Meu nome verdadeiro é caixão enterro
Cemitério defunto cadáver
Esqueleto humano asilo de velhos
Hospital de tudo quanto é doença
Hospício
Mundo dos bichos e dos animais
Os animais: dinossauro camelo onça
Tigre leão dinossauro
Macacos girafas tartarugas
Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
Jardim Zoológico Quinta da Boa Vista
Um verdadeiro jardim zoológico
Quinta da Boa Vista






essa semana teremos só stela do patrocínio, porque é tempo de stela. os textos que vão aparecer aqui são do livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2002), organizado por vivane mosé. agradeço a ricardo domeneck por ter me emprestado o livro.

Friday, June 10, 2016

stela do patrocínio, parte 5, a parede ainda não era pintada de azul

pág. 97

No céu
Me disseram que deus mora no céu
No céu na terra em toda parte
Mas não sei se ele está em mim
Ou se ele não está
Eu sei que estou passando mal de boca
Passando muita fome comendo mal
E passando mal de boca
Me alimentando mal comendo mal
Passando muita fome
Sofrendo da cabeça
Sofrendo como doente mental
E no presídio de mulheres
Cumprindo prisão perpétua
Correndo um processo
Sendo processada

pág. 98

Eles disseram pra mim
Você não pode passar sem um homem
Sem mulher sem criança sem os bichos sem os animais
Mas alimentação e super-alimentação você
também não pode ter

pág. 100

Só depois da relação sexual é que eu posso
carregar tudo pela língua e pela boca

pág. 101

Tinha terra preta no chão
Um homem foi lá e disse
Deita aí no chão pra mim te foder
Eu disse não
Vou me embora daqui
Aí eu saí de lá e vim andando
Ainda não tinha esse prédio
Não tinha essa portaria
Não tinha esse prédio
Não tinha essa portaria
Não via tinta azul pelas paredes
A parede ainda não era pintada de azul

pág. 102

Eu fui agarrada quando eu estava sozinha
Não conhecia ninguém não conhecia nada
Não via ninguém não via nada
Nada de cabeças de corpos
Nada de casa nada de mundo
Eu não conhecia nada eu era ignorante

Depois que eu fui agarrada pra relação sexual e pra foder
Depois, só depois eu comecei a ter noção e ficar sabendo
Antes eu não fazia nada
Não dependia de nada
Não fazia nada
Era como uma parasita
Uma paralisia um câncer



essa semana teremos só stela do patrocínio, porque é tempo de stela. os textos que vão aparecer aqui são do livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2002), organizado por vivane mosé. agradeço a ricardo domeneck por ter me emprestado o livro.