Monday, January 15, 2024

dia 3, marselha

Quando os nazi vieram para cima dos comunistas, eu fiquei quieta: eu não era comuna.
Quando eles foram pra cima dos sindicalistas, eu fiquei quieto: eu não era sindicalizada.
Quando eles vieram pra cima dos macumbeiros, eu fiquei quieta: eu não era macumbeira.
Quando eles vieram pra cima de mim, não tinha sobrado ninguém que pudesse lutar por mim.

 

Esse é o talvez o trecho mais famoso de “Zuerst kamen sie”, texto de 1946 do pastor alemão Martin Niemöller, traduzido para o recifês por moá. Deu muito tempo para pensar nele enquanto batia uns 13 km de trilha com Renata.

Pensei no texto hoje porque lembrei de e estou na terra dela, Annie Ernaux, a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura que poucos dias atrás se juntou aos mais de 500 artistas, cineastas, escritores e trabalhadores da cultura de todo o mundo, que anunciaram uma campanha contra a posição da Alemanha na guerra de Israel em Gaza, convocando a comunidade a boicotarem associações financiadas pelo Estado alemão.

Mas Annie é uma exceção entre intelectuais europeus brancos. E o texto de Niemöller é justamente sobre o silêncio dos intelectuais e do clero alemães após a ascensão dos nazis ao poder e a violência subsequente que cometeram contra inúmeras comunidades europeias – de desempregados a trabalhadoras sexuais, de moradores de rua a judeus, de homossexuais a romanis, de comunistas a testemunhas de jeová.

No original, Niemöller não fala de macumbeiros, fala de judeus, mas se trata acima de tudo de solidariedade com as comunidades perseguidas pelo fascismo e pelo nazifascismo, através dos tempos. 

Hoje não tem metáfora de encerramento do post, kkk, já basta o poema. E aqui, umas fotos da trilha:







Renata e uma cratera misteriosa


Eu pensando em Niemöller, Annie e na vontade de mijar que eu tava




Sunday, January 14, 2024

dia 2, marselha

Logo quando acordei, fiquei sabendo por um amiga, via zap, que o senador de cultura de Berlim, o conservador Joe Chialo (do CDU), anunciou que o financiamento públicopara artistas vai depender de um juramento de lealdade a Israel.

A notícia era de uma semana antes, mas eu não estava sabendo, todo dia uma é uma novidade ruim diferente, fico perdida. Mas agora, mais essa: Chialo declarou que, para obter financiamento público, os artistas e as instituições culturais vão ter que assinar um juramento de lealdade ao Estado de Israel, e se comprometerem a se distanciar do que ele chama de “extremismo” e de apoiar o “direito de Israel à existência”. 

Estruturalmente falando, o que a gente tá vendo é censura e um desmonte descarado da democracia burguesa (que é  uma bosta, mas é um pouco melhor que fascismo), começando pela parte que todo fascista ataca primeiro e goza fazendo: a cultura. Esse SEMPRE é o começo do fim.

Mas num âmbito mais pessoal, a medida não me afeta diretamente, já que as instituições culturais berlinenses fingem que não me veem há muitos anos. Independente de quanto eu me inscreva pra bolsas e outras oportunidades de financiamento, e de quão bom seja meu trabalho (porque meu trabalho é bom, não preciso ficar aqui com melindres de falsa modéstia), a verdade é que desde que me filiei ao único partido anticapitalista e antifascista de relevância, o Die Linke, e desde que comecei a militar nele, mas SOBRETUDO desde que comecei a organizar inquilinos na luta por moradia de maneira sistemática, as poucas portas que estavam aberta para mim, na “cena” se fecharam. Sobraram os guetos, a cena da esquerda radical, e eu aceito. Mas não posso sequer sonhar com sustento vindo da minha escrita, mais. Não na Alemanha de 2024 (e do futuro, ao que parece).

Foi com esse sentimento de apocalipsinho que eu e Renata fomos pra passeata de apoio à Palestina e contra a (terrível!) nova lei de migração francesa, que estava marcada pras 14h no centro de Marselha. Muitas, mas muitas mesmo das pessoas que vi no Ballroom na noite de sábado estavam na passeata do domingo: as bichas, as sapatas, as NB, as trans, ao lado das aposentada, das vovó com Kufiya, dos véi do Partido Comunista Francês, tudo reunido ali, lado a lado, na nossa maravilhosidade antirracista, pacifista, pró-Palestina.

Uma coisa que achei interessante foi a forma como a repressão policial se expressou: em Berlim, a polícia apenas tem descido o cacete nas passeatas (isso quando permite que elas aconteçam at all). Aqui, achei que tinha muito pouca polícia na concentração e também relativamente pouca durante o trajeto – mas foi só quando nos dispersamos que me dei conta da quantidade de força policial nos arredores do trajeto oficial da passeata, em viaturas, em motos, a pé, como cobras. Covardes.

Depois fomos comer num restaurante tunisiano que não amei, mas o prato tava bonito, e pra compensar enchi o toba de batata frita. Depois de comer, fizemos um passeio pra auxiliar a digestão (kkk) e fiquei pensando: o que se passa na cabeça de Joe Chialo, e de tantos outros políticos atuais, para imaginarem uma Berlim (e uma Alemanha) sem seus imigrantes, ou sem seus cidadãos alemães com ascendência não alemã (veja o post de ontem). Uma Europa sem seus imigrantes. Quem essa galera acha que faz a cultura do país, em 2023? Don Mee Choi, Ghayath Almadhoun, Musa Okwonga, Grada Kilomba – ou uma cosplay de Lydia Tár tocando harpa e tendo delírios neonazistas num conservatório de uma cidade alemã qualquer?


em novembro de 2018, um prédio de um bairro 
popular, Noailles, desabou, por causa da negligência
por parte da empresa dona do prédio e descaso das autoridades.
oito pessoas morreram, a maioria pessoas não-brancas.
a placa foi instalda por iniciativa dos vizinhos sobreviventes,
que não deixam as vítimas serem esquecidas.


no caminho pra manifestação

iaí?




o cumê tava lindo!

anfitriôa guiando o passeio da digestaum


Saturday, January 13, 2024

dia 1, berlim, marselha

Parto para Marselha um dia depois que a Alemanha abriu a boquita em Haia pra dizer os países que denunciam o genocídio causado por Israel são uó e que eles – os alemães! – se oferecem como mediadores.

De tarde, fui pra natação kkkry (ref: MC Kafka: "2 de agosto de 1914: A Alemanha declarou guerra contra a Rússia. À tarde, fui pra natação"). Cheguei bem no aeroporto, apesar de greve dos condutores de trem, e no aeroporto mesmo nem foi tão horrível quanto geralmente é.

Na sala de embarque, conheci Brigitte. Começamos a conversar quando eu achei que tinha metido meu cachecol na cara dela sem querer e pedi desculpa. Ela, engraçada: “não se preocupe, você não casou lesão corporal grave” e riu. Eu logo vi que não era alemôa, não somente pelo sotaque, mas pelo humor. Aprofundamos a conversa: francesa do norte do país, tinha ido a Berlim visitar filho e netos, e agora voltava pra cidade no sul da França, para onde ela se mudou há apenas seis meses, depois de se separar de um marido abusivo com quem foi casada 47 anos. Perguntei porque, e ela disse sem arrodear: “porque demorei 47 anos pra perceber que ele não ia mudar”. Admirei a honestidade, quando ela concluiu “e sabe o que é a coisa mais estranha, minha filha? Ainda tem um lado meu que sonha que ele vai mudar, porque eu sinto muita saudade”. Foi bonito ver alguém que não queria ser agradável, nem engajar num small talk tabacudo de aeroporto. Eu perguntei com interesse verdadeiro, ela respondeu verdadeiramente. Sobretudo me comoveu o fato de que: se pra gente (que cresceu e se socializou num mundo de redes sociais e com ideia feministas um pouco mais naturalizada) não é fácil assumir as contradições da heteronormatividade, imagina para alguém de quase 70 anos, que cresceu e se socializou em outro contexto, com outras linguagens e expectativas para mulheres?

O voo foi tranquilo, eu tenho pânico de viajar de avião mas não sei porque estava tao tranquila e não tive susto hora nenhuma. Foi bonito ver os Alpes e Marselha de cima; além disso, tinha me esquecido de que independente de quão nublada seja a cidade, em cima das nuvens o sol sempre brilha. Foi bom lembrar. 

Quando chegamos, Brigitte me ajudou a encontrar o ônibus pro centro, que eu peguei, e fui encontrar minha anfitriôa, Renata, no ateliê dela. E de noite fomos num ballroom, e Deus como me senti peixe fora d’água, com meu moletonzinho marrom e minha legging preta e meu oclinhos e minha vontade de sentar (numa cadeira!) kkk Mas foi tão bom ver as jovens ocupando a rua pra frangar!

Antes de dormir somei as notícias de Haia com as que chegaram poucos dias antes, de que o partido nazista AfD se encontrou, em novembro de 2023, com lideranças do partido democrata-cristão (CDU) e outras organizações da extrema-direita, para delinear, entre outras coisas, um plano de deportações em massa – inclusive de pessoas com passaporte alemão mas ascendência não-alemã. Eu nunca entendi porque alguns intelectuais que admiro, quando perseguidos pelo nazifascismo (que não eram apenas judeus, como Brecht, por exemplo) sobreviveram por deixar o país a tempo, enquanto outros não. Quais sinais foram mal interpretados? Onde a análise de conjuntura falhou? Qual capital social havia ou não havia – contatos, amizades, vantagens – que ajudaria a determinar que uns morressem e outros não? Eu tenho pensando mais nisso agora do que o normal. 

Renata

os Alpes

Grace Jones, é a senhora?

Marselha e a ilha

essa fonte maravilhosa

Renata de costas e um corassaum


Monday, June 12, 2023

i'm bringing dra. vodca back (yeah)

Esse ano, se estivesse vivo, o vodcabarata completaria 18 anos. Com a efeméride da maioridade da Dra. Vodca em mente, e muito inspirada na deliciosa newsletter da minha amiga Gisela Gueiros, minha ideia é reviver um pouco do espírito do finado blog (que era tipo Sex and the city sendo que nos trópicos, ou seja, Sex and Recife kkk), com 12 posts temáticos, no decorrer de 2023, e depois partir pra outra. Gostasse? Janeiro foi sobre os corno, fevereiro foi sobre fotografia, marco foi sobre memória, abril foi uma carta de despedida para minha casa antes de um despejo, maio foi sobre como uma queda que levei escadabaixo me fez ficar pensando em coisas, e junho tem mais! A newsletter chega no teu email todo último domingo do mês. Assina aqui, mulé: https://adelaideivnova.substack.com/



Friday, December 31, 2021

direito é algo que deve ser ampliado e privilégio é algo que deve ser combatido

Depois que postei um vídeo de Lukas tomando a dose de reforço, algumas pessoas me escreveram questionando por que ele teve acesso à vacina, enquanto tantas outras nao têm. Acho importantíssimo trazer esse tema pra cá, pra todo mundo, porque ele toca em algumas questões importantes, que são muito maiores que um gringo vacinado, que queria compartilhar com vocês. São esboços de pensamentos, ainda, nada concreto e definitivo, provavelmente incompletos. Conto com a paciência de quem ler.

1. Direito versus privilégio
Basicamente, direito é algo que deve ser ampliado e privilégio é algo que deve ser combatido. Saúde pública, gratuita e acessível pra todos é um direito, mas nem todos têm acesso. Por isso é que a gente precisa sempre lutar (no capitalismo, nada nos é concedido sem luta) para que esse direito seja mantido, melhorado e ampliado. Já o acesso privilegiado e privatizado a serviços de qualidade precisa ser exposto, questionado e combatido. Volto a esse tópico no fim deste texto.

2. O SUS é muito muito muito maravilhoso e precisa ser protegido, mas não é perfeito
Ao menos na teoria, para ter acesso à vacina, uma pessoa precisa ter CPF AND comprovante de residência. Isso é um impedimento grave para alguns dos grupos mais vulneráveis da população: pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, pessoas vivendo em situação de rua, pessoas vivendo em ocupação, imigrantes sin papeles, refugiados etc. Sabemos muito bem que a absoluta maioria das pessoas que fazem parte destes grupos são pessoas negras, indígenas, não-brancas.

Para vocês terem uma ideia, a vacinação de refugiadosno Brasil só começou em agosto desse ano, quando muita gente já estava tomando a segunda dose. Só que já em março de 2021 a ONU alertava que imigrantes e refugiados de todo o mundo deveriam ter acesso aomesmo esquema de vacinação que os cidadãos, para combater a pandemia o mais rápido possível e evitar novas cepas do vírus. Posso garantir, como imigrante não-naturalizada vivendo na Alemanha há 11 anos, que meu acesso à vacina chegou tarde e não foi nada fácil de conseguir. Já Lukas é um mero turista, mas vou falar disso no tópico 5.

3. Discrepâncias de um sistema que é quase-perfeito no papel mas ainda tem falha na prática
Semana passada visitamos meu primo segundo Amaro Balu, agricultor familiar aposentado vivendo na minha Gravatá do Jaburu, distrito de Taquaritinga do Norte que, no Censo de 2003, tinha um índice de pobreza subjetiva em quase 47%. Amaro nos contou que as agentes da USF (Unidade de Saúde da Família) iam de casa em casa vacinando as pessoas e que ele já tinha tomado a terceira dose e mal podia esperar pela quarta. Amaro Balu é um sertanejo pobre de 79 anos.


esse é meu primo Amaro em 2021
aqui tem ele na época que eu achava que ia ser videomaker
kkk em 2006 (minuto 1'20'')

Já semana retrasada, na última das muitas atividades militantes que tivemos desde que chegamos em Recife, um companheiro do MTST nos explicou que quem vive em ocupação não estava tendo acesso à vacina, já que não podia comprovar residência. Foi a luta dos sem-teto, foi a organização popular e comunitária, que tornou acessível a vacina para mais trabalhadores vivendo em ou participando de ocupação.

4. A realidade é concreta
Vivemos no mundo como ele é. Europeus brancos vivem, em maior ou menor grau, dos resquícios de séculos de pilhagem europeia no sul global. Eles ainda são o Sujeito Viajante do nosso tempo. Lukas se inclui nessa lista. O turismo dessas pessoas é real e, como vimos:
a) esse turismo não vai ser questionado, nem impedido, nem regularizado enquanto vivermos sob o capitalismo – que, todos sabemos, está aí pra priorizar o lucro e não a manutenção da vida na Terra;
b) esse turismo não vai ser questionado, nem impedido, nem regularizado enquanto vivermos em governos entreguistas, sem foco em autonomia e soberania nacional;
c) esse turismo é um dos responsáveis pelo espalhamento da doença no mundo.

Assim sendo, já que a realidade concreta é que essas pessoas continuarão vindo, é da maior importância que ao menos elas estejam circulando vacinadas pelo nosso país – não por questões morais, mas simplesmente por questões de segurança sanitária nacional.

5. Racismo estrutural e privilégio branco
Eu não tenho a menor dúvida que o acesso de Lukas à vacina foi facilitado pelo fato de ele ser um homem europeu branco. Não preciso fazer nenhum esforço pra imaginar as milhares de pessoas não-brancas e não-naturalizadas, que tentaram se vacinar nao somente no Brasil mas também no mundo, sem conseguir. Na Europa, refugiados e imigrantes ainda encontram dificuldades em serem vacinados, por conta das absurdas lei de imigração. Aliás, #nobordersnonations.

5.1 Como Lukas conseguiu ser vacinado?
Tentamos em alguns pontos em Recife mas não conseguimos, apesar dele já ter comprovante de residência para os quase três meses que ficará aqui. O problema é que faltava o CPF. Já tínhamos desistido mas ontem, numa das muitas rodoviárias que passamos nos últimos dias, tínhamos três horas de espera pela lotação que íamos pegar e decidimos arriscar. A resposta da enfermeira: “Eu não sei o que é necessário, mas vou descobrir. Eu é que não vou deixar esse gringo circulando pelo meu Estado sem ter sido vacinado”. Ela nos disse que ia ver o que era preciso fazer e se consultou com um supervisor do PNI (Programa Nacional de Imunizacoes), que passou uma lista de documentos que estrangeiros devem apresentar: passaporte, RG alemão, comprovante de vacinação internacional (a caderneta amarelinha da OMS, que a mamãe aqui, hipocondríaca e esperta, mandou o boy trazer), comprovante de residência no Brasil, data de nascimento, filiação e, se aplicável, comprovante de comorbidade (Lukas, por exemplo, tem uma doença autoimune).

6. Quando é regra é clara mas é uma merda
A regra é clara: sem CPF não se vacina. Talkei. Mas a regra está errada. Então nossa lógica não pode passar a ser “nada mais justo que todos que não tenham CPF sejam tratados igualmente mal”. Essa não pode ser nossa forma de estar no mundo. A lógica precisa ser: por que não existe outra forma para vacinar aqueles que não têm documentos? Queremos que essa forma seja inventada e implementada.

Toda pessoa que quer e tenta se vacinar, e que tem o pedido de vacina recusado por causa da ausência de um papel: isso é que o problema.

7. O que diz a lei?
A LEI Nº 13.445, DE 24 DE MAIO DE 2017, que institui a lei de migração, dispõe sobre os direitos e os deveres do migrante e do visitante. Essa lei estabelece, no Artigo 3, inciso XI, o acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social. No artigo 4, inciso VIII, ela estabelece acesso a serviços públicos de saúde e de assistência social e à previdência social, nos termos da lei, sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória.


8. Uma análise errada leva a uma ação errada
A pergunta ponto-de-partida, aquela que diz “por que esse gringo foi vacinado?” é excelente. Mas ela tanto ignora a legislação brasileira (ver tópico 7), como também deixa não respondida a questão da má-distribuição dos recursos do SUS e a não-universalidade do seus serviços, na prática.

Quando a gente parte do pressuposto que racismo estrutural existe e precisa acabar; que imigrante existe e precisa ser vacinado; que o SUS existe mas que precisa ser melhorado, temos em mãos uma bússola muito mais útil. Outra maneira de dizer a mesma coisa: é do interesse de todos que todos estejam vacinados.

Outras perguntas que podem ser feitas: Quem são os grupos que não têm acesso à vacina por causa das regras de vacinação? Porque alguns se vacinam e outros não? E o mais importante: O que é preciso, e o que podemos fazer, pra mudar essa situação?

Algumas das respostas que eu daria: acabar com o teto de gastos; restabelecer o Bolsa Família; fortalecer os programas de saúde da família; restabelecer os agentes comunitários de saúde; exigir que a lei de migracao seja posta em prática para imigrantes nao brancos e refugiados; mudar as regras de acesso a vacinacao, sobretudo em momentos de crise sanitária; se organizar politicamente; derrotar o bolsonarismo nas urnas e fora delas etc.

9. Aqui, uma lista de organizações que você pode se organizar e ajudar a melhorar nosso quadro:
a) PCB: https://pcb.org.br/portal2/se-organize-no-pcb/
b) PSOL: https://psol50.org.br/filie-se/
c) PT: https://pt.org.br/filiacao/
d) PCdoB: https://pcdobdigital.org.br/autenticacao/filiacao
d) Veja como descobrir se existe um sindicato da sua profissão: https://www.salario.com.br/trabalhista/como-descobrir-sindicato-da-profissao/
e) Seja voluntário da campanha Maos Solidárias: https://www.campanhamaossolidarias.org/apoie-nos

e dá um google tu aí também né bebê!

Thursday, August 13, 2020

#defendaolivro

 

"O ministro Paulo Guedes enviou uma proposta de reforma tributária que colocou uma taxação de 12% em cima dos livros. Atualmente, os livros não possuem essa taxa, pois o objetivo disso (quando proposto por Jorge Amado) era tornar o acesso à cultura mais fácil. Infelizmente, sabemos que esse acesso já não é tão fácil assim. Se aprovado o Projeto de Lei 3887/2020, os livros irão se tornar mais caros e inacessíveis do que já são para grande parte da população. Afetando, assim, não somente os que têm apreço à leitura, mas também editoras menores sustentadas por famílias que já LUTAM por sua sobrevivência e, consequentemente, autores de livros - em especial os nacionais não famosos".

clique aqui para assinar a petição Diga Não à Tributação de Livros


trecho de maiakovski em 
"incompreensível para as massas"
poema de 1927
(a tradução é de haroldo de campos)




Monday, August 03, 2020

uma tradução de lamento borincano pro recifês e umas pitanga pra chorar



lamento sertanejo

passa doido de alegria com sua jumentinha
e vai para a cidade, vai para a cidade
leva no seu pensamento todo mundo
cheio de felicidade, de felicidade
pensa em melhorar a situação
de sua casa, que é toda sua alegria, sim

e alegre o matutinho vai pensado assim
dizendo assim, cantando assim pelo caminho:
"se eu vendo essa carga meu deus querido
um traje para a mulher eu vou comprar!"
e alegre vai sua burrinha também
sentindo seu cantar
que é todo um hino de alegria

e nisso vem o nascer do dia
ao chegar na feira da cidade
passa a manhã  inteira sem que ninguém queira
sua carga comprar, sua carga comprar
tudo está deserto e o povo está passando
necessidade, necessidade
os lamentos se ouvem em toda parte
em caruaru, infeliz cidade

e triste o matutinho vai pensando assim
dizendo assim, chorando assim pelo caminho
"que será de caruaru meu deus querido
que será dos meus filhos e do meu lar"
caruaru a capital do forró
a que, ao cantar, o grande gonzaga
chamou de país 
e agora que sofre com tantos pesares
deixa eu cantá-los também


 


 por anos era impossível ouvir lamento borincano sem cair nos prantos. a partir do momento que pude entender a letra (com aquela versão de caetano veloso), ela sempre me lembrou vovô, a parte da biografia dele que não vivi, porque foi antes deu nascer. imaginar vovô perambulando pelo agreste de pernambuco tentando vender, como ambulante, os frutos de seu trabalho, era imagem e passado demais pra mim, que só o conheci como agricultor aposentado pelo funrural.

com o tempo minha relação com a letra, assim como com a ausência de vovô, morto em 2003, foi ficando menos dolorosa, porque à medida que eu me politizava mais agência eu via na existência dele (sofrida pela falta de recursos, mas plena na consciência de classe que ele tinha).

hoje eu consigo escutar lamento borincano como o retrato da realidade dos trabalhadores rurais e/ou autônomos da américa latina e das periferias do capitalismo que ela é. não tenho fetiche pela derrota e não romantizo o sofrimento do povo, mas acho que essa letra, assim como a de pearls de sade, e asa branca, de luiz gonzaga, nos ajudam a lembrar que existe um mundo cheio de gente sofrendo por questões que atravessam, em maior ou menor escala, todes nós trabalhadores.

eu fiz essa tradução sem muito rigor métrico, apenas pensando em vovô e nessas músicas latinas, que são icônicas pra classe trabalhadora e pros emigrados internos. e escrevo esse post ciente de que essas que cito, lamento borincano e asa branca, são apenas duas de milhares, porque se tem uma coisa que ninguém sabe fazer melhor do que a américa latina é música popular. 

fiz essa tradução num domingo de noite morrendo de saudade de pernambuco, de vovô, de vovó, do nordeste, preocupada com o agreste de pernambuco que tanto tem sofrido com o corona, preocupada com a paraíba, enfim, preocupada.

*

a versão original, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, reflete a situação econômica dos trabalhadores rurais pobres de porto rico do anos 20, cujo sofrimento culmina com a depressão de 1929 (a música foi gravada no mesmo ano). o que traduzi como "matutinho" é, no original, "jibarito" - jíbaro é relativo a um povo ameríndio da zona oriental do equador ou o nome que se refere aos camponeses que habitam as regiões montanhosas da ilha de porto rico/Borinquen. a canção não usa o nome moderno porto rico, mas sim seu nome pré-colombiano, Boriquen (daí o título). eu tomei a liberdade de traduzir Borinquen para Caruaru porque traduzi a letra pensando em vovô. no original, Hernandez Marín cita ainda o poeta portorriquenho José Gautier Benitez ("el gran gautier"), que traduzi como luiz gonzaga que é, por sua vez, o compositor de asa branca, um poema sobre migração interna:






asa branca
luiz gonzaga

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar ai pro meu sertão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar ai pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

*

para alegrar nossos corações, recomendo ouvir esse podcast com a história de maria, que conseguiu se livrar de são paulo e voltou pro seu sertão. agradeço demais à amiga raquel por ter enviado essa lindeza. e queria dedicar esse post também à amiga jéssica, que vai saber do que tô falando.


Wednesday, July 15, 2020

os camponeses, a luta pela terra e a origem da palavra vilão


1. a etimologia da palavra "vilão"

"A palavra 'vilão' refere-se ao habitante de uma vila. Poderá ter origem na palavra latina villanus, referindo-se a alguém ligado a uma villa - uma grande quinta ou plantação agrícola, no Império Romano - significando, portanto, um camponês. Na Idade Média, o termo passou a equivaler a um não-nobre. Significando alguém não nobre, o termo 'vilão' passou, modernamente, a ser usado para se referir a alguém que pratica atos não-nobres ou indignos, como o roubo, o homicídio ou a violação. Os camponeses medievais eram os maiores alvos" (grifos meus)


2. pôster antigo do CNT


e essas corrente aí se partido,
uma alusão muito maravilhosa às últimas linhas
do manifesto comunista
("as trabalhadora nada têm a perder além das algema")


3. uma 3x4 de seu Luiz Ferreira, militante do MST assassinado por um dono de terra, enquanto protestava pacificamente por água potável. 



4. pastores perto da fronteira da turquia com o norte da síria, que encontrei nas minhas andanças no google street view (podia ser ali por toritama, né, é tão parecido, fico tão emocionada com o mundo).


Kilis


Toritama





eu junto essas descobertas numa panela e o resultado que me vem à mente é: como é importante disputar os significados. silvia federeci fez recentemente uma contribuição muito maravilhosa nesse aspecto, quando desvendou pra gente a etimologia da palavra "fofoca". e teve toda a disputa que fizemos nas redes sociais recentemente em torno do termo "antifa". vilão, fofoca e antifa são apenas três exemplos disso. linguagem é poder. tem vários videos de rita von hunty, todos maravilhosos como ela, sobre isso também. 

outra coisa que penso, mas essa é mais tabacuda: a melhor coisa de escrever um livro é a pesquisa. aliás, essa talvez seja a única coisa boa haha.





Sunday, June 28, 2020




16 de agosto de 2019

Wednesday, June 24, 2020





all yours
babooshka babooshka babooshka 
ya ya

Friday, June 19, 2020






And while I'm in this body 
I want somebody to want 
And I want what I want 
And I want 

You 
To love me

Saturday, April 11, 2020

mais nordeste, por favor! (e uma lista de movimentos e iniciativas que você pode ajudar em tempos de corona)




MAIS NORDESTE, POR FAVOR! #3 especial covidseusamigosprumalive é um zine que reúne textos lidos por 15 poetas nordestinxs, em leituras transmitidas ao vivo no meu instagram em março de 2020. de uma dessas leituras participou ainda a maravilhosa tassyla queiroga (sousa, paraíba, 1987), lendo um poema da também maravilhosa adrienne rich, que não publicamos aqui porque a adrienne não nasceu e nunca morou no nordeste (infelizmente!). o desejo da nossa live foi chamar a atenção pra campanha de arrecadação do MTST (movimento do trabalhadores sem-teto): vaka.me/947032 e o desejo da zine é, além de espalhar a palavra do nordeste antifa, chamar a atenção pra outras iniciativas solidárias, rolando em pernambuco e no brasil (links no fim desse post).





ELENCO MARAVILHOSO (por ordem escalafobética):
antônio lacarne (fortaleza, ceará, 1983)
bell puã (recife, pernambuco, 1983)
cândido rolim (várzea alegre, ceará, 1967)
érica zíngano (fortaleza, ceará, 1980)
kátia borges (salvador, bahia, 1968)
lucy rivka (vive em fortaleza, ceará, nasceu em curitiba em 1986)
mailson furtado (cariré, ceará, 1991)
mika andrade (quixeramobim, ceará, 1990)
nina rizzi (vive em fortaleza, ceará, nasceu em campinas em 1983)
pedro bomba (aracaju, sergipe, 1989)
priscilla campos (recife, pernambuco, 1990)
raísa christina (quixadá, ceará, 1987)
           selecionou poema de leandro durazzo (que mora no rio grande do norte) 
regina azevedo (natal, rio grande do norte, 2000)
sara síntique (iguatu, ceará, anos 90)
           selecionou poema de bárbara costa ribeiro (nascida em macapá, em 1994, vive em fortaleza)
vitória régia (fortaleza, ceará, 1991)

e uma participação especial do grupo de hip-hop maranhense clã nordestino!





UMAS INICIATIVA MASSA QUE VOCÊ PODE AJUDAR
Mãos solidárias é a ação do MST-PE, em parceria com a Frente Brasil Popular de Pernambuco. A acao vem distribuindo refeições, kits de higiene e oferecendo banhos a grupos em situação de vulnerabilidade no Recife. Bora ajudar? 
Associação da Juventude Camponesa Nordestina - Terra Livre
Banco do Brasil
AG: 0697-1 (Recife)
CC: 58892-X
CNPJ: 09.423.270/0001-80


o MTST vem distribuindo cestas básicas e material de desinfecção em várias cidades do país. Até o começo de abril, o movimento já tinha fornecido 19 toneladas de alimentos e mais de 200 litros de álquingel, totalizando mais de seis mil pessoas beneficiadas! Pia: vaka.me/947032

a Articulação Recife de Luta ajudou, até agora, mais de 400 famílias, em oito comunidades de Recife. Se liga: vaka.me/956633

o Hospital Oswaldo Cruz, referência em Covid-19 em Pernambuco, também está precisando de seu apoio, com doações em dinheiro ou mantimentos! Saiba mais em @comvidahuoc

a campanha #cadaimpressaoconta, da Comunidade Maker de Pernambuco, vem arrecadando doações pra produção e distribuição de EPIs por todo o estado. Saiba mais: apoia.se/cadaimpressaoconta

o Mutirão do Bem Viver é a campanha da Sociedade do Bem Viver, em resposta à pandemia, para a criação de hortas e cozinhas comunitárias em todo país, além de fazer doações de cestas de alimentos agroecológicos. Cola lá: vaka.me/962531

a Livroteca Brincante do Pina, em Recife, abriu campanha de arrecadação de distribuição de alimentos, água e sabão na comunidade do Bode. Se liga: livrotecabrincantedopina.siteo.one


#sepuderfiquincasa
#bolsonaroarrombado
#nembolsonaronemmilitares
#vivamadonna (sempre)



Thursday, March 12, 2020

a única corona que interessa


uma tradução esbaforida que fiz em 2016 de corona, poema-tão-lindo que celan escreveu para ingeborg bachmann, publicado em seu primeiro livro, "mohn und gedächtnis", de 1952.




Corona

O outono devora suas folhas em minhas mãos: somos namorados.
Descascamos o tempo de dentro das nozes e o ensinamos a partir:
O tempo volta pra casca.

No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca diz a verdade.

Meu olhar desce pro sexo da amante:
Nos olhamos,
dizemos coisas sombrias,
nos amamos como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o brilho sanguíneo da lua no mar.

De pé abraçados à janela, o povo na rua nos vê:
é tempo que saibam!
É tempo da pedra se preparar para florescer,
que a inquietação faça bater um coração.
É tempo de ser tempo.

É tempo.



Corona

Aus der Hand frißt der Herbst mir sein Blatt: wir sind Freunde.
Wir schälen die Zeit aus den Nüssen und lehren sie gehn:
die Zeit kehrt zurück in die Schale.

Im Spiegel ist Sonntag,
im Traum wird geschlafen,
der Mund redet wahr.

Mein Aug steigt hinab zum Geschlecht der Geliebten:
wir sehen uns an,
wir sagen uns Dunkles,
wir lieben einander wie Mohn und Gedächtnis,
wir schlafen wie Wein in den Muscheln,
wie das Meer im Blutstrahl des Mondes.

Wir stehen umschlungen im Fenster, sie sehen uns zu von der
                                                                Straße:
es ist Zeit, daß man weiß!
Es ist Zeit, daß der Stein sich zu blühen bequemt,
daß der Unrast ein Herz schlägt.
Es ist Zeit, daß es Zeit wird.

Es ist Zeit.



Wednesday, October 23, 2019

mnpf! #2 especial siará



mais nordeste, por favor! #2 especial SIARÁ foi editado por adelaide ivánova e antônio lacarne, entre agosto e outubro de 2019, durante as queimadas na floresta amazônica e o vazamento de óleo nas praias do nordeste – que já se tornou o maior desastre ambiental da costa brasileira. ambos são culpa do governo criminoso de jair bolsonaro, e do capitalismo global extrativista, do qual bolsonaro é representante pau-mandado.



a arte da página 11 é uma releitura carinhosa da ilustração 
“o grande rio”, do artista leonilson (ceará, fortaleza, 1957-1993).
o rio jaguaribe é bem grande, 
corta o ceará todinho,
mas dá uma passadinha em exu,
a cidade onde luiz gonzaga, o maior poeta de todos,
nasceu. 


para essa edição, prescindimos, no último minuto, de editorial, que substituímos pela fala de vandécio, trabalhador pernambucano, publicada no dia 20 de outubro pela plataforma SALVE MARACAÍPE. acreditamos que a fala de vandécio resume todo o absurdo da situação, e expoe a necessidade do acirramento da luta de classes e do nosso engajamento na construção do ecossocialismo.

quando se fala em genocídio da juventude negra, é importante apontar que a maioria percentual dos jovens negros vítima da necropolítica brasileiras está no nordeste ("os cinco estados com maiores taxas de homicídios de negros estao localizados no nordeste"). isso, somado aos vazamentos e à negligência do poder público e da opinião pública em relação ao óleo, são um caso escancarado de racismo ambiental ("o que é racismo ambiental?").

enquanto isso, os partidos de esquerda (inclusive o psol, ao qual sou filiada) têm feito muito pouco para além de bradar nas redes sociais que bolsonaro é criminoso e que o ministro é incompetente (e protocolar uma e outra coisa, aqui e ali, a portas fechadas, sem ou com pouca participação dos REAIS atores sociais dessa tragédia: os/as profissionais da pesca).

mas é preciso MUITO mais do que isso. os partidos, que têm recursos materiais para mobilizar e organizar, precisam estar na linha de frente, organizando a militância para ir aos locais e ajudar os afetados na limpeza das praias, coletar e entregar doacoes, convocar um protesto interestadual. pressionar o ministro e solicitar ajuda da marinha é importante. mas o mais importante é incomodar e sacudir os centros do capitalismo - isso só se faz com maioria organizada e mobilização.

quando começamos, em 2018, a organizar a primeira greve feminista alemã desde 1994, para o ano de 2019, os partidos alemães bradavam que a gente não podia fazer isso, porque uma greve política é ilegal na alemanha. e daí? se as mulheres nos hospitais públicos já estavam se auto-organizando e convocando a greve? o resultado é que, mesmo com o apoio malamanhado dos partidos, milhares de mulheres aderiram à greve como podiam, e foram aos protestos.

relatamos esse exemplo porque alguns representantes dos partidos têm tomado posição semelhante, no que diz respeito aos vazamentos. não é aceitável que eles digam "aim mas é o governo federal quem tem recursos para parar os vazamentos". baby, as pessoas já estão nas praias se queimando de óleo. a diferença é se os partidos se juntam, ou se ausentam. e a segunda opção não deve ser aceitável.

diante disso, estamos cientes de que não devemos romantizar a mobilização dos civis que estão limpando óleo com as próprias mãos - até porque, passada a comoção inicial, os estudantes universitários, ativistas e ambientalistas de ocasião voltarão pras suas casas na capital e quem vai ficar por conta própria são os/as trabalhadores da orla e os/as profissionais da pesca - pescadores e coletadores - com seu modo de sustento ameaçado e talvez até totalmente destruído.

PORÉM.

a narrativa hegemônica da história do "brasil" (o pós-invasão portuguesa), dominada pelo sudestinismo esbranquiçado, baba-ovo de europeu, tende a apagar completamente nordestinas e nordestinos enquanto sujeitos revolucionários. o homem coletivo sente a necessidade de lutar, lembram? esse zine é um pouco sobre isso. para ler o editorial da primeira edição, na qual essa questão é mais aprofundada, clique aqui.

o mais nordeste, por favor! #2 especial siará é gratuito, mas incentivamos os leitores e as leitoras (que tenham um $inho sobrando) a fazerem doacoes para a campanha de financiamento coletivo de limpeza das praias no nordeste

a capa consiste de uma lista com algumas das mais de 200 praias nordestinas afetadas.

você pode baixar seu exemplar em dois formatos:

para imprimir em casa
ATENÇÃO na hora de imprimir:
selecionar a opção imprimir frente-e-verso/inverter páginas na borda curta


para visualizar na web


biografias (por ordem de aparição)

VANDÉCIO SEBASTIÃO DE SANTANA - pernambuco, cabo de santo agostinho, 1983
É um trabalhador. Vive de bicos ligados ao mar e ao turismo ecológico há seis anos, quando ficou desempregado após trabalhar como operador de emergência de vazamento de óleo em uma empresa de análise de qualidade de água. Leia mais sobre Vandécio aqui.

JULIANA FARIAS DE SOUZA – ceará, sobral, 1998.
É poeta, estudante de Letras e publica seus poemas no facebook.

FELIPE ANDRÉ SILVA – pernambuco, recife, 1991
É poeta e cineasta. Lançou as plaquetes 'o escritor antônio xerxenesky' e 'o aniversário de billie eilish'. Quer ser editado.

FELIPE SARAIVA – ceará, fortaleza, 1993
É escorpiano e tutor de três gatos. Também graduado em Comunicação Social, dispõe as brechas de seu tempo entre a literatura e a fotografia. Atualmente, publica – ou tenta publicar – crônicas semanais na plataforma Medium e vem planejando um livro de poesia.

PATATIVA DO ASSARÉ – ceará, assaré, 1909–2002
Poeta popular, compositor, cantor e improvisador. Ingressou na escola aos 12 anos, quando começou a escrever poesia. Aos 16, ganhou uma viola da mãe e deu início à criação de repentes. Um de seus poemas mais conhecidos, “A triste partida”, foi cantado por Luiz Gonzaga.

MIKA ANDRADE – ceará, quixeramobim, 1990
É poeta e contista. publicou: 'alguns versos pervertidos e outros indecorosos', 'descompasso' e 'poemas obsessivos'. participou da 'antologia de contos – literatura br', da 'coletânea de contos do sesc vol. iv e em 2019 organizou a antologia erótica de poetas cearenses, O olho de Lilith.

TASSYLA QUEIROGA – paraíba, sousa, 1987
Poeta nascida no sertão. Viajante inquieta. Dividida entre Literatura e Direito, com poemas publicados nas Revistas Garupa, Gueto, Diversos Afins e Ruído Manifesto. O primeiro livro de poemas será lançado em outubro pela Edições Macondo.

ANA MONTENEGRO – ceará, quixeramobim, 1915–2006
Jornalista, poeta, feminista, militante comunista pelo PCB. Foi a primeira mulher exilada da ditadura, passando pelo México, Cuba e Berlim. Publicou livros como: “Mulheres – participação nas lutas populares”, “Uma história de lutas”, “Ser ou não ser feminista”, “Tempos de exílio”.

RAISA CHRISTINA – ceará, quixadá, 1987
É artista visual, escritora e educadora, mestra em Artes pelo ICA-UFC, com pesquisa "Olhares suspensos: Desenho partilhado com jovens skatistas e seus percursos errantes em Fortaleza". Em 2019, é a autora convidada do projeto Arte da Palavra - Rede SESC de Leituras. Esse é seu site.

ISABEL BARROS – ceará, quixeramobim, 1954
É poeta e artesã. Ainda criança, foi levada da sua casa para trabalhar como empregada doméstica numa casa de família, situação análoga à escravidão, pois nunca recebeu salário. Aos 50 anos, passou a frequentar a escola mais próxima, onde se alfabetizou e começou a escrever poemas.

obs: dona Isabel nos mandou seus poemas por áudios de whatsapp (clique aqui para ouvi-los). Agradecemos a Ivna Girão e ao Coletivo Nigéria, por nos ajudar a achar e entrar em contato com a poeta. 

ÉRICA ZÍNGANO – ceará, fortaleza, 1980
É poeta. Seu último livro é o livro coletivo eine Sache für eine andere, com participacao de diversos autores. Em 2018, ganhou o prêmio/bolsa de trabalho “literatura de língua não-alemã” do Estado de Berlim. Depois de quase oito anos morando fora do Brasil, em 2019 decidiu voltar.

DEAN OLIVER – ceará, maracanaú, 1994
Formado em Filosofia (UFC) e escreve poemas. Já foi professor e agora trabalha como barista. Louco por arte nas suas mais variadas formas e eternamente acompanhado de um auto sabotador imbatível.

KARINE ALEXANDRINO – ceará, fortaleza, 1974
É cantora, compositora, performer e poeta. Lançou os álbuns “Solteira Producta” (2002), “Querem acabar comigo Roberto” (2004) e “Mulher Tombada” (2015). Em 2019 completa 25 anos de carreira na música.

VITÓRIA RÉGIA – ceará, fortaleza, 1991
É professora de língua portuguesa, tradutora e escritora. Publicou os livros de poemas Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). O poema que usamos no zine apareceu antes na revista Literatura.br.

LEVI MOTA MUNIZ/DEBBIE BANIDA DEBANDADA – ceará, fortaleza, 1996
É artista não-binário/travesti. Realiza investigações artísticas em diversas áreas e é mestrando em Arte da UFC, onde se graduou em Teatro-Licenciatura. Na escrita, estuda as relações entre auto-ficção e escrita performativa, se debruçando, sobretudo, nos temas de gênero, violência e ecologia.

CANDIDO ROLIM – ceará, várzea alegre, 1965
É poeta, crítico, fotógrafo e músico amador. Alguns livros publicados: Arauto, Exemplos alados, Pedra habitada, Fragma, Camisa qual, Orumuro & Remerzbau (em parceria com Ronald Augusto e Ricardo Pedrosa Alves) e o mais recente, Sutur, saiu em 2018, pela editora Território.

NARA SOUSA – ceará, caucaia, 1994
É poeta.

MAILSON FURTADO – ceará, cariré, 1991
É escritor, ator, diretor, dramaturgo, produtor cultural e cirurgião-dentista. Seu livro “À cidade” foi vencedor nas categorias de livro do ano e poesia no Prêmio Jabuti 2018. Em Varjota, lidera a companhia teatral Criando Arte.

PAULO AUGUSTO – rio grande do norte, pau dos ferros, 1950
É poeta e jornalista, autor de apenas um livro de poemas, Falo (1976) e Estilhaços de Um País-Geni (1995), crônicas e ensaios. O poema que utilizamos na zine apareceu antes na revista Modo de Usar & Co.

dos editores:
antônio lacarne é professor da rede pública cearense e escritor. publicou “Salão Chinês” (2014), “Todos os poemas são loucos” (2017) e “Exercícios de fixação” (2018).
adelaide ivánova é jornalista e ativista política. filiada e militante do psol e do die linke. ganha a vida como baby-sitter, garçonete, vendedora, seguranca de teatro, modelo-vivo e outros trabalhos precarizados. em 2018, seu livro "o martelo" ganhou o prêmio rio de literatura.

Tuesday, October 22, 2019

EU TAMBÉM QUERO FAZER OCEANOGRAFIA (e aí?)


fala de Vandécio Sebastião de Santana
publicada no instagram da plataforma salve maracaipe


O óleo estava ali.
Estava entrando no mar
E daqui a três meses?
E daqui a seis dias?
O marisco vai estar poluído, é?
A gente vai morrer por causa do marisco, é?
A gente vai morrer por causa do peixe é? Que está poluído?
A gente podendo conter o óleo agora ali.
Qual foi a de vocês?
Qual foi a de vocês?
Qual é?
Eu também quero fazer oceanografia, pô.
Tenho uma dificuldade do caralho.
Já morei em Recife.
Pra estudar.
E não consegui terminar.
E aí?
Sou nascido e criado aqui, na praia.
Qual foi a de vocês?
O que é que vocês querem?
Quer comer peixe poluído, é?
Quer comer marisco poluído, é?
Quer comer ostra poluída, é?
Eu já tirei quase duas toneladas dum cacho de ostra, do manguezal.
E aí?
Vai ficar assim, olhando, é?
A gente treinou isso lá em Abrolhos, em 2012.
Com helicóptero.
Com navio-prancha.
Com navio de contenção.
Com barreira de contenção de mais de dois metros.
As barreiras têm que ser off-shore.
Porque esse óleo está vindo off-shore.
Esse óleo não está vindo de Porto, não.
Tem que fazer essa contenção lá no off-shore.
Tem que fazer essa contenção lá no off-shore.
Lá em Muro Alto.
Lá em Maracaípe, tem que fazer essa contenção.
E vocês aí.
Achando que esse trabalho de areia está sendo suficiente.
Não está, não, minha gente.
Esse trabalho é o último.
Desde cedo que eu continuo a dizer.
Esse trabalho de areia é o último.
O último trabalho.
O trabalho primeiro é lá, no off-shore.
É lá, off-shore.
Meu nome é Del, Vandécio Sebastião de Santana.
Sou nascido e criado aqui.
Já trabalhei em hotel, nem hotel tem mais.
As quadras de tênis estão ali, abandonadas.
Na praia de Suape.
Entendeu?
Vocês têm que agir agora.
Quem é do órgão ambiental,
Quem é da prefeitura:
Tem que agir agora.
A gente tem várias empresas, pô.
Lá em Abrolhos a gente contratou as marisqueiras, contratou os barcos,
os pescadores:
Todo mundo recebeu.
Todo mundo trabalhou bonito, no simulado.
E agora está acontecendo na hora real.
Está acontecendo real.
Agora.
Eu não estou falando palavrão.
Eu não estou falando esculhambado.
Eu não estou xingando ninguém, não.
Eu estou querendo que todo mundo ajude a natureza, minha gente.
Ajuda a natureza.
Daqui a um ano vocês estão lá em Miami comendo peixe do Brasil.
E o peixe vai estar poluído.