Tuesday, October 22, 2019

EU TAMBÉM QUERO FAZER OCEANOGRAFIA (e aí?)


fala de Vandécio Sebastião de Santana
publicada no instagram da plataforma salve maracaipe


O óleo estava ali.
Estava entrando no mar
E daqui a três meses?
E daqui a seis dias?
O marisco vai estar poluído, é?
A gente vai morrer por causa do marisco, é?
A gente vai morrer por causa do peixe é? Que está poluído?
A gente podendo conter o óleo agora ali.
Qual foi a de vocês?
Qual foi a de vocês?
Qual é?
Eu também quero fazer oceanografia, pô.
Tenho uma dificuldade do caralho.
Já morei em Recife.
Pra estudar.
E não consegui terminar.
E aí?
Sou nascido e criado aqui, na praia.
Qual foi a de vocês?
O que é que vocês querem?
Quer comer peixe poluído, é?
Quer comer marisco poluído, é?
Quer comer ostra poluída, é?
Eu já tirei quase duas toneladas dum cacho de ostra, do manguezal.
E aí?
Vai ficar assim, olhando, é?
A gente treinou isso lá em Abrolhos, em 2012.
Com helicóptero.
Com navio-prancha.
Com navio de contenção.
Com barreira de contenção de mais de dois metros.
As barreiras têm que ser off-shore.
Porque esse óleo está vindo off-shore.
Esse óleo não está vindo de Porto, não.
Tem que fazer essa contenção lá no off-shore.
Tem que fazer essa contenção lá no off-shore.
Lá em Muro Alto.
Lá em Maracaípe, tem que fazer essa contenção.
E vocês aí.
Achando que esse trabalho de areia está sendo suficiente.
Não está, não, minha gente.
Esse trabalho é o último.
Desde cedo que eu continuo a dizer.
Esse trabalho de areia é o último.
O último trabalho.
O trabalho primeiro é lá, no off-shore.
É lá, off-shore.
Meu nome é Del, Vandécio Sebastião de Santana.
Sou nascido e criado aqui.
Já trabalhei em hotel, nem hotel tem mais.
As quadras de tênis estão ali, abandonadas.
Na praia de Suape.
Entendeu?
Vocês têm que agir agora.
Quem é do órgão ambiental,
Quem é da prefeitura:
Tem que agir agora.
A gente tem várias empresas, pô.
Lá em Abrolhos a gente contratou as marisqueiras, contratou os barcos,
os pescadores:
Todo mundo recebeu.
Todo mundo trabalhou bonito, no simulado.
E agora está acontecendo na hora real.
Está acontecendo real.
Agora.
Eu não estou falando palavrão.
Eu não estou falando esculhambado.
Eu não estou xingando ninguém, não.
Eu estou querendo que todo mundo ajude a natureza, minha gente.
Ajuda a natureza.
Daqui a um ano vocês estão lá em Miami comendo peixe do Brasil.
E o peixe vai estar poluído.





Sunday, July 21, 2019

mais nordeste, por favor! (edição #1 e chamada pra edição #2)



em maio de 2019, dei um workshop sobre poesia, movimentos sociais e revolução no nordeste brasilayro, no congresso de estudos latinoamericanos na universidade de colônia. como material didático usei, entre outras coisas, o grande zine MAIS NORDESTE, POR FAVOR!, nova publicação da bola.gato edições. em julho de 2019, esse zine fica um pouco mais relevante, considerando que o "presidente" da república não sabe que paraíba é um (grande) estado, e que o nordeste é uma região do brasil, com 9 estados e 56 milhões de habitantes. somos a segunda maior população do brasil, com o menos IDH do país. mas isso vai mudar.


mnpf! #1 tem poemas de
Bell Puã – Pernambuco, 1993
Carlos Marighella – Bahia, 1911-1969
Chico Science – Pernambuco, 1966-1997
Cícero de Souza – Pernambuco (?)
Etelvina Amália de Siqueira – Sergipe, 1872-1935
Luis Gomes – Alagoas, 2000
Luiza Amélia de Queiroz – Piauí, 1838-1898
Luiza Cantanhede – Maranhão (?)
Nazaré Flor – Ceará, 1952-2007
Mestre Galdino – Pernambuco, 1929-1996
Regina Azevedo – Rio Grande Do Norte, 2000
Vitória Lima – Paraíba, 1946

mais dois poemas de autoria coletiva, que fazem parte dos repertórios dos encontros do MIQCB (Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu), criado em 1995, e do MMTR-Ne (Movimento Da Mulher Trabalhadora Rural Do Nordeste), criado em 1984.



trecho do editorial:
"o Nordeste brasileiro sempre produziu uma análise de mundo própria para sua realidade, que é até hoje relegada às margens da academia, como se fosse subalterna. além disso, o posicionamento político do sujeito Nordestino, historicamente ligado a auto-organização e a levantes populares, é insistentemente ligado, hoje em dia, a um mito de antirracionalidade. no seu texto 'razão não depende da geografia', a jornalista e socióloga pernambucana fabiana morais vai dizer que 'no imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago'".




clique na foto para baixar a versão para visualização na web

clique na foto para baixar a versão para imprimir
(para imprimir certinho, na ordem bonitinha:
selecionar opção para imprimir em frente verso,
e para girar no canto mais curto da página)




ATENÇÃO PARA A CHAMADA PARA EDIÇÃO #2
linha editorial: poemas de pessoas nascidas no país nordeste. tema livre.
deadline: 16 de agosto (dia do aniversário de madonna)
email pra envio: bolagato.edicoes@gmail.com
especificações: mandar todo o material num único doc., nomeado com seu nome artístico. textos enviados no corpo do email não serão considerados.
material: até cinco poemas (A4 em times new roman 12, espaçamento simples) mais uma biografia curta (de até 5 linhas).


Monday, May 06, 2019

arte pros 99 por cento

. essa é uma tradução de adelaide ivánova pro artigo "art for the 99 percent", de luke savage, publicado em maio de 2019 na revista jacobin. link pro texto original: https://jacobinmag.com/2019/05/wealth-art-creativity-resources-redistribution


cartaz de "on the road" filme de walter moreira salles, "o cineasta mais rico do mundoe que, junto com seu irmãos, possui um patrimônio estimado em 62 bilhões de reais, vindo de investimentos em bancos e monopólio no setor de metalurgia e mineração. walter salles também é um dos donos do instituto moreira salles (RISOS).



ARTE PROS 99 POR CENTO

Jovens ricos têm muito mais propensão a virarem artistas. E esse é o motivo pelo qual o capitalismo não dá a todos nós a liberdade de atingir nosso potencial criativo

Se sua família tem dinheiro, você tem mais chances de virar artista. Uau que surpresa.

Isso é o que mostra um estudo publicado em fevereiro de 2019 pelo professor Karol Jan Borowiecki, da Univesidade do Sul da Dinamarca. Ao examinar os dados dos sensos dos EUA, desde 1850, a pesquisa de Borowiecki identifica e documenta várias tendências -- demográficas, geográficas e sócio-econômicas -- no desenvolvimento das profissões criativas.

As conclusões do estudo não são particularmente impressionantes, mas ainda assim são dados interessantes, dada a meticulosidade dos detalhes envolvidos em qualificá-las. Nas palavras de Borowiecki:

A proporção de criadores mulheres é relativamente alta, falta de tempo pode ser um obstáculo para realização de uma ocupação criativa, desigualdade racial é real e muda muito lentamente, e educação tem um papel significativo para se assumir uma ocupação criativa. 
Talvez a coisa mais importante do estudo é descobrir que, juntamente com [acesso à] educação, a riqueza da família de uma pessoa tem um grande papel na hora de determinar a possibilidade de alguém se tornar artista ou criador profissional. A quantificação desse pensamento expoe a extensão alarmante com a qual riqueza determina a profissão de uma pessoa.

De fato, as descobertas de Borowiecki sugerem que ter US$ 10 mil de renda familiar total torna uma pessoa cerca de 2% mais propensa a buscar uma ocupação criativa -- o que significa dizer que uma pessoa que vem de uma família que vale US$ 1 milhao tem vinte vezes mais chances de se tornar um artista do que aquele cuja família vale US$ 100 mil. (Isso não significa, óbvio, que a maioria dos artistas sejam pessoas ricas -- o estudo também mostra que as rendas dos trabalhadores de arte tendem a ser mais baixos que a média).

A pesquisa de Borowiecki pode ser usada pra simplesmente confirmar uma já existente e entediante caricatura do artista como um ser privilegiado, educado e vindo de antecedentes abastados, que curte uma vida mansa. Lida dessa forma, a pesquisa pode reforçar um antiquado ressentimento de classe. Afinal de contas, faz tempo que membros da burguesia adotaram as artes -- tanto como distração divertida pras suas vidas aconchegantes, quanto como um jeito de consumir amostradamente.

Mas há ainda, para nós, uma forma menos invejosa e potencialmente mais construtiva de interpretar [os dados]. Se a atividade criativa está relacionada à educação, segurança econômica e direito a ter tempo livre; e se essas coisas tendem a se corresponder com riqueza, então o problema não é nada dessas coisas em si, mas sim sua má-distribuição. Vista dessa forma, a descoberta de Borowiecki pode simplesmente complementar o argumento pró-socialismo democrático -- que, acima de tudo, quer oferecer tempo livre, educação, bem-estar material para todos, não somente para uns poucos privilegiados, como é nos tempos atuais.

Se ter tempo, boa educação e segurança econômica aumentam a chance de as pessoas seguirem seus impulsos criativos, essa é mais uma razão pelos quais estes devam ser tratados como direitos aos quais todos devem ter acesso. Liberdade real, afinal de contas, significa a habilidade de usar seu tempo como lhe der na telha -- pra escrever, pra pensar, pra pintar, pra fazer uma escultura ou pra não fazer nada em particular -- e, no capitalismo, os ricos parece term muito mais liberdade que o resto de nós. Mas não tem que ser assim.