Sunday, December 25, 2016

the fury of cocks, de anne sexton, em tradução pro brasileiro







A fúria das rolas

Lá vão elas
Pingando sobre os pratos do café-da-manhã,
Como se fossem anjos
com uma asa triste
Animal triste,
Sendo que ainda ontem
Lá estavam elas
Dedilhando o violão.
Mais uma vez a luz do dia vem
Com seu sol imenso,
Com seus caminhões,
Suas amputações.
Considerando que ontem à noite
A rola sabia o caminho de casa,
Dura como um martelo,
Batendo em todos
Com sua força terrível.
Que teatro.
Hoje ela está calma,
Um pássaro pequeno,
Macia como a mão de um bebê.
A mulher é a casa.
O homem é a torre da igreja. 
Quando eles fodem eles são Deus.
Quando eles se separam, eles são Deus.
Quando roncam, são Deus.
De manhã passam manteiga na torrada.
Eles não dizem muito.
Eles ainda são Deus.
Todos as rolas do mundo são Deus,
Brotando, brotando, brotando
No sangue doce da mulher.


essa tradução roleira foi feita para o zine mais pornô, por favor!,  editado por moá e ismar tirelli neto e lançado em dezembro de 2016 no museu do tubarão (att. aslan cabral, #amamos), em recife. 

segunda edição do zine tá no forno. mais detalhes soon.

Sunday, December 18, 2016

fighter, de christina aguilera em tradução pro recifês (ou "diálogo imaginário entre dilma rousseff, presidenta eleita, e michel temer, golpista")


Bom eu achei que te conhecia e que tu era sincero
Acho que não dava pra confiar em tu, teu blefe acabou
Porque eu cansei
Tu tava do meu lado, sempre, pro que desse e viesse
Mas tua aventura foi por água abaixo porque tu com tua ganância decidisse queimar meu filme

Depois de toda roubalheira e traição tu provavelmente acha que
Eu to chateada contigo
Mas meu filho tu tás enganado
Porque se não fosse por tudo que tu tentasse fazer, eu não saberia
Quão capaz eu sou de superar
Então quero te agradecer
Porque:

Tu me fez muito mais forte
Me fez querer me superar
Me fez muito mais sabida
Me fez aprender mais rápido
Me fez mais resistente
Me fez esperta
Então obrigada por fazer de mim uma guerreira

Eu nunca previ, tu me esfaqueando pelas costas
Apenas pra tu faturar um montão ca Odebrecht antes deu descobrir o golpe
Ouvi dizer que agora tu fica por aí pagando de vítima
Mas nem pense em dizer que a culpa é minha
Porque tu cavasse a própria cova
Depois de todas as brigas e as mentiras porque você não me deixa em paz
Mas isso não me afeta mais (ã-ã)
Cabou-se
Porque se não fosse por toda tortura
Eu não saberia como ser como eu sou agora e nunca me curvar
Então eu quero te agradecer
Porque:

(repete recibo)

Como pode esse boy que eu achei que conhecia
Se tornar tão uó e cruel
Eu só via a parte boa em tu
Fingindo não ver a verdade
Tu tentasse esconder as mentiras e se disfarçar
Vivendo em negação
Mas no final tu vai ver:
Nada vai me parar

Eu sou uma guerreira e eu
Não vou me curvar
Não tem volta
Cansei dessa porra.



chrisdilma aguilera






Sunday, December 11, 2016

love poem, de audre lorde


Poema de amor

Diga terra e me abençoe com a coisa mais preciosa
faça o céu tirar mel dos meus quadris
rígidos como montanhas
espalhadas por um vale
esculpidas pela boca da chuva.

E eu soube, quando a penetrei, que eu
era vento forte nas florestas dela
dedos vazios sussurrando
o mel escorreu
do canudo na taça
empalada por um arpão de línguas
na ponta dos peitos dela, do umbigo dela
e minha respiração
uivando nas reentrâncias dela
através de pulmões sofridos.

Gananciosa como uma gaivota
ou uma criança
eu rebolo sobre a terra
muitas e muitas
vezes.




traduzi esse poema para o zine anarcobucetalista MAIS PORNÔ, POR FAVOR!, que foi lançado em recife em edição única no dia 7 de dezembro de 2016, com curadoria de ismar tirelli neto e desta adelaide que vos escreve e que tinha ainda poemas de rihanna, anne sexton, audre lorde, rita isadora pessoa, maria gabriela llansol, catulo, allen ginsberg, ricardo domeneck (inédito), rafael mantovani (inédito), kavafis, luis miguel nava, jaime gil de biedma e hilda hilst.





Wednesday, December 07, 2016

lançamento mundial do zine MAIS PORNÔ, POR FAVOR!







rihanna e ricardo domeneck




é hoje! MPPF #1 editado por moá e ismar tirelli neto.

com poemas de:
rihanna, anne sexton e audre lorde traduzidas por adelaide;
catulo (traduzido por guilherme gontijo flores),
allen ginsberg (traduzido por paulo henriques britto),
kavafis (traduzido por fernanda lima),
jaime gil de biedma (tradução de josé bento),
maria gabriela llansol
e xs brasileirxs:
rita isadora pessoa,
ricardo domeneck (com texto inédito)
rafael mantovani (com texto inédito)
e deus ops hilda hilst.

Tuesday, December 06, 2016

kiss it better, em tradução pro recifês




Chupe direito
letra de rihanna, jeff bhasker, john glass e teddy sinclair



(Chupe, chupe direito, gato)

Tô esperando por aquele sol-nascer, menino, preciso dele de volta
Não dá pra fazer assim
Ninguém vai gozar assim
Aí eu reclamo, tu grita
Mas quem liga quando tá uma merda?
Meu filho você sabe que você sempre acerta
Mermão foda-se seu orgulho
Só continue, meu filho, continue
Continue a noite todinha
Continue e continue
Hummmm o que quer que você faça, só me mantenha acordada a noite toda
Me fazendo gemer e doer dentro de mim quando eu te olhar nos olhos

O que você tá pensando em fazer?
Me diga o que você tá pensando em fazer
(Chupe, chupe direito, gato)

Eu fiquei esperando a noite toda
Me diga o que tá acontecendo
Vá lá e faça as coisas direito
Faça a noite inteira
Mermão foda-se seu orgulho
Só continue, meu filho, continue
Continue a noite todinha
Continue e continue
Hummmm o que quer que você faça, só me mantenha acordada a noite toda
Me fazendo gemer e doer dentro de mim quando eu te olho nos olhos

O que você tá pensando em fazer?
Me diga o que você tá pensando em fazer
(Chupe, chupe direito, gato)




(essa foto cafona é um frame do clipe de kiss it better)


amanhã 7 de dezembro a partir das 20h no museu do tubarão tem FESTA DAS ÁGUAS, com leituras performances shows leituras de tarô concurso de miss yemanjada AND o lançamento do zine
MAIS PORNÔ, POR FAVOR! com curadoria desta adelaide que vos escreve e colaboração yemanjadíssima de ismar tirelli neto, em edição única e tiragem de 50 exemplares.


com poemas de:
rihanna
anne sexton
audre lorde
rita isadora pessoa
maria gabriela Llansol
catulo
allen ginsberg
ricardo domeneck (inédito)
rafael mantovani (inédito)
kavafis
luis miguel nava
jaime gil de biedma
e deus ops hilda hilst




Wednesday, November 16, 2016

um poema de horácio costa, um quadro de leonilson, as coisas escorregadias da linguagem, dizeres de toni morrison e um post de júlia hansen


dados novos na paisagem

um veado gordo que quer ser fotografado
usando calcinhas de mulher bem apertadinhas
para um site gay onde ele pode postar o que bem entender
e haverá quem o encontre sexy e queira sair com ele

e uma paciente trans no melhor hospital brasileiro
talvez se recuperando de uma cirurgia de mudança de sexo
caminhando com a mãe e a tia no saguão até o caixa
para pagar o estacionamento          bem na minha frente

são dados novos na paisagem         e as nuvens
que se acumularam e cruzam o céu agora
não têm memória de que choveram ontem mesmo
a esta hora justo em cima da Grande São Paulo

as orquídeas que se abrem no grande vaso vitrificado
e exalam um perfume para lá de sensual não recordam se
na sua última floração resultaram tão inebriantes
ou se viraram conversation pieces como essas

do Hospital Einstein: as senhoras às três da tarde
já esgotaram todos os assuntos no saguão mas
ninguém que falasse da bicha trans que calçava
número 45 e tinha peitos fartos como Sofia Loren:

preferiram o tema das orquídeas nesta época do ano
e que perfume! não dá para crer! porque, sim,
há algo de novo na paisagem e as senhoras, ah,
têm andado mais cuidadosas com o que dizem.


(horácio costa em "a hora e a vez de candy darling": goiânia, martelo editorial, 2016).




"mulheres ciganos comunistas homossexuais 
negros aidéticos judeus aleijados"
leonilson, 
1990,
lápis de cor sobre papel





o poema genial de horácio costa, que à primeira vista analisa a capacidade de articular uma linguagem para o desconhecido, trata de visibilidade vs. invisibilidade; e na verdade acaba falando muito mais dos cegos do que dos supostos "invisíveis". aliás, eu ODEIO esse termo, que transfere pra alguém em eventual situação de vulnerabilidade a responsabilidade pela nossa incapacidade de vê-lx, de ver o mundo, de ver o outro.

o quadro de leonilson, também genial, mostra copinhos vazios que ganham os nomes de grupo marginalizados pela sociedade patriarcal. esse trabalho me deixa engasgada toda vez que o vejo.

no poema aparece o termo "mudança de sexo" quando o termo aceito atualmente é "cirurgia de redesignação de sexo" ou " cirurgia de adaptação de gênero".

no quadro de leonilson aparecem palavras hoje em dia impensáveis de ser usadas: ciganos (atualmente o certo é roma, sinti, calon ou ainda povos nômades, mas tem gente que não curte esse último), aidéticos (atualmente o certo é HIV positivo) e aleijado (atualmente pessoas portadoras de deficiência).

poderíamos rapidamente cair na armadilha de criticar esses trabalhos pelo uso desatualizado de sua linguagem. mas mesmo pra mim, que sou fiscal pussy riot em nome de uma linguagem empática (dos outros mas da minha acima de tudo), é importante considerar não somente a fenda temporal (o poema foi escrito em 2013, provavelmente antes da readaptação do termo "mudança de sexo" e o quadro foi feito em 1990, milênios antes de pessoas foda nas redes sociais começarem a nos fazer entender que ser politicamente correto é correto) mas principalmente QUEM está dizendo as coisas. e tanto horácio quanto leonilson podem, pela sua produção e compromisso com a homocultura, falar de uma certa forma que não seria permitida a uma pessoa cis e heterossexual.

anyways, o bonito (eu acho) é sempre cuidar das palavras, pensando no outro, mesmo que esse outro não seja talvez um interlocutor direto. as palavras vão pro mundo que nem os anjos, tem isso na torah e eu não sou judia mas acho massa.

nessa aula (é longa mas vale CADA FUCKING MINUTO) toni morrison (também conhecida como deus) fala sobre isso. que usar uma linguagem respeitosa, considerate, não retira potência do texto. ela fala que podia usar essa ou aquela palavra que, à primeira vista, causam impacto, mas que ela também pode do better than that:

deus falando


mas mais do que isso, hoje li esse post da minha querida júlia de carvalho hansen, que espero que me contamine pelos próximos anos:

ontem, depois de assistir a poderosa defesa de doutorado de uma amiga, onde 4 mulheres eram as professoras arguidoras e uma das discussões foi o direito à opacidade da linguagem, peguei carona com outra professora que eu não via há milênios e fomos no caminho concordando que o nosso desejo pra 2017 é que as pessoas do planeta ensinem aos seus filhos que eles podem sentir mais coisas, que é emocionalmente possível ter mais reações do que ficarem bravos, cheios de raiva ou inflexíveis em seus desejos de terem razão. a razão, ah a razão, como às vezes é tão indelicado ter razão.




Sunday, November 13, 2016

uma tradução-recibo de um poema de ana martins marques para a língua do ex



fiz essa tradução como se fosse uma conversa no messenger, um recibo da porra passado na madrugada, enfim, como costumam ser com os recibos: enviados sem pensar e sem revisar (haha).

assim, deixei cheio dos erros de sintaxe, costumeiros do meu alemão, que ele dizia que eram um charme (afinal esse recibo é pra ele). tirei também todas as letras maiúsculas dos substantivos (como deveriam ser, em alemôo), engoli letras como na pronúncia da linguagem falada ("habe" vira "hab", "gerade" vira "grad" e assim por diante).

o original não tem nada dessa baixaria, mas como estou me divorciando, tomei a liberdade. peço desculpa a ana de antemão, mas sei que se tem alguém que vai entender, é ela. 

umfall

ich hab diesen gedicht am letzten tag geschrieben
und danach haben wir uns nicht mehr gesehen
am anfang haben wir telefoniert
du klangst als ob du die bahn verpassen würdest
und ich, als ob ich die bahn grad verpassen hätte
ich hab diesen gedicht nach dem ersten telefonat geschrieben
du hast über visa und behörde gesprochen
und über wie man, um ein dokument zu bekommen, ein anderes [braucht
das man nur bekommt, wenn man doch das erste hat
ich hab gesprochen, über die verlorene nächte in der gesellschaft einer [person
die nicht du war
dann langsam hast du mit dem anrufen aufgehört
ich hab diesen gedicht am zweiten sonntag geschrieben
in dem du schon wieder nicht angerufen hast
um das gedicht, wie um einem umfall, 
viele leute haben sich gesammelt
um zu sehen, was war's



(e o original, perfeito, em "o livro das semelhanças", companhia das letras, 2015):

Acidente

Escrevi este poema no último dia
depois disso não nos vimos mais
a princípio trocamos telefonemas
em que você sempre parecia prestes a perder o trem
enquanto eu sempre parecia ter acabado de perdê-lo
escrevi este poema depois do primeiro telefonema
você falava sobre vistos e repartições
e sobre como para conseguir um documento é sempre necessário um [outro
que no entanto só se pode obter de posse daquele
eu falava sobre as noites perdidas na companhia de alguém
que não era você
depois aos poucos você deixou de ligar
escrevi este poema no segundo domingo
em que você de novo não telefonou
ao redor do poema como em volta de um acidente
juntou-se muita gente
para ver o que era


o destinatário

uma tradução de white nights, de paul auster, sábado à noite em são paulo, na rede de gutierrez morrendo de dor nas ancas com chinkungunya, as pessoas devem estar na esbórnia e eu queria estar com elas me esfregando no mundo me pendurando nas barra do metrô e no entanto estou apenas traduzindo e com inveja




Noites brancas

Ninguém aqui,
e o corpo
diz: qualquer coisa dita
não é pra ser. Mas ninguém
é também um corpo,
e o que o corpo diz
ninguém ouve
exceto você.

Neve
e noite. A repetição
de um assassinato
entre as árvores. A caneta
se move
pela terra: ela não sabe mais
o que vai acontecer, e a mão que
a segura
sumiu.

Ainda assim, ela escreve.
Escreve:
no começo,
entre as árvores, um corpo veio andando
vindo da noite. Ela
escreve:
a brancura do corpo
tem a cor da terra. É a terra,
e a terra escreve: tudo
tem a cor do silêncio.

Eu não estou
mais aqui. Eu nunca disse
o que você disse
que eu disse. E ainda assim, o corpo
é um lugar
onde nada morre. E toda noite,
vinda do silêncio das
árvores, você sabe
que minha voz
vai andando até você.

(de paul auster em "wall writing", 1976)



Tuesday, November 08, 2016

uma releitura de joni mitchell pro suplemento pernambuco



para celebrar o 73-gésimo aniversário de joni mitchell, 
o suplemento pernambuco publicou minha releitura 
do poema "song for sharon", que transformei numa carta 

Friday, October 28, 2016

um tipo de perda, de ingeborg bachmann



Juntos usamos: as estações do ano, livros e uma música.
As chaves, os saquinhos de chá, a cesta de pão, lençóis
     e uma cama.
Uma herança de vocabulário, de gestos, trazidos,
     utilizados e gastos.
Obedecidas as regras do prédio. Dito. Feito. E a mão
     sempre estendida.

Sempre me apaixonei pelo inverno, por um quinteto vienense
     e pelo verão.
Por mapas, por uma casinha na montanha, por uma praia,
     por uma cama.
Ritualizo datas, declaro incanceláveis as
     promessas,
idolatro qualquer coisa e sou devota do nada,

( -- do jornal dobrado, do cinzeiro cheio, do papelzinho
      com um recado)
não tenho medo de religião, porque igreja era essa cama.

Da vista do mar nasceu essa pintura incansável.
Da varanda dava pra saudar os povos,
       meus vizinhos.
Perto da lareira, em segurança, meu cabelo tinha
       sua cor mais extrema.
O toque da campainha era o alarme da minha felicidade.

Não foi você que eu perdi,
foi o mundo.



um esboço de fabio maca e o original em alemôo




não conhecia esse poema, que faz parte da reta final da produção em poesia de ingeborg (acho inclusive que esse sequer foi publicado em livro, ela alias só publicou dois de poesia, depois mudou pra prosa e nunca mais voltou). encontrei em "tempo aprazado", as traduções de ingeborg pro português, feitas por judite berkemeier e joão barrento e publicadas pela assírio alvim em 1992. ainda que ache a tradução de berkemeier e barrento muito bonita, não deixa de ser distante da língua falada do lado de cá do atlântico então publico aqui a minha tradução pro português brasileiro.

esse texto me deixou particularmente assanhada porque, ainda que haja aquela coisa véia de exaltação da natureza que ela adora, há aqui também uma perda de controle, é ingeborg histérica, com saudade de transar com o boy. porque claro que não foi o mundo que ela perdeu, ainda que ela diga que foi. foi o boy. e o que é um boy senão o fucking mundo da gente?

tomei a liberdade de mudar algumas coisas do original por achar solene DEMAIS quando em português. 1) "Leintücher" significa lençóis de linho pelamor quem usa essa porra? ficou lençóis na tradução; 2) "Worte" é palavras, escolhi vocabulário por achar que todo casal tem seu léxico particular, não apenas palavras mas um vocabulário próprio que inclui sons, grunhidos, piadinhas internas em comum e toda sorte de bobagens; 3) "der kalten Asche" é cinzas frias e traduzi pra cinzeiro cheio, obviamente não é a mesma coisa no sentido de materialidade, mas é o que a coisa que dizer que minteressa: cinzas frias são os rastros dos cigarros fumados há muito ou as cinzas da lareira há muito apagada - ou seja, o boy que foi simbora - e um cinzeiro cheio também é isso, um tipo de "pegada" emocional, algo ali abandonado.


Thursday, October 20, 2016

minhas cliente amada



entre atrasos enormes (correios, putaquepariu) e entregas em mãos, mais uma entrega bem-sucedida deste saldão:


fernanda resende e as vovós de dublin 
(e a cabeçinha de wendy no sofá)






1. onde escolher:
fuce o meu flickr, o insta, o vodca ou o sité sério (menos as fotos de vovó).

incrusive arrumei o flickr em álbuns, caso isso ajude vocês a encontrar o que procura.

2. como escolher:
copie os LINKs das fotos que você quer (não adianta descrever "quero aquela foto dos corações", que não vou saber qual é!).

3. finalizando o pedido:
mande email para o ivanova.ivanova@gmail.com com os links das fotos que você quer, e os respectivos tamanhos!

depois disso, dependendo do tipo de pagamento que você escolher, te enviarei OU os dados bancários OU a fatura do paypal. e  você envia o seu endereço para postagem das fotos.

4. tamanhos e preços (inclui frete, assinatura, mimos surpresa, meu amor e minha gratidaum):
10x15 (no mínino 2): R$ 50 (cada)
15x21: R$ 80
20x30: R$ 170
30x40: R$ 350


algumas observações: 

a) a foto 10x15 só pode ser pedida em duplinha primeiro porque é mais bonito já que o print é tão pequeno; segundo porque R$ 50 reais é pouco mais de dez euros, e o frete é tão caro que não compensa pra mim. desculpa! :)


b) as fotos de vovó e a foto do prédio em recife não posso vender no saldão porque elas fazem parte de coleções públicas, que pagaram o preção não-saldão delas. agora claro, se alguém quiser comprar uma foto dessa série ou a foto do prédio, tem como fazer no esquema "oficial", me escreve que eu explico mais!

c) socê comprar muitas fotos, tem desconto! (não se de quanto %, mas nóis conversa)

Tuesday, October 18, 2016

sobre fotografia (uma tradução de sara herrera peralta e uma foto véia que eu fiz)


Me mostra as palmas das tuas mãos


Para S.

Na tua frente uma janela.
Um fotógrafo recita um poema
que fala sobre saudade.
Bebem café com os corpos nus.

Olha, te digo, o dia
nasce e é rebelde.

Cansados de tanto vazio,
conhecem as vozes,
o peso do passado,
o cansaço da vida e da beleza.

Quão obsceno o amor na imperfeição,
quão pura a verdade
que é esquecimento para os abandonados
que tentam se amar descalços e sem promessas.

A manhã é a festa sem rumo no céu
e esse espelho quebrado que em pedaços insinua
quem foste, quem hoje pareces ser,
que és tudo o que sobra.

A manhã conhece igualmente dor e abismo.
Vem, me dá a mão,
quero voltar a viver apesar de tudo
com a força do medo e da derrota.

Vem, me mostra as palmas das tuas mãos,
quero que ao me olhares eu saiba
que diferença há
entre um fotógrafo e um poeta,
entre mancha de azeite e água limpa,
entre o horizontal e a curva.

Quero saber se nesta manhã cabe
um lugar de júbilo inventado a base de ternura
para nos olharmos depois.

Quero saber se um fotógrafo sabe olhar
sem uma câmera com a qual capta
momentos tristes.

Quero saber o que responderias
se te digo
que esta manhã me parece
uma lenta batalha entre o amor e a fuga,
uma luz tênue que se apazigua.




berlim, verão de 2010


Monday, October 17, 2016

são paulo, piva



o viaduto que liga a rio branco à rudge, 
da varanda de jessica





"já é quinta-feira na avenida Rio Branco onde um enxame de Harpias
       vacilava com cabelos presos nos luminosos e minha imaginação
       gritava no perpétuo  impulso dos corpos encerrados pela
       Noite
os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos
       secos  enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembléias
       de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar
       asilo na  tua face?"




(trecho de visão 1961, de "paranoia")



Friday, October 14, 2016

uma tradução de amie siegel (e a vida sem ensaio e por isso um poema de rita e um poema de wislawa)


Cenário #9

Estou falando por meio de rasuras
removendo cada coisa à medida que ela é
pronunciada. Mas você é contra
isso, para além de método ou rotina.
Com todo esse meu fazer e desfazer

de repente fica difícil dizer
o que nos une
ou o que nos divide

no quarto escuro
onde você me toca
como tocaria a luz.
E eu estou aberta
para você, esperando o dia nascer

e percebendo que você é o tempo
me pressionando, se movendo suavemente
na minha direção. E eu sou agora.










amie siegel é uma artista estadounidense e ainda que ache que o trabalho poético dela deixa muito a desejar pelo seu tom de pregação, simplesmente acho esse poema belíssimo e queria mostrá-los pras senhoras. ele tá no livro "the waking life" (berkeley: north atlantic books, 1999).

o poema começa com ela falando do ato de escrever um roteiro (que é, afinal, aquilo que toda relação se torna) e o que me comove nesse texto é, considerando que a autora é uma artista audiovisual, a reflexão que ela tem sobre a mídia com a qual trabalha, e como ela transporta isso não somente para o poema mas para uma percepção de mundo. 

o jogo de "realidade vs. ficção" que ninguém aguenta mais falar (eu pelo menos num guento mais) parece naturalmente superado por amie, que entende muito bem que a vida em si é uma performance, um eterno luzcâmeraação sem diretor pra ajudar nóis. 

(pausa: isso me fez lembrar de dois poemas:



síndrome de estocolmo, de rita isadora pessoa, do livro
pelas foto)

a vida na hora, de wislawa szymborska em tradução de regina przybycien





amie sabe do que escreve mas sabe também que é necessário haver fendas no plot, como há na vida; não entende se há, entre o casal, atração ou repulsa; e isso não é impedimento, para a autora. o entendimento está justamente em abraçar o caráter plano-sequência da vida. 

o último verso é especialmente maravilhoso, "and I am now", uma dessas pequenas charadas da língua inglesa que me deixam tresloucada (como o "she is all there" da tradução de anne sexton). pode-se traduzir essa frase de várias maneiras, considerando ou contexto, ou entonação, ou a (ausência de) pontuação. 

deixei "igual" (nunca é) ao original ("E eu sou agora") porque para mim pareceu a entonação mais próxima da ideia de continuidade - literalmente aquele "to be continued..." dos filmes, sabe? -, do final em aberto. se ela fosse O Agora, o poema estaria resolvido e terminado. mas considerando que nos versos anteriores há uma ideia de movimento e de incerteza (de edição, afinal), achei que esse final poderia ser um aceno para cenas do próximo capítulo, quase um "cenário #10". 

não sei, pode ser que não, pode ser que tudo seja resolvido com a chegada do boy (que é meu modus operandi na vida real AHAH BRINKS) mas pra este texto achei que ficava melhor assim.

(esse post é dedicado ao italo que no dia do meu aniversário me deu o livro, que é meio ruim mas que tem uns versos muitos bonitos, como estes aí "and i am open/ to you, waiting for the day to close in/ an realizing you are time". aliás leiam italo que é muito bom, e aproveitem leiam a rita também, eles são melhor que amie).


Thursday, October 13, 2016

bob dylan é nobel e o saldão continua








agora também com instagrão!







1. onde escolher:
fuce o meu flickr, o insta, o vodca ou o sité sério (menos as fotos de vovó).

incrusive arrumei o flickr em álbuns, caso isso ajude vocês a encontrar o que procura.

2. como escolher:
copie os LINKs das fotos que você quer (não adianta descrever "quero aquela foto dos corações", que não vou saber qual é!).

3. finalizando o pedido:
mande email para o ivanova.ivanova@gmail.com com os links das fotos que você quer, e os respectivos tamanhos!

depois disso, dependendo do tipo de pagamento que você escolher, te enviarei OU os dados bancários OU a fatura do paypal. e  você envia o seu endereço para postagem das fotos.

4. tamanhos e preços (inclui frete, assinatura, mimos surpresa, meu amor e minha gratidaum):
10x15 (no mínino 2): R$ 50 (cada)
15x21: R$ 80
20x30: R$ 170
30x40: R$ 350




algumas observações: 
a) a foto 10x15 só pode ser pedida em duplinha primeiro porque é mais bonito já que o print é tão pequeno; segundo porque R$ 50 reais é pouco mais de dez euros, e o frete é tão caro que não compensa pra mim. desculpa! :)

b) as fotos de vovó e a foto do prédio em recife não posso vender no saldão porque elas fazem parte de coleções públicas, que pagaram o preção não-saldão delas. agora claro, se alguém quiser comprar uma foto dessa série ou a foto do prédio, tem como fazer no esquema "oficial", me escreve que eu explico mais!

c) socê comprar muitas fotos, tem desconto! (não se de quanto %, mas nóis conversa)

Monday, October 03, 2016

etta james


at last eu tenho um smartphone (obrigada érica zíngano!) e um instagram (adelaide_ivanova).

não tem foto fofa de flor mas tem boy.





Monday, September 12, 2016

saldão chegando na casa do povo!



o saldão segue, com golpe ou sem golpe. hoje a leitorinha luiza barros que mora na inglaterra mandou foto da sua encomenda recém-recebida ê!

1. onde escolher:
fuce o meu flickr, o vodca ou o sité sério (menos as fotos de vovó).

incrusive arrumei o flickr em álbuns, caso isso ajude vocês a encontrar o que procura.

2. como escolher:
copie os LINKs das fotos que você quer (não adianta descrever "quero aquela foto dos corações", que não vou saber qual é!).

3. finalizando o pedido:
mande email para o ivanova.ivanova@gmail.com com os links das fotos que você quer, e os respectivos tamanhos!

depois disso, dependendo do tipo de pagamento que você escolher, te enviarei OU os dados bancários OU a fatura do paypal. e  você envia o seu endereço para postagem das fotos.

4. tamanhos e preços (inclui frete, assinatura, mimos surpresa, meu amor e minha gratidaum):
10x15 (no mínino 2): R$ 50 (cada)

algumas observações: 
a) a foto 10x15 só pode ser pedida em duplinha primeiro porque é mais bonito já que o print é tão pequeno; segundo porque R$ 50 reais é pouco mais de dez euros, e o frete é tão caro que não compensa pra mim. desculpa! :)

b) as fotos de vovó e a foto do prédio em recife não posso vender no saldão porque elas fazem parte de coleções públicas, que pagaram o preção não-saldão delas. agora claro, se alguém quiser comprar uma foto dessa série ou a foto do prédio, tem como fazer no esquema "oficial", me escreve que eu explico mais!

c) socê comprar muitas fotos, tem desconto! (não se de quanto %, mas nóis conversa)

mermão pelamordedeus #forajornalismodearcondicionado


não sei quem é pior a política ou o jornalismo de ar condicionado no brasil. esse artigo de joão filho, no the intercept brasil, explica de um jeitinho bem facinho o papel da grande mídia em abafar o fato de que NINGUÉM convidou temer pra ser presidente.

no texto ele dá exemplos de vários jornalistas e/ou publicações que estão tentando fingir que não tão vendo a enorme reação anti-temer (nas redes e principalmente nas ruas) mas pra quem não quer ler basta olhar as figura:







"O Estadão fez bonito e cumpriu com louvor seu papel na Operação Passa-Pano. É preciso de uma lupa e muita boa vontade para encontrar os protestos contra Temer. Talvez a Família Mesquita não queira que a massa leitora de manchetes nas bancas de jornais fique sabendo desse revés".

Saturday, September 10, 2016

duas traduções de frank o'hara e umas image



traduzi dois poemas do frank o'mára pro suplemento pernambuco, bem rápido e emocional como o de costume, pensando nos acontecimentos de 31 de agosto de 2016. foi foda porque foi exatamente este o dia em que li estes dois poemas (que estão na coletânea lançada em 2009 pela borzoi poetry), no trem, indo encontrar manuel e bernhard, toda atordoda com o grand finale do golpe, esse teatro, li os poemas e fiquei toda cagada. enfim.

aqui umas fotos e os os scans do livro, com os originais.


essa foto eu mandei pro meu editor
tentando convencer ele que estava trabalhando
(ainda que estivesse de biquini tomando sol
na sala de casa)

essa é pintura à qual frank se refere no poema 
"Depois de ver Washington crossing the Delaware, 
de Larry Rivers, no Museu de Arte Moderna"



poema 1



poema 2




Friday, September 09, 2016

do que é objeto


pro Breno


bacia

fumaça                       garrafa
cadeira
tomada
vasos
um sofá 
raiz                              sapato
lamparina                  teto
portão                         mancha
arame farpado
planta

outra mancha
um homem velho
isso eu não sei o que é
janela
lençol
alecrim
alguma coisa embrulhada de azul
luz
mofo                            roupas pra engomar
armário
mofo de chão              um buraco fechado
sapatos
coleira
manchas
poltrona                       repolho
colchão
retângulo vermelho     café
pau
parede
chuva                             mancha
escada
planta                            corredor
marreta                         toalha
vidro

eu não sei o que danado é isso







(e essa luva não está no livro)


Thursday, September 08, 2016

poetas que mandam postais





ewout e eu daqui a 30 anos,
segundo ele mesmo




Wednesday, September 07, 2016

silvia





"the only one
everybody loves"
(frank o'mára)






Monday, September 05, 2016

muitas e novas fotos da irlanda no saldão



clique na foto que te leva pro álbum do flickr!



primeiramente #foratemer, segundamente criei um álbum no flickr só com as fotos da irlanda (as deliciosas dublin e bray). vão lá ver se desperta vossa sanha consumista (o que nesse caso não deixa de ser por uma boa causa, support your local cangaceira!).


1. onde escolher:
fuce o meu flickr, o vodca ou o sité sério (menos as fotos de vovó).

incrusive arrumei o flickr em álbuns, caso isso ajude vocês a encontrar o que procura.

2. como escolher:
copie os LINKs das fotos que você quer (não adianta descrever "quero aquela foto dos corações", que não vou saber qual é!).

3. finalizando o pedido:
mande email para o ivanova.ivanova@gmail.com com os links das fotos que você quer, e os respectivos tamanhos!

depois disso, dependendo do tipo de pagamento que você escolher, te enviarei OU os dados bancários OU a fatura do paypal. e  você envia o seu endereço para postagem das fotos.

4. tamanhos e preços (inclui frete, assinatura, mimos surpresa, meu amor e minha gratidaum):
10x15 (no mínino 2): R$ 50 (cada)

algumas observações: 
a) a foto 10x15 só pode ser pedida em duplinha primeiro porque é mais bonito já que o print é tão pequeno; segundo porque R$ 50 reais é pouco mais de dez euros, e o frete é tão caro que não compensa pra mim. desculpa! :)

b) as fotos de vovó e a foto do prédio em recife não posso vender no saldão porque elas fazem parte de coleções públicas, que pagaram o preção não-saldão delas. agora claro, se alguém quiser comprar uma foto dessa série ou a foto do prédio, tem como fazer no esquema "oficial", me escreve que eu explico mais!

c) socê comprar muitas fotos, tem desconto! (não se de quanto %, mas nóis conversa)



o golpe segue mas a gente precisa continuar pagando as contas. o saldão segue até 30 de setembro. 

Sunday, September 04, 2016

noam chomsky explica bem facinho:



protesto não é crime


post beeeem facinho de rebeca lerer, no facebook, explicando a dinâmica dos protestos no brasil
(os negritos no decorrer do texto são meus, destacando a parte mais fundamental do que diz a rebeca)


Geralmente o roteiro é assim:

Um ato é convocado por coletivos autônomos. A secretaria de segurança monitora as convocações e determina o contingente policial a partir desse "profiling". É só estudar para ver que nem todos os atos contam com o mesmo esquema de repressão; depende de quem chama, do tom e dos coletivos que se mobilizam. Essa decisão não é técnica, é sempre política.

Aí a manifestação concentra e logo dá para saber se vai ter ou não repressão. Quando o ato decide por um trajeto ou tem um perfil "de risco", a PM simplesmente impede o protesto de seguir ou arruma um motivo para interceder na manifestação. Começa a prender ou agredir manifestante por desacato, ou fazer revistas aleatórias, por exemplo. As pessoas reagem, em geral com palavras de ordem. A PM então aciona o plano que já estava desenhado desde o início. As primeiras bombas de gás e efeito moral são jogadas. Começa a dispersão da multidão. A polícia passa a perseguir grupos de manifestantes.

AÍ, SÓ ENTÃO AÍ, uns minino fazem umas barricada de fogo, quebram umas vitrine de banco e jogam umas pedra para ATRASAR e/ou ATRAIR a atenção da polícia e suas bombas - além de expressar sua revolta contra os ícones da opressão do capital.

Enquanto isso tá acontecendo, centenas de pessoas conseguem tempo e rotas de fuga para escapar da brutalidade policial e das prisões arbitrárias recorrentes nestes atos.

Pode até não parecer estratégico e certamente é distorcido pela "mídia golpista", que nunca conta a história toda e altera a ordem dos fatores para ter o produto midiático que lhe convém. A notícia deveria ser o uso abusivo das armas menos letais, os aparatos policiais desproporcionais e as dezenas de pessoas feridas, mas a narrativa que prevalece é a do "vandalismo".

Gestão de multidão é bem diferente de repressão. As imagens de guerra só servem para colocar a verdadeira pauta do protesto em segundo plano - seja ela o Golpe, a tarifa de ônibus ou a roubalheira da Copa.

Isso também só acontece porque o direito ao protesto é seletivo no Brasil. Na prática, para poder se manifestar, precisa ter CNPJ, negociar com a PM, com o Papa etc ou passar pelo STF, como foi o caso da Marcha da Maconha.

Quem frequenta diversos tipos de atos sabe que nunca é coincidência: quando não tem polícia, não tem violência nem dano ao patrimônio.

#ProtestoNãoÉCrime

isso. é. gravíssimo.




Thursday, September 01, 2016

uma flor pra alexandre severo, um presente de pri buhr


1) dia 27 de agosto, às 16h11, no messenger:


oi ivi, tudo massa? essa semana peguei um livro que severo tinha me emprestado. fiquei mergulhada um tempo numa confusão de sentimentos... e principalmente pensando nas voltas loucas que a vida dá, em como a gente é pequenininha e gigante ao mesmo tempo nesse mundo. fiquei um tempão folheando aquele livro, tentando me achar. até que encontrei essa fotografia tua... dedicada a ele. não sei bem explicar mas senti uma coisa tão boa. enfim, tou com ela. se você quiser, posso te mandar...

2) dia 27 de agosto, às 21h17, no messenger:

pelamordedeus, pri, que coisa mais maravilhosa! nem eu esperava tanta beleza numa mensagi de facebook. deixa a foto aí dentro do livro, que é onde ele deixou ❤ muito obrigada por mandar essa mensagem.



(foi uma das coisas mais lindas que me aconteceram neste verão, brigada, priscila, foi foda).



@pri buhr



e só pra constar, fora temer.

Tuesday, August 30, 2016

sobre o nonsense (uma tradução de celan e um poema de italo)


traduzi esse poema nas carreiras hoje de manhã, mal-dormida depois de ontem; dilma, imensa, tendo que dar satisfação àquela cambada de ladrão, e a gente aqui, suspenso, sem entender nada. e traduzindo esse texto de celan (de die niemandsrose, 1963) me lembrei de outro, de italo diblasi ("gaia ciência", tirado de no limite da navalha, seu primeiro e tão-lindo livro), que copio logo abaixo.








Havia terra neles, e
eles cavavam.

Eles cavavam e cavavam, assim passavam
o dia, a noite. E eles não davam glória a Deus,
esse, ouviam, que queria que tudo fosse assim,
esse, ouviam, que sabia que tudo era assim.

Eles cavavam e não ouviam mais nada,
eles não ficavam mais sábios, não compunham canções,
não inventavam mais nenhuma linguagem.
Eles cavavam.

Veio o silêncio, veio também a tempestade,
todos os mares vieram.
Eu cavo, tu cavas e o verme também cava,
e aquele cantante ali diz: cavem.

Ai de algum, ai de nenhum, ai de ninguém, ai de ti:
Para onde foi, já que não foi a lugar algum?
Ai de ti que cavas e eu cavo, cavo até você
e no nosso dedo desperta a aliança.

(paul celan em tradução minha com colaboração de jakob ganslmeier)






Gaia Ciência

é proibido
cuspir
no prato

é proibido
dormir
no asfalto

é proibido
trepar
no mato

é permitido
açoitar
as massas

é permitido
erigir
as farsas

é permitido
morrer
às traças

paremos, portanto, de fingir
que Nietzsche estava errado
quando enlouqueceu às portas
de explicar esse caralho