Saturday, July 31, 2010

nós, estranhos

ricardo fez um vídeo inspirado (visualmente) no pintor carl spitzweg. o quadro chama "o poeta pobre" e é de 1839.


o texto, no entanto, é dele.

é sobre se sentir estrangeiro em todo lugar, isso de sentir que tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes.

e tem um monte de frase de efeito, dessas que a gente quer tatuar na testa. e é esse sentimento que importa,

The poor poet (after Spitzweg)

Like a Conversation with the Visa Inspector at the Department of Immigration about Poetry, long term investment towards glorious dust. May you flourish with bread and water, a Renaissance of minimalist proportions, based on the poverty of your organism. All you know of stock exchange has been taught to you by the relationship between your lungs and your blood. Let me recite what geography teaches. A bit of money is a joy forever. Poets? Metics in their own lands. Aliens of all times know what price that is. Well, brothers and sisters, borders can have various effects on writers as lovers. Mental note: consider the difference between Medea and Scarlett O´Hara right before The End. A thing of beauty is a toy for never. You write, darling, as someone who plays with public property. There is nobody here but us kitchens. Whisper secrets to yourself in a language your mother would fail to understand but, for migration purposes, you must tighten your belt, fasten your tongue. As if the spider exiled itself from its own web, through the web, one must eventually eject from his or her own body what others will then call his or her habitat. Dear guest, adopt the language of the host. Adapt the language of the host. Addict it, adduce it, adjourn it, adjust it. But you will never succeed in admonishing the Empire through its own language. There is nobody here but us chicanos. A beauty of thing is a boy forever. To say, finally free of heritage: Welcome, citizen of nowhere. Once upon a place, we thought you might find a home in a grammar, as one lies under the sun, on the grass. Addressed, you could legislate your own babbling, as one who seduces legions. Should poets finally be granted suffrage, you ask awestruck. Tired of being demonized as nonresidents of the Republic. Everyone knows that poets temporarily staying in the territory of Neverland must register with the migration authorities within five calendar days from the solstice. Show the fly the way out of the spider´s digestion. Now retired, you might want to sit at the gate with the king and wait for the barbarians, even forgetting you were one of the first of them. Invaders tend to mingle among the natives. Was there a new Troy, a new Jericho, or a new Canudos for which to yearn? You will register the long chronicle of the siege, not knowing sometimes on which side of the wall you first stood. Cities that fall have a way of being stubborn till the last standing brick. The History of the Past Sieges cannot help you, for you no longer know what you are supposed to record, what to erase. I cannot remember if I invaded, if I resisted. There is nobody here but us Chechens.


retorno de saturno de cu é rola

vovó chama isso de "desaventurança", isso sim.

estava aqui justamente a me perguntar quais serão minhas resoluções pra esse ano novo que me começa, em duas semanas.

"vou pensar menos! e agir mais!"
"vou agir menos! e pensar mais!"
"vou falar menos e escrever mais!"
"vou escrever mais e falar menos!"
"vou ser mais fotógrafa e menos escritora!"
"vou ser menos escritora e mais fotógrafa!".



mas cheguei num consenso mais saudável e lógico que todos esses aí, que não me levam a lugar nenhum.

nesse meu ano novo que começa, eu quero fazer cocô uma vez por dia. e não uma vez por ano, como é atulamente.


é isso.
essa é minha meta.





considerações finais:
a única coisa que me faz feliz é saber que quando essa garrafa estiver vazia eu vou estar bêbada demais pra lembrar que, quando ela ainda estava cheia demais, eu estava triste demais



.

Friday, July 30, 2010

a segunda taça de vinho da sexta

rioja (denominación de origen calificada).
la feria.
tempranillo.
2009


é espanhol e eu comprei no supermercado da schönhauser allee por 2,39 euros. porque, minha querida, para uma dor barata, um vinho barato.

ademais, não pensar com clareza não é um privilégio dado a mim pelo vinho. eu só bebo vinho para não ter que prestar atenção na falta de clareza. forgive me the personality, diria a poesia.

tá tudo tão bagunçado ao meu reador que eu aqui, feito empregada doméstica preguiçosa encostada na porta da cozinha e dali olhando a TV da sala enquanto passa a reprise da novela, com essa vassoura e essa pá conceituais nas mãos, olhando, pensando por onde começar a arrumar:

a vida ou o meu quarto?

decidi encher a taça mais uma vez e parar com as perguntas difíceis. e colocar uma etta james-zinha pra tocar (afinal, pra quê complicar se eu posso complicar mais ainda, não é mesmo?).


a única coisa que consigo pensar agora, com segurança, é o segundo seguinte: "agora eu vou respirar". "agora eu vou levantar e calçar umas meias".

a vida me sacode tanto que não consigo sequer planejar um jantar.

Thursday, July 29, 2010

a metáfora da pele

um dia armin estava fazendo carinho em mim com uma canetinha hidrocor, arrastando-a para cima e para baixo no meu braço.

e eu fiquei olhando para aquele homem:

ele tem aquele contorno certeiro de quem come pouco e vive errando. tem todos os músculos desenhados, e uns ossos que pulam aqui e ali, e umas veias de angelina jolie, grandes, saltadas, coisa de gente que afinal não leva uma vida saudável. ele tem cor de leite cilpe com uma gota de café.

mas, sobretudo (sim, sobre toda ela), ele tem a pele coberta de sinais. de todas as cores - bege claro, bege escuro, rosa, marrom. eu gostava de olhar para elas, e entendê-las, como judeu conta a primeira estrela da sexta-feira e agradece que ela está ali.

uma vez eu quis juntar os pontos com a mesma canetinha hidrocor, para ver o que aparecia. e ele disse: é a constelação de andrômeda que vai aparecer.



o negócio é que sobre esse homem recaia toda minha vontade de ter poesia; todo meu romance. como aos navegadores, a andrômeda de seu peito guiava meu navegar.

a metáfora da pele de armin está aí: estava nele minha orientação, meu movimento. enquanto a bússola não era inventada eram elas, as estrelas, que guiavam os viajantes. então eu passei longos períodos no meio do mar contando apenas com aquela andrômeda. aceitando que ela nem sempre aparecia... e, no fim, oh yeah, fiquei a ver navios (ha que engraçada).

o bom é que, veja bem, afinal, parei de olhar pro céu e comprei uma bússola. puxei a âncora, mudei de direção. que meu desejo de movimento é maior que qualquer outro.

como diria lou reed: "isso na minha frente não é um muro, é uma porta".

e vai caber minha nau intera através dela.













eu sou tão previsível: basta ver meu nome num bilhete de embarque que já fico toda serelepe.

dostoiévski, guarda um conselho errado para mim.

Wednesday, July 28, 2010

sofro mesmo (dia 3 e contando do começo)

uma leitorinha mandou um comentário tão engraçado falando que meses atrás me viu "na fila do dia da rua purpurina comprando atum". e ela comentou que eu sofro muito.

então eu vou contar do semi-começo desse sofrimento recente para vocês terem uma mínima noção da minha novela mexicana particular:



vim para cá porque fui aprovada na primeira fase do processo de seleção de uma universidade na holanda. assim sendo, vim fazer a prova prática e a entrevista.

a viagem em si foi um drama: como a uni comunicou minha aprovação em cima da hora, só deu tempo de arrumar os voos mais esdrúxulos para conseguir chegar em algum lugar perto de enschede a tempo. minha prova era dia 17 de junho, de modo que:

15 de junho
são paulo - madrid
madrid - lisboa
16 de junho
lisboa - palma de mallorca (ainda fico passada com o destino)
palma de mallorca - colônia

cheguei em colônia nas primeiras horas do dia 17 de junho. armin me levou para enschede às sete da manhã. ou seja, fazia dois dias que não dormia.

mas enfim, cheguei na prova à tempo. fiz a prova (foi engraçado) e a entrevista... e tinha a certeza que tinha me lascado de véu e grinalda.

uma semana depois recebi a cartinha com a notícia: tinha sido aprovada.

meu deus, vocês não têm ideia como foi fofo, eu abrindo o envelope nos fundos da igreja que tem na frente da casa de armin, a gente sentado num banco de praça. ele parecia pinto na merda quando eu li que passei, e saiu ligando pra todo mundo. foi uma coisa.

eu estava grávida da vida!

a gente fez planos sobre como seria fácil se encontrar; e ele disse que ia me ensinar a comprar roupa de neve e tudo o que se pode falar numa hora dessa. ele disse: ... e você não vai mais precisar andar na rua com medo de encontrar gente que te faz sofrer.

mas
ah, essa vidinha marota,
no outro dia chegou outra carta.
com as condições para estudantes estrangeiros.

veja bem, é uma uni pública mas eu sabia da anuidade para não-europeus, e elas eram bem pagáveis. mas no fim da carta, em letras pequeninas, tinha os detalhes para as condições de visto:

"é preciso fazer um depósito na conta da universidade, no valor de 14.500 euros até 20 de agosto. esse valor será devolvido (descontados a anuidade e o curso de holandês obrigatório) para sua conta, que deve ser aberta num banco holandês e serve para comprovar que o aluno é capaz de se manter no país sem trabalhar". ou seja: mesmo que eu conseguisse bolsa para descontar na anuidade, os mesmos 14.500 teriam que ser depositado. um cunhão.

bom, minha gente, vocês sabem que minha mãe é professora universitária e eu sou auto-jornalista. a gente não tem esse dinheiro. quando mamis foi ver no banco de empréstimos, o valor ficava absurdamente alto depois de uns poucos meses. e meu pai, bueno, papis também não esteve ficando muito a fim de ajudar. ele tem 12 mil filhos, além disso. geminiano, né...

então vocês calculam minha decepção, meu desesperinho... faz meses que eu tento uma vaga para estudar por aqui (eu sempre conto procês das gongada que eu levo) e na primeira prova que eu passo... ops, não posso fazer.

é um caralho mermo.

e aí depois vieram todos aqueles episódios noivo-em-fuga...

e somadas essas duas coisas (mais toda a vida anterior, essa coisa grande), bom, posso dizer, leitorinha:



sofro mesmo.





de montão.




pelo menos fiz uns videos desse dia, e fiz fotos de armin na grama holandesa e tenho lembranças.




Tuesday, July 27, 2010

eu amava essa janela como ao dono dela (antes da contagem começar)


2009


2010


2011

no zoologischer garten (dia 3)

ajudei uma velhinha alemôa a descer do busão hoje. e ela falou: com 92 anos é tudo difícil. e eu pensei: "e tem alguma idade que é fácil, meine liebe Großmutter?".

aconteceu agorinha mesmo bem na minha very frente (dia 3)

estou aqui no plazebo café (que ricardo me apresentou e do qual não saio mais). na mesa do lado da minha tem um casal.

ela levantou da cadeira e foi indo na direção dele.

e eu me peguei pensando, no auge do meu cansaço de sentir saudade-coração-amputado:

"please don´t kiss him please don´t kiss him please don´t kiss him please don´t kiss him".

mas ela beijou e eu acendi um cigarro.

olha, vou dizer uma coisa (dia 3)

onde estou é o único lugar do mundo do qual não quero sair.

sempre que penso como estou perto de outros países que não conheço e que devia dar uma viajadinha, penso depois: aim, mas aí se estiver em outro lugar não estarei aqui.


(às vezes eu me lembro que estudo a cabala, apesar de ser uma péssima aluna).

mas olha, vou dizer a única coisa que me revolta nessa cidade:

a marlene dietrich platz, que tem esse nome para homenagear essa grande capricorniana, consiste de uma coisa horrorosa cercada de um cassino, um mcdonald´s e um subway (a lanchonete, não o metrô).


acho um sacrilégio.

e isso me faz lembrar de como a vida é dura pra todo mundo.

o que me faz lembrar que não tem nada pelo quê passei que deva me sentir vítima demais.

o que me faz lembrar daquela música de pj harvey:

even the sun of god had to die, my darling.

cow-relação (dia 3)

como eu mesma disse, o destino tem método e está tudo cow-relacionado.

antes eu soubesse.



Monday, July 26, 2010

a mala a mala a mala a casa (a vida)

texto sobre não saber de onde se vem e ainda assim querer estar longe desse lugar, no suplemento pe.



outro título bom seria "que mimada".

me ocupando, né? (dia 3)

sem querer apertei no pitoco que liga a câmera e fiz esse vídeo, quando ainda estava em colônia:



eu tinha estava bem faceira com meu lindo vestidinho de seda dando um rolê perto da catedral.

achei bonito isso e fiz outro na bike, em berlim.

estava indo pro tiergarten.

passa não passa (dia 2)

é aquela velha coisa:

a gente se separa
e passa um batom pra encobrir o incobrível
e vai pra buati crente que já vai conseguir se divertir
e passa a noite inteira
sentada no bar
sentindo saudade
suam enquanto isso os outros
e pensando
e m como tudo era mais divertido com ele.


e o fato da cerveja ser de colônia
e custar 4 euros
ajuda pouco a superar.



agora picture this
saí da festa sem dizer
andei 20 minutos até o trem
era bem de manhã
(insisti tanto como veem num nada irreversível)
fazia um vento gelado
esperei o s-bahn mais 20
fazia um vento gelado
andei três estações entre kreuzberg e alexanderplatz
atravessei a rua pra pegar o tram
mas esperei mais 13 minutos
fazia um vento gelado e agora chovia
desci na porta de casa
subi as escadas
abri a porta
deitei
e foi só isso.
um silêncio de morte.

nem chorar chorei.

fiz bruno e marrone e estou orgulhosa (dia 3)

à tarde fui na bienal, e saí cansada;

aí joguei o mapa no lixo (mapa ruim do caralho) e, né, minha gente, para quê preciso de mapa se já estou perdida anyways?

aí perdida achei um restaurante lindo que chamava gypsy restaurant que tem um jardim especial na frente e um monte de pardal tentando roubar seu pão.

mas é claro que eu estava nervosa com alguma coisa (acho que ainda eram os efeitos tardios da mosca que vi em cima de um dos quadros da bienal e o fato da mosca estar ali com sua indiferença existencial salvava, na verdade, a obra, que era uma bela merda e era capaz de ter sido por isso que a mosca pousou em cima dela) e passei o almoço inteiro tensa com sei-lá-o-quê.

saí de lá exausta.

vim andando até meu bairro, fui para o jardim cheio de coelhos que tem na rua de trás da minha casa. deitei no banco, peguei meu livro, comecei a ler, peguei no sono e só acordei quando começou a chover.

foi tão bom, me senti uma mendiga bem bonita.

na porta do prédio que eu moro (dia 3)



ironias do destino,
ponto

aprendi com rachel (dia 3)

tem gente que lê romance.


tem gente que vive em um.

Saturday, July 24, 2010

talk-show ivetal (dia 3)

finalmente boas notícias e achei que era mais interessante mostrar procês em video que postar foto, afinal não sou mais fotógrafa.




mentira. só queria mostrar meu batom novo, mesmo.

tchau vou sair.

pras minhas leitorinhas (dia 3)

e pra mamãe, carol, rachel, jorge, bia, clarissa, jano, ricardo, minha roommate silvia, vic e marcelo gomos (que só me deu conselho errado).


(antes que vocês fiquem curiosas, o que tem na página da esquerda é transcrição de hermann hesse, né meu não).

e agora chega, quero mudar de assunto.

e uma lágrima pequena pendurada que não cai e tira minha lente do lugar (dia 3)

toda minha felicidade agora depende do vibra call vibrar.

mas a única coisa que treme perto de mim sou eu mesma: a cada alguns-minutos passa o straßen bahn na frente da minha casa e o prédio e eu: mini santiago do chile.

sou meu próprio freddy krueger me atazanando a toda hora.

Friday, July 23, 2010

falando sozinha (dia 3, ainda)

não, não por isso. é que a sensação que eu tenho, o fato que eu tenho, é que fui sempre eu me esforçando pra entender tua personalidade, respeitando teus silêncios e me comportando do jeito que vocês são, isso de que efusividade é falta de educação, isso de que "eu não tenho nada a ver com o fato de que você não consegue controlar seus sentimentos".

agora eu sei que o tempo todo eu estava falando sozinha.

eu tô meio cansada desse jogo.

um dia tu me dissesse, quando eu falei que faria o jantar e você disse que então faria o jantar no dia seguinte e eu respondi "hey we´re not trading anything", nesse dia tu me dissesse "everything is a trade". e eu devia ter entendido.

cansei desse jogo.

tu és a única pessoa que diz que gosta de mim que não me atende quando eu ligo. ou melhor arranjando a frase: tu és a única pessoa que não gosta de mim para quem eu ligo.

que idiota completa.

Thursday, July 22, 2010

autojornalismo

o destino se chama destino e é o que é porque tem método.



tarde




noite


(eu tô tão feia (e tão bêbada) nessa foto que nem acredito que o sofrimento faz mesmo a gente ficar com cara de picasso).











a manhã
a foto que tirei quando acordei





é perfeito o destino e sua régua. não que eu goste do meu, mas é perfeito, é perfeito.

é por isso que eu não ligo muito pra essa coisa de ser fotógrafo, não mais, desisti. o povo tá mais preocupado com o resultado final e com o elogio do que com a coisa que tá na frente da câmera.

e todos sabemos que eu só me preocupo com o que está na frente da minha câmera porque o que na frente da minha câmera sou eu mesma.

quando me perguntarem o que faço, vou responder: "sou autojornalista".

dia 3

parece que não está passando, o tempo.

dear mr. tillmans,

(antes de mais nada, eu quero dizer uma coisa muito importante: o senhor faz aniversário do mesmo dia que eu e madonna o que, de cara, faz do senhor uma pessoa especial).

eu tenho um postal de uma foto do senhor praticamente colada na minha cara.

são aquelas rosas, esprimidinhas no canto direito, uma foto vertical, que o senhor gentilmente tirou em 1994.

em 1994 eu tinha 12 anos e dei meu primeiro beijo, num geminiano que gostava dos beatles. eu tinha 33 kilos e joelhos maiores do que minha prepotência (o que me faz acreditar que talvez, sim, haja (ou já houve) algo maior do que ela).

dear mr. tillmans,

o senhor é um dos meus ídolos.

em 2009 eu tinha 27 anos e tinha dado meu primeiro beijo em alguém que, pela primeira vez na minha vida, disse que me amava antes que eu o dissesse. eu estava em colônia quando comprei um cartão-postal com a foto das suas rosas no canto direito espremidas que o senhor tirou.

comprei no museu ludwig, mr. tillmans.

o senhor representa muita coisa pra mim. me pergunto o que passava na cabeça do senhor quando eu tinha 12 anos e era a fim de um mâno do jaguaré - enquanto isso o senhor ia começando a ser um dos melhores fotógrafos do mundo. (é impressionante que o mundo suporte tantas coisas superlativas acontecendo ao mesmo tempo: um fotógrafo perfeito em ascensão, uma menina apaixonada, o genocídio no sudão. e ainda assim, SEJAMOS HONESTAS, ninguém dá a mínima para essas congruências).

quando eu tinha 12 anos, o senhor tinha 26. e fico aqui me perguntando: onde quero chegar com minha incompetência?

foi um pouco totalmente inacreditável quando vi o senhor hoje na pista de dança da festa de ricardo:

all star preto
meinhas pretas
bermuda preta
camiseta preta
por dentro da bermuda

eu estava bem mais bonita que o senhor, isso posso dizer, com cabelo solto e batom rosa.

mas é que o senhor, mr. tillmans, estava fumando na pista.

era a única pessoa da festa com essa regalia.

o senhor é wolfgang tillmans e estava fumando na minha frente.

Wednesday, July 21, 2010

a colher

clarissa: tu pensa em fazer o que agora?

essa coisa que eu acho que sou eu:

curtir a cidade.
e produzir.
escrever mais.
prestar atenção nas coisas ao meu redor.
eu sou muito autocentrada, não no sentido de egoísta (esse também, claro), mas de ficar sempre tentando captar a sensação que aquele momento, fato, parque, música, filme, homem bonito desperta em mim.

sabe?

eu nunca tô "aqui". tem o aqui e eu tô perdendo ele (o aqui), olhando pra dentro. eu não me lembro dos filmes porque fico cada fala tentando pensar se eu sei aquela situação retratada, se eu já passei ou falei algo parecido.

enfim: é sempre all about me.
é um inferno.

não posso ver um passarinho comendo uma casquinha de sorvete que endoido.

clarissa: hahahaahah

essa coisa que acho que sou eu:

ahahah
esses dias fui almocar e pedi um spaghetti. a moça trouxe com uma colher e um garfo.
pronto.
eu e n d o i d e i.
posso te ligar?

*******************

email enviado para talita, no dia que o spaghetti me foi oferecido com uma colher:


no almoço a moça trouxe meu spaghetti e junto com ele veio uma colher e um garfo. pronto. endoidei com a colher, porque eu não sei comer spagethi "a italiana". e a partir disso passei o almoço inteiro pensando no poder das pequenas coisas que simplesmente tiram a gente do prumo (uma colher no spaghetti, um email que não chega, um pote de morango tão lindo e tão extremamente desinteressante pra mim).

fiquei tanto tempo olhando pra colher que a moça veio me perguntar se tinha alguma coisa errada com a comida. ha. é isso, amiga, oficialmente fiquei doida. mas estou disfarçando bem, a maioria do tempo hahaha


*****************

sobre o pote de morangos

é muito triste olhar para alguma coisa com tão alto nível de amabalidade, e perceber a verdade (sobre meu tédio sem cura): é que não me desperta o menor interesse, a menor compaixão. deixei eles fora da geladeira e me deu gosto ver como foram ficando verdes e fedorentos.

Tuesday, July 20, 2010

Monday, July 19, 2010

pensando nos passarinhos






as coisas têm o significado que você as dá.

(entrelinhas)

eu não queria morrer assim, de um jeito bagunçado e pouco bonito. apesar de que, claro, não queria continuar vivendo.

também não queria morrer para sempre. podia ser só uns meses de defuntice, tipo como se fosse possível fazer greve para vida: "querido deus, estamos aqui fazendo um motim contra a existência porque tá foda. o sindicato pede apenas um aumento de boas notícias no contra-cheque da vida".

o ponto é: eu não aprendo mais nada com a tristeza. do mesmo jeito que ninguém aprende nada com uma coisa que lhe é muito corriqueira. minha vida é uma sucessão de acidentes, violência e rejeição, de modo que quando isso tudo começou eu até aprendia coisas. mas agora não mais.

(vocês têm alguma ideia do que é passar por isso estando num lugar (quase que) completamente sozinha? aliás se não fosse vocês, todas/os, nem sei)

eu quero aprender com a alegria, agora. não há mais nada que a tristeza possa me ensinar. não é mais produtivo, inspirativo; perdeu a graça.

o foda do que armin fez é que ele me tirou do controle da minha própria vida. ele decidiu (por mim, mas sem me consultar) o que ia e o que vai ser de mim daqui para frente. eu nunca pedi nada a ele, nunca mencionei a ideia de casar, ele me ofereceu isso, e ficou tudo iluminado e depois ele mesmo tirou.

dá um desespero tão grande, tão grande.

minha mente mimada sempre acha que eu mereço uma recompensa pelas coisas que passei e pelo comportamento exemplar que tive depois delas (sabe? nunca dei preocupação pra minha família, não surtei, não fiquei viciada em remédio para dormir, não tive depressão daquelas que você larga emprego e a vida real e vira um fantasma. ao contrário: fiz tudo bem certinho). eu fico achando mesmo que deus devia mandar finalmente uma recompensa por isso tudo: e pelo fato deu continuar lutando. mas cara, cadê? é sério que a vida inteira vai ser essa sucessão de fracasso? então eu tenho o direito de me recusar, né? porque puta que pariu.

eu queria morrer devagar e bonito, tipo gelo derretendo. mas fico aqui olhando pra essa janela e pensando:






se eu me jogasse, capaz de nem morrer eu conseguir: nada que eu quero dá certo, anyways.

dia 3

auto-presente de aniversário.




destino: bulgária.

Saturday, July 17, 2010

dia 1

de: Adelaide Ivánova ivanova.ivanova@gmail.com
para: Leandro Bugni **********@gmail.com

data: 17 de julho de 2010 19:05
assunto: te atualizando
enviado porgmail.com

ocultar detalhes 19:05 (27 minutos atrás)



te atulizando depois daquele email doidão: armin me pediu em casamento tres semanas atrás e mudou de ideia essa madrugada - e me avisou, veja só, por email.

chorei mais que tudo, e olhe que já passei por coisa MUITO pior, tomei uma garrafa de vinho em 22 minutos, vomitei no chão do meu quarto, liguei pra minha mae de madrugada e pra victoria ceridono, mandei um email pra christina aguilera, fumei 34857 cigarros, escrevi no vodca bem locona, subi videos no youtube, levei um grito em alemão do vizinho cansado dos meus soluços não exatamente discretos.

e,
no fim,
estou me sentindo como eu mesma:

superada.

eu só falo de mim, eu sei.

beijo,
te amo,
alguma coisa que se parece com ivi (é tão nova essa coisa que devia mudar de nome).

então, de novo:

(...)
beijo,
te amo,
ivánova

144.

















143. vocês entedem?

por que eu cansei de viver?

cansei,
cansei,
tipo



não tenho mais fôlego,
saco,
cansei.

cansei.

e engraçado.

apenas uma letra

a letra n

me separa do verbo
sobre o qual eu ele conversamos
tanto.

até que ele desistiu,
e me perdeu.

ca
(n)
sei.

142. e agora

me mandem emails dizendo como eu não preciso.
disso.




dele.

141. quem diria

.


















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140. christina predizendo

how can i ever trust you again?


(eu sinto como se
nosso mundo tivesse sido contaminado
e,
de alguma forma,
você me negligenciou.
a gente percebeu que
nossas vidas
mudaram.
meu amor,
você me perdeu).

Thursday, July 15, 2010

139. o mistério do mistério

em alemão, existitir se chama "dasein". sendo que

da = ali
sein = ser

de modo que eu não existo em português, existo em alemão:

nunca estou no presente, estou sempre ali sendo (no passado ou no futuro).

138.

eu sou emocionalmente dependente deste blog.

ou da vontade incontrolável de esvaziar esse dilúvio interno.

sei lá qual a ordem.

tomara que a bateria dessa máquia de datilografar acabe e eu consiga deitar.

faz 28 horas que sou bípede.

137.

descobri uma coisa especial sobre os comunistas:

eles gostavam do leste porque lá o sol nasce primeiro
e
assim
que é fato:

o dia clareou antes que eu conseguisse esquecer o que teve ontem.



(e não, ninguém deu bola pro meu vestido de franja mas michael stipe do meu lado, bem assim,).

136. respeito de pista

nunca
na sua vida

nunca
faça pouco caso de uma pessoa sozinha na pista.



você não faz a mais vaga ideia do que ela está passando.

135. perdi o controle, também

em uma rua com o nome impronunciável
entre a schönhauser straße e prenzlauer allee.





eu senti bem claro
aquele estado inconfundível
em que se você pensa em inglês e for afetado como eu
se escuta não-dizer:
i´m losing it, i´m losing it, i´m losing it.

134. eu perdi meu pelelo

era a única coisa que eu tinha.

eu não sei onde foi. pode ter sido lisboa, madrid, palma de mallorca, colonia, enschede, berlim ou na cama de armin.

ou:

buraco negro.


tomara que ele esteja a salvo, o pelelo.

certamente melhor que eu ele está.

133. houston

we have a problem:


viemos parar em marte.

132. não faz sentido

que o conjunto de coisas que se fala um lugar se chame "língua".

isso é o que se usa para ser entendido. e eu entendo as palavras, mas não entendo nada do que eles querem dizer.

de modo que isso que dizem que se chama língua, devia ser chamar "mistério".

é isso que eles falam, esses daqui. um monte de mistérios.

Wednesday, July 14, 2010

131. (así me gusta papi)

oi pai do céu
estou neste momento vestindo meu melhor vestido de franjas e pedindo
que o senhor me mande um motivo bem bonito
que me ajude
a sobreviver
só mais essa noite.




i know i´ll rise tomorrow.
and i´ll be strong enough to fight.


(could you lift me even higher?)

prefácio do prefácio

hoje é dia 16 de junho e eu vou redesenhar tudo.


pelo amor de deus, me diz que vai ficar tudo bem de novo. que eu vou ser aquela daquele dia e eu vou te reconhecer como naquele dia naquele aeroporto



em que a gente disse oi e não se cuida.

três mulheres na minha frente

a da esquerda tinha os maiores peitos do mundo.

a do meio era careca e tinha uma cicatriz no antebraço direito.

a da direita não tinha boca.

elas eram tão feias, mas não aparentavam nenhum desconforto. já eu tinha uma cara de picasso, as coisas todas fora do lugar, um desespero tão grande de saber das coisas que ninguém me explica; um deseespero tão tão, que devia estar mais montruosa do que elas.

coloquei meus óculos escuros, baixei a cabeça e saí, bem pensando:

se eu continuar assim vão me levar para um hospício.

Tuesday, July 13, 2010

sob as tílias

passava um menino loiro.
dois.
três.

vinte e três.


e uma eu de queixo caído que queria ter 12 olhos para não perder nenhum de vista.





«|(/%&%/()=_:;ª^Ç`*

eu fico tentando ser engraçadinha mas eu queria mesmo era morrer bem morridinho.

Sunday, July 04, 2010

o inferno

faz 15 minutos que te olho.

estás repleto de coisas que nao conheco. nao sei porque tem gente que gosta de ti. escondes na tua propria existencia aquilo que todo mundo é: um conjunto de coisinhas lindas, bem criadas, a perfeicao da cor e da forma, a vida funcionando como tem que ser (é verao em algum lugar desse prato raso); mas também um conjunto de coisinhas amargas, moles, feias por dentro.

faz 15 minutos que te olho e me sinto desse tamanho.

estás aqui, na minha frente, porque pensei que podia fazer qualquer coisa que mudasse meu hábito de desistir das coisas, antes mesmo de vive-las, admiti-las, prova-las. nunca gostei de frutas, por exemplo.

eu desisti de tudo, e tu, com toda essa existencia incoveniente, comprova isso (nao sei o que fazer diante de ti, e estou a beira de desistir mais uma vez).

parece que daí me olhas, como a minha mala, porque sabes que vai ganhar de mim.


és um pote de morangos.