Monday, July 23, 2018

dar nome aos boys


para fabiana faleiros, cujo poema "minha tese começa assim" inspira o título deste; para hannah gadsby; e todas as mulheres processadas por seus abusadores por terem dito seus nomes 



"a forma como você se comporta na vida pessoal é tão importante 
quanto a forma como você conduz sua vida pública"
  lema do see red - women's workshop
grupo de ativistas feministas da segunda geração 

"living the politics is different from being abstractly in favour of it. 
i was checkmated by feminists (...)".
auto-crítica de stuart hall, sociólogo marxista anglo-caribenho, 1996






picasso não caiu
caravaggio
michelangelo
da vinci
gauguin
hemingway
fitzgerald
ted hughes
freud
martinho lutero
phillip roth
bukowski
kerouac
não caíram
não caíram
polanski
woody allen
lars von trier
michael haneke
bertolucci
bill cosby
hitchcock
marlon brandon
dustin hoffman
jack nicholson
casey affleck
não caíram
poetas brasileiros vivos
ricardos eduardos bernados marcelos
que não posso dizer o nome todo
para eles não me processarem
não caiu oswald de andrade
não caíram
henry miller
norman mailer
junot diaz
diego rivera
o marido de ana mendieta
eminem
tupac
chris brown
r. kelly
nelly
não caíram
quase todos os rolling stones
david bowie
little richards
jimmy page
john lennon
james brown
elvis presley
não caíram
miles davis
steven tyler
marvin gaye
sid vicious
iggy pop
jerry lee lewis
tommy lee
ozzy osbourne
chuck berry
johnny depp
não caíram
mel gibson
nicolas cage
steve seagal
josh brolin
sean penn
charlie sheen
não caíram
terry richardson
david copperfield
bruce weber
kobe bryant
aquele jogador francês do bayern
dennis rodman
myke tyson
não caíram
lewis carroll
nabokov
goethe
sade
(e percebam que por não ter lugar de fala
não aprofundo a lista de homens gays acusados
de abusar de meninos
pasolini
michael jackson
kevin spacey
walt whitman
allen ginsberg
ou tschaikovsky
mas espero que algum colega gay um dia o faça)
não caíram
trump
al gore
george bush
putin
berlusconi
michel temer
brilhante ustra
maluf
bolsonaro
ghandi

não caíram
a igreja católica
os soldados da onu no haiti
o exército russo em berlim
o isis
cada estado colonizador
cada dono de navio negreiro
cada bandeirante
cada senhor

não caiu zeus
nem a omi-tologia grega
nem o nome democracia
(demo significa "povo" em grego
mas na grécia antiga "povo"eram os omi
mulheres escravos trabalhadores pobres
e camponeses não tinham voz na vida política)
a base dessa anti-civilização moderna
o estado neoliberal que morde e assopra
o capitalismo que estupra mas não mata
os filósofos quase todos
o rock n' roll
o cinema

o cânone é lugar de omi
e a história que é contada
é essa:
podem dizer mil nomes
chamar a boiada inteira
não cai homem nenhum
não estraguem nossa festa






Thursday, July 12, 2018

um poema de cícero de souza



bolsonarou ofereceu capim
pra os eleitores de luiz inácio
comer
e eu pergunto aos senhores
se ele chegasse a ser presidente
ao invés de dar capim daria
veneno a gente?

não sei como conseguiu ser
deputado federal
discriminando mulher, negro,
homossexual
e agora quer dar capim
pros eleitores de lula
comer

tu ficou doido, bolsonaro?
tu cheirou cola
ou tá querendo aparecer?

dessa vez, bolsonaro,
tu fizeste um desatino
lave a boca quando for falar mal
de nordestino

e sobre o vídeo do capim
que na internet circula:
quem és tu, pra falar mal
dos eleitores de lula?

tu não passas de um golpista!
de um corrupto, oportunista
e só quem é cego não vê.
e digo a última, seu porra:

eu voto numa cachorra
mas eu num voto em você!

Tuesday, July 10, 2018

mppf! + grego = revista teflon!


gracas à minha amiga e cangaceira érica zíngano saiu uma seleção de poemas que foram (ou serão) publicados no mais pornô, por favor!, na revista grega teflon!

a revista é muito foda, já tem acho que uns oito ou nove anos de existência e se tornou não somente uma das revistas literárias (e de poesia) mais lidas da grécia, com mil cópias por edição, mas também uma das forças de resistência política e uma plataforma super importante da esquerda radical em atenas (#amor!). eles publicam poesia e ensaio, em grego e em tradução - e a parte de tradução tem um desejo de não somente trazer poesia do mundo prxs leitorxs gregxs, como também criar uma comunidade internacional de literatura de esquerda (#amor!).

como diz um dos fundadores da revista, jazra khaleed, nessa entrevista: "não temos patrocinador, não temos distribuidor: temos leitores". ISSAÊ!

para a edição #19, a eleni, uma das editoras da teflon, pediu pra eu fazer uma micro-antologia de poesia erótica brasileira contemporânea, viva e transante. minha seleção foi, como sempre, baseada em quesitos representativos (não preciso nem dizer que a "qualidade" dos poemas, seja lá o que isso signifique, não fica nunca, por causa disso, em segundo plano): misturar omi e muié, sapatão e viado e hts, branco e preto, e poetas do nao-sudeste. assim, chegamos à uma seleção de 19 autores, 11 mulheres e 8 homens. desse total, 14 (73%) são viadxs, 7 (36%) são do não-sudeste e 6 (31%) são negrxs. 

tá longe do ideal, é sabido, mas a cada publicação tentamos melhorar no que diz respeito à paridade e representatividade (isso dito: para a edição #8, que sai em setembro e está sendo editada por mim e carla diacov, estamos em busca de poetas molieres e trans e viadas de SERGIPE, TOCANTINS, PIAUÍ, RORAIMA, AMAPÁ, ACRE e RONDÔNIA. emails com 5 poemas e mini-bio NUM .DOC SÓ para bolagato.edicoes@gmail.com. deadline é 31 de julho).

enfim, aqui vai umas foto da rivista e o pequeno texto introdutório que escrevi. os poema e o texto foram carinhosa e guerrilhamente traduzidos pelo spyros. 


capa


contra-capa com jarid arraes, katia borges, natalia borges polesso, simone brantes, andré capilé, ricardo domeneck, cecília floresta, ana luiza goncalves, antonio la carne, rafael mantovani, joao meireles, ravena monte, flávio morgado, rita isadora pessoa, gabriela pozzoli, raphíssima, nina rizzi, lilian sais, ismar tirelli neto e william zeytounlian


que leendo


que leendo


A seleção destes poemas para a revista Teflon vem dos textos publicados no zine brasileiro MAIS PORNÔ, POR FAVOR!. Criado em Recife, cidade do nordeste brasileiro, em dezembro de 2016, o objetivo do zine é olhar para o tesão como potência revolucionária, principalmente no contexto do Brasil pós-Golpe. No #2 do zine, a pesquisadora Lori Regatieri escreveu:

“(...) por que nos tornamos tão insuportáveis para o Estado, os patrões e a polícia? Não foi à toa, tiveram que atuar juntos para impedir nossa algazarra festiva e transante. (…) O caos atmosférico dos atrasos dos salários, do aumento tarifário, das medidas proto-fascistas, dos militares nas ruas estão nos atravessando como uma faca de ponta aguda. Exultar o tesão nesse contexto é combater as forças do débito, estancar a sangria e nutrir a resistência micropolítica”.

E por que usar o termo “pornô”, no título de uma publicação que se pretende feminista, sendo que este é um nicho tão misógino? Anna Kristin Koch, em texto publicado na revista alemã Zeit Online, diz: “a indústria pornô não só fere os sentimentos de muitas pessoas, como também reproduz uma imagem de sexo, sexualidade e gênero que não cabem numa sociedade plural”. A autora sugere a aplicação de uma “pornografia ética”, na qual não só diversidade e sexo responsável são mostrados: estereótipos são quebrados e, independentemente do gênero, pessoas são parceiros sexuais iguais.

Essa problemática – to porn or not to porn – foi abordada no editorial da edição #3 (abril de 2017), escrito pela jornalista Carol Almeida:

“(...) se a palavra pornô vem carregada com um sentido tão próximo da ideia de exploração sexual do corpo da mulher, que possamos repetir aqui o que a comunidade LGTBQI fez com a palavra ‘queer’ nos anos 1980. Ou seja, vamos nos reapropriar do termo, vamos confundir e desorientar o inimigo. Com nossas línguas, coxas, pelos e algum sabonete líquido”.

Editado com as organizadoras do #leiamulheres de Recife – Maria Carolina Morais, Priscilla Campos e Carol Almeida – o #3, especial poesia lésbica, foi um divisor de águas na produção do zine (pelo seu conteúdo, mas principalmente pelo teor de mobilização coletiva). A seleção dos poemas funcionou em parte por meio de chamada pública e, com ela, passamos a conhecer o trabalho de jovens poetas lésbicas de todas as regiões do Brasil, ampliando não somente nosso conhecimento da poesia contemporânea de fora das grandes cidades, como também ajudando a criar mais uma rede de conexão entre as poetas fanchas.

Em outubro de 2017, em resposta ao fechamento da exposição “queermuseum” e a retaliação violenta de grupos de extrema direita contra Judith Butler (que estava no Brasil para uma série de palestras sobre democracia), disponibilizamos o #3 gratuitamente na internet, como uma tentativa de ajudar a emudecer os latidos recalcados dos fascistas.

A edição mais recente, a #6, é um especial de poesia caribenha. A motivação do zine é nos aproximar um pouco da poesia feita no Caribe e da situação de pessoas em refúgio vivendo no Brasil. Segundo o CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados), os países com maior número de solicitantes de refúgio no Brasil em 2016 foram Venezuela, Cuba e Haiti (646), todos países caribenhos. Do total de cerca de 10 mil refugiados no brasil, 32% são mulheres.

O MPPF! é uma publicação independente, anarcofeminista, que se apropria do termo “pornografia” para espalhar no mundo poesia erótica, queer e feminista (em brasileiro, em português e em tradução). Nosso desejo é torcer a lógica misógina, sexista, transfóbica, homofóbica e capitalista do pornô mainstream. Boa leitura!