Tuesday, May 23, 2017

bio dxs autorxs de MPPF #4


hoje é o lançamento internetal de MAIS PORNÔ, PFVR! #4, que é só de poesia traduzida. essa edição foi editada por moá, com a colaboração preciosa dxs tradutorxs and poetas william zeytounlian (responsável também pela capa, de certa forma haha), regina azevedo, sergio maciel e guilherme gontijo flores. a imagem do miolo é de santarosa barreto.


o zine tem tiragem de 50
cada zine custa R$ 3
o frete sai por R$ 7 
(haha não faz sentido, mas é assim)
para encomendar:
bolagato.edicoes@gmail.com
(hahaha siam!)



aqui vão as bios dxs autorxs desta edição, por ordem alfabética. todas as bios foram tiradas das primeiras linhas dos seus perfis no wikipedia, menos santarosa barreto, christiane quandt e chris daniels.


Audre Lorde  (EUA, 18 de fevereiro de 1934 - 17 de novembro de 1992) foi uma escritora caribenha-americana, feminista interseccional, mulherista, lésbica e ativista dos direitos civis.

Caio Valério Catulo  (Verona, 87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C.) foi um poeta romano do final do período republicano.

Carl Phillips (EUA, 23 de julho de 1959) é um poeta afro-americano professor de Inglês e Estudos Africanos e Afro-americanos da Washington University em St. Louis.

Chris Daniels (Manhattan, 1956) é um tradutor feroz da poesia lusófona global e vive em Oakland, California.

Christiane Quandt (Alemanha, 1982) é tradutora, poeta e co-editora da revista alba.lateinamerika lesen.

Comtessa de Diá (1140 -1212) foi uma trovadora provençal.

Cristina Peri Rossi (Uruguai, 12 de novembro de 1941) é novelista, poeta, tradutora e contista.

Dorothea Lasky (EUA, 1978) é uma poeta e professora.

Essex Hemphill (EUA, 6 de abril de 1957 - EUA, 4 de novembro de 1995) foi um poeta e ativista afro-americano.

Jean de La Fontaine (França,  8 de julho de 1621 - 13 de abril 13 de 1695) foi um poeta e fabulista francês.

Maya Angelou (EUA, 4 de april de 1928 - 28 de maio de 2014) foi uma poeta, memorialista e ativista dos direitos civis afro-americana.

Nina Simone (EUA, 21 de fevereiro de 1933 - 21 de abril de 2003) foi uma cantora, compositora, pianista, arranjadora musical e ativista dos direitos civis afro-americana.

Rosinha (Portugal, 5 de Janeiro de 1971) é uma cantora pimba.

Santarosa Barreto (Brasil, 6 de agosto de 1986) é artista visual e feminista.

Staceyann Chin (Jamaica, 25 de dezembro de 1972) é uma poeta, performer e ativista LGBT jamaicana.




Saturday, May 13, 2017

o cavalo #2


você vai embora
e leva tudo o que é
meu e seu a galope
consigo
o que sobra é
writers' block
e as camisinhas pra jogar
fora que deixo no chão
como se fossem filhos
que não quero expulsar
de casa pra lembrar do pai
e se eu não tivesse mil anos
e fosse fértil seria linda
a linhagem de puro-sangue
seus filhos os potros
que eu-égua teria parido

você vai embora e
não fica nada além
do cheiro de estábulo
limpo um misto empoeirado
de saudade e alívio



ô, marinheiro

(de fiona apple em "extraordinary machine", 2005)

eu tô na dúvida sobre tu, de novo
não estou certa que fosse embora
é complicado, porque fui eu que pus tudo a perder
mas também me salvei porque nunca acreditei em você, querido

tudo o que é bom eu acho que é bom demais pra ser verdade
e todo o resto eu acho um saco
tudo que eu tenho que me anima
ou é muito imponente ou é muito doloroso

ô, marinheiro, por que tu faz isso?
pra que tu faz isso?
dizendo que não é nada demais
e depois deixando o barco afundar

e depois de muito esperar de joelhos
tudo o que sobra se cansa, menos eu
e na vigília surge o toque e o chamado
de uma linhagem nova
que me faça mais sábia e me faça avançar
e que me possua

e que coisa é pensar em como as coisas poderiam ter sido
ai que maldição abençoada, ver
que isso controla minha cama
e fez de mim uma amante alegre

ô, marinheiro, por que tu faz isso
pra que tu faz isso



Tuesday, May 02, 2017

pro meu amante, quando atinge a maioridade



meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
belchior



saiba que você chegou no dia
que belchior morreu e que eu
dei pausa no 'coração selvagem'
pra te ouvir falar - e deus
você fala mais do que o homem
da cobra - e que isso se chama
amor, de certo modo

você saía de dentro da sua mãe
enquanto eu cheirava loló
e ouvia chico science nas ruas
de uma cidade latinoamericana
da qual você nunca ouviria falar
até me conhecer, 20 anos depois

que bom que você está aqui
e posso testemunhar esse ano
a mais nos seus ossos
que parecem continuar crescendo,
como sua crina, o mato que
eu mais amo, e que bom que sou
eu quem vai cortá-lo, porque
você me deu a honra

é seu aniversário de 21 anos
eu te olho abismada
não fico exatamente feliz
e você deve sentir
pena de mim também
talvez

mas não é isso que une todos
os amantes, a tristeza?



valei-me





Saturday, April 15, 2017

a noite dos condenados/o fim do amor, de ingeborg

esse poema foi encontrado escrito num guardanapo. o primeiro verso, o que tá riscado, diz "nichts besonders", que em alemão é tipo "não é nada demais", "sem graça".

as duas palavras do penúltimo verso ("o mundo {--}") são ininteligíveis no manuscrito e aparecem, na transcrição que aparece no livro, assinaladas da mesma forma que aqui.



A NOITE DOS CONDENADOS
O FIM DO AMOR

Uma lua, um céu
e o mar escuro.
Agora, escuro está tudo.
Só porque é de noite
e nada humano
entrelaça a delicadeza.
Ainda me acusas de quê?
e essa amargura,
Faz isso não.
Eu não sabia fazer nada
a não ser te amar, eu não
pensei,
que por causa do suor da pele
o mundo [--] [--]
e que caem uns vinténs





de Bachmann, Ingeborg. “Ich weiß keine bessere Welt.” Piper.


Sunday, March 26, 2017

três poemas de “Ich weiß keine bessere Welt”, de Ingeborg Bachmann



Meus poemas fugiram de mim.
Eu procuro por eles em todos os cantos da casa.
Não sei nada sobre a dor, nem sobre como se deve
escrever sobre a dor, eu não sei de nada.
Sei que não se pode falar das coisas desse jeito
tem que ter tempero, jogar pimenta na metáfora.
ocorreria a alguém. Mas com um punhal nas costas.
Parlo e tacio, parlo, me escondo num dialeto
no qual até em espanhol aparece, los toros y
las planetas, num disco velho e roubado
que talvez ainda toque. Com um pouco de francês
também rola, faça mon amour depuis si longtemps.
Adieu, palavras bonitas, vocês e suas promessas.
Por que vocês me abandonaram? Não tava bom aqui?
Vou guardar vocês dentro de um coração de pedra.
E lá, aguentem, e lá escrevam meus poemas por mim

Meine Gedichte sind mir abhanden gekommen.
Ich suche sie in allen Zimmerwinkeln.
Weiß vor Schmerz nicht, wie man einen Schmerz
aufschreibt, weiß überhaupt nichts mehr.
Weiß, daß man so nicht daherreden kann,
es muß würziger sein, eine gepfefferte Metapher.
müßte einem einfallen. Aber mit dem Messer im Rücken.
Parlo e tacio, parlo, flüchte mich in ein Idiom,
in dem sogar Spanisches vorkommt, los toros y
las planetas, auf einer alten gestohlenen Platte
vielleicht noch zu hören. Mit etwas Französischem
geht es auch, tu es mon amour depuis si longtemps.
Adieu, ihr schönen Worte, mit euren Verheißungen.
Warum habt ihr mich verlassen. War euch nicht wohl?
Ich habe euch hinterlegt bei einem Herzen, aus Stein.
Tut dort für mich, Haltet dort aus, tut dort für mich ein Werk


NÃO DESCARTAR NENHUM TESTEMUNHO

Não descartar nenhum testemunho, calar, viver
a vida pré-determinada, viver,
o sol durante o dia não muda nada
não ser fardo para o sol, não ser fardo para
ninguém.
É um fardo não esperar nada, não temer nada.

KEIN ZEUGNIS ABLEGEN

Kein Zeugnis ablegen, schweigen, leben,
das vorgeschriebene Leben, leben,
die Sonne, die nichts an den Tag bringt,
die Sonne auch nicht bemühen, niemand
bemühen.
Es ist eine Mühe, zu hoffen nicht, zu fürchten nichts.

PUBLICIDADE,

tento atrair todo mundo
e não consigo ninguém
tento atrair o cobrador do trem
que deixa a porta bater na
minha cara, tento atrair o carteiro
que faz muito
barulho, tento atrair
todo mundo, eu preciso
de um grande homem
para conseguir amá-los,
é perigoso amar
os homens, é um crime
insistir


WERBUNG,

um jeden werb ich
und keinen gewinn ich,
um den Straßenbahnschaffner
der vor mir die Tür einschnappen
läßt, um den Postboten,
der zu laut
läutet, um jeden
werb ich, ich brauch
ein Heer von Menschen
um sie lieben zu können,
es ist gefährlich, die Menschen
zu lieben, ein Verbrechen
sich aufzudrängen

Friday, March 24, 2017

eu vou melhorar, de bon jovi


agora deve ser verdade
tua mala feita não nega
enquanto o meu coração sangra
tu diz "o amor é uma merda"
tu diz "chorei o são francisco
e agora quero a transposição"
me deixasse afogar em lágrimas
e o pior sem salvação
eu só queria um colete salva-vidas, meu

eu vou melhorar, essas palavra tu pode anotar
ao respirar, eu quero ser pra tu o ar
eu vou melhorar
eu vivo e morro por tu
eu roubo o sol lá do céu por tu
palavras não fazem jus
eu vou melhorar

eu sei que lembras de quando era bom
mas até eu me esquecerei
não posso prometer nada
nem melhorar o que piorei
tu sabe as merda que eu fiz (e tu sabe que eu fiz merda)
mas só queria ser teu namorado
serei a água que cura a tua ressaca
e antes disso eu serei a cachaça (oooooo-ow!)

(repete refrão)

na alegria eu fui ausente
e te ignorei quando tarras mal
esqueci o teu aniver baby
mas ao menos sou um boy coerente (uuuuuuuh)

(repete refrão)
(grita na karaokê)

Tuesday, March 07, 2017

um pouco sobre a feitura do MPPF! #3

o MAIS PORNÔ, POR FAVOR! #3 é dedicado à poesia lésbica. essa decisão foi tomada por um motivo simples: ao olhar o conjunto de autorxs publicadxs nos dois primeiros números do zine, notamos que, ainda que não fossem heterocêntricos, a maioria dos poemas falava de pau: dos 24 poetas publicados nas duas primeiras edições (12 mulheres e 12 homens), 21 falavam de rola.

assim, para essa edição, queria poemas que falassem de buceta, mas que passassem longe da heteronormativade (tantas vezes tóxica e auto-celebratória) da poesia de buteco. convidei então carol morais, carol almeida e priscilla campos que, entre outras mil coisas foda que elas fazem, organizam o #leiamulheres recife.

capa com ilustração foda de giovana rosetti
e releitura de carol morais pro poema de stein.
editorial de carol almeida.
o ziné é numerado and costurado a mão
por esta tabacuda que vos escreve


no decorrer do trabalho de pesquisa, pela nossa dificuldade de encontrar e consequente falta de material de autoras não-sudestinas na nossa seleção, decidimos fazer uma chamada aberta no facebook, convidando autoras do não-sudeste a enviarem seus textos. vale aliás notar que, durante nossa pesquisa, os (poucos) artigos/textos/posts dedicados à poesia lésbica brasileira que encontramos se focavam quase que exclusivamente em poetas brancas, urbanas e do sudeste brasileiro.

em cinco dias, recebemos textos de autoras de 13 estados. durante a seleção final, nossa preocupação – além, óbvio, da qualidade dos poemas – era a representatividade, tentando balancear a quantidade de autoras não-brancas e de fora das capitais.

assim, chegamos a 10 poetas brancas, 7 negras e uma asiática (ainda não é o ideal, mas prometemos não descansar e dobrar a meta*).

entre as brasileiras, 7 são de capitais e 6 de não-capitais. no que tange distribuição por estado, tentamos não reproduzir a lógica recifilista-pernambucocentrista do manifesto regionalista de '26 hahaha e semi-conseguimos: das 14 poetas brasileiras, 2 poetas são pernambucanas, mas mais as 4 editoras e uma co-tradutora (amanda guimarães), ficamos com 6 pernambucanas no zine. foi mal. além disso temos: 1 autora baiana, duas cearenses, 2 de são paulo, uma do rio, uma de minas, uma do pará, 2 do mato grosso, uma do maranhão e do espiríto santo temos uma poeta e a ilustradora da capa, giovanna rosetti.

para dar conta de tanta maravilhosidade que encontramos brasil and mundo afora, aumentamos o zine em 4 páginas, e agora em vez de 16 o MPPF! passa a ter 20 páginas. clica aqui pra ler a bio de todas as poetas dessa edição.

quanto às traduções: a seleção foi feita por carol morais, com algum pitaco meu (soror juana e maiara  + maraisa). como a cena sapatânica norte-americana é muito ativa e bem auto-organizada, encontramos uma bibliografia poderosa sobre poesia lésbica nos EUA e fomos nos apaixonando pelo material encontrado. no fim, quando notamos que praticamente toda a parte de tradução estava dedicada à poetas dos EUA, priorizamos então as autoras não-caucasianas, deixando por isso grandes sapatães que amamos (como adrienne rich, eileen myles, elizabeth bishop, gertrude stein, emily dickinson etc.), de fora. tentamos assim dar espaço a poetas lésbicas não-brancas que não conhecíamos: pat parker, cheryl clarke e merle woo. ainda consideramos os trabalhos de wu tsao (japão), staceyann chin (jamaica) e cristina peri rossi (uruguai), além das brasileiras ângela ro-ro, angélica freitas e ana cristina césar.

para encomendar o zine que custa R$3 + FRETE 
(a calcular). como o envio da alemanha é caríssimo,
a ideia é que um grupinho de eventuais interessados
que estejam na mesma cidade dividam o frete.
se interessar, manda email pra vodcabarata@gmail.com



*queremos nos manter bafônicas e bufônicas, mas também prometemos nos manter atentxs a essas questões de representatividade. é difícil demais não cair na gostosa tentação de só publicar nossxs amigxs (ou seja, nossxs iguais; ou seja, brancosurbanoscisdeclassemédia), mas vamos ficar atentxs pra isso. prometemos também ampliar nossa pesquisa para uma abordagem não-binária de gênero - uma edição só com poesia de autores trans* já está em andamento e sai em maio, depois da edição de abril especial traduções, que será editada por nina rizzi, guilherme g. flores e sergio maciel (aka escamandro).

na verdade, a gente espera que chegue um dia em que um zine como esse não precise ser político, possa ser apenas divertido. mas por enquanto é impossível. então vamos à luta - sem perder a vontade de transar jamais (e apesar de tudo).

#foratemer,
adelaide, CEO