Saturday, January 14, 2017

referências biblio-erotizantes do editorial de mais pornô, por favor!



KIFFER, ANA. Limites da escrita ou como fazer da escrita uma plástica poética?. Alea vol.10 no.2 Rio de Janeiro Jul/Dez. 2008.

DIDI-HUBERMAN, GEORGES. Para onde a ira leva ? Le Monde Diplomatique. Jun/2016.

DELEUZE, GILLES ; PARNET, CLAIRE. Abecedário de Gilles Deleuze. Éditions Montparnasse, Paris. Filmado em 1988-1989. Publicado em: 1995.

LEONILSON, JOSÉ. Obras.


Sunday, December 25, 2016

the fury of cocks, de anne sexton, em tradução pro brasileiro







A fúria das rolas

Lá vão elas
Pingando sobre os pratos do café-da-manhã,
Como se fossem anjos
com uma asa triste
Animal triste,
Sendo que ainda ontem
Lá estavam elas
Dedilhando o violão.
Mais uma vez a luz do dia vem
Com seu sol imenso,
Com seus caminhões,
Suas amputações.
Considerando que ontem à noite
A rola sabia o caminho de casa,
Dura como um martelo,
Batendo em todos
Com sua força terrível.
Que teatro.
Hoje ela está calma,
Um pássaro pequeno,
Macia como a mão de um bebê.
A mulher é a casa.
O homem é a torre da igreja. 
Quando eles fodem eles são Deus.
Quando eles se separam, eles são Deus.
Quando roncam, são Deus.
De manhã passam manteiga na torrada.
Eles não dizem muito.
Eles ainda são Deus.
Todos as rolas do mundo são Deus,
Brotando, brotando, brotando
No sangue doce da mulher.


essa tradução roleira foi feita para o zine mais pornô, por favor!,  editado por moá e ismar tirelli neto e lançado em dezembro de 2016 no museu do tubarão (att. aslan cabral, #amamos), em recife. 

segunda edição do zine tá no forno. mais detalhes soon.

Sunday, December 18, 2016

fighter, de christina aguilera em tradução pro recifês (ou "diálogo imaginário entre dilma rousseff, presidenta eleita, e michel temer, golpista")


Bom eu achei que te conhecia e que tu era sincero
Acho que não dava pra confiar em tu, teu blefe acabou
Porque eu cansei
Tu tava do meu lado, sempre, pro que desse e viesse
Mas tua aventura foi por água abaixo porque tu com tua ganância decidisse queimar meu filme

Depois de toda roubalheira e traição tu provavelmente acha que
Eu to chateada contigo
Mas meu filho tu tás enganado
Porque se não fosse por tudo que tu tentasse fazer, eu não saberia
Quão capaz eu sou de superar
Então quero te agradecer
Porque:

Tu me fez muito mais forte
Me fez querer me superar
Me fez muito mais sabida
Me fez aprender mais rápido
Me fez mais resistente
Me fez esperta
Então obrigada por fazer de mim uma guerreira

Eu nunca previ, tu me esfaqueando pelas costas
Apenas pra tu faturar um montão ca Odebrecht antes deu descobrir o golpe
Ouvi dizer que agora tu fica por aí pagando de vítima
Mas nem pense em dizer que a culpa é minha
Porque tu cavasse a própria cova
Depois de todas as brigas e as mentiras porque você não me deixa em paz
Mas isso não me afeta mais (ã-ã)
Cabou-se
Porque se não fosse por toda tortura
Eu não saberia como ser como eu sou agora e nunca me curvar
Então eu quero te agradecer
Porque:

(repete recibo)

Como pode esse boy que eu achei que conhecia
Se tornar tão uó e cruel
Eu só via a parte boa em tu
Fingindo não ver a verdade
Tu tentasse esconder as mentiras e se disfarçar
Vivendo em negação
Mas no final tu vai ver:
Nada vai me parar

Eu sou uma guerreira e eu
Não vou me curvar
Não tem volta
Cansei dessa porra.



chrisdilma aguilera






Sunday, December 11, 2016

love poem, de audre lorde


Poema de amor

Diga terra e me abençoe com a coisa mais preciosa
faça o céu tirar mel dos meus quadris
rígidos como montanhas
espalhadas por um vale
esculpidas pela boca da chuva.

E eu soube, quando a penetrei, que eu
era vento forte nas florestas dela
dedos vazios sussurrando
o mel escorreu
do canudo na taça
empalada por um arpão de línguas
na ponta dos peitos dela, do umbigo dela
e minha respiração
uivando nas reentrâncias dela
através de pulmões sofridos.

Gananciosa como uma gaivota
ou uma criança
eu rebolo sobre a terra
muitas e muitas
vezes.




traduzi esse poema para o zine anarcobucetalista MAIS PORNÔ, POR FAVOR!, que foi lançado em recife em edição única no dia 7 de dezembro de 2016, com curadoria de ismar tirelli neto e desta adelaide que vos escreve e que tinha ainda poemas de rihanna, anne sexton, audre lorde, rita isadora pessoa, maria gabriela llansol, catulo, allen ginsberg, ricardo domeneck (inédito), rafael mantovani (inédito), kavafis, luis miguel nava, jaime gil de biedma e hilda hilst.





Tuesday, December 06, 2016

kiss it better, em tradução pro recifês




Chupe direito
letra de rihanna, jeff bhasker, john glass e teddy sinclair



(Chupe, chupe direito, gato)

Tô esperando por aquele sol-nascer, menino, preciso dele de volta
Não dá pra fazer assim
Ninguém vai gozar assim
Aí eu reclamo, tu grita
Mas quem liga quando tá uma merda?
Meu filho você sabe que você sempre acerta
Mermão foda-se seu orgulho
Só continue, meu filho, continue
Continue a noite todinha
Continue e continue
Hummmm o que quer que você faça, só me mantenha acordada a noite toda
Me fazendo gemer e doer dentro de mim quando eu te olhar nos olhos

O que você tá pensando em fazer?
Me diga o que você tá pensando em fazer
(Chupe, chupe direito, gato)

Eu fiquei esperando a noite toda
Me diga o que tá acontecendo
Vá lá e faça as coisas direito
Faça a noite inteira
Mermão foda-se seu orgulho
Só continue, meu filho, continue
Continue a noite todinha
Continue e continue
Hummmm o que quer que você faça, só me mantenha acordada a noite toda
Me fazendo gemer e doer dentro de mim quando eu te olho nos olhos

O que você tá pensando em fazer?
Me diga o que você tá pensando em fazer
(Chupe, chupe direito, gato)




(essa foto cafona é um frame do clipe de kiss it better)


amanhã 7 de dezembro a partir das 20h no museu do tubarão tem FESTA DAS ÁGUAS, com leituras performances shows leituras de tarô concurso de miss yemanjada AND o lançamento do zine
MAIS PORNÔ, POR FAVOR! com curadoria desta adelaide que vos escreve e colaboração yemanjadíssima de ismar tirelli neto, em edição única e tiragem de 50 exemplares.


com poemas de:
rihanna
anne sexton
audre lorde
rita isadora pessoa
maria gabriela Llansol
catulo
allen ginsberg
ricardo domeneck (inédito)
rafael mantovani (inédito)
kavafis
luis miguel nava
jaime gil de biedma
e deus ops hilda hilst




Wednesday, November 16, 2016

um poema de horácio costa, um quadro de leonilson, as coisas escorregadias da linguagem, dizeres de toni morrison e um post de júlia hansen


dados novos na paisagem

um veado gordo que quer ser fotografado
usando calcinhas de mulher bem apertadinhas
para um site gay onde ele pode postar o que bem entender
e haverá quem o encontre sexy e queira sair com ele

e uma paciente trans no melhor hospital brasileiro
talvez se recuperando de uma cirurgia de mudança de sexo
caminhando com a mãe e a tia no saguão até o caixa
para pagar o estacionamento          bem na minha frente

são dados novos na paisagem         e as nuvens
que se acumularam e cruzam o céu agora
não têm memória de que choveram ontem mesmo
a esta hora justo em cima da Grande São Paulo

as orquídeas que se abrem no grande vaso vitrificado
e exalam um perfume para lá de sensual não recordam se
na sua última floração resultaram tão inebriantes
ou se viraram conversation pieces como essas

do Hospital Einstein: as senhoras às três da tarde
já esgotaram todos os assuntos no saguão mas
ninguém que falasse da bicha trans que calçava
número 45 e tinha peitos fartos como Sofia Loren:

preferiram o tema das orquídeas nesta época do ano
e que perfume! não dá para crer! porque, sim,
há algo de novo na paisagem e as senhoras, ah,
têm andado mais cuidadosas com o que dizem.


(horácio costa em "a hora e a vez de candy darling": goiânia, martelo editorial, 2016).




"mulheres ciganos comunistas homossexuais 
negros aidéticos judeus aleijados"
leonilson, 
1990,
lápis de cor sobre papel





o poema genial de horácio costa, que à primeira vista analisa a capacidade de articular uma linguagem para o desconhecido, trata de visibilidade vs. invisibilidade; e na verdade acaba falando muito mais dos cegos do que dos supostos "invisíveis". aliás, eu ODEIO esse termo, que transfere pra alguém em eventual situação de vulnerabilidade a responsabilidade pela nossa incapacidade de vê-lx, de ver o mundo, de ver o outro.

o quadro de leonilson, também genial, mostra copinhos vazios que ganham os nomes de grupo marginalizados pela sociedade patriarcal. esse trabalho me deixa engasgada toda vez que o vejo.

no poema aparece o termo "mudança de sexo" quando o termo aceito atualmente é "cirurgia de redesignação de sexo" ou " cirurgia de adaptação de gênero".

no quadro de leonilson aparecem palavras hoje em dia impensáveis de ser usadas: ciganos (atualmente o certo é roma, sinti, calon ou ainda povos nômades, mas tem gente que não curte esse último), aidéticos (atualmente o certo é HIV positivo) e aleijado (atualmente pessoas portadoras de deficiência).

poderíamos rapidamente cair na armadilha de criticar esses trabalhos pelo uso desatualizado de sua linguagem. mas mesmo pra mim, que sou fiscal pussy riot em nome de uma linguagem empática (dos outros mas da minha acima de tudo), é importante considerar não somente a fenda temporal (o poema foi escrito em 2013, provavelmente antes da readaptação do termo "mudança de sexo" e o quadro foi feito em 1990, milênios antes de pessoas foda nas redes sociais começarem a nos fazer entender que ser politicamente correto é correto) mas principalmente QUEM está dizendo as coisas. e tanto horácio quanto leonilson podem, pela sua produção e compromisso com a homocultura, falar de uma certa forma que não seria permitida a uma pessoa cis e heterossexual.

anyways, o bonito (eu acho) é sempre cuidar das palavras, pensando no outro, mesmo que esse outro não seja talvez um interlocutor direto. as palavras vão pro mundo que nem os anjos, tem isso na torah e eu não sou judia mas acho massa.

nessa aula (é longa mas vale CADA FUCKING MINUTO) toni morrison (também conhecida como deus) fala sobre isso. que usar uma linguagem respeitosa, considerate, não retira potência do texto. ela fala que podia usar essa ou aquela palavra que, à primeira vista, causam impacto, mas que ela também pode do better than that:

deus falando


mas mais do que isso, hoje li esse post da minha querida júlia de carvalho hansen, que espero que me contamine pelos próximos anos:

ontem, depois de assistir a poderosa defesa de doutorado de uma amiga, onde 4 mulheres eram as professoras arguidoras e uma das discussões foi o direito à opacidade da linguagem, peguei carona com outra professora que eu não via há milênios e fomos no caminho concordando que o nosso desejo pra 2017 é que as pessoas do planeta ensinem aos seus filhos que eles podem sentir mais coisas, que é emocionalmente possível ter mais reações do que ficarem bravos, cheios de raiva ou inflexíveis em seus desejos de terem razão. a razão, ah a razão, como às vezes é tão indelicado ter razão.