Friday, January 29, 2016

paul celan: presente!




TANTAS ESTRELAS que
nos são dadas. Eu estava
enquanto te olhava - quando mesmo? -,
lá fora, em
outros mundos.

Ah, esses caminhos, galácticos,
ah, essa hora, que as noites
nos deram pelo fardo
dos nossos nomes. Não é
verdade, disso eu sei,
que a gente vivia, apenas se ia
cegamente, um sopro entre
Ali e Não-aqui e Àsvezes,
o olho se agitava como um cometa
em direção ao Extinto, aos abismos,
lá, onde as coisas se apagam, ficou
o tempo, amojado,
no qual já cresceu, superou
e fugiu o que
é ou foi ou vai ser,

eu sei,
eu sei e tu sabes, a gente sabia,
a gente não sabia, a gente
estava era aqui, e não lá,
e às vezes, quando
somente o Nada havia entre a gente,
era quando a gente se entendia.




SOVIEL GESTIRNE, die
man uns hinhält. Ich war,
als ich dich ansah – wann ? –,
draußen bei
den anderen Welten.

O diese Wege, galaktisch,
o diese Stunde, die uns
die Nächte herüberwog in
die Last unsrer Namen. Es ist,
ich weiß est, nicht wahr,
daß wir lebten, es ging
blind nur ein Atem zwischen
Dort und Nicht-da und Zuweilen,
kometenhaft schwirrte ein Aug
auf Erloschenes zu, in den Schluchten,
da, wo’s verglühte, stand
zitzenprächtig die Zeit,
an der schon empor- und hinab-
und hinwegwuchs, was
ist oder war oder sein wird -,

ich weiß,
ich weiß und du weißt, wir wußten,
wir wußten nicht, wir
waren ja da und nicht dort,
und zuweilen, wenn
nur das Nichts zwischen uns stand, fanden
wir ganz zueinander.





eu decidi começar a trasladar do alemão pro recifês alguns poemas de paul celan como reação à forma como a reedição de mein kampf foi feita e está sendo divulgada no brasil. como já falei aqui, sou contra a proibição de publicação de qualquer livro, mas também a publicação de qualquer livro - principalmente esse, escrito por um genocida - deve ser feita de forma extremamente cuidadosa, o que não é o caso (saiba mais sobre as mancadas cometidas pela editora responsável nesse artigo curto e ótimo).

enfim: celan, além de ser um poeta maravilhoso (que transcende o conceito psicanalítico (e doméstico) de trauma, de linguagem e confunde as escola literária tudo) foi "poucamente" editado no brasil (os usados chegam a R$ 190 na estante virtual; na livraria cultura, edições em português estão esgotadas e as em espanhol chegam a custar R$ 220; na saraiva é a mesma coisa; na fnac não há nada).

a pessoa só pode ficar triste e pensar: bicho, se é pra requentar um livro bosta como mein kampf, com a desculpinha que é pra não-esquecer, por que não se reedita também celan? existem tradutores e traduções excelentes, como as de guilherme gontijo flores e ricardo domeneck (que  republicou ontem o post "shoah: poemas de sobreviventes", com poetas que (sobre)viveram o holocausto). por que não se reedita também primo levi? se é pra entender o mal, que seja com quem sofreu com ele, não com quem o causou. vamos publicar mais e melhor maria carolina de jesus, vamos traduzir e reeditar mais e melhor maya angelou, james baldwin? sei lá, tanta gente!

então decidi arregaçar as mangas e fazer essa tradução nordestinada de "soviel gestirne" do livro "niemandsrose" (1963).



nota rápida sobre a tradução:
ainda que celan fosse hermético, nublado, difícil de entender pelas suas imagens e neologismos, ele muitas vezes usava contrações e pinceladas da linguagem oral (e assim decidi trocar o "nós" por "a gente", por ex.).

além disso, a sintaxe alemã - que empurra os verbos para o fim da frase, dependendo do caso - quando traduzida de forma literal, fica muito cabulosa de entender no português, ou muito solene, o que creio que celan nunca foi. então, em nome da fluidez da ideia, fiz algumas trocas de versificação, colocando a musicalidade do original em outro contexto.

esse poema foi traduzido por joão barrento como "tantas constelações". mas enquanto o lia e relia, pensei no céu do sertão, nas estrelas nos caminhos que sertanejos tiveram que fazer fugindo da grande seca no século 19 ("apenas se ia cegamente"). claro, o que celan pensava era o caminho que os judeus faziam para os campos, por causa de "tantas estrelas/ que nos são dadas". assim foi que decidi deixar o nome como "tantas estrelas", por razões afetivas, por causa da estrela amarela de identificação dos judeus, ainda que "estrelas", em alemão, seja "sterne" e não"gestirne", que significa "corpo celeste" ou "david bowie" (hahaha).



rapidamente sobre paul celan:
poeta, tradutor e sagitariano, era um judeu romeno. nasceu em 1920. foi enviado em 1942 para um campo de concentração para  trabalhos forçados, onde era obrigado a queimar livros, mas sobreviveu. seus pais, no entanto, foram assassinados em campos de concentração do regime nazista de hitler.

o holocausto e seus desdobramentos - mais os internos do que os externos - foram temas de celan durante toda sua vida, causando por isso mal-estar e rejeição em muitos críticos, que o consideravam tipo recalcado, repetitivo, drama queen. bicho, a gente num supera um boy de áries, que dirá um holocausto.

celan se suicidou em 20 de abril de 1970, dia do aniversário do fuehrer.







Friday, January 22, 2016

hotel bogota





expo de fred huening
no legendário hotel bogota
em west berlin
onde yva morou
onde nan goldin morou
 até 28 de fevereiro
aqui




Thursday, January 21, 2016

fala, elis.


Elis Regina sendo Elis
"Quando os hómi percebê..."Elis Regina contra a ultracaretização da sociedade brasileira.
Posted by Um Milhão on Saturday, 24 October 2015

Tuesday, January 19, 2016

pensando sobre "minha luta"

diogo guedes, do jornal do commercio de recife, conversou com sidney rocha, wellington de melo, anco márcio e comigo, sobre a reedição do livro de hitler no brasil.

é um texto simples e direto. acho que vocês vão gostar.

aqui para ler "autores, editores e críticos falam sobre a publicação de 'mein kampf', livro de hitler".

Thursday, January 14, 2016

apagamento


"Though I'm past one hundred thousand miles
I'm feeling very still"
David Bowie

"Ver uma paisagem, tal como ela é quando não estou ali..."
Simone Weil






eu tenho falado 
de você há alguns anos
espalho lendas a seu
respeito com o intuito inadequado
de embelezar a minha própria
biografia hoje
quando falei de você
no bar não aconteceu
nada demais seu nome
foi mencionado por mim
como tem sido há sete
anos você que representa
ao mesmo tempo
útero e exílio que
me fez ao mesmo
tempo fugir de casa
e voltar pra casa 
seu nome foi mencionado
nesse dia como foi
em quase todos os outros
a diferença foi que hoje
só havia a linguagem e 
eu já não tinha mais
para onde ir 
enquanto eu dizia
seu nome.