Monday, May 06, 2019

arte pros 99 por cento

. essa é uma tradução de adelaide ivánova pro artigo "art for the 99 percent", de luke savage, publicado em maio de 2019 na revista jacobin. link pro texto original: https://jacobinmag.com/2019/05/wealth-art-creativity-resources-redistribution


cartaz de "on the road" filme de walter moreira salles, "o cineasta mais rico do mundoe que, junto com seu irmãos, possui um patrimônio estimado em 62 bilhões de reais, vindo de investimentos em bancos e monopólio no setor de metalurgia e mineração. walter salles também é um dos donos do instituto moreira salles (RISOS).



ARTE PROS 99 POR CENTO

Jovens ricos têm muito mais propensão a virarem artistas. E esse é o motivo pelo qual o capitalismo não dá a todos nós a liberdade de atingir nosso potencial criativo

Se sua família tem dinheiro, você tem mais chances de virar artista. Uau que surpresa.

Isso é o que mostra um estudo publicado em fevereiro de 2019 pelo professor Karol Jan Borowiecki, da Univesidade do Sul da Dinamarca. Ao examinar os dados dos sensos dos EUA, desde 1850, a pesquisa de Borowiecki identifica e documenta várias tendências -- demográficas, geográficas e sócio-econômicas -- no desenvolvimento das profissões criativas.

As conclusões do estudo não são particularmente impressionantes, mas ainda assim são dados interessantes, dada a meticulosidade dos detalhes envolvidos em qualificá-las. Nas palavras de Borowiecki:

A proporção de criadores mulheres é relativamente alta, falta de tempo pode ser um obstáculo para realização de uma ocupação criativa, desigualdade racial é real e muda muito lentamente, e educação tem um papel significativo para se assumir uma ocupação criativa. 
Talvez a coisa mais importante do estudo é descobrir que, juntamente com [acesso à] educação, a riqueza da família de uma pessoa tem um grande papel na hora de determinar a possibilidade de alguém se tornar artista ou criador profissional. A quantificação desse pensamento expoe a extensão alarmante com a qual riqueza determina a profissão de uma pessoa.

De fato, as descobertas de Borowiecki sugerem que ter US$ 10 mil de renda familiar total torna uma pessoa cerca de 2% mais propensa a buscar uma ocupação criativa -- o que significa dizer que uma pessoa que vem de uma família que vale US$ 1 milhao tem vinte vezes mais chances de se tornar um artista do que aquele cuja família vale US$ 100 mil. (Isso não significa, óbvio, que a maioria dos artistas sejam pessoas ricas -- o estudo também mostra que as rendas dos trabalhadores de arte tendem a ser mais baixos que a média).

A pesquisa de Borowiecki pode ser usada pra simplesmente confirmar uma já existente e entediante caricatura do artista como um ser privilegiado, educado e vindo de antecedentes abastados, que curte uma vida mansa. Lida dessa forma, a pesquisa pode reforçar um antiquado ressentimento de classe. Afinal de contas, faz tempo que membros da burguesia adotaram as artes -- tanto como distração divertida pras suas vidas aconchegantes, quanto como um jeito de consumir amostradamente.

Mas há ainda, para nós, uma forma menos invejosa e potencialmente mais construtiva de interpretar [os dados]. Se a atividade criativa está relacionada à educação, segurança econômica e direito a ter tempo livre; e se essas coisas tendem a se corresponder com riqueza, então o problema não é nada dessas coisas em si, mas sim sua má-distribuição. Vista dessa forma, a descoberta de Borowiecki pode simplesmente complementar o argumento pró-socialismo democrático -- que, acima de tudo, quer oferecer tempo livre, educação, bem-estar material para todos, não somente para uns poucos privilegiados, como é nos tempos atuais.

Se ter tempo, boa educação e segurança econômica aumentam a chance de as pessoas seguirem seus impulsos criativos, essa é mais uma razão pelos quais estes devam ser tratados como direitos aos quais todos devem ter acesso. Liberdade real, afinal de contas, significa a habilidade de usar seu tempo como lhe der na telha -- pra escrever, pra pensar, pra pintar, pra fazer uma escultura ou pra não fazer nada em particular -- e, no capitalismo, os ricos parece term muito mais liberdade que o resto de nós. Mas não tem que ser assim.







Friday, December 28, 2018

o gosto dos homens por máquinas


agora que o desemprego ao mermo tempo aprisiona
e liberta para ajeitar os livros
por cor por tema por ordem alfabética
sei lá o que nos der na telha
vamos falar do que importa

da vida desperdiçada em presentes equivocados
o gosto dos homens por máquinas
coisas que ninguém precisa
ocupa espaço precisa lavar
a vida desperdiçada de poetas constantes
escrevendo pra ninguém ler
padeiros
entregadores de jornal
motoristas
nosso amor pelos amigos
essa angústia pela fome que não sentimos
o medo da pobreza latinoamericana
sempre nos nossos calcanhares
os anos que passamos com nossos queixos
finalmente sobre a água
agora já não se sabe
aqui estamos

jornalistas
poetas
zeladores
costureiros

condomínio é um dinheiro bonito
se for passado aos funcionários
aos varredores
aos porteiros
mas às vezes os síndicos não pagam
os salários
e queixos de varredores porteiros zeladores
sentem a água bater
se respirar pelo nariz a gente
aguenta até janeiro
aí vem outro mês e só deus sabe

a pobreza latinoamericana
que é de mosca no rosto
e cheiro de terra batida
e cheiro de vaca
e cheiro de mastruz
e tudo isso junto era o cheiro de vovô
de gravatá do jaburu
do agreste
meu pernambuco acabado
jogado às traças
o chão o coração partidos

a gente nada cachorrinho e bóia
engole água se confunde se arrelia mas vai
são paulo e brasília sempre acabam
arrastando cada nordestino pro fundo
mas a gente respira pelo nariz e chega
em fevereiro
faz um frila faz um bico
troca o chuveiro da madame
troca o gás pelo álcool
e se essa porra não pegar fogo
a gente come esse cuscuz com ovo
e até manteiga tem
porque moramos em casa amarela
não estamos tão lascadas assim
só não sabemos até quando

a pobreza nordestina
a concreta e a que assombra
tem vários remetentes
elon musk é o ídolo
fudeu
bella tchau
nossos bolsos cheios de pedra
iguais aos de virginia woolf
quem botou essa merda lá?
cadê o fundo?
cadê a revolta?


Sunday, December 16, 2018

aciclovir



peguei no teu rosto com as duas mãos
em concha
uma em cada bochecha eu disse
se cuida
e tu dissesse
tu também
mas eu pensei como assim eu estou ótima quem precisa se cuidar é você
que conversa

peguei no teu rosto com as duas mãos
que na ausência dele
se chocariam
em prece eu dizendo
boy meu que coloco no céu
santificado seja tu todo
irei sempre pra tua casa
e farei pra sempre tuas vontades
onde quer que tua casa seja
a migalha de cada dia me dê hoje

assim como te dou tudo até o que não tenhas pedido
faça tudo o que quiser
mas me livre desse divórcio
amém

peguei no teu rosto com as duas mãos
dois metros de cara ainda sobrando
que a tua cabeça de viking é grande
e quando tu levanta sem dizer bom dia
e vai embora sem deixar rastro
fica no travesseiro a marca

peguei no teu rosto olhando pra cima
como o de costume
heterossexual

enchi com tua barba minhas mãos 
tentando matar uma saudade
que na verdade
já passou faz tempo
mas agora tu volta limpo e de pupilas
dilatadas
dos remédios que substituem
um vício por outro
a medicina fez muitos avanços mas
não há pastilha suficiente pros vírus
que eu carrego
herpes e você
minha nossa que verso adelaide que clichê
se bem que ninguém escreve sobre herpes
então voilà está salvo o verso

peguei no teu rosto com as duas mãos
negociando mais uma vez comigo mesma
se perdia o trem ou se ia
meu deus armin meu deus
nós éramos os maiores
despertamos a ira dos cínicos
dos mendigos dos farmacêuticos
e dos policiais
naquele 2009
forjamos cenas de cinema
teu cabelo voando pra fora do carro
portas batendo tatuagens poemas
até casar casamos







Monday, October 08, 2018

como conversar com um eleitor do bozo, em cinco passos




GENTE, PRESTA ATENÇÃO NISSO AQUI:



1)

o plano de governo de haddad você acha com uma guglada. LEIA. leia tudo hoje.

o plano de governo do fascista você só acha depois de umas três, e o link não funciona (vide foto). mas dá pra achar (link nos comentários). LEIA O PLANO DO COISO. leia tudo hoje.







2)
o principio de organização de comunidade se baseia em 70% de escuta, 30% de fala. o nível de escuta do seu interlocutor por ser dividido em cinco níveis (sendo 1 a pessoa que pensa e age igual a você; 5, seu completo oposto, a pessoa que não somente pensa diferente de você, mas que age contra o que você acredita). NÃO PERCA TEMPO NEM COM O 1 NEM COM O 5.

foquemos nos tipo 2 a 4, ou seja, pessoas que pensam razoavelmente diferente, mas com quem dá pra conversar - os que votaram nulo, os indecisos, os anarquistas (é preciso convencê-los a ir votar em haddad), os bozominions não-violentos (sim, eles existem).

repetindo: o principio de organização de comunidade se baseia em 70% de escuta, 30% de fala. não é sua vez de falar que bozo é racista. é vez de entender porque as pessoas consideram votar no bozo no segundo turno. o que essas pessoas querem? e a partir daí, dar informações a essa pessoa, que facam com que ela própria chegue à conclusão que O BOZO NÃO PODE DAR A ELA AQUILO QUE ELA QUER.



3)
pergunte ao seu interlocutor porque ele votaria no bozo. seja qual for o motivo, a nossa resposta vai ser: "o bozo não tem proposta pra isso". explique como é difícil achar o programa de governo do bozo. não é por acaso: é porque não existe um programa, basicamente. complemente com o que você sabe sobre o plano do bozo, dentro do tema citado pelo seu interlocutor. sugira o que haddad tem pra oferecer nesse mesmo tópico.



4)
a conversa vai ser finalizada, provavelmente, com um dos dois temas: ou da segurança, ou o da corrupção.

4.1) no tema da segurança, ofereça dados que desconstruam as teorias do bozo: a) estudos mostram que armar o indivíduo não tem relação com aumento da segurança coletiva; b) estudos que mostram que nos EUA, em estados COM controle de armas DIMINUI o número de assassinatos; c) estados SEM controle de arma AUMENTA o número de suicídios; d) estados com pena de morte NÃO diminuiu os homicídios; e) estes estados são os que MAIS têm homicídios; f) castração química como condenação de estupro é uma manobra eleitoreira, já que apenas UM POR CENTO dos acusados de estupro recebem qualquer condenação no brasil; g) que um estudo de 2005 mostra que até 10% dos homens condenados a castração química voltaram a cometer crimes sexuais (nos EUA). ofereça links que comprovem essas infos (se a pessoa quiser). aqui tem um e aqui tem outro.

4.2) no tema corrupção, não fuja do assunto, não despreze as capacidades cognitivas do seu interlocutor. deixe a pessoa falar porque a corrupção tanto a incomoda. lembrando que se a conversa chegar ate aqui, você provavelmente NÃO está falando com uma pessoa violenta, então não desista. há chance.

admita os erros cometidos pelo pt, mas apresente de forma clara os graves dados criminais do bozo.

haddad é réu em 2 processos por corrupção, sem ter sido condenado em nenhum. não responde por nenhum processo criminal.

já bozonaro responde por 2 processos criminais, um deles por apologia ao estupro (#elenao), o que inclusive poderia impedir sua posse, caso fosse eleito (já foi uma aberração o TSE aceitar sua candidatura, mesmo ele sendo réu). o bozo é recordista de denúncias no conselho de ética da câmara.

diga que O BOZO NÃO TER PROCESSO POR CORRUPÇÃO NÃO SIGNIFICA QUE ELE SEJA HONESTO - enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, financiamento obscuro de campanha: bozonaro fez. aqui um link com alguns mitos sobre o mito



5) explique, por fim, que um fascista é alguém que chega ou se mantém no poder pelo uso da força (uma coisa que o bozo vem dando sinais de que fará, caso nao seja eleito democraticamente) e que uma outra coisa que une todos os fascistas é que eles nunca dizem que sao fascistas. quando o bozo fala "bandido bom é bandido morto" ele está se referindo a qualquer um que pense e viva diferente dele. assim sendo, não é somente a gay que corre risco, são também aqueles e aquelas que acham que uma pessoa gay tem direito à vida. não são apenas os nordestinos que correm risco, são aquelas que acham que nordestinos têm direito à vida. a justificativa "vou votar no bozo, APESAR DAS COISAS QUE ELE FALA" coloca o próprio eleitor de bolsonaro em risco. discordar de um fascista é ser inimigo do fascista. e o fascista não debate, ele aniquila.



#elenao
#haddad13

Friday, September 07, 2018

mppf! #8_viva la revolursal!




"(...) Se é em nome da pátria que brasileiros queimam serumanos vivos e mortos (Luzia, presente!), então nós renegamos essa pátria, esse conceito que vem destruindo e estuprando há séculos, e declaramos a URSAL como nossa mãe-tria. Olhando nessa direção, publicamos um zine que, apesar das poucas páginas que dispõe, tem a pretensão de celebrar as anarcobucetalistas ursalinas – poetas que não somente são escritoras fenomenais, mas também ativistas políticas e/ou comprometidas com um projeto progressista, emancipatório e de justiça social, em suas comunidades (...).

Estas poetas provam que a URSAL tem um potencial político e poético muito maior do que esse atual projeto neoliberal e com cada poeta bosta que pelamordedeus (a começar pelo presidente golpista).

Daqui a um mês, em 7 de outubro de 2018, teremos eleições. Votaremos à esquerda! Mas não esqueçamos que nem só de passeata, voto e poema revoltado é feito o processo político. A luta é diária!! 


NÃO LAMENTE, ORGANIZE-SE!"

ursal, segundo carla diacov




o mppf! #8 nasce hoje, sete de setembro, e declara a independência do brasil de si próprio. co-editado por mim e carla diacov (que também fez a pintura da capa), com participação especial de bia varanis na curadoria e luma virgínia na tradução, esse mppf! é uma homenagem à URSAL e às poetas ursalinas mais anarcobucetalistas:




poetas:
érica zíngano (ceará, 1980) é poeta, artista visual, performer, tradutora e radialista. vive e trabalha em berlim.

celia alva (argentina, ?) é poeta e fazedora de zines.

eulalia bernard little (costa rica, 1935) é escritora, poeta, diplomata, educadora e ativista feminista. escreve em crioulo de limón, o dialeto costarriquenho. foi a primeira mulher negra a a publicar em seu país.

august/monique morgade (roraima, 1989) é artiste. graduou-se em letras pela UFRR em 2018. é trans não binárie e autiste (TEA). participou como ilustradore e poetise em ANTOLOGIA POÉTICA: I concurso roraimense de poesia universitária. escreve para o blog https://lentesmonofocais.blogspot.com/

maría emilia cornejo (peru, 1949-1972)  é a primeira mulher a publicar poesia erótica no peru. seu único livro, "en la mitad del camino", foi lançado 16 anos depois do seu suicídio. hoje, é considerada uma poetas mais importantes da chamada "geração 70" daquele país.

lourdes casal (cuba, 1938-1981) poeta, psicóloga e ativista, foi a primeira cubano-americana a receber o prêmio casa das américas. mediou as negociações com fidel castro, que resultaram na libertacao de milhares de presos políticos.

sherezada "chiqui" vicioso (república dominicana, 1948) é uma escritora e ativista política dominicana. foi candidata a vice-presidente do partido de centro-esquerda dominicano Alianza País, em 2012.

cecilia vicuña (chile, 1948) é poeta, artista, cineasta e eco-feminista. trabalha com os temas de linguagem, memória, decadência e exílio. vive entre santiago e nova iorque.

malena saito (argentina, 1994) é poeta, estudante de letras e trabalha como livreira na livraria secreta Luz Artificial, junto con a poeta micaela szyniack.

julia de burgos (porto rico, 1914-EUA, 1953) foi uma poeta afro-caribenha, ativista feminista e pela independência de porto rico.

mara rita (chile, 1991-2016) foi escritora, professora e ativista dos direitos LGBTQI+.

mariana ruggieri (São Paulo, 1988), também conhecida como mari alter, publicou em 2018 os poemas de sofrência anzol e o zine a bola é que são elas, para a série "quem é a bola?", ambas pela editora treme~terra. pela edições jabuticaba publicou as traduções de duas poetas cubanas para o 6 poetas / cuba / hoje e as helenas de troia, ny, de bernadette mayer.

valentina viettro (uruguai, 1982) é escritora, jornalista e produtora. publicou camino a la mentira, sexualidades monstruas (compilado de contos eróticos ilustrados por fermín hontou) e participou da antologia “balnearios”. atualmente se define nômade, tendo marselha como um de seus portos mais estáveis.

yolanda rivera castillo (porto rico, ?) é poeta e professora.

georgina herrera (cuba, 1936) é poeta, escritora, roteirista e radialista. antes da revolução cubana, trabalhava como empregada doméstica. depois da revolução, começou a trabalhar como escritora. revolução, né mores.


o valor sugerido é de 4 reais mas você pode doar mais plmdds ;)


equipe topzêra:
carla diacov (são paulo, 1975) embuceta desenhos com sangue menstrual e escreveu alguns livros como A Menstruação de Valter Hugo Mãe e A Munição Compro Depois. Carla Diacov tem fobias, mas mantém os subacos libres!
bia varanis (campo grande, 1997) é poeta, estudante de história da américa latina e educadora. é fundadora da plataforma online as mina da história.
luma virgínia (rio grande do norte, 1992) é poeta, internacionalista, estudante de letras e moderadora do #leiamulheres parnamirim.
adelaide ivánova (pernambuco, 1982) é filiada do psol e do die linke. acha boulos foda, mas lula mais. vai votar em lula + haddad + manuela.







Sunday, September 02, 2018

greve de mulheres*: bora logo fazer



texto de ALEX WISCHNEWSKI e KERSTIN WOLTER
traduzido do alemôo por adelaide ivánova



Na Espanha, Polônia e Argentina, as feministas já fizeram as suas -- agora uma greve das mulheres também está sendo organizada na Alemanha. Por que este é o próximo passo?

Estamos no ano 2018 dC. No mundo todo, a direita e os neoliberais estão encurralando as forças progressistas... Todas elas? Não! Um grupo cada vez maior de mulheres* inflexíveis não para de resistir. Em muitos países, elas organizaram uma greve feminista, em 8 de março de 2018 -- e não foi pela primeira vez. Somente na Espanha, o apelo foi seguido por mais de cinco milhões de pessoas. Por que será que as mulheres estão organizadas e tomando as ruas em tantos lugares? A nova força do movimento feminista não é fruto de uma poção mágica. É fruto do papel específico que as mulheres desempenham em nossas sociedades.

Para começar, as mulheres estão -- ao contrário da crença popular -- no centro da cadeia produtiva. A maioria das mulheres trabalha no setor de serviços, que responde por 70% do PIB na Alemanha. Mesmo fora do trabalho assalariado, as mulheres ainda fazem a maior parte do trabalho de criação, de cuidado e trabalho doméstico, sem o quais ninguém jamais poderia adentrar o mercado.

É aí que está nosso grande potencial de pressão sobre a política e sobre o capital. O lema da greve na Espanha não foi em vão: "se as mulheres param, para o mundo". Pelo seu trabalho, as mulheres não recebem nenhum salário, ou recebem menos. Isso se dá, no capitalismo, por causa dos interesses dos capitalistas: manter o mais barato possível os custos de "reprodução da força de trabalho", ou seja, o cuidado e a manutenção de nossos corpos, e a produção de novos trabalhadores (nossos filhos). Que tantas mulheres aceitem essa situação é consequência do seu status social.  A exploração capitalista não pode ser separada da violência misógina e da discriminação racial. Os novos ataques aos direitos e autonomia das mulheres não aconteceram por acaso, e vêm na sombra da crise econômica que começou em 2008 e que ainda pode, em muitos lugares, ser sentida diariamente. Portanto, as políticas neoliberais e autoritárias afetam mais as mulheres, especialmente as mulheres migrantes.

Em resumo: hoje em dia as mulheres têm muito pouco ou quase nada a perder, em comparação com os homens. Portanto, são elas que podem arriscar um novo rumo. Talvez elas fazem, no presente, aquilo que Marx definiu como "classes com correntes radicais", que são "uma parte da sociedade civil [que] se emancipa e alcança o domínio universal; uma determinada classe [que], a partir da sua situação particular, realiza a emancipação universal da sociedade. Tal classe liberta a sociedade inteira". Um novo proletariado, portanto.

Assim sendo, uma greve de mulheres parece totalmente compreensível e a ideia se espalha por todo lado. Na Alemanha, os preparativos para a greve em 08 março de 2019 já começaram. As ativistas que tiverem interesse podem se juntar ao trabalho de organização, que vem sendo realizado em várias cidades na Alemanha. A greve de 2019 não se destina a substituir as passeatas que, em 2018, tiveram mais 10.000 pessoas participando só em Berlim - a greve vem para complementar e continuar o trabalho até agora feito. As coisas também podem ser vistas desta forma: depois de tanto tempo negociando, estamos prontas para iniciar uma nova etapa da luta.

Assim, uma greve de mulheres é um meio, e não um fim em si mesmo. No fim das contas, estamos preocupadas não somente em dar visibilidade, mas em mudanças fundamentais na sociedade. O formato de greve carrega em si vários valores próprios.





Greve política
A greve das mulheres, por exemplo, desafia a proibição de greves políticas na Alemanha. A validade desta proibição tem sido controversa e repetidamente questionada pelas trabalhadoras. É geralmente aceito que a disputa trabalhista atinge o destinatário errado quando as demandas políticas são dirigidas ao Estado e não ao Patrão. Mas há espaço para interpretação e negociação. Não são só as marxistas que apontam que a política e a economia estão, de várias maneiras, entrelaçadas. No capitalismo, diferentes grupos têm diferentes influências na política - o lobby da indústria automotiva influencia mais as decisões políticas do governo do que uma associação para fortalecer os direitos das trabalhadoras do sexo.

Essas diferentes possibilidades de influência são determinadas economicamente. Outras vozes apontam que a proibição de greves políticas contradiz os acordos internacionais assinados pela Alemanha. Em sindicatos como ver.di, GEW ou IG BAU, a demanda é feita repetidas vezes para incluir o direito a greves políticas na constituição alemã. Esses debates são hesitantes e desapareceram rapidamente. Agora são as mulheres que colocam o tema de volta na agenda. Assim, são elas que agora fazem contribuições ao "proletariado" (sic!) tradicional.


Tarefas domésticas não remuneradas
Outra coisa: faz tempo que as feministas enfatizam que trabalho significa não só o trabalho assalariado, mas também o trabalho doméstico, o de cuidar e o de educar, todos não remunerados; e todos os numerosos serviços de apoio emocional, voluntário e comunitário, que cria redes invisíveis de apoio. Silvia Federici apontou que nunca houve uma greve geral real, já que as mulheres nunca conseguiram parar de executar essas atividades. Portanto, uma greve feminista visa não apenas o trabalho assalariado, mas o não assalariado em todas as áreas. Isso é tão novo que novas formas e expressões da greve precisam ser imaginadas. Ter cuidadores de crianças e de adultos com necessidades especiais, trabalhando voluntária e coletivamente, em locais públicos, são apenas ideias iniciais. As espanholas também fizeram algumas sugestões para as áreas de trabalho assalariado, trabalho doméstico, educação e consumo, que podemos dar continuidade. Aqui, também, a greve serve para dar forma aos argumentos teóricos que debatem a extensão do conceito de trabalho e para melhor compreendê-los.

Além disso, a greve oferece uma nova chance de fazer algo juntas -- independente do histórico que alguém tenha. Geralmente é difícil encontrar uma demanda que una a todas. Isso é compreensível, porque as mulheres têm experiências muito diferentes e, portanto, têm diferentes problemas e preocupações urgentes. Para muitas, a valorização econômica de seus empregos está em primeiro plano; para outras, o direito de permanecer na Alemanha; para outras, a mudança da lei transexual, que é discriminatória; para outras, o direito a aborto seguro.

A greve feminista pode combinar essas lutas, em solidariedade umas com as outras, porque elas têm as mesmas origens. Se argumentarmos como mulheres brancas com um passaporte alemão pela  legalização de todas as mulheres em situação ilegal, isso não é uma luta por procuração. É a luta contra um sistema de exploração e competição, exclusão e desvalorização que nos atinge a todas da mesma maneira - mesmo que não com a mesma consistência. Na greve das mulheres, as diferenças devem se tornar uma força comum na luta contra as políticas autoritárias, neoliberais, sexistas e racistas. Algumas pessoas discutem há dois anos sobre uma nova política -- nós, mulheres, já estamos colocando ela em prática.







* Ao usarmos "mulheres*" com asterisco, nos referimos a todas as pessoas que se definem como mulheres ou que são definidas como mulheres pela sociedade, incluindo pessoas trans* e intersexuais. O asterisco, portanto, não é usado para diferenciar, e sim para mostrar que se trata de uma identidades sem limites definidos, que lida com uma realidade social.


Alex Wischnewski trabalha na rede "Care Revolution". Kerstin Wolter foi co-fundadora da aliança "Dia da Luta da Mulher". Ambas são membras do partido DIE LINKE.

Monday, August 13, 2018

Bela URSAL!




Uma manhã, eu acordei
Bela URSAL! Bela URSAL! Bela URSAL URSAL URSAL!
Uma manhã, eu acordei
E encontrei meu salvador

Ó guerrilheiro eu vou contigo
Pela URSAL! Pela URSAL! Pela URSAL URSAL URSAL!
Ó guerrilheiro eu vou contigo
Se eu ficar eu vou morrer

E se eu morrer nesta guerrilha
É pela URSAL! Pela URSAL! Pela URSAL URSAL URSAL!
E se eu morrer nesta guerrilha
Eu te deixo meu fuzil

Faz minha cova lá nas montanhas
Bela URSAL! Bela URSAL! Bela URSAL URSAL URSAL!
Faz minha cova lá nas montanhas
Sob a sombra de uma flor

Pra que o povo que aí passe
Grite URSAL! Grite URSAL! Grite URSAL URSAL URSAL!
Pra que o povo que aí passe
Gritará: Revolucao!

Essa é a história de um guerrilheiro
Bela URSAL! Bela URSAL! Bela URSAL URSAL URSAL!
Essa é a história de um guerrilheiro
Que morreu por liberdade

Essa é a história de um guerrilheiro
Que morreu por liberdade