Friday, September 07, 2018

mppf! #8_viva la revolursal!




"(...) Se é em nome da pátria que brasileiros queimam serumanos vivos e mortos (Luzia, presente!), então nós renegamos essa pátria, esse conceito que vem destruindo e estuprando há séculos, e declaramos a URSAL como nossa mãe-tria. Olhando nessa direção, publicamos um zine que, apesar das poucas páginas que dispõe, tem a pretensão de celebrar as anarcobucetalistas ursalinas – poetas que não somente são escritoras fenomenais, mas também ativistas políticas e/ou comprometidas com um projeto progressista, emancipatório e de justiça social, em suas comunidades (...).

Estas poetas provam que a URSAL tem um potencial político e poético muito maior do que esse atual projeto neoliberal e com cada poeta bosta que pelamordedeus (a começar pelo presidente golpista).

Daqui a um mês, em 7 de outubro de 2018, teremos eleições. Votaremos à esquerda! Mas não esqueçamos que nem só de passeata, voto e poema revoltado é feito o processo político. A luta é diária!! 


NÃO LAMENTE, ORGANIZE-SE!"

ursal, segundo carla diacov




o mppf! #8 nasce hoje, sete de setembro, e declara a independência do brasil de si próprio. co-editado por mim e carla diacov (que também fez a pintura da capa), com participação especial de bia varanis na curadoria e luma virgínia na tradução, esse mppf! é uma homenagem à URSAL e às poetas ursalinas mais anarcobucetalistas:




poetas:
érica zíngano (ceará, 1980) é poeta, artista visual, performer, tradutora e radialista. vive e trabalha em berlim.

celia alva (argentina, ?) é poeta e fazedora de zines.

eulalia bernard little (costa rica, 1935) é escritora, poeta, diplomata, educadora e ativista feminista. escreve em crioulo de limón, o dialeto costarriquenho. foi a primeira mulher negra a a publicar em seu país.

august/monique morgade (roraima, 1989) é artiste. graduou-se em letras pela UFRR em 2018. é trans não binárie e autiste (TEA). participou como ilustradore e poetise em ANTOLOGIA POÉTICA: I concurso roraimense de poesia universitária. escreve para o blog https://lentesmonofocais.blogspot.com/

maría emilia cornejo (peru, 1949-1972)  é a primeira mulher a publicar poesia erótica no peru. seu único livro, "en la mitad del camino", foi lançado 16 anos depois do seu suicídio. hoje, é considerada uma poetas mais importantes da chamada "geração 70" daquele país.

lourdes casal (cuba, 1938-1981) poeta, psicóloga e ativista, foi a primeira cubano-americana a receber o prêmio casa das américas. mediou as negociações com fidel castro, que resultaram na libertacao de milhares de presos políticos.

sherezada "chiqui" vicioso (república dominicana, 1948) é uma escritora e ativista política dominicana. foi candidata a vice-presidente do partido de centro-esquerda dominicano Alianza País, em 2012.

cecilia vicuña (chile, 1948) é poeta, artista, cineasta e eco-feminista. trabalha com os temas de linguagem, memória, decadência e exílio. vive entre santiago e nova iorque.

malena saito (argentina, 1994) é poeta, estudante de letras e trabalha como livreira na livraria secreta Luz Artificial, junto con a poeta micaela szyniack.

julia de burgos (porto rico, 1914-EUA, 1953) foi uma poeta afro-caribenha, ativista feminista e pela independência de porto rico.

mara rita (chile, 1991-2016) foi escritora, professora e ativista dos direitos LGBTQI+.

mariana ruggieri (São Paulo, 1988), também conhecida como mari alter, publicou em 2018 os poemas de sofrência anzol e o zine a bola é que são elas, para a série "quem é a bola?", ambas pela editora treme~terra. pela edições jabuticaba publicou as traduções de duas poetas cubanas para o 6 poetas / cuba / hoje e as helenas de troia, ny, de bernadette mayer.

valentina viettro (uruguai, 1982) é escritora, jornalista e produtora. publicou camino a la mentira, sexualidades monstruas (compilado de contos eróticos ilustrados por fermín hontou) e participou da antologia “balnearios”. atualmente se define nômade, tendo marselha como um de seus portos mais estáveis.

yolanda rivera castillo (porto rico, ?) é poeta e professora.

georgina herrera (cuba, 1936) é poeta, escritora, roteirista e radialista. antes da revolução cubana, trabalhava como empregada doméstica. depois da revolução, começou a trabalhar como escritora. revolução, né mores.


o valor sugerido é de 4 reais mas você pode doar mais plmdds ;)


equipe topzêra:
carla diacov (são paulo, 1975) embuceta desenhos com sangue menstrual e escreveu alguns livros como A Menstruação de Valter Hugo Mãe e A Munição Compro Depois. Carla Diacov tem fobias, mas mantém os subacos libres!
bia varanis (campo grande, 1997) é poeta, estudante de história da américa latina e educadora. é fundadora da plataforma online as mina da história.
luma virgínia (rio grande do norte, 1992) é poeta, internacionalista, estudante de letras e moderadora do #leiamulheres parnamirim.
adelaide ivánova (pernambuco, 1982) é filiada do psol e do die linke. acha boulos foda, mas lula mais. vai votar em lula + haddad + manuela.







Sunday, September 02, 2018

greve de mulheres*: bora logo fazer



texto de ALEX WISCHNEWSKI e KERSTIN WOLTER
traduzido do alemôo por adelaide ivánova



Na Espanha, Polônia e Argentina, as feministas já fizeram as suas -- agora uma greve das mulheres também está sendo organizada na Alemanha. Por que este é o próximo passo?

Estamos no ano 2018 dC. No mundo todo, a direita e os neoliberais estão encurralando as forças progressistas... Todas elas? Não! Um grupo cada vez maior de mulheres* inflexíveis não para de resistir. Em muitos países, elas organizaram uma greve feminista, em 8 de março de 2018 -- e não foi pela primeira vez. Somente na Espanha, o apelo foi seguido por mais de cinco milhões de pessoas. Por que será que as mulheres estão organizadas e tomando as ruas em tantos lugares? A nova força do movimento feminista não é fruto de uma poção mágica. É fruto do papel específico que as mulheres desempenham em nossas sociedades.

Para começar, as mulheres estão -- ao contrário da crença popular -- no centro da cadeia produtiva. A maioria das mulheres trabalha no setor de serviços, que responde por 70% do PIB na Alemanha. Mesmo fora do trabalho assalariado, as mulheres ainda fazem a maior parte do trabalho de criação, de cuidado e trabalho doméstico, sem o quais ninguém jamais poderia adentrar o mercado.

É aí que está nosso grande potencial de pressão sobre a política e sobre o capital. O lema da greve na Espanha não foi em vão: "se as mulheres param, para o mundo". Pelo seu trabalho, as mulheres não recebem nenhum salário, ou recebem menos. Isso se dá, no capitalismo, por causa dos interesses dos capitalistas: manter o mais barato possível os custos de "reprodução da força de trabalho", ou seja, o cuidado e a manutenção de nossos corpos, e a produção de novos trabalhadores (nossos filhos). Que tantas mulheres aceitem essa situação é consequência do seu status social.  A exploração capitalista não pode ser separada da violência misógina e da discriminação racial. Os novos ataques aos direitos e autonomia das mulheres não aconteceram por acaso, e vêm na sombra da crise econômica que começou em 2008 e que ainda pode, em muitos lugares, ser sentida diariamente. Portanto, as políticas neoliberais e autoritárias afetam mais as mulheres, especialmente as mulheres migrantes.

Em resumo: hoje em dia as mulheres têm muito pouco ou quase nada a perder, em comparação com os homens. Portanto, são elas que podem arriscar um novo rumo. Talvez elas fazem, no presente, aquilo que Marx definiu como "classes com correntes radicais", que são "uma parte da sociedade civil [que] se emancipa e alcança o domínio universal; uma determinada classe [que], a partir da sua situação particular, realiza a emancipação universal da sociedade. Tal classe liberta a sociedade inteira". Um novo proletariado, portanto.

Assim sendo, uma greve de mulheres parece totalmente compreensível e a ideia se espalha por todo lado. Na Alemanha, os preparativos para a greve em 08 março de 2019 já começaram. As ativistas que tiverem interesse podem se juntar ao trabalho de organização, que vem sendo realizado em várias cidades na Alemanha. A greve de 2019 não se destina a substituir as passeatas que, em 2018, tiveram mais 10.000 pessoas participando só em Berlim - a greve vem para complementar e continuar o trabalho até agora feito. As coisas também podem ser vistas desta forma: depois de tanto tempo negociando, estamos prontas para iniciar uma nova etapa da luta.

Assim, uma greve de mulheres é um meio, e não um fim em si mesmo. No fim das contas, estamos preocupadas não somente em dar visibilidade, mas em mudanças fundamentais na sociedade. O formato de greve carrega em si vários valores próprios.





Greve política
A greve das mulheres, por exemplo, desafia a proibição de greves políticas na Alemanha. A validade desta proibição tem sido controversa e repetidamente questionada pelas trabalhadoras. É geralmente aceito que a disputa trabalhista atinge o destinatário errado quando as demandas políticas são dirigidas ao Estado e não ao Patrão. Mas há espaço para interpretação e negociação. Não são só as marxistas que apontam que a política e a economia estão, de várias maneiras, entrelaçadas. No capitalismo, diferentes grupos têm diferentes influências na política - o lobby da indústria automotiva influencia mais as decisões políticas do governo do que uma associação para fortalecer os direitos das trabalhadoras do sexo.

Essas diferentes possibilidades de influência são determinadas economicamente. Outras vozes apontam que a proibição de greves políticas contradiz os acordos internacionais assinados pela Alemanha. Em sindicatos como ver.di, GEW ou IG BAU, a demanda é feita repetidas vezes para incluir o direito a greves políticas na constituição alemã. Esses debates são hesitantes e desapareceram rapidamente. Agora são as mulheres que colocam o tema de volta na agenda. Assim, são elas que agora fazem contribuições ao "proletariado" (sic!) tradicional.


Tarefas domésticas não remuneradas
Outra coisa: faz tempo que as feministas enfatizam que trabalho significa não só o trabalho assalariado, mas também o trabalho doméstico, o de cuidar e o de educar, todos não remunerados; e todos os numerosos serviços de apoio emocional, voluntário e comunitário, que cria redes invisíveis de apoio. Silvia Federici apontou que nunca houve uma greve geral real, já que as mulheres nunca conseguiram parar de executar essas atividades. Portanto, uma greve feminista visa não apenas o trabalho assalariado, mas o não assalariado em todas as áreas. Isso é tão novo que novas formas e expressões da greve precisam ser imaginadas. Ter cuidadores de crianças e de adultos com necessidades especiais, trabalhando voluntária e coletivamente, em locais públicos, são apenas ideias iniciais. As espanholas também fizeram algumas sugestões para as áreas de trabalho assalariado, trabalho doméstico, educação e consumo, que podemos dar continuidade. Aqui, também, a greve serve para dar forma aos argumentos teóricos que debatem a extensão do conceito de trabalho e para melhor compreendê-los.

Além disso, a greve oferece uma nova chance de fazer algo juntas -- independente do histórico que alguém tenha. Geralmente é difícil encontrar uma demanda que una a todas. Isso é compreensível, porque as mulheres têm experiências muito diferentes e, portanto, têm diferentes problemas e preocupações urgentes. Para muitas, a valorização econômica de seus empregos está em primeiro plano; para outras, o direito de permanecer na Alemanha; para outras, a mudança da lei transexual, que é discriminatória; para outras, o direito a aborto seguro.

A greve feminista pode combinar essas lutas, em solidariedade umas com as outras, porque elas têm as mesmas origens. Se argumentarmos como mulheres brancas com um passaporte alemão pela  legalização de todas as mulheres em situação ilegal, isso não é uma luta por procuração. É a luta contra um sistema de exploração e competição, exclusão e desvalorização que nos atinge a todas da mesma maneira - mesmo que não com a mesma consistência. Na greve das mulheres, as diferenças devem se tornar uma força comum na luta contra as políticas autoritárias, neoliberais, sexistas e racistas. Algumas pessoas discutem há dois anos sobre uma nova política -- nós, mulheres, já estamos colocando ela em prática.







* Ao usarmos "mulheres*" com asterisco, nos referimos a todas as pessoas que se definem como mulheres ou que são definidas como mulheres pela sociedade, incluindo pessoas trans* e intersexuais. O asterisco, portanto, não é usado para diferenciar, e sim para mostrar que se trata de uma identidades sem limites definidos, que lida com uma realidade social.


Alex Wischnewski trabalha na rede "Care Revolution". Kerstin Wolter foi co-fundadora da aliança "Dia da Luta da Mulher". Ambas são membras do partido DIE LINKE.

Monday, August 13, 2018

Bela URSAL!




Uma manhã, eu acordei
Bela URSAL! Bela URSAL! Bela URSAL URSAL URSAL!
Uma manhã, eu acordei
E encontrei meu salvador

Ó guerrilheiro eu vou contigo
Pela URSAL! Pela URSAL! Pela URSAL URSAL URSAL!
Ó guerrilheiro eu vou contigo
Se eu ficar eu vou morrer

E se eu morrer nesta guerrilha
É pela URSAL! Pela URSAL! Pela URSAL URSAL URSAL!
E se eu morrer nesta guerrilha
Eu te deixo meu fuzil

Faz minha cova lá nas montanhas
Bela URSAL! Bela URSAL! Bela URSAL URSAL URSAL!
Faz minha cova lá nas montanhas
Sob a sombra de uma flor

Pra que o povo que aí passe
Grite URSAL! Grite URSAL! Grite URSAL URSAL URSAL!
Pra que o povo que aí passe
Gritará: Revolucao!

Essa é a história de um guerrilheiro
Bela URSAL! Bela URSAL! Bela URSAL URSAL URSAL!
Essa é a história de um guerrilheiro
Que morreu por liberdade

Essa é a história de um guerrilheiro
Que morreu por liberdade

Monday, July 23, 2018

dar nome aos boys


para fabiana faleiros, cujo poema "minha tese começa assim" inspira o título deste; para hannah gadsby; e todas as mulheres processadas por seus abusadores por terem dito seus nomes 



"a forma como você se comporta na vida pessoal é tão importante 
quanto a forma como você conduz sua vida pública"
  lema do see red - women's workshop
grupo de ativistas feministas da segunda geração 

"living the politics is different from being abstractly in favour of it. 
i was checkmated by feminists (...)".
auto-crítica de stuart hall, sociólogo marxista anglo-caribenho, 1996






picasso não caiu
caravaggio
michelangelo
da vinci
gauguin
hemingway
fitzgerald
ted hughes
freud
martinho lutero
phillip roth
bukowski
kerouac
não caíram
não caíram
polanski
woody allen
lars von trier
michael haneke
bertolucci
bill cosby
hitchcock
marlon brandon
dustin hoffman
jack nicholson
casey affleck
não caíram
poetas brasileiros vivos
ricardos eduardos bernados marcelos
que não posso dizer o nome todo
para eles não me processarem
não caiu oswald de andrade
não caíram
henry miller
norman mailer
junot diaz
diego rivera
o marido de ana mendieta
eminem
tupac
chris brown
r. kelly
nelly
não caíram
quase todos os rolling stones
david bowie
little richards
jimmy page
john lennon
james brown
elvis presley
não caíram
miles davis
steven tyler
marvin gaye
sid vicious
iggy pop
jerry lee lewis
tommy lee
ozzy osbourne
chuck berry
johnny depp
não caíram
mel gibson
nicolas cage
steve seagal
josh brolin
sean penn
charlie sheen
não caíram
terry richardson
david copperfield
bruce weber
kobe bryant
aquele jogador francês do bayern
dennis rodman
myke tyson
não caíram
lewis carroll
nabokov
goethe
sade
(e percebam que por não ter lugar de fala
não aprofundo a lista de homens gays acusados
de abusar de meninos
pasolini
michael jackson
kevin spacey
walt whitman
allen ginsberg
ou tschaikovsky
mas espero que algum colega gay um dia o faça)
não caíram
trump
al gore
george bush
putin
berlusconi
michel temer
brilhante ustra
maluf
bolsonaro
ghandi

não caíram
a igreja católica
os soldados da onu no haiti
o exército russo em berlim
o isis
cada estado colonizador
cada dono de navio negreiro
cada bandeirante
cada senhor

não caiu zeus
nem a omi-tologia grega
nem o nome democracia
(demo significa "povo" em grego
mas na grécia antiga "povo"eram os omi
mulheres escravos trabalhadores pobres
e camponeses não tinham voz na vida política)
a base dessa anti-civilização moderna
o estado neoliberal que morde e assopra
o capitalismo que estupra mas não mata
os filósofos quase todos
o rock n' roll
o cinema

o cânone é lugar de omi
e a história que é contada
é essa:
podem dizer mil nomes
chamar a boiada inteira
não cai homem nenhum
não estraguem nossa festa






Thursday, July 12, 2018

um poema de cícero de souza



bolsonarou ofereceu capim
pra os eleitores de luiz inácio
comer
e eu pergunto aos senhores
se ele chegasse a ser presidente
ao invés de dar capim daria
veneno a gente?

não sei como conseguiu ser
deputado federal
discriminando mulher, negro,
homossexual
e agora quer dar capim
pros eleitores de lula
comer

tu ficou doido, bolsonaro?
tu cheirou cola
ou tá querendo aparecer?

dessa vez, bolsonaro,
tu fizeste um desatino
lave a boca quando for falar mal
de nordestino

e sobre o vídeo do capim
que na internet circula:
quem és tu, pra falar mal
dos eleitores de lula?

tu não passas de um golpista!
de um corrupto, oportunista
e só quem é cego não vê.
e digo a última, seu porra:

eu voto numa cachorra
mas eu num voto em você!

Tuesday, July 10, 2018

mppf! + grego = revista teflon!


gracas à minha amiga e cangaceira érica zíngano saiu uma seleção de poemas que foram (ou serão) publicados no mais pornô, por favor!, na revista grega teflon!

a revista é muito foda, já tem acho que uns oito ou nove anos de existência e se tornou não somente uma das revistas literárias (e de poesia) mais lidas da grécia, com mil cópias por edição, mas também uma das forças de resistência política e uma plataforma super importante da esquerda radical em atenas (#amor!). eles publicam poesia e ensaio, em grego e em tradução - e a parte de tradução tem um desejo de não somente trazer poesia do mundo prxs leitorxs gregxs, como também criar uma comunidade internacional de literatura de esquerda (#amor!).

como diz um dos fundadores da revista, jazra khaleed, nessa entrevista: "não temos patrocinador, não temos distribuidor: temos leitores". ISSAÊ!

para a edição #19, a eleni, uma das editoras da teflon, pediu pra eu fazer uma micro-antologia de poesia erótica brasileira contemporânea, viva e transante. minha seleção foi, como sempre, baseada em quesitos representativos (não preciso nem dizer que a "qualidade" dos poemas, seja lá o que isso signifique, não fica nunca, por causa disso, em segundo plano): misturar omi e muié, sapatão e viado e hts, branco e preto, e poetas do nao-sudeste. assim, chegamos à uma seleção de 19 autores, 11 mulheres e 8 homens. desse total, 14 (73%) são viadxs, 7 (36%) são do não-sudeste e 6 (31%) são negrxs. 

tá longe do ideal, é sabido, mas a cada publicação tentamos melhorar no que diz respeito à paridade e representatividade (isso dito: para a edição #8, que sai em setembro e está sendo editada por mim e carla diacov, estamos em busca de poetas molieres e trans e viadas de SERGIPE, TOCANTINS, PIAUÍ, RORAIMA, AMAPÁ, ACRE e RONDÔNIA. emails com 5 poemas e mini-bio NUM .DOC SÓ para bolagato.edicoes@gmail.com. deadline é 31 de julho).

enfim, aqui vai umas foto da rivista e o pequeno texto introdutório que escrevi. os poema e o texto foram carinhosa e guerrilhamente traduzidos pelo spyros. 


capa


contra-capa com jarid arraes, katia borges, natalia borges polesso, simone brantes, andré capilé, ricardo domeneck, cecília floresta, ana luiza goncalves, antonio la carne, rafael mantovani, joao meireles, ravena monte, flávio morgado, rita isadora pessoa, gabriela pozzoli, raphíssima, nina rizzi, lilian sais, ismar tirelli neto e william zeytounlian


que leendo


que leendo


A seleção destes poemas para a revista Teflon vem dos textos publicados no zine brasileiro MAIS PORNÔ, POR FAVOR!. Criado em Recife, cidade do nordeste brasileiro, em dezembro de 2016, o objetivo do zine é olhar para o tesão como potência revolucionária, principalmente no contexto do Brasil pós-Golpe. No #2 do zine, a pesquisadora Lori Regatieri escreveu:

“(...) por que nos tornamos tão insuportáveis para o Estado, os patrões e a polícia? Não foi à toa, tiveram que atuar juntos para impedir nossa algazarra festiva e transante. (…) O caos atmosférico dos atrasos dos salários, do aumento tarifário, das medidas proto-fascistas, dos militares nas ruas estão nos atravessando como uma faca de ponta aguda. Exultar o tesão nesse contexto é combater as forças do débito, estancar a sangria e nutrir a resistência micropolítica”.

E por que usar o termo “pornô”, no título de uma publicação que se pretende feminista, sendo que este é um nicho tão misógino? Anna Kristin Koch, em texto publicado na revista alemã Zeit Online, diz: “a indústria pornô não só fere os sentimentos de muitas pessoas, como também reproduz uma imagem de sexo, sexualidade e gênero que não cabem numa sociedade plural”. A autora sugere a aplicação de uma “pornografia ética”, na qual não só diversidade e sexo responsável são mostrados: estereótipos são quebrados e, independentemente do gênero, pessoas são parceiros sexuais iguais.

Essa problemática – to porn or not to porn – foi abordada no editorial da edição #3 (abril de 2017), escrito pela jornalista Carol Almeida:

“(...) se a palavra pornô vem carregada com um sentido tão próximo da ideia de exploração sexual do corpo da mulher, que possamos repetir aqui o que a comunidade LGTBQI fez com a palavra ‘queer’ nos anos 1980. Ou seja, vamos nos reapropriar do termo, vamos confundir e desorientar o inimigo. Com nossas línguas, coxas, pelos e algum sabonete líquido”.

Editado com as organizadoras do #leiamulheres de Recife – Maria Carolina Morais, Priscilla Campos e Carol Almeida – o #3, especial poesia lésbica, foi um divisor de águas na produção do zine (pelo seu conteúdo, mas principalmente pelo teor de mobilização coletiva). A seleção dos poemas funcionou em parte por meio de chamada pública e, com ela, passamos a conhecer o trabalho de jovens poetas lésbicas de todas as regiões do Brasil, ampliando não somente nosso conhecimento da poesia contemporânea de fora das grandes cidades, como também ajudando a criar mais uma rede de conexão entre as poetas fanchas.

Em outubro de 2017, em resposta ao fechamento da exposição “queermuseum” e a retaliação violenta de grupos de extrema direita contra Judith Butler (que estava no Brasil para uma série de palestras sobre democracia), disponibilizamos o #3 gratuitamente na internet, como uma tentativa de ajudar a emudecer os latidos recalcados dos fascistas.

A edição mais recente, a #6, é um especial de poesia caribenha. A motivação do zine é nos aproximar um pouco da poesia feita no Caribe e da situação de pessoas em refúgio vivendo no Brasil. Segundo o CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados), os países com maior número de solicitantes de refúgio no Brasil em 2016 foram Venezuela, Cuba e Haiti (646), todos países caribenhos. Do total de cerca de 10 mil refugiados no brasil, 32% são mulheres.

O MPPF! é uma publicação independente, anarcofeminista, que se apropria do termo “pornografia” para espalhar no mundo poesia erótica, queer e feminista (em brasileiro, em português e em tradução). Nosso desejo é torcer a lógica misógina, sexista, transfóbica, homofóbica e capitalista do pornô mainstream. Boa leitura!

Monday, June 11, 2018

um jogo oleoso de verbos



para paula ludwig
e christiane quandt, que me apresentou a ela


saí da terra que te acolheu a contragosto
já que getúlio era tipo jararaca cujo veneno
é o que cura e o que mata
queria embranquecer o brasil
mas sem perder o leite dos aliados
proibiu língua alemã e vistos
entregou olga pra gestapo
homem é uma merda independente do partido
político
tu mais do que ninguém sabe do que falo

saí da terra que te acolheu, porque queria
afinal estava tudo de boas tinha lula e democracia
nunca peguei disenteira então não sei
como tu e o filho de lênin sabiam
o que a palavra merda significa
o objeto e o adjetivo
mas sei que homem é uma merda
independente do partido político
eu mais do que ninguém sei do que te falo

saí da terra que te acolheu a contragosto
que te deixou ficar à revelia
te fazendo beber mais do que devia
vendo metáfora entre tua depressão
a sífilis a lepra o refúgio a língua
aleijadinho
à merda os homens e a vida

saí da terra que te acolheu, porque queria
e depois de oito anos emigrante
posso confirmar a teoria
que machismo não tem pátria
que homem é uma merda
e que brodagem é um projeto transatlântico
e suprapartidário
une poetas paulistas a doutores bávaros
une pedreiros marceneiros e mercenários
une golpistas enrustidos
a marinistas ambientalistas e outros fidalgos
a comunistas alemães inveterados
a neo-nazis e eleitores de bolsonaro
misoginia é enfim projeto político
é o heimat de todo macho