Friday, December 31, 2021

direito é algo que deve ser ampliado e privilégio é algo que deve ser combatido

Depois que postei um vídeo de Lukas tomando a dose de reforço, algumas pessoas me escreveram questionando por que ele teve acesso à vacina, enquanto tantas outras nao têm. Acho importantíssimo trazer esse tema pra cá, pra todo mundo, porque ele toca em algumas questões importantes, que são muito maiores que um gringo vacinado, que queria compartilhar com vocês. São esboços de pensamentos, ainda, nada concreto e definitivo, provavelmente incompletos. Conto com a paciência de quem ler.

1. Direito versus privilégio
Basicamente, direito é algo que deve ser ampliado e privilégio é algo que deve ser combatido. Saúde pública, gratuita e acessível pra todos é um direito, mas nem todos têm acesso. Por isso é que a gente precisa sempre lutar (no capitalismo, nada nos é concedido sem luta) para que esse direito seja mantido, melhorado e ampliado. Já o acesso privilegiado e privatizado a serviços de qualidade precisa ser exposto, questionado e combatido. Volto a esse tópico no fim deste texto.

2. O SUS é muito muito muito maravilhoso e precisa ser protegido, mas não é perfeito
Ao menos na teoria, para ter acesso à vacina, uma pessoa precisa ter CPF AND comprovante de residência. Isso é um impedimento grave para alguns dos grupos mais vulneráveis da população: pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, pessoas vivendo em situação de rua, pessoas vivendo em ocupação, imigrantes sin papeles, refugiados etc. Sabemos muito bem que a absoluta maioria das pessoas que fazem parte destes grupos são pessoas negras, indígenas, não-brancas.

Para vocês terem uma ideia, a vacinação de refugiadosno Brasil só começou em agosto desse ano, quando muita gente já estava tomando a segunda dose. Só que já em março de 2021 a ONU alertava que imigrantes e refugiados de todo o mundo deveriam ter acesso aomesmo esquema de vacinação que os cidadãos, para combater a pandemia o mais rápido possível e evitar novas cepas do vírus. Posso garantir, como imigrante não-naturalizada vivendo na Alemanha há 11 anos, que meu acesso à vacina chegou tarde e não foi nada fácil de conseguir. Já Lukas é um mero turista, mas vou falar disso no tópico 5.

3. Discrepâncias de um sistema que é quase-perfeito no papel mas ainda tem falha na prática
Semana passada visitamos meu primo segundo Amaro Balu, agricultor familiar aposentado vivendo na minha Gravatá do Jaburu, distrito de Taquaritinga do Norte que, no Censo de 2003, tinha um índice de pobreza subjetiva em quase 47%. Amaro nos contou que as agentes da USF (Unidade de Saúde da Família) iam de casa em casa vacinando as pessoas e que ele já tinha tomado a terceira dose e mal podia esperar pela quarta. Amaro Balu é um sertanejo pobre de 79 anos.


esse é meu primo Amaro em 2021
aqui tem ele na época que eu achava que ia ser videomaker
kkk em 2006 (minuto 1'20'')

Já semana retrasada, na última das muitas atividades militantes que tivemos desde que chegamos em Recife, um companheiro do MTST nos explicou que quem vive em ocupação não estava tendo acesso à vacina, já que não podia comprovar residência. Foi a luta dos sem-teto, foi a organização popular e comunitária, que tornou acessível a vacina para mais trabalhadores vivendo em ou participando de ocupação.

4. A realidade é concreta
Vivemos no mundo como ele é. Europeus brancos vivem, em maior ou menor grau, dos resquícios de séculos de pilhagem europeia no sul global. Eles ainda são o Sujeito Viajante do nosso tempo. Lukas se inclui nessa lista. O turismo dessas pessoas é real e, como vimos:
a) esse turismo não vai ser questionado, nem impedido, nem regularizado enquanto vivermos sob o capitalismo – que, todos sabemos, está aí pra priorizar o lucro e não a manutenção da vida na Terra;
b) esse turismo não vai ser questionado, nem impedido, nem regularizado enquanto vivermos em governos entreguistas, sem foco em autonomia e soberania nacional;
c) esse turismo é um dos responsáveis pelo espalhamento da doença no mundo.

Assim sendo, já que a realidade concreta é que essas pessoas continuarão vindo, é da maior importância que ao menos elas estejam circulando vacinadas pelo nosso país – não por questões morais, mas simplesmente por questões de segurança sanitária nacional.

5. Racismo estrutural e privilégio branco
Eu não tenho a menor dúvida que o acesso de Lukas à vacina foi facilitado pelo fato de ele ser um homem europeu branco. Não preciso fazer nenhum esforço pra imaginar as milhares de pessoas não-brancas e não-naturalizadas, que tentaram se vacinar nao somente no Brasil mas também no mundo, sem conseguir. Na Europa, refugiados e imigrantes ainda encontram dificuldades em serem vacinados, por conta das absurdas lei de imigração. Aliás, #nobordersnonations.

5.1 Como Lukas conseguiu ser vacinado?
Tentamos em alguns pontos em Recife mas não conseguimos, apesar dele já ter comprovante de residência para os quase três meses que ficará aqui. O problema é que faltava o CPF. Já tínhamos desistido mas ontem, numa das muitas rodoviárias que passamos nos últimos dias, tínhamos três horas de espera pela lotação que íamos pegar e decidimos arriscar. A resposta da enfermeira: “Eu não sei o que é necessário, mas vou descobrir. Eu é que não vou deixar esse gringo circulando pelo meu Estado sem ter sido vacinado”. Ela nos disse que ia ver o que era preciso fazer e se consultou com um supervisor do PNI (Programa Nacional de Imunizacoes), que passou uma lista de documentos que estrangeiros devem apresentar: passaporte, RG alemão, comprovante de vacinação internacional (a caderneta amarelinha da OMS, que a mamãe aqui, hipocondríaca e esperta, mandou o boy trazer), comprovante de residência no Brasil, data de nascimento, filiação e, se aplicável, comprovante de comorbidade (Lukas, por exemplo, tem uma doença autoimune).

6. Quando é regra é clara mas é uma merda
A regra é clara: sem CPF não se vacina. Talkei. Mas a regra está errada. Então nossa lógica não pode passar a ser “nada mais justo que todos que não tenham CPF sejam tratados igualmente mal”. Essa não pode ser nossa forma de estar no mundo. A lógica precisa ser: por que não existe outra forma para vacinar aqueles que não têm documentos? Queremos que essa forma seja inventada e implementada.

Toda pessoa que quer e tenta se vacinar, e que tem o pedido de vacina recusado por causa da ausência de um papel: isso é que o problema.

7. O que diz a lei?
A LEI Nº 13.445, DE 24 DE MAIO DE 2017, que institui a lei de migração, dispõe sobre os direitos e os deveres do migrante e do visitante. Essa lei estabelece, no Artigo 3, inciso XI, o acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social. No artigo 4, inciso VIII, ela estabelece acesso a serviços públicos de saúde e de assistência social e à previdência social, nos termos da lei, sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória.


8. Uma análise errada leva a uma ação errada
A pergunta ponto-de-partida, aquela que diz “por que esse gringo foi vacinado?” é excelente. Mas ela tanto ignora a legislação brasileira (ver tópico 7), como também deixa não respondida a questão da má-distribuição dos recursos do SUS e a não-universalidade do seus serviços, na prática.

Quando a gente parte do pressuposto que racismo estrutural existe e precisa acabar; que imigrante existe e precisa ser vacinado; que o SUS existe mas que precisa ser melhorado, temos em mãos uma bússola muito mais útil. Outra maneira de dizer a mesma coisa: é do interesse de todos que todos estejam vacinados.

Outras perguntas que podem ser feitas: Quem são os grupos que não têm acesso à vacina por causa das regras de vacinação? Porque alguns se vacinam e outros não? E o mais importante: O que é preciso, e o que podemos fazer, pra mudar essa situação?

Algumas das respostas que eu daria: acabar com o teto de gastos; restabelecer o Bolsa Família; fortalecer os programas de saúde da família; restabelecer os agentes comunitários de saúde; exigir que a lei de migracao seja posta em prática para imigrantes nao brancos e refugiados; mudar as regras de acesso a vacinacao, sobretudo em momentos de crise sanitária; se organizar politicamente; derrotar o bolsonarismo nas urnas e fora delas etc.

9. Aqui, uma lista de organizações que você pode se organizar e ajudar a melhorar nosso quadro:
a) PCB: https://pcb.org.br/portal2/se-organize-no-pcb/
b) PSOL: https://psol50.org.br/filie-se/
c) PT: https://pt.org.br/filiacao/
d) PCdoB: https://pcdobdigital.org.br/autenticacao/filiacao
d) Veja como descobrir se existe um sindicato da sua profissão: https://www.salario.com.br/trabalhista/como-descobrir-sindicato-da-profissao/
e) Seja voluntário da campanha Maos Solidárias: https://www.campanhamaossolidarias.org/apoie-nos

e dá um google tu aí também né bebê!

Thursday, August 13, 2020

#defendaolivro

 

"O ministro Paulo Guedes enviou uma proposta de reforma tributária que colocou uma taxação de 12% em cima dos livros. Atualmente, os livros não possuem essa taxa, pois o objetivo disso (quando proposto por Jorge Amado) era tornar o acesso à cultura mais fácil. Infelizmente, sabemos que esse acesso já não é tão fácil assim. Se aprovado o Projeto de Lei 3887/2020, os livros irão se tornar mais caros e inacessíveis do que já são para grande parte da população. Afetando, assim, não somente os que têm apreço à leitura, mas também editoras menores sustentadas por famílias que já LUTAM por sua sobrevivência e, consequentemente, autores de livros - em especial os nacionais não famosos".

clique aqui para assinar a petição Diga Não à Tributação de Livros


trecho de maiakovski em 
"incompreensível para as massas"
poema de 1927
(a tradução é de haroldo de campos)




Monday, August 03, 2020

uma tradução de lamento borincano pro recifês e umas pitanga pra chorar



lamento sertanejo

passa doido de alegria com sua jumentinha
e vai para a cidade, vai para a cidade
leva no seu pensamento todo mundo
cheio de felicidade, de felicidade
pensa em melhorar a situação
de sua casa, que é toda sua alegria, sim

e alegre o matutinho vai pensado assim
dizendo assim, cantando assim pelo caminho:
"se eu vendo essa carga meu deus querido
um traje para a mulher eu vou comprar!"
e alegre vai sua burrinha também
sentindo seu cantar
que é todo um hino de alegria

e nisso vem o nascer do dia
ao chegar na feira da cidade
passa a manhã  inteira sem que ninguém queira
sua carga comprar, sua carga comprar
tudo está deserto e o povo está passando
necessidade, necessidade
os lamentos se ouvem em toda parte
em caruaru, infeliz cidade

e triste o matutinho vai pensando assim
dizendo assim, chorando assim pelo caminho
"que será de caruaru meu deus querido
que será dos meus filhos e do meu lar"
caruaru a capital do forró
a que, ao cantar, o grande gonzaga
chamou de país 
e agora que sofre com tantos pesares
deixa eu cantá-los também


 


 por anos era impossível ouvir lamento borincano sem cair nos prantos. a partir do momento que pude entender a letra (com aquela versão de caetano veloso), ela sempre me lembrou vovô, a parte da biografia dele que não vivi, porque foi antes deu nascer. imaginar vovô perambulando pelo agreste de pernambuco tentando vender, como ambulante, os frutos de seu trabalho, era imagem e passado demais pra mim, que só o conheci como agricultor aposentado pelo funrural.

com o tempo minha relação com a letra, assim como com a ausência de vovô, morto em 2003, foi ficando menos dolorosa, porque à medida que eu me politizava mais agência eu via na existência dele (sofrida pela falta de recursos, mas plena na consciência de classe que ele tinha).

hoje eu consigo escutar lamento borincano como o retrato da realidade dos trabalhadores rurais e/ou autônomos da américa latina e das periferias do capitalismo que ela é. não tenho fetiche pela derrota e não romantizo o sofrimento do povo, mas acho que essa letra, assim como a de pearls de sade, e asa branca, de luiz gonzaga, nos ajudam a lembrar que existe um mundo cheio de gente sofrendo por questões que atravessam, em maior ou menor escala, todes nós trabalhadores.

eu fiz essa tradução sem muito rigor métrico, apenas pensando em vovô e nessas músicas latinas, que são icônicas pra classe trabalhadora e pros emigrados internos. e escrevo esse post ciente de que essas que cito, lamento borincano e asa branca, são apenas duas de milhares, porque se tem uma coisa que ninguém sabe fazer melhor do que a américa latina é música popular. 

fiz essa tradução num domingo de noite morrendo de saudade de pernambuco, de vovô, de vovó, do nordeste, preocupada com o agreste de pernambuco que tanto tem sofrido com o corona, preocupada com a paraíba, enfim, preocupada.

*

a versão original, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, reflete a situação econômica dos trabalhadores rurais pobres de porto rico do anos 20, cujo sofrimento culmina com a depressão de 1929 (a música foi gravada no mesmo ano). o que traduzi como "matutinho" é, no original, "jibarito" - jíbaro é relativo a um povo ameríndio da zona oriental do equador ou o nome que se refere aos camponeses que habitam as regiões montanhosas da ilha de porto rico/Borinquen. a canção não usa o nome moderno porto rico, mas sim seu nome pré-colombiano, Boriquen (daí o título). eu tomei a liberdade de traduzir Borinquen para Caruaru porque traduzi a letra pensando em vovô. no original, Hernandez Marín cita ainda o poeta portorriquenho José Gautier Benitez ("el gran gautier"), que traduzi como luiz gonzaga que é, por sua vez, o compositor de asa branca, um poema sobre migração interna:






asa branca
luiz gonzaga

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar ai pro meu sertão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar ai pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

*

para alegrar nossos corações, recomendo ouvir esse podcast com a história de maria, que conseguiu se livrar de são paulo e voltou pro seu sertão. agradeço demais à amiga raquel por ter enviado essa lindeza. e queria dedicar esse post também à amiga jéssica, que vai saber do que tô falando.


Wednesday, July 15, 2020

os camponeses, a luta pela terra e a origem da palavra vilão


1. a etimologia da palavra "vilão"

"A palavra 'vilão' refere-se ao habitante de uma vila. Poderá ter origem na palavra latina villanus, referindo-se a alguém ligado a uma villa - uma grande quinta ou plantação agrícola, no Império Romano - significando, portanto, um camponês. Na Idade Média, o termo passou a equivaler a um não-nobre. Significando alguém não nobre, o termo 'vilão' passou, modernamente, a ser usado para se referir a alguém que pratica atos não-nobres ou indignos, como o roubo, o homicídio ou a violação. Os camponeses medievais eram os maiores alvos" (grifos meus)


2. pôster antigo do CNT


e essas corrente aí se partido,
uma alusão muito maravilhosa às últimas linhas
do manifesto comunista
("as trabalhadora nada têm a perder além das algema")


3. uma 3x4 de seu Luiz Ferreira, militante do MST assassinado por um dono de terra, enquanto protestava pacificamente por água potável. 



4. pastores perto da fronteira da turquia com o norte da síria, que encontrei nas minhas andanças no google street view (podia ser ali por toritama, né, é tão parecido, fico tão emocionada com o mundo).


Kilis


Toritama





eu junto essas descobertas numa panela e o resultado que me vem à mente é: como é importante disputar os significados. silvia federeci fez recentemente uma contribuição muito maravilhosa nesse aspecto, quando desvendou pra gente a etimologia da palavra "fofoca". e teve toda a disputa que fizemos nas redes sociais recentemente em torno do termo "antifa". vilão, fofoca e antifa são apenas três exemplos disso. linguagem é poder. tem vários videos de rita von hunty, todos maravilhosos como ela, sobre isso também. 

outra coisa que penso, mas essa é mais tabacuda: a melhor coisa de escrever um livro é a pesquisa. aliás, essa talvez seja a única coisa boa haha.





Sunday, June 28, 2020




16 de agosto de 2019

Wednesday, June 24, 2020





all yours
babooshka babooshka babooshka 
ya ya

Friday, June 19, 2020






And while I'm in this body 
I want somebody to want 
And I want what I want 
And I want 

You 
To love me