Monday, July 25, 2016

polônia bolaño



1. E na Polônia os encontros consonantais são ainda maiores, provocando, no visitante, uma sensação de impossibilidade de encontrar algum pertencimento. (...) Era como se a própria língua colaborasse para a sensação de desorientação e solidão; ela traduzia o sentimento de desamparo.

noemi fucking jaffe em "o que os cegos estão sonhando? com o diário de lili jaffe (1944-1945)", que me acompanhou nesse filme de terror que é a polônia. falando nisso:

2. Todas as cidades são parecidas.

roberto fucking bolaño, em "2666", que provavelmente nunca foi pra polônia.




















Sunday, July 24, 2016

o casal


quando se separa o casal
não sabe para onde ir quando
se separa o casal se separa
vai cada um prum lado
prum canto ou fica na
casa em silêncio ruminando

o casal quando se separa
obviamente não é mais casal
mas insiste num estado de espírito
que evite a dor o casal passa placebo
e recibo

como é ele quem manda e sabe
disso eu saio de casa uma noite
chorando e dramática e não estou
feliz por ter que dormir não
como puta mas como refugiada
na casa do amante.

Saturday, July 23, 2016

douda correria em berlim


no começo do mês, nuno moura e joana bagulho, os pais da douda correria, organizaram uma série de leituras em berlim com ricardo, érica, sean, o próprio nuno e esta vaca profana que vos escreve. posto aqui alguma documentação das leituras, foi tudo lindo.




foto de ricardo da leitura de érica,
que convidou luísa nóbrega e lotte 
para lerem com ela


ricardo na segunda noite
 lendo o belíssimo carta a antínoo

Carta a Antínoo

Que me importam o império as vilas
as efígies nas moedas se o teu cheiro
ocupa ainda cada canto angular
da arquitetura
mas teu pescoço teus pés teu tórax
já não os habitam
e as águas do Nilo não permitem
que este teu cheiro
agora se evada se exale e me excite ou exalte
uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte
outros que tua influência se tornara indesejável
nunca houve lugar para Eros
entre as intrigas de corte
eu já não me lembro tua morte talvez
a tenha ordenado quiçá tenha sido
castigado por meus inimigos
os mais cruéis sugerem que o ato
fora uma fuga tua dos meus cafunés
das minhas mãos geriátricas
não sei não sei tua lembrança
ocupa o espaço de todo o resto
que eu poderia agora memorizar
ordens execuções missões diplomáticas
a fundação de cidades já não me alegra
se tu já não serás um dos cidadãos
as revoltas de bárbaros tão-só
me entediam
se tu não me acompanhas nas campanhas
divinizar-te é consequência lógica
doravante estarás no panteão
entre aqueles que agora
por um motivo a mais invejo
se teu exercício de natação sem volta
foi mesmo sacrifício ou autoimolação
eu me pergunto que deus te merecia
mais do que eu
dizem as boas bocas pelas ruas de Roma
que eu chorei por ti como uma mulher
como se eles pudessem distinguir o gênero
das águas salinizadas
Pancrates de Alexandria comparara
uma flor-de-lótus a ti e não o contrário
e com isso ganhou meus favores
tu eras o parâmetro
de todos os sistemas da simetria
Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia
ser varrida vasculhada
jamais outro com teu pescoço
teus pés teu tórax
tu eras o príncipe das belugas
Antínoo tu foste meu antinão







livrosh da douda


eu li uns poema pornô d'o martelo
e suas traduções pro inglês 
que manuel wetscher e eu fizemos
(foto feita pela joana)





sean bonney é um poeta inglês que vive em berlim e cujo livro cartas contra o firmamento foi lançado pela douda esse ano, traduzido por miguel cardoso. a leitura de sean foi maravilhosa. dentre outros, ele leu esse poema aqui:


ACAB: A nursery rhyme

 for “I love you” say fuck the police / for
“the fires of heaven” say fuck the police, don’t say
“recruitment” don’t say “trotsky” say fuck the police 
for “alarm clock” say fuck the police
                                                       for “my morning commute” for
“electoral system” for “endless solar wind” say fuck the police
don’t say “I have lost understanding of my visions” don’t say
“that much maligned human faculty” don’t say
“suicided by society” say fuck the police / for “the movement
of the heavenly spheres” say fuck the police / for
“the moon’s bright globe” for “the fairy mab” say
fuck the police / don’t say “direct debit” don’t say “join the party”
say “you are sleeping for the boss” and then say fuck the police
don’t say “evening rush-hour” say fuck the police / don’t say
“here are the steps I’ve taken to find work” say fuck the police
don’t say “tall skinny latté” say fuck the police / for
“the earth’s gravitational pull” say fuck the police / for
“make it new” say fuck the police
                                                       all other words are buried there
all other words are spoken there / don’t say “spare change”
say fuck the police / don’t say “happy new year” say fuck the police
perhaps say “rewrite the calendar” but after that, immediately
after that say fuck the police / for “philosopher’s stone” for
“royal wedding” for “the work of transmutation” for “love
of beauty” say fuck the police / don’t say “here is my new poem”
say fuck the police 
                say no justice no peace and then say fuck the police






nuno leu na íntegra o seu letras para dance music. fiz este vídeo desastroso (desastroso não somente por estar com uma qualidade super baixa - não sei como ajeitar isso na câmera, help! - mas por terminar bruscamente, porque causa da bateria vazia) porém com amor:






(pra compensar a horrorosidade do meu vídeo,
uma foto nítida, com ricardo domeneck
roendo as unhas)






ps: o martelo está à venda em lisboa nas livrarias pó dos livrosletra livre, sr. teste e na fnac. para quem estiver no brasil e quiser comprar, dá pra encomendar por pay-pal. é só mandar email pra editora (miasoave@sapo.pt).

Thursday, July 21, 2016

needed me em tradução pro recifês

(letra de rihanna, brittany hazard, a. sneed, alicia reneé, charles hinshaw e derrus rachel)

eu tarra de boas na minha, na boa, era assim
tu tarra na merda atrás dum amor sem graça ou uma trepada ruim,
porra então tás reclamando de quê?
tás se sentindo na merda, né?
tu curtia as coisa que eu tinha pra dar
e se divertiu com a coisa que eu dava

mas meu filho não viaje
tu foi só mais um na minha lista
dos que tentam animar a vida com uma "doidinha"
ninguém te avisou que eu sou mais que isso?
foda-se tua carruagem teu cavalo branco
aposto que tu nunca pensou nisso
mas eu nunca disse que tu me tinha

tu que precisou de mim
sim foi tu quem precisou de mim
sinta mais e dê menos
eu sei que tu odeia admitir
mas meu filho, quem foi?, foi tu que precisou de mim

tu fica me enrolando nesse caralho enquanto eu arraso
arraso e lacro
foda-se essa merda que num era pra dar certo
a gente não era porra nenhuma
tô lhe dando a real pra você ficar ligado

então comé que tu se sente, comé que tu se sente?



a gente tá cansado de saber que toda música pop em inglês, quando traduzida pro brasileiro "oficial", sempre se parece com alguma música ruim de zezé di camargo and luciano.

outra coisa que eu tô cansada de saber é que, quando chega-se ao ápice (ou ao fundo do poço) de se traduzir rihanna pro brasileiro é porque a pessoa tá mesmo vuduzada.

na verdade, eu queria apenas uma desculpa pra publicar essa música em forma de indireta, no facebook. mas fiquei com vergonha, porque é muita passação de recibo, e no fim das conta os destinatário dessas indireta, os boy, tão cagando e andando pra remetente.

então achei mais erudito fingir que tô fazendo um experimento com a língua brasileira, traduzindo do inglês estadounidense negro para o recifês.

tem duas coisas importantes pra mim nesse exercício: a relação com o dialeto (estou absolutamente convencida que o recifês é mais do que um sotaque, mas imagino que linguistas diriam que não) e a abordagem da sexualidade da menina "doidinha".

e a letra se aproxima também de duas coisas sobre as quais, enquanto brasileira e mais precisamente brasileira do nordeste (esse lugar super machista), penso muito: o sexo da mulher fora relacionamento estável and/ou monogámico e o rótulo da menina "doida". um termo tão, mas tão (mal-)usado: como se a auto-suficiente e sexual não pudesse ser "normal". não. a que não dança conforme a música só pode ser doida.

no texto original, rihanna usa os termos "bad bitch" (que eu entendo como a "doidinha") e "savage", que é uma palavra mais antiga, e mais neutra, que eu não traduzi como selvagem porque
1) é brega (coisa que a letra não é)
2) porque entendi como sendo o momento em que rihanna diz que não é "bad", e sim muito maior que isso.

quando prestei atenção nessa letra pela primeira vez, além de ter me identificado com o pé-na-bunda indireto (porque, convenhamos, ainda que ela esteja dando a real, ainda que o texto seja empoderado, me parece que quem não quis ela foi ele), me identifiquei como mulher-não-branca-vivendo-na-alemanha e o male gaze europeu.

ainda que mais igualitária do que os relacionamentos que eu tive com brasileiros, minha relação com um homem branco europeu sempre será permeada de um certo exotismo, fetiche muito sutil, mas que está lá como os fantasmas de bolaño. quando rihanna diz "tryna fix your inners issues with your bad bitch" eu só consigo pensar em "tentando animar sua vidinha de europeu com uma latina 'doida'".

no imaginário criado por rihanna para a música, minha teoriazinha de merda da mulher não-branca sob o male gaze branco se desfaz e é um tapa na minha cara. o mundo de rihanna é negro, é, no sentido racial, totalmente igualitário.

o boy ao qual ela se refere, ainda que eu tenha visualizado na forma de um homem branco delicado com mommy issues (perdão!), é um gangsta insensível e tatuado que ela mata com três tiros num clube de pole dancing. todo mundo parece ter dinheiro, ter a mesma cor da pele, ser  mais ou menos igual (no sentido de raça e classe), o que só confirma que o que rihanna aborda na letra é realmente a vida interna dos envolvidos, e não aquilo que eu achei que fosse, na minha interpretação white girls problems da letra.

de robe, com os peito não-siliconado (amém!), rihanna mata o boy capricorniano, mas com quem ela tá em pé de igualdade socialmente. nessa hora, uma imagem resume pra mim o desencontro entre o que rihanna diz e o que eu entendi: pendurados no pescoço dela, um colar de pérolas apertado e curto, fetiche-acoxinhado, e um colar de ouro longo, com um pingente em formato do continente africano. pá.

essa letra é maravilhosa. o anti é um disco todo errado, de frustrações e tropeços. rihanna, ao contrário de bioncê, erra, e é por isso que esse disco pega na nossa mão mais do que o lemonade (no quesito amor, claro, porque no quesito político, né, migas, tá pra nascer um disco mais importante que o lemonade). agradeço a deus pela graça alcançada que é esse disco fuderoso.



Wednesday, July 20, 2016

ricardo lendo hilda machado na sua sala e três fotos desse dia





(com intervenção especial de érica zíngano)


Miscasting

“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles


estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga














Monday, July 18, 2016

a partilha


te escrevo do ônibus a raiva
dando lugar a um negócio
ainda sem nome comprei
cigarro em vez de água
com os zlótis que você me deu
hoje de manhã na cozinha
sem me olhar nos olhos eis
a lista das coisas que você me deixa:
aumento das chances de câncer
de pulmão e algum dinheiro
parte dos euros que ainda me deve

bebemos um nescafé escroto
passando os dedos na borda
da xícara sem dizer uma palavra
assombrados com o silêncio (mas
isso é erich kästner) tudo tão diferente
das infinitas calorosas conversas
daquelas do tipo que se muda
o que se pensa só um pouquinho
pra aumentar o teor de encanto

eu queria ter feito amor com você
como você diz ter feito com as outras
para mim só sobrou sua dívida
a partilha das neuroses das solidões
suas tristezas todas te escrevo
do ônibus partida ao meio
procuro você na estrada
porque sei que você vai de carona
até varsóvia quem sabe te vejo
anônima e masturbatória enquanto
você procura alguém com vida interna
morna o suficiente que neutralize
o fervor da sua (meu deus
onde estava eu com a cabeça?)

meu único arrependimento
é não ter te fotografado
enquanto tentávamos pegar
uma carona até o mar báltico
você na beira da estrada
sem camisa sob o sol
parecia deus.