Saturday, February 21, 2015

serviço secreto

não me parece
inadequado
que eu viaje ao contrário
de costas pra estrada
deutsche bahn
dusseldórfia
berlim
meus buracos
minha burca
o marinheiro
segue deitado
ainda e na mesma
cama eu teria
deixado dusseldórfia
com convicção
o marinheiro
recomenda:
vá não venha
faça a coisa certa
eu estava parada
na porta do trem
com um celular
colado na cara
quando liguei
pruma última
consulta parada
suada na porta
do vagão 21
tremendo fiquei sem saber
se pegava o trem
ou se voltava
pra rua dos lobos 18
eu teria realmente teria
saído correndo pro
abrigo líquido
do marinheiro
até a mala já está feita
avisei e ele disse
vá não venha
não sei bem onde estava
a vírgula
podia ser no vá
podia ser no não
por segurança
entrei no trem
e comprei via pay-pal
por 4,95 euros
um passe de internet
todo mundo manda
fazer a coisa certa
e agora que fiz
a coisa certa
só queria deitar
me deixem.

Thursday, February 19, 2015

inventário de esposas e órgãos inúteis

o marinheiro 
pede
pra ficar pra ficar pra 
sempre não levante
desse abrigo ele marinheiro
e vidente 
avante

e eu
doente
sexton
sem sexo
plath
sem palato
woolf
mas não morde
louise
deveras bourgeois
frígido árbol
em nada arbus
tonsila
pilca semilunares
sem orgasmo


não
levantei
honrada que sou
levitei
sofisticada correta morta
cheia de dignidade
sequei os
sucos os
sulcos o
suvaco
nenhuma alegria
mulher
moral
vesícula
ciso, o dente
apêndice
baço.


Saturday, January 03, 2015

budapeste

despachei-te prum banho turco
bem no meio da nossa viagem
fiz ardis insisti assumi me é
importante ficar só consegui
escrever um poema que batizei
"o elefante"
no café new york debatemos
sobre naturalismo e fiquei com
raiva que você não conhece ou
ignora a importância natural
de gogol e como pode desconhecer
o realismo mágico quando este
against all ods nasceu na sua terra
e não na minha
despachei-te pra munique
um dia antes da minha volta
fiz ardis insisti me é importante
mas tive febre fiquei de cama
só consegui ficar só
não consegui ver a cidade
budapeste.





lendo elizabeth bishop em húngaro para passar o tempo enquanto jacó passeava e eu morria de febre

Friday, January 02, 2015

o elefante

quando antonia morreu tinha um ano
e oito meses foi encontrada na piscina
apertava um elefante na mão que sua mãe
até hoje aperta muito embora o alzheimer
lhe impeça de lembrar por que ela a mãe
pulou na piscina ao ver antonia
à deriva no ventinho da renânia do norte
boiando na piscina que o pai de antonia
esqueceu de cobrir enquanto jogava
tênis com outros amigos talvez tão ou mais
ricos do que eles a mãe de antonia que hoje
já não se lembra de muita coisa como falei
por causa do alzheimer lembrou no entanto
de guardar o elefante mas esqueceu
de tirar o vestido molhado dizem que passou
dias com ele e quem viu diz também que era
lindo ver aquela mulher com um vestido azul
claro longo molhado e por conseguinte coladinho
"parecia uma estátua grega" disse-me quem a viu
mas ninguém viu que apertava também o elefantinho
foi em 1958 quando ivi morreu 50 anos depois
tinha vinte e cinco e seis meses apertava o primeiro
verso de um poema de sylvia plath e resistia bravamente
de olhos cerrados enquanto caia morto o mundo
embora soubesse que o resto do poema é uma
declaração de amor completamente estúpida
como são todas as declarações de amor
heterossexual e como todas as coisas que plath
escrevia, me perdoe plath me perdoe campilho
o mundo é um horror, o elefante é de pelúcia
e ossinhos não são de mel, são apenas cálcio
nada mais.



Tuesday, December 30, 2014

a primeira coisa que vi quando desci do trem em budapeste foi uma mulher de peruca.

Monday, December 29, 2014

"algumas contemporâneas indispensáveis" hahaha

carão no jornal de domingo


faço minhas as palavras da crítica literária priscilla campos, quando ela diz (pra mim haha) que "é necessário discutir a classificação literatura “feminina”. É o tipo de nomenclatura que não acrescenta nada ao debate. Existe literatura e só".

de toda forma, é maravilhoso fazer parte de uma lista (pela primeira vez), sendo indicada por uma pesquisadora/leitora insana que respeito demais (e antes de dizer que é panelinha, eu nunca vi priscilla na vida; ficamos amigas virtuais apenas depois que ela escreveu uma resenha sexy e inteligentíssima de polaróides, a resenha é quase melhor que o livro hahaah). 






Monday, December 22, 2014

da sala de estar da avó

dessa sala de estar eu vejo o
mundo cheio de poetas espanhois que
a senhora hace años não lê que a senhora
mal sabe o nome atolados nos móveis antigos
que eu queria ter que são a senhora
quem os tem nessa sala onde se estar
é um horror a senhora tinha criadas espanholas
que certamente nunca leram lorca porque lorca
era viado e comunista eu sou também uma
latina mas minha avó nunca leu lorca nem ninguém e
bolinhos a senhora comia feitos por uma espanhola
da galícia enquanto bolinhos vendia minha avó na rua
para dar de comer não bolinhos mas farinha
aos seus 16 filhos lorca morreu assassinado
mais por ser comunista ou mais por ser viado?
a senhora hoje nem se lembra de lorca eu me lembro
dele e attila józsef por um trem atropelado
e talvez por a senhora ser ariana me lembro de celan
que morreu afogado a mim me resta pegar um buxo
tendo assim certeza que os lorcas serão meus ou deixá-lo pra sempre
tendo assim certeza não terei lorcas
mas a quase certeza que terei de ustedes todos me libertado.