esse poema foi encontrado escrito num guardanapo. o primeiro verso, o que tá riscado, diz "nichts besonders", que em alemão é tipo "não é nada demais", "sem graça".
as duas palavras do penúltimo verso ("o mundo {--}") são ininteligíveis no manuscrito e aparecem, na transcrição que aparece no livro, assinaladas da mesma forma que aqui.
A NOITE DOS CONDENADOS
O FIM DO AMOR
Uma lua, um céu
e o mar escuro.
Agora, escuro está tudo.
Só porque é de noite
e nada humano
entrelaça a delicadeza.
Ainda me acusas de quê?
e essa amargura,
Faz isso não.
Eu não sabia fazer nada
a não ser te amar, eu não
pensei,
que por causa do suor da pele
o mundo [--] [--]
e que caem uns vinténs
de Bachmann, Ingeborg. “Ich weiß keine bessere Welt.” Piper.
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Saturday, April 15, 2017
Sunday, March 26, 2017
três poemas de “Ich weiß keine bessere Welt”, de Ingeborg Bachmann
Meus poemas fugiram de mim.
Eu procuro por eles em todos os cantos da casa.
Não sei nada sobre a dor, nem sobre como se deve
escrever sobre a dor, eu não sei de nada.
Sei que não se pode falar das coisas desse jeito
tem que ter tempero, jogar pimenta na metáfora.
ocorreria a alguém. Mas com um punhal nas costas.
Parlo e tacio, parlo, me escondo num dialeto
no qual até em espanhol aparece, los toros y
las planetas, num disco velho e roubado
que talvez ainda toque. Com um pouco de francês
também rola, faça mon amour depuis si longtemps.
Adieu, palavras bonitas, vocês e suas promessas.
Por que vocês me abandonaram? Não tava bom aqui?
Vou guardar vocês dentro de um coração de pedra.
E lá, aguentem, e lá escrevam meus poemas por mim
Meine Gedichte sind mir abhanden gekommen.
Ich suche sie in allen Zimmerwinkeln.
Weiß vor Schmerz nicht, wie man einen Schmerz
aufschreibt, weiß überhaupt nichts mehr.
Weiß, daß man so nicht daherreden kann,
es muß würziger sein, eine gepfefferte Metapher.
müßte einem einfallen. Aber mit dem Messer im Rücken.
Parlo e tacio, parlo, flüchte mich in ein Idiom,
in dem sogar Spanisches vorkommt, los toros y
las planetas, auf einer alten gestohlenen Platte
vielleicht noch zu hören. Mit etwas Französischem
geht es auch, tu es mon amour depuis si longtemps.
Adieu, ihr schönen Worte, mit euren Verheißungen.
Warum habt ihr mich verlassen. War euch nicht wohl?
Ich habe euch hinterlegt bei einem Herzen, aus Stein.
Tut dort für mich, Haltet dort aus, tut dort für mich ein Werk
NÃO DESCARTAR NENHUM TESTEMUNHO
Não descartar nenhum testemunho, calar, viver
a vida pré-determinada, viver,
o sol durante o dia não muda nada
não ser fardo para o sol, não ser fardo para
ninguém.
É um fardo não esperar nada, não temer nada.
KEIN ZEUGNIS ABLEGEN
Kein Zeugnis ablegen, schweigen, leben,
das vorgeschriebene Leben, leben,
die Sonne, die nichts an den Tag bringt,
die Sonne auch nicht bemühen, niemand
bemühen.
Es ist eine Mühe, zu hoffen nicht, zu fürchten nichts.
PUBLICIDADE,
tento atrair todo mundo
e não consigo ninguém
tento atrair o cobrador do trem
que deixa a porta bater na
minha cara, tento atrair o carteiro
que faz muito
barulho, tento atrair
todo mundo, eu preciso
de um grande homem
para conseguir amá-los,
é perigoso amar
os homens, é um crime
insistir
WERBUNG,
um jeden werb ich
und keinen gewinn ich,
um den Straßenbahnschaffner
der vor mir die Tür einschnappen
läßt, um den Postboten,
der zu laut
läutet, um jeden
werb ich, ich brauch
ein Heer von Menschen
um sie lieben zu können,
es ist gefährlich, die Menschen
zu lieben, ein Verbrechen
sich aufzudrängen
Friday, October 28, 2016
um tipo de perda, de ingeborg bachmann
Juntos usamos: as estações do ano, livros e uma música.
As chaves, os saquinhos de chá, a cesta de pão, lençóis
e uma cama.
Uma herança de vocabulário, de gestos, trazidos,
utilizados e gastos.
Obedecidas as regras do prédio. Dito. Feito. E a mão
sempre estendida.
Sempre me apaixonei pelo inverno, por um quinteto vienense
e pelo verão.
Por mapas, por uma casinha na montanha, por uma praia,
por uma cama.
Ritualizo datas, declaro incanceláveis as
promessas,
idolatro qualquer coisa e sou devota do nada,
( -- do jornal dobrado, do cinzeiro cheio, do papelzinho
com um recado)
não tenho medo de religião, porque igreja era essa cama.
Da vista do mar nasceu essa pintura incansável.
Da varanda dava pra saudar os povos,
meus vizinhos.
Perto da lareira, em segurança, meu cabelo tinha
sua cor mais extrema.
O toque da campainha era o alarme da minha felicidade.
Não foi você que eu perdi,
foi o mundo.
um esboço de fabio maca e o original em alemôo
não conhecia esse poema, que faz parte da reta final da produção em poesia de ingeborg (acho inclusive que esse sequer foi publicado em livro, ela alias só publicou dois de poesia, depois mudou pra prosa e nunca mais voltou). encontrei em "tempo aprazado", as traduções de ingeborg pro português, feitas por judite berkemeier e joão barrento e publicadas pela assírio alvim em 1992. ainda que ache a tradução de berkemeier e barrento muito bonita, não deixa de ser distante da língua falada do lado de cá do atlântico então publico aqui a minha tradução pro português brasileiro.
esse texto me deixou particularmente assanhada porque, ainda que haja aquela coisa véia de exaltação da natureza que ela adora, há aqui também uma perda de controle, é ingeborg histérica, com saudade de transar com o boy. porque claro que não foi o mundo que ela perdeu, ainda que ela diga que foi. foi o boy. e o que é um boy senão o fucking mundo da gente?
tomei a liberdade de mudar algumas coisas do original por achar solene DEMAIS quando em português. 1) "Leintücher" significa lençóis de linho pelamor quem usa essa porra? ficou lençóis na tradução; 2) "Worte" é palavras, escolhi vocabulário por achar que todo casal tem seu léxico particular, não apenas palavras mas um vocabulário próprio que inclui sons, grunhidos, piadinhas internas em comum e toda sorte de bobagens; 3) "der kalten Asche" é cinzas frias e traduzi pra cinzeiro cheio, obviamente não é a mesma coisa no sentido de materialidade, mas é o que a coisa que dizer que minteressa: cinzas frias são os rastros dos cigarros fumados há muito ou as cinzas da lareira há muito apagada - ou seja, o boy que foi simbora - e um cinzeiro cheio também é isso, um tipo de "pegada" emocional, algo ali abandonado.
Saturday, June 25, 2016
pensando em ingeborg, no dia de seu aniversário de 90 anos
eu vou contrariar minha própria regra de nunca citar os parcêro famoso das artistas/autoras sobre as quais escrevo (algo que me dá muita raiva. tipo quando o povo vai falar de gerda taro sempre tem que mencionar que ela era a mulher de robert capa, como se isso fosse contextualizar "melhor"). mas vou quebrar minha regra porque as cartas de amor que ingeborg escreveu para paul celan eram as coisas mais lindamente humanas, ela correndo atrás dele, ele sempre sem tempo ou ocupado consigo mesmo, a gente fica identificada, né. enfim aí vai (ah e as minha "tradução" é sempre pro recifês, ceis sabe, comigo regência plural e conjugação é coisa do passado):
de ingeborg bachmann para paul celan, viena, natal de 1948, carta não enviada
Natal, 1948
Querido, querido Paul!
Ontem e hoje eu pensei muito em tu, pensei muito na gente. Não te escrevo pra que tu me escreva de volta, te escrevo porque me faz bem e porque eu quero. Eu tinha pensado em ir te encontrar em Paris esses dias, mas aí um sentimento vaidoso e idiota de conscienciosidade me prendeu aqui e eu não fui. Como fazemos então: n'algum lugar em Paris? Eu não sei, mas de qualquer forma seria lindo!
Três meses atrás do nada alguém me deu teu livro de presente. Eu não sabia que tinha sido publicado. Foi... foi como se o chão tivesse se aberto sob meus pés, e minhas mãos tremeram bem de levinho. Então passei muito tempo sem sentir nada. Aí algumas semanas atrás em Viena comentaram que os Jenés tinha ido para Paris. Eu também fui na viagem.
Eu ainda não sei o que a última primavera significou. - Tu sabe que eu sempre quero saber direitinho o nome das coisas. - Que foi lindo eu sei, - e os poemas, e O Poema, que nós fizemos um do outro.
Ontem e hoje eu pensei muito em tu, pensei muito na gente. Não te escrevo pra que tu me escreva de volta, te escrevo porque me faz bem e porque eu quero. Eu tinha pensado em ir te encontrar em Paris esses dias, mas aí um sentimento vaidoso e idiota de conscienciosidade me prendeu aqui e eu não fui. Como fazemos então: n'algum lugar em Paris? Eu não sei, mas de qualquer forma seria lindo!
Três meses atrás do nada alguém me deu teu livro de presente. Eu não sabia que tinha sido publicado. Foi... foi como se o chão tivesse se aberto sob meus pés, e minhas mãos tremeram bem de levinho. Então passei muito tempo sem sentir nada. Aí algumas semanas atrás em Viena comentaram que os Jenés tinha ido para Paris. Eu também fui na viagem.
Eu ainda não sei o que a última primavera significou. - Tu sabe que eu sempre quero saber direitinho o nome das coisas. - Que foi lindo eu sei, - e os poemas, e O Poema, que nós fizemos um do outro.
Hoje eu te amo. Eu queria muito te dizer isso, - porque naquela época eu não disse o suficiente.
Assim que eu tiver tempo, posso ir passar uns dias aí. Tu ia querer me ver também? Por uma hora, ou duas.
Com muito, muito amor!
Sua Ingeborg
Assim que eu tiver tempo, posso ir passar uns dias aí. Tu ia querer me ver também? Por uma hora, ou duas.
Com muito, muito amor!
Sua Ingeborg
de ingeborg bachmann para paul celan, munique, 18.01.1958
sábado
18-1-58
O Proust chegou. Que bonito!! (Tu me mima muito!)
Na noite em que [tu] me ligou, eu tive que pensar várias vezes no que tu me perguntasse: "Devo ir [praí]?" Tu não faz ideia o que significa pra mim que tu pergunte isso. Eu tive que cair no choro, porque sim, porque isso existe para mim e porque eu nunca tive isso antes.
Na noite em que [tu] me ligou, eu tive que pensar várias vezes no que tu me perguntasse: "Devo ir [praí]?" Tu não faz ideia o que significa pra mim que tu pergunte isso. Eu tive que cair no choro, porque sim, porque isso existe para mim e porque eu nunca tive isso antes.
Boa viagem, ânimo e não deixe nenhuma bobagem estragar tua felicidade. Eu vou pensar num lugar e te escrevo em Dresden. Por ora, se cuide!
Ingeborg
fiz uma tradução desse poema para nossa homenagem a dora lara barcelos, que reposto aqui:
Exílio
Eu sou um morto que perambula
em canto nenhum registrado
desconhecido no reino da política
supérfluo nas cidades douradas
e no campo fértil
Eu sou um morto que perambula
em canto nenhum registrado
desconhecido no reino da política
supérfluo nas cidades douradas
e no campo fértil
descartado já há muito
e totalmente esquecido
Apenas vento, tempo e som
que eu, entre pessoas, não posso viver
Eu com a língua alemã
essa nuvem ao meu redore totalmente esquecido
Apenas vento, tempo e som
que eu, entre pessoas, não posso viver
Eu com a língua alemã
que eu considero minha casa
me arrasto entre todas as línguas
Ai, como ela se eclipsa
a escuridão, o som da chuva
é pouco o que cai
Então é para onde tem luz que ela leva seu morto.
me arrasto entre todas as línguas
Ai, como ela se eclipsa
a escuridão, o som da chuva
é pouco o que cai
Então é para onde tem luz que ela leva seu morto.
e, uma vez que contrariei a porra da regra mermo, para terminar, uma tradução esbaforida que fiz pra corona, poema-tão-lindo que celan escreveu para ingeborg, publicado em seu primeiro livro, "mohn und gedächtnis", de 1952.
Corona
O outono devora suas folhas em minhas mãos: somos namorados.
Descascamos o tempo de dentro das nozes e o ensinamos a partir:
O tempo volta para a casca.
No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca diz a verdade.
Meu olhar desce para o sexo da amante:
Nos olhamos,
dizemos coisas sombrias,
nos amamos como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o brilho sanguíneo da lua no mar.
De pé abraçados à janela, o povo na rua nos vê:
é tempo que saibam!
É tempo da pedra se preparar para florescer,
que a inquietação faça bater um coração.
É tempo de ser tempo.
É tempo.
Corona
Aus der Hand frißt der Herbst mir sein Blatt: wir sind Freunde.
Wir schälen die Zeit aus den Nüssen und lehren sie gehn:
die Zeit kehrt zurück in die Schale.
Im Spiegel ist Sonntag,
im Traum wird geschlafen,
der Mund redet wahr.
Mein Aug steigt hinab zum Geschlecht der Geliebten:
wir sehen uns an,
wir sagen uns Dunkles,
wir lieben einander wie Mohn und Gedächtnis,
wir schlafen wie Wein in den Muscheln,
wie das Meer im Blutstrahl des Mondes.
Wir stehen umschlungen im Fenster, sie sehen uns zu von der
Straße:
es ist Zeit, daß man weiß!
Es ist Zeit, daß der Stein sich zu blühen bequemt,
daß der Unrast ein Herz schlägt.
Es ist Zeit, daß es Zeit wird.
Es ist Zeit.
Tuesday, May 31, 2016
exílio, de ingeborg bachmann
amanhã, dia 01 de junho, é aniversário de 40 anos da morte de dora lara barcelos, integrante da VAR-palmares (a mesma organização de dilma), presa em novembro de 1969 e brutalmente torturada, até ser libertada entre os 70 presos políticos trocados pelo embaixador da suíça no brasil, giovanni bucher, em 1971.
depois de se exilar no chile, ela teve que sair do país após o golpe e a queda de allende, fixando residência na berlim ocidental, em 1974. sem passaporte, com dificuldades de conseguir o asilo no país, marcada pela tortura e pelos abusos sexuais que sofreu na prisão, dora lara barcelos jogou-se diante de um trem na estação de charlottenburg naquele 1° de junho de 1976.
para não esquecer, ricardo domeneck, érica zíngano e eu vamos fazer um pequeno ritual na estação de charlottenburg, onde dora se matou. vamos ler, em sua homenagem, poemas de hilda hilst, wislawa szymborska e ingeborg bachmann - cujo poema eu, pensando em dora, traduzi e publico aqui:
ingeborg amor canceriano da minha vida
Exílio
Eu sou um morto que perambula
em canto nenhum registrado
desconhecido no reino da política
supérfluo nas cidades douradas
e no campo fértil
Eu sou um morto que perambula
em canto nenhum registrado
desconhecido no reino da política
supérfluo nas cidades douradas
e no campo fértil
descartado já há muito
e totalmente esquecido
Apenas vento, tempo e som
que eu, entre pessoas, não posso viver
Eu com a língua alemã
essa nuvem ao meu redore totalmente esquecido
Apenas vento, tempo e som
que eu, entre pessoas, não posso viver
Eu com a língua alemã
que eu
considero minha casa
me arrasto entre todas as línguas
Ai, como ela se eclipsa
a escuridão, o som da chuva
é pouco o que cai
Então é para onde tem luz que ela leva seu morto.
Exil
Ein Toter bin ich der wandelt
gemeldet nirgends mehr
unbekannt im Reich des Präfekten
überzählig in den goldenen Städten
und im grünenden Land
abgetan lange schon
und mit nichts bedacht
Nur mit Wind mit Zeit und mit Klang
der ich unter Menschen nicht leben kann
Ich mit der deutschen Sprache
dieser Wolke um mich
die ich halte als Haus
treibe durch alle Sprachen
O wie sie sich verfinstert
die dunklen die Regentöne
nur die wenigen fallen
In hellere Zonen trägt dann sie den Toten hinauf
me arrasto entre todas as línguas
Ai, como ela se eclipsa
a escuridão, o som da chuva
é pouco o que cai
Então é para onde tem luz que ela leva seu morto.
Exil
Ein Toter bin ich der wandelt
gemeldet nirgends mehr
unbekannt im Reich des Präfekten
überzählig in den goldenen Städten
und im grünenden Land
abgetan lange schon
und mit nichts bedacht
Nur mit Wind mit Zeit und mit Klang
der ich unter Menschen nicht leben kann
Ich mit der deutschen Sprache
dieser Wolke um mich
die ich halte als Haus
treibe durch alle Sprachen
O wie sie sich verfinstert
die dunklen die Regentöne
nur die wenigen fallen
In hellere Zonen trägt dann sie den Toten hinauf
convido minhas leitorinhas queridas a, caso lhes interesse, lembrar da vida e morte severina de dora em suas redes sociais, com a hashtag #doralarabarcelos. podemos linkar seu perfil no wikipedia, ou o documentário "Brazil: A Report on Torture" filmado no Chile em 1971 e no qual dora é entrevistada ou, para quem gosta de textão, esse ótimo artigo (em português!) do centro de direitos humanos de nuremberg. qualquer gesto é importantíssimo porque, nesse momento que o brasil vive, temos que lembrar e valorizar nossas mulheres e nossa her-story. e socê tiver em berlim, aparece na estação amanhã às 19h30 :)
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