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Friday, June 03, 2016

para dora




01 de junho de 2016 marcou o 40º aniversário da morte de maria auxiliadora lara barcelos, guerrilheira da VAR-palmares, que foi presa, torturada e abusada sexualmente pelo regime militar. dora se exilou no chile, na bélgica e na berlim ocidental, onde se suicidou, jogando-se na frente de um trem na estação de charlottenburg, em 1976, aos 31 anos.

neste dia, em sua homenagem, ricardo domeneck, érica zíngano, rafael mantovani, bia krieger e eu nos encontramos na estação de chalottenburg, para um pequeno ritual, onde poemas de hilda hilst, wislawa szymborska, ingeborg bachmann, anne sexton e torquato neto foram lidos.








WANTING TO DIE
anne sexton

Since you ask, most days I cannot remember.
I walk in my clothing, unmarked by that voyage.
Then the almost unnameable lust returns.

Even then I have nothing against life. 
I know well the grass blades you mention,
the furniture you have placed under the sun.

But suicides have a special language.
Like carpenters they want to know which tools.
They never ask why build.

Twice I have so simply declared myself,
have possessed the enemy, eaten the enemy,
have taken on his craft, his magic.

In this way, heavy and thoughtful,
warmer than oil or water,
I have rested, drooling at the mouth-hole.

I did not think of my body at needle point.
Even the cornea and the leftover urine were gone.
Suicides have already betrayed the body.

Still-born, they don’t always die,
but dazzled, they can’t forget a drug so sweet
that even children would look on and smile.

To thrust all that life under your tongue!--
that, all by itself, becomes a passion.
Death’s a sad Bone; bruised, you’d say,

and yet she waits for me, year after year,
to so delicately undo an old wound,
to empty my breath from its bad prison.

Balanced there, suicides sometimes meet,
raging at the fruit, a pumped-up moon,
leaving the bread they mistook for a kiss,

leaving the page of the book carelessly open,
something unsaid, the phone off the hook
and the love, whatever it was, an infection.





érica lendo hilda (esqueci de fazer video, péssima)

DA MORTE. ODES MÍNIMAS (XXII)
hilda hilst

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.



MARGINÁLIA II
torquato neto

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender
Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo



ricardo lendo "exil", de ingeborg bachmann






O QUARTO DO SUICIDA
wislawa szymborska

Vocês devem achar que o quarto estava vazio.
Pois havia ali três cadeiras de encosto firme.
Uma boa lâmpada contra a escuridão.
Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais.
Um Buda alegre, um Jesus aflito.
Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho.
Você acha que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras.
Saskia com uma flor cordial. 
Alegria, centelha divina.
Na estante Ulisses num sono reparador
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes inscritos em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Ao lado, também os políticos perfilados.

Não parecia que o quarto fosse
sem saída, pelo menos pela porta
nem sem vista, pelo menos pela janela.
Os óculos para longe largados no parapeito.
Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva.
Devem achar que ao menos a carta explicasse algo.
E se eu lhes disser que não havia carta –
éramos tantos os amigos e coubemos todos
no envelope vazio apoiado no lado do corpo.

(tradução de regina przybycien)




(as fotos que aparecem neste post são ©ivánova, ©mantovani, ©zíngano)



Tuesday, May 31, 2016

exílio, de ingeborg bachmann



amanhã, dia 01 de junho, é aniversário de 40 anos da morte de dora lara barcelos, integrante da VAR-palmares (a mesma organização de dilma), presa em novembro de 1969 e brutalmente torturada, até ser libertada entre os 70 presos políticos trocados pelo embaixador da suíça no brasil, giovanni bucher, em 1971.

depois de se exilar no chile, ela teve que sair do país após o golpe e a queda de allende, fixando residência na berlim ocidental, em 1974. sem passaporte, com dificuldades de conseguir o asilo no país, marcada pela tortura e pelos abusos sexuais que sofreu na prisão, dora lara barcelos jogou-se diante de um trem na estação de charlottenburg naquele 1° de junho de 1976.

para não esquecer, ricardo domeneck, érica zíngano e eu vamos fazer um pequeno ritual na estação de charlottenburg, onde dora se matou. vamos ler, em sua homenagem, poemas de hilda hilst, wislawa szymborska e ingeborg bachmann - cujo poema eu, pensando em dora, traduzi e publico aqui:



ingeborg amor canceriano da minha vida



Exílio

Eu sou um morto que perambula
em canto nenhum registrado
desconhecido no reino da política
supérfluo nas cidades douradas
e no campo fértil

descartado já há muito
e totalmente esquecido

Apenas vento, tempo e som

que eu, entre pessoas, não posso viver

Eu com a língua alemã
essa nuvem ao meu redor
que eu considero minha casa
me arrasto entre todas as línguas

Ai, como ela se eclipsa
a escuridão, o som da chuva
é pouco o que cai

Então é para onde tem luz que ela leva seu morto.



Exil

Ein Toter bin ich der wandelt
gemeldet nirgends mehr
unbekannt im Reich des Präfekten
überzählig in den goldenen Städten
und im grünenden Land

abgetan lange schon
und mit nichts bedacht

Nur mit Wind mit Zeit und mit Klang

der ich unter Menschen nicht leben kann

Ich mit der deutschen Sprache
dieser Wolke um mich
die ich halte als Haus
treibe durch alle Sprachen

O wie sie sich verfinstert
die dunklen die Regentöne
nur die wenigen fallen

In hellere Zonen trägt dann sie den Toten hinauf




convido minhas leitorinhas queridas a, caso lhes interesse, lembrar da vida e morte severina de dora em suas redes sociais, com a hashtag #doralarabarcelos. podemos linkar seu perfil no wikipedia, ou o documentário "Brazil: A Report on Torture" filmado no Chile em 1971 e no qual dora é entrevistada ou, para quem gosta de textão, esse ótimo artigo (em português!) do centro de direitos humanos de nuremberg. qualquer gesto é importantíssimo porque, nesse momento que o brasil vive, temos que lembrar e valorizar nossas mulheres e nossa her-story. e socê tiver em berlim, aparece na estação amanhã às 19h30 :)