Thursday, April 02, 2009

sobre a lei cidade limpa

tem um texto meu sobre essa famigerada lei no novo suplemento de cultura do diário oficial do meu pernambuco.

contei com a maravilhosa ajuda do querido pio figueirôa e de leandro bugni (que também fez meu retratinho, ali no canto esquerdo).

have fun:



Existem três tipos de cegos: os deprimidos, os apaixonados e os paulistanos. Paulistanos não vêem ninguém. Trombam uns nos outros porque não se enxergam, porque sequer enxergam a cidade em que vivem. Não têm tempo a perder com contemplação – quem contempla não ganha dinheiro e tem que almoçar churrasco grego. Apaixonados moram em qualquer lugar do mundo, e também não vêem ninguém. Todo apaixonado é prepotente e contempla, porque sim. Os deprimidos, bom, vocês sabem, os deprimidos vêem a vida em preto e branco, como Bob Richardson, o pai de Terry, diria.

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A Lei Cidade Limpa entrou em vigor há mais ou menos dois anos. E a coisa que mais me chamou a atenção não foi a ausência de uma Gisele gigante na Consolação. Foi ver Kassab xingando, LIVE, um colador de outdoor de "vagabundo". Isso porque o pobre foi argumentar com o prefeito: como vou pagar as contas agora? Kassab não tinha resposta. Ele ia dizer o quê? "Eita, ó, nem tinha pensado nisso"? Assim como não pensou que em São Paulo nunca houve projeto de iluminação pública. Sem os spots que iluminavam as propagandas, a cidade, até então acesa, ficou sem luz. A cidade que nunca dorme nem foi dormir porque não há luz – faz tudo nas escuras, mesmo. E assim se segue. Ninguém nunca mais discutiu os desdobramentos da Lei Cidade Limpa, a parte dois, a evolução do projeto, o aprimoramento da medida. Tiraram as propagandas dos prédios, puseram os outdoors na ilegalidade... E tchau.

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Muito se falou sobre a lei desde que foi implantada. Eu já tive umas 12 opiniões a respeito. De modo que, precisando de um ponto de vista que eu respeitasse para ter o meu próprio, fui pedir ajuda aos universitários. A Pio Figueirôa, mais precisamente (não que ele seja universitário, mas é sabido e leonino, então confio nele). Pio, para quem não sabe, é um dos meninos da Cia de Foto e me falou várias coisas interessantes. E bem simples. Mas deixa eu falar de mim mais um pouquinho. Logo que me mudei para cá, sentia falta da praia para me localizar. Passei a usar como Norte a Avenida Paulista, que era meu equivalente ao mar de Bêvê, quando eu me perdia. Para Pio, meu paciente herói, foi assim com os outdoors: "Quando eu cheguei em SP, usava as propagandas para me localizar. Sabia que estava perto de casa quando passava por uma placa de propaganda cheia de tomates. Era um jeito 'auTOMATIzado' de me localizar". Ou seja: sem perceber, o olhar da gente se anestesia. E a propaganda, como um pé de oiti ou o mar de Bevê, passa a fazer parte da paisagem, elemento básico, coisa orgânica. E assim, organicamente, respondemos aos estímulos passados por ela, em forma de deleite ou repulsa – mas, em ambos os casos, inconscientemente. A poluição visual só passa a ser incômodo (assim como a do ar, como a do som) quando alguém nos lembra que é. E a gente vai com o olhar inerte viver a vida. Mas pelo amor de Isaac, a inércia visual está nas pessoas, e não na propaganda de Rexona com um suvaco do tamanho de três andares (bem lembrada, Pio!).

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Esses dias meu benzinho dilatou as pupilas e foi tão bonitinho de vê-lo, todo animado com a novidade – os semáforos em forma de halo, as luzes estouradas; eu, a namoradinha desfocada. E eu fiquei pensando: o olhar só se renova com o inesperado? Só se motiva com a novidade? Isso é coisa de geminiano – e eu não quero viver assim.

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A lei me apresentou a uma metrópole higiênica, no sentido ritual do termo. Um espaço urbano sem contrastes, sem coisas para gente falar mal no farol ("minha gente, meu Deus, pela Virgem, que coisa horrorosa Donatella na propaganda da Arezzo!"). A boa publicidade, assim como a boa moda, a boa música, a boa arte, desperta desejo (e desde quando desejo é ruim?) e impulsiona seus pensamentos a irem de um canto a outro, seja lá que canto for esse. Então não dá pra simplesmente sair arrancando dos muros toda propaganda. Talvez se devesse, em vez de fazer o exercício aeróbico de arrancar outdoor a torto e a direito, fazer o exercício anaeróbico de repensar nossa publicidade.

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Teve quem dissesse que a retirada dos outdoors permitiu com que se visse a arquitetura da cidade. Hum, é. E quando foi despida, percebeu-se que essa tal arquitetura precisava de uma recauchutada, de reparos, e de um bom banho – afinal, por trás desses banners, foram anos e anos de pombos fazendo paintball de cocô ali atrás. De modo que a Cidade Limpa revelou o que, além de escura, a cidade estava caindo aos pedaços.

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A Lei não faz a menor diferença no dia-a-dia das pessoas – quem tá apaixonado não vê nada, quem não tá só olha para baixo. Mas virou um ótimo assunto para discutir com seus amigos sabidos na mesa de bar. Ou para mocinhas insolentes como eu darem sua opinião por escrito. Só que, enquanto eles (os amigos sabidos) se engalfinham pra ver quem faz a melhor análise semiótica, eu, que nada vejo, só penso na hora em que vou chegar em casa, depois de passar batido por trezentos mil outdoors, para dormir de conchinha com meu bem.

7 comments:

Amanda said...

Sensacional!

casa de especiarias said...

esse texto da lei cidade limpa me lembrou de mainha que vive dizendo que a galera de recife devia tirar os outdoors (e olhe que não são tantos) e e pára de colar propaganda nos muros (e olhe que são muitos) pra acabar com a poluição visual.

*

eu particularmente não vejo poblema nenhum em cidades com outdoors, porque é como tu falou, estimula a nossa criatividade. por vezes são engraçados, lúdicos e até informativos. acho que há coisas muito mais importante pra governos discutirem do que retirada ou a não-retirada de propagandas das ruas, como por exemplo violência.

Nanda Coelho said...

Ivi, posso postar esse texto no meu blog? lógico que linkando no seu....
espero resposta.
beijos

casa de especiarias said...

que burra eu! a palavra ludico ai total fora de contexto. perdoname.

:*

Cacau Araújo said...

você sempre sopra inteligência, sabia?
sempre um pensamento interessante que faz a gente pensar, saudade do vodca que eu tava. apesar de super ter gostado da sua fase auto contemplativa de auto conhecimento próprio de si mesma ou whatever, enfim eu adorava as fotos que apareciam aqui.

ainda serei sua amiga dona vóoca. ( :

Lua said...

Ótima crônica Ivi. Falta-me inspiração para escrever assim! E a foto tá linda tbm!
beijo
Lua

Nacha said...

Eu só acho q Recife devia ter essa lei na época da eleição, mas acho q é mais pq as propagandas políticas são feias do q por qq outro motivo :P

bjos.
Nacha

PS.: mto bom o texto viu!!!