Sunday, February 20, 2011

jesus, help me find a proper place*

às voltas com as voltas, eu moro no ring, essa coisa horrorosa que circula a cidade de berlin. o que me encanta nessa cidade é sua sujeira, seus ratos de metrô, a indiferenca dos passantes, a língua brutal, a altura dos homens. mas a feiura de neukölln me ofende. me oprime. me devasta. me assusta.

a procissão de mulheres cobertas com lenço ou burca, por motivos culturais ou religiosos, por enquanto ainda me espanta, porque eu não conheço nada do islã e portanto não sei muito bem como lidar. preciso ler mais sobre isso, afinal não moro na oscar freire, moro aqui, nessa cidade, que é desse jeito. tenho vergonha da minha burrice e tenho raiva da minha burrice, porque ela me impede de sentir que eu pertenço a essa paisagem. eu só sei que pertenço a essa paisagem – sou como todos aqui – porque sou marxista. mas eu não sinto isso. me sinto superior a esses homens, que acho selvagens, e superior a essas mulheres, que acho submissas. como se vê, saber não adiante de nada – eu sei que sou igual a eles e elas, mas não é isso que eu sinto. o que eu sinto é um horror: complexo de superioridade. saber não serve de nada.

o fato de neukölln parecer ser uma cidade de médio porte do oriente médio – e minha ignorância diante disso – me põe, mais uma vez, no mesmo lugar conceitual de sempre: where do i belong?

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ando por aí com minha câmera e ficamos, eu e ela, a nos odiar. odeio andar com ela e não querer fotografar nada, e ela se sente ridícula pendurada em meu pescoçoo, uma vez que a ignoro solenemente.

“É evidente que o próprio ato de identificar (para não dizer fotografar) o local pressupõe nossa presença e, conosco, toda a pesada bagagem cultural que carregamos.”

o ato de fotografar pressupõe não somente minha presençaa, como também toda a carga emocional que deposito em cima daquilo que fotografo. escolher alguém para fotograr não é um ato generoso, pois por mais que fotografe o outro, o que eu espero é me encontrar, me ver.

minha beleza anti-geográfica tem preferido ser fotografada e assim, quem sabe, obter respostas - ou ao menos umas pistas. parece que eu sei posar melhor do que fotografar. toda vez que alguém me fotografa aprendo mais do que quando fotografo alguém. minha cara genérica já fez com perguntassem se eu era costa-riquenha, italiana, turca. meu nome é russo. minha chatice é alemôa. meu alemôo soa francês. minha bunda é brasileira. meu tédio é universal.

e o contexto geográfico, o “existimento”, traz consigo outros elementos, as ruas mudam de cor, faz frio ou faz calor, e estar à frente de elementos transitórios me deixa sempre fora de contexto. viro um post-it colado na vida, a cola se acabando, todos os post-its eventualmente descolam.

é por isso que eu nunca estou em paz mesmo quando estou onde quero estar.

a pergunta sempre é: "e quem eu seria e quem eu aparentaria ser, se estivesse em outro lugar em vez de aqui?". o que apareceria então nas minhas fotos?


não satisfeita, como o de costume, já comprei passagens. não posso ver meu nome num ticket de embarque, que já me sinto inteira novamente.


uma foto do meu estado de espírito de harald hauswald@ostkreuz


 caetano veloso em londres


eu por breno rotatori




*the velvet underground

9 comments:

Ana said...

Oi Ivi! Leio sempre o seu blog mas acho que nunca comentei. Me identifico com o que vc escreve. Vc conseguiu fazer poesia das coisas tristes da sua vida e tenho certeza que transfomará em beleza as coisas feias ao seu redor! Faça as pazes com sua camara menina!!
Moro na Suiça e é tudo tão lindo que chega a ser sem graça, chato e cafona... e só me sinto bem com uma passagem na mão...

M. Mansfield said...

Sua beleza nessa foto apertou meu coração! Que olhar, menina, que olhar... (e que cabelón lindo!)

manu said...

ai

Priscilla said...

fiquei curiosa: pra onde vc vai?
bjs

-any valette said...

Doeu aqui dentro.
Também quero tíquetes de embarque.

Débora Machado said...

ivi, sua linda.

nunca quis ser preconceituosa, mas nunca aguentei os turcos berlinenses... A NOITE.

Carol said...

"nao posso ver meu nome num ticket de embarque, que já me sinto inteira" (2)

:)
a melhor tradução ever dessa intraquilidade, dessa busca por... não sei o quê!

Matheus Vieira de Lourenço said...

quando vc está lá, vc quer estar aqui..quando vc esta aqui, vc quer estar lá. vc chega lá e e se perde, volta pra ca e continua perdido, por que é tao dificil assim achar um lugar pra ficar? a sensação de ser sempre um gringo não é muito boa, eh interessante a principio mas depois cansa, e ao mesmo tempo é boa...tudo é mais intenso e as decisoes precisam ser tomadas, ja fiz milhares de planos e todos ficaram presos e esquecidos na minha cabeça. Ja fui confundido com russo, judeu, espanhol, italiano entre outros, quando eu falo alemao me perguntam se sou frances. Sao tantas identidades associadas a uma pessoa só que eu ate mesmo me perco em varias delas e tento me...o frio cansa e a frieza dos europeus tb, o jeitinho e a atitude brasileira me cansa tambem. Me cansa esquecer escrever em portugues e nao saber escrever muito bem em nenhuma outra lingua. Voce parece do sul da Italia.

Matheus Vieira de Lourenço said...

quando vc está lá, vc quer estar aqui..quando vc esta aqui, vc quer estar lá. vc chega lá e e se perde, volta pra ca e continua perdido, por que é tao dificil assim achar um lugar pra ficar? a sensação de ser sempre um gringo não é muito boa, eh interessante a principio mas depois cansa, e ao mesmo tempo é boa...tudo é mais intenso e as decisoes precisam ser tomadas, ja fiz milhares de planos e todos ficaram presos e esquecidos na minha cabeça. Ja fui confundido com russo, judeu, espanhol, italiano entre outros, quando eu falo alemao me perguntam se sou frances. Sao tantas identidades associadas a uma pessoa só que eu ate mesmo me perco em varias delas e tento me...o frio cansa e a frieza dos europeus tb, o jeitinho e a atitude brasileira me cansa tambem. Me cansa esquecer escrever em portugues e nao saber escrever muito bem em nenhuma outra lingua. Voce parece do sul da Italia.