Friday, September 23, 2011

como foi e como ficou

pronto, agora acho que dá. acho que vocês entendem que nao dá pra sentar na frente do computador e falar amenidades - nem de coisas sérias, pra falar a verdade - enquanto sua vó está doente, né?

quer dizer, nao parece, mas eu tenho um coracao e algumas responsabilidades.

no domingo, 03 de setembro, durante um almoco de família, ouviram um barulho de pancada vindo quarto de vovó e encontraram ela caída no chao. ela recebeu socorro imediatamente, gracas a deus. eu nao estava, que tinha ido pro interior de pernambuco visitar meus irmaozinhos. mas minha mae, tias e primos cuidaram de tudo. ela foi internada, ficou na uti. eu cheguei na segunda de 6 da manha e fui pro hospital assim que soube.

a gente achou que vovó teve um avc (ela tem pressao alta), mas os exames nao atestaram nenhuma lesao que desse a entender isso. aí descobrimos que ela estava com as taxas de sódio muito baixas (por causa da pressao alta, ela cortou completamente o sal há anos...). falta de sódio pode dar desmaios e convulsoes, o que os médicos acham que rolou. ela caiu, bateu com a cabeca (no criado-mudo, provavelmente) e ficou com toda a cabeca e pescoco roxo... tadinha, meu deus.

ela ficou na uti vários dias, depois ficou outros tantos dias no quarto. aí foi pra casa dia desses. nos primeiros dias ela nao conseguia nem ficar em pé, nem andava, e tinha que ficar de fralda todo o tempo - e como ela segue completamente lúcida, é um golpe muito duro ficar ciente da própria situacao.

mas ela é muito danada, e faz muito esforco pra nao se entregar, é um tourinho. já se poe de pé e anda bem devargazinho, arrastando os pezinhos no chao - e sempre com a bengala de um lado e alguém do outro. sozinha, nao rola. a fralda ela está tirando os poucos e cada xixi que ela consegue segurar para fazer na privada é uma alegria.

como sao simples as alegrias de quem podia ter morrido, né? eu disse seis milhoes de vezes pra vovó como ela deveria ser grata, pois diante da gravidade do que aconteceu com ela, ela seguir viva, confiante, amorosa, presente emocionalmente e psicologicamente - é realmente um milagre.

por outro lado, é importante aceitar a morte, a proximidade da morte. é importante se desapegar... uma máquina que está ligada há 90 anos uma hora vai se desligar.

eu só desejo que isso venha sem dor, sem humilhacao e sem medo. eu espero que deus dê isso pra ela. essa mulher.



eu voltei pra berlim com a bêncao e autorizacao dela. nao foi fácil deixá-la, e nao tem sido fácil simplesmente "seguir a vida", mas aqui estou. eu me conheco bem e sei que se tivesse ficado, uma coisa em mim ia sempre se ressentir. eu fiz mais do que podia enquanto estive em recife, nao somente depois dela passar mal, mas antes.

a vida segue pra todo mundo, e o mundo nao pára só porque estamos tristes. essa é a grande tragédia de existir, mas tem todas as outras compensacoes.

como eu falei, berlim e vovó nunca me decepcionaram e dessa vez, mais uma vez, berlim está segurando minha onda quando eu achei que ninguém nunca mais poderia.


3 comments:

Tassia said...

desde bem cedo aprendi que ninguém vive pra sempre, mas eu peço sempre o mesmo que vc, que as pessoas que eu amo possam ir sem dor, sem sofrimento, sem agonia, como foi com o meu pai. espero merecer essa honra tb, é muito merecimento viver, mas tb muito merecimento morrer direito.

A.Leão said...

Sempre leio o seu blog e me identifico muito contigo.Sou nordestina,minha avo eh o meu porto seguro,moro no exterior e me apaixonei por um alemao que hj mora comigo no Canada.
Fiquei mto apreensiva qdo soube da sua avo,e nao consegue deixar de pensar na minha la no Ceara,contando os dias para a minha proxima visita,que vai ser agora no Natal,se Deus quiser.

Excepcionalmente lindo o que vc escreveu sobre a sua avo e so espero que vcs ainda tenham mto tempo juntas :)
Um grande abraco

Fê Resende said...

você é minha artista favorita. minha louise minha gertrude. te leio aqui como leio cartas da camille claudel e da frida. juro. minha Artista favorita. te amo muito amiga, e me sinto privilegiada de te ter na vida.