Thursday, February 28, 2013

passada/nervosa

essa semana apareceu uma enxurrada do mesmo link no meu facebook: "o grande reencontro de marina abramovic com ulay". fico nervosa porque acho muito coisa nossa - de jornalista, de geracao-twitter - pegar um trecho de uma coisa (às vezes sem sequer saber que é um trecho) e considerá-la como sendo a coisa inteira.

eu explico: o vídeo, que sei lá por que virou mini-febre essa semana (ao menos entre os pessoal que eu sigo no facebook), nao é nada mais nada menos de um trecho do documentário da hbo "the artist is present", que mostra o processo de feitura da performance de marina no moma em 2010.

o que me enerva nao é postar um trecho do docu (em vez de, por que nao?, indicar o filme todo). é como todas postaram o video meio histericamente, com comentários emocionados, olha que lindo, que amor, que isso que aquilo. o que fica na frente nao é o trabalho de marina, nem o valor da obra que ela desenvolveu em 40 anos de procura.

ninguém comenta que ulay e marina se separaram porque ele engravidou outra mulher (ele diz que ela foi infiel também) e ainda por cima no decorrer do divórcio tentou manter os direitos totais sobre toda a obra que os dois JUNTOS produziram. nessa entrevista que ela deu para a também-maravilhosa laurie anderson*, marina conta que ulay nao somente a traiu como levou com ele todo a obra. ela teve que comprar dele tudo de volta. mesmo depois de ELE a ter traido e largado.

pois. mais uma vez, nao me enerva exatamente o "olhar o todo pela parte", mas reduzir uma artista complexa, desafiante, "muito maravilhosa" (como diria matilde campilho), a um fenomenozinho romântico-pop dos anos 2000.

a cena em que ulay senta na frente dela na performance do moma é realmente linda, mas o trabalho dessa mulher é muito, mas muito maior do que uma caricatura de amor.


*
LA You had a partner-lover and art collaborator in Ulay. Have you seen him since you split up 10 years ago?
MA Yes, for seven years we didn’t talk at all, not one word, and then I decided that I’d invite his wife and kids over, give them all presents and lunch. We did that, and it’s fine now.

LA Where does he live?
MA He lives in Amsterdam. He invites me over sometimes, grills a little steak for me, but there is still a lot of pain from my side. It didn’t really finish well. When he left he took all the artwork we did together. I had to buy back from him old negatives, images, everything.

LA You had to buy things back from him?
MA Yes. Actually, I’m still paying. (laughter)

22 comments:

Gabriella Kolling said...

MUITO feliz em saber que você também compartilha dessa opinião. Quando vi todo mundo postando o vídeo e falando sobre como é lindo o amor fiquei pensando que as pessoas deveriam assistir o documentário todo também.

Sem contar que um bando de gente também falou que esse foi o "primeiro encontro deles depois de mil anos" pra deixar a coisa toda mais "emocionante", quando na verdade a gente sabe que não é bem assim.

Tenso, apenas.

gordura said...

Obrigada pela resposta... Estava matutando sobre o mesmo assunto quando vi isso pipocar na timeline (com sua devida porção de comentários "ai que fofo" e com aquela partezinha que adora desmerecer tudo.)

Pensei a mesma coisa e fiquei me perguntando pq fizeram isso, pq logo essa parte, pq AGORA, pq achar isso lindo? Sério, por que é lindo que ele foi lá? Não compreendo. E propaga a imagem dela como, DE NOVO, associada a ele, ainda mais pra quem é leigo.

gordura said...

Obrigada pela resposta... Estava matutando sobre o mesmo assunto quando vi isso pipocar na timeline (com sua devida porção de comentários "ai que fofo" e com aquela partezinha que adora desmerecer tudo.)

Pensei a mesma coisa e fiquei me perguntando pq fizeram isso, pq logo essa parte, pq AGORA, pq achar isso lindo? Sério, por que é lindo que ele foi lá? Não compreendo. E propaga a imagem dela como, DE NOVO, associada a ele, ainda mais pra quem é leigo.

Marília Valengo said...

comentava o mesmo hoje, batendo um papo em casa, no jantar, como essa ansiedade em consumir histórias fazia com que a gente não se preocupasse com o todo. vi todo tipo de gente divulgando esse vídeo com legendas variadas e em um tom crescente de novela, o que me deixou levemente irritada também.
por outro lado, não deixa de ser interessante que ela vire um personagem pop, afinal, tenho a impressão que ela, como artista, está interessada nos fenômenos, quaisquer que sejam, como por exemplo, ver um momento do seu trabalho virar caricatura do amor.
né? :)
beijoca!

jo said...

carama, viu, eu nem sabia disso! vou avisar pras minhas amigas feicebookianas q começaram essa febre tb.

:P

Ingrid Gomes said...

Ahhhh Ivi, vc sempre me enchendo de amor no coração e trazendo um sorriso!
Me faz sempre pensar, "Eita moça sagaz!".

No meu face também foi uma febre o reencontro, apenas uma (bem informada) escreveu que era parte do documentário, outras tantas (deslumbradas e leitorsas de cinquenta tons de cinza kkk) queriam mesmo era propagar o AMOR Eterno!

Eu até me dei ao trabalho de comentar que a cosia ia além e tals e que tinha mais poeira debaixo desse tapete, mas o povo não curte a verdade.

Adorei seu texto, excelente e genuíno.

Ulay foi um grande canalha, como Picasso, Rodin e tantos outros que "encantaram" o mundo e se disseram grandes amantes.

Já a Marina, essa uma grande mulher e que merece ser vista pelo todo e não pelo trecho bonitinho que a galera anda se apaixonando.

Beijocas, LIIIIIINDA!

Renata Simões said...


Texto incrível que despertou muitas sensações por aqui:
- confesso ter replicado o vídeo sem pensar que as pessoas afinal não teriam visto o filme
- olhando dessa maneira a cena, que a mim nunca foi romântica, é emocionante pelo fechamento de um ciclo na carreira/vida da artista (e por isso eu chorei pencas) perde o sentido. Aliás, será que como o seu texto coloca, hoje em dia a gente só procura reproduzir clichês e pastiches?
- e o melhor, não sabia que você ainda mantinha esse espaço. adorei. já vai pro reader.

beijos

R.

Unknown said...

Cara, no texto ainda falava que ele chegou de surpresa no moma, depois de 7 anos sem se ver haha fiquei puta! Fiz a chata e comentei nos posts de todo mundo da minha timeline.

Flávia Camargo said...

as pessoas compartilham o vídeo pelos mais diversos motivos. eu, por exemplo, mesmo sem saber da história q vc acaba de contar, vi naquele choro apenas dor. e depois, nas mãos q se esticaram, vi perdão. e a beleza do vídeo pra mim foi isso. pensei em todos os "e se" da minha vida. tds as vezes que deixei de encontrar, de perdoar, de tentar novamente.
porque, mesmo num casamento feliz, eu carrego todas as dores dos "e se" que se acumularam.
e em outro aspecto, tbm acho válido o compartilhamento, se as pessoas ficarem curiosas sobre a artista e procurarem saber mais sobre sua obra.
a internet é assim mesmo, plural e td mundo usa de jeitos diferentes. eu amei ter visto esse vídeo compartilhado ontem. me emocionei tbm.
bjo!

flavia said...

nossa, que bom ler que alguém conseguiu colocar em palavras o meu 'passamento' com essa onda toda no facebook desse vídeo. confesso que até compartilhei ele também, mas cerca de um mês antes eu havia justamente indicado o link para download do documentário todo, inclusive disponibilizando a minha senha do site onde eu indicava para as pessoas baixarem o filme.

no próprio filme, se mostra que ela e ulay haviam se encontrado antes, no studio dela.. e as pessoas compartilham o vídeo sem saber muito, aquela coisa meio 'intelectual de orelha de livro'. enfim. obrigada por essas palavras, ivy.

ps - a gente se conheceu no reveillon de 2011-2012. te dei carona de volta para recife.

Belisa said...

Eu compartilhei o post e reconheço que não tenho nenhum conhecimento sobre a artista. Na verdade o olhar entre os dois, as lágrimas e a quase não necessidade de fala, quando o olhar é forte, foi profundamente tocante para mim.

Fiquei com muita vontade, de a partir de então, conhecer mais a obra dela.

Acho que para quem está inserido e conhece, deve ser revoltante mesmo, ver as pessoas idealizarem uma história mentirosa. Mas acho que esses fenômenos também levam, esses artistas para pessoas que não teriam contato com a obra...

Sei lá, é meio arrogante achar que a gente só pode compartilhar aquilo que detemos de conhecimento e não aquilo que nos toca.

vodca barata said...

rêsimoes, menina, saudade docê! olha, como a flavia resumiu bem, é mesmo aquela coisa de sabedoria de orelha de livro, nao digo que todo mundo no mundo é assim mas temos aí toda espécie de site com citacoes de clarice lispector que nao me deixam mentir. o caso desse video foi o mais urgente pra mim, porque nao somente é superficial como contém infos erradas - sobre o "reencontro" (que havia acontecido muito antes); sobre o funcionamento da performance (que permitia que cada espectador ficasse na frente dela o tempo que quisesse (e nao por um minuto) etc.

flavia, me lmebro de tu obviamente! um beijo!

vodca barata said...

e belisa, mulher, acho que a arrogância é um característica minha muito clara. o ponto é que, nesse caso, eu simplesmente sei do que estou falando, entao continuo arrogante mas ao menos tenho alguma argumentacao em torno do tema! :)

beijo pra tu e beijo pra todas :*

Mel Audi said...

leonina, esclarecida e sabida. sério, precisa de mais nada. amo tu, ivi! vem pra londres tomar um café comigo? :***

R.Chadud said...

Amei!!
Realmente não entendi o porquê dessa parte do documentário pipocar por ai, mas agradeço quem o fez porque assim conheci o trabalho maravilhoso de Marina *íntima hahaha* e corri atrás da história mal contada do vídeo e descobri que não era tão romântico assim, e agora confirmo isso, cara idiota pra trair e ainda fazer a mulher comprar as obras feitas em colaboração com ele.
Agora entendo as lágrimas dela...

Dani said...

Nossa, ivi, achei q vc era legal, mas é tão constrangedor esse espetáculo de egocentrismo ridículo. Um bando de idiotas alisando o narciso e achando q etão fazendo alguma coisa relevante para o mundo. esse post e os coments foram suficientes para eu saber q não preciso mais voltar aqui. Que estupidez. que truculência.

meu cu para vocês e para marina abramovic

Mizukinha said...

Obrigada pelos esclarecimentos!
Vi o vídeo numa notícia no yahoo e procurei mais sobre a história da artista e seu envolvimento com Ulay e por sorte, achei sua página.

Confesso, compartilhei pela história que me foi contada e pelo momento. Sou leiga quando o assunto é qualquer um dos dois então não tinha como opinar muito. Enfim, por mais bela que uma cena como essa seja, é o amor. E com o amor sabemos que não aparecem só mars de rosa.

Mizukinha said...

Não acho certo condenar por estarem compartilhando só um trechinho e não o documentário inteiro só por causa do apelo emocional. Foi o que me chamou pra notícia que li no yahoo e foi o que me fez ver o trecho do documentário e buscar mais informações sobre a história da artista em si e me levou a achar seu blog. Te agradeço pelas informações a mais de tudo.
Sei que a maioria só vai ficar no básico e nem se interessará de saber a verdade, o completo o todo. Mas para os curiosos de verdade como eu, alguém como você auxilia ainda mais nossa busca.

F. said...

Ver que o Vodca Barata ainda existe me traz boas lembranças de continuidade.
Dona Ivo, obrigado.

Desconhecido

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

Por ser o trabalho dela monumental é que um pequeno ato, um pequeno trecho, uma caricatura, cause tanta repercussão. A cena sintetiza a vida e a obra dessa artista incrível em poucos minutos. "Uma boa caricatura pode ainda captar aspectos da personalidade de uma pessoa através do jogo com as formas." Se não fosse a personalidade da artista, que é tão marcante, potente e reverberada em seus trabalhos, a micro cena jamais teria a força de um tsunami.

vodca barata said...

nossa dani, que pena, hein, sinto muitíssimo que estraguei suas ilusões a meu respeito, mas você é responsável por elas, não eu.



Fernanda Billy said...

vou procurar o filme para ve-lo todo, confesso q nem sabia que ela existia, pelo menos o viral serviu para despertar a curiosidade das pessoas e saber a respeito deste tipo de arte.