Thursday, August 22, 2013

morte e vida do meu projeto de conclusao de curso, parte 7

eu nao consigo escrever, nem consigo fotografar mais. eu ando tao ocupada da sobrevivência, de necessidades tao básicas, de dar um jeito pra pagar comida e aluguel, que nao consigo ir adiante.

quer dizer, se eu fosse artista mermo, dessas que trabalham em qualquer circunstância pra resolver um problema interno, eu tenho certeza que nao estaria tendo esses bloqueios. sendo que eu trabalho com o outro, pensando no outro, junto com o outro, e eu sei que meus problemas de princesa nao sao nada, nada, junto aos do de alguém que lida tao de perto com a morte, mas mesmo assim, se eu nao tenho nada pra dar, nao sei como receber. e aí o trabalho nao anda.

faz mais de um mês que nao visito manuela, e nesse meio tempo fiquei tentando "cheirar" novas possibilidades de falar sobre a morte, passei muito tempo olhando pras fotos que já existem, e pensando nas que virao. passei muito tempo lendo, tentando pensar na morte, mas meu deus, nao vem.

fiquei chocada ao perceber que eu nao consigo me relacionar com a morte, que eu tenho vida, estou viva, cheia de vida.  logo eu, meu deus.

mês passado, última vez que fotografei, eu tava lendo odes mínimas, de hilda hilst, que é um livrinho, digamos, "sobre" a morte. tem também ilustracoes dela. ela escreve leve pra falar de um tema pesado. e desenha com cores quente, pra pensar na morte fria. quando fui fotografar manuela pela última vez, tentei fotografar como se eu fosse hilda hilst. nao sei se deu. abaixo, as ilustracoes, depois um poema, depois as fotos, meu diário, uns escritos...





II

Demora-te sobre minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena.

Duas fortes mulheres,
na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne 
E posse
Como fazem os homens.






ela ia passar o aniversário sozinha e 
fizemos uma mini-festinha a dois na casa dela




hoje comprei cameras descartáveis e vou enviar pra manuela e katrina, pra elas irem se fotografando, pra ELAS irem me mostrando como é a morte, em vez de ser eu, na minha peculiar arrogância, achar que descubro sozinha. espero mês que vem poder voltar ao normal. quer dizer, espero que eu consiga me aproximar da morte, seja lá o que essa frase signifique.



esse projeto é meu trabalho de conclusao de curso, sobre mulheres vivendo com HIV (e meu nosso medo da morte), a ser apresentado em outubro de 2014, em formato de livro e exposicao. estou financiando a realizacao dessa série através de várias acoes neste blog. uma das formas de ajudar é comprando pôsteres de fotos feitas por mim. para saber mais, clica aqui!

3 comments:

Drunk said...
This comment has been removed by the author.
Drunk said...

http://www.youtube.com/watch?v=ivwHnJpcU3Y

Talvez te ajude achar o que procura. Não o literal da música, o abstrato dela. E sobre o tcc, parece que a morte é nada, incerteza, duvida, creio que você esteja bem perto dela numa forma abstrata, morte talvez seja isso que você está sentindo, um bloqueio, o seu bloqueio é uma forma de morte, não tente falar de morte de uma forma que você não sente. Talvez seus sentimentos agora se aproximem do que elas sentem sobre a vida e morte delas.

Abraço, adoro seu blog e sua escrita.

Heric G. Campelo said...

Boa tarde, Adelaide!

Olha, não cheguei a ler ainda os outros seis posts que você escreveu sobre o assunto... mas creio que seria bacana se vc encontrasse algum casal sorodiscordante para participar de seu projeto. O tabu dos tabus. Pessoalmente, acho este sub-tema bastante interessante.. Desejo-lhe sucesso e uma boa jornada!