Sunday, June 06, 2010

um homem com a cabeça entre os joelhos**

as mãos tampando os ouvidos.

sentado no chão, na altura da virgílio.

eu estava ouvindo "why go home", do pearl jam, quando passei por ele, na teodoro. não sei se era um mendigo (não parecia), nem sei se estava daquele jeito porquê:

1. era esquizofrênico e ouvia vozes (as mãos nos ouvidos);
2. recebeu uma notícia muito ruim (atordoado, sentou no chão);
3. simplesmente assumiu a tristeza e comportou-se como um homem triste (sentado no chão, a cabeça entre os joelhos, as mãos nos ouvidos).

as coisas dele no chão, feito ele, dentro de uma sacola murcha do extra.

decidi que é a opção 3. assim, além de pena, posso sentir simpatia: ele agiu do lado de fora conforme o que se passava do lado de dentro.

eu estou triste, e vou sentar bem aqui, bem no meio da passagem, porque eu posso.

ele fez o que eu quis fazer o dia inteiro. a semana inteira. toda a vida.

eu quero sentar bem no meio da calçada e ficar triste por fora. tem esse navio negreiro dentro de mim, mas eu faço parecer que tem somente umas vísceras em ordem, finjo que sou normal enquanto meus escravos interiores esperneiam pela carta de alforria.

(horas antes, castro alves, colado em vinil no teto da estação paraíso, me deu o toque pra assumir a tempestade: chora, e chora tanto que o pavilhão se lave no teu pranto!)

ninguém em mim aguenta mais essa inapetência pra assumir a esquisitice.

eu preciso dizer: eu sou insuportável e não gosto de ninguém, mas finjo super bem.


§

tem dias em que acordo tão triste que a única coisa que quero fazer é andar no metrô horas e horas. ficar embaixo da terra é uma ideia que me agrada. se eu fosse uma topeira, não ia ter para onde ir nos dias tristes, e ia ser muito ruim.

§

carlois veio aqui esses dias e disse que estou chata feito clarice. qual clarice, carlois? lispector. ah, claro.

aí depois falei pra leandro: (...) sou uma filial mal-sucedida de clarice.

ele riu.

§

minha música preferida de astor piazzola se chama "fuga y misterio". não ligo a mínima pro mistério, mas a fuga, essa sim, gosto bastante.

§

e aí junho começou e eu virei, com alguns dias de atraso, o calendário de frida kahlo que armin me deu:


my dress hangs here, foi o que apareceu.

onde está o vestido de frida? em lugar nenhum. ou ela não sabe. ela fez esse quadro quando morou nos eua e não se reconhecia em nada lá. mas ela tinha o méxico como referência. e a dor da saudade dói mas ao menos mostra que em algum canto da existência existe (dã) alguma coisa que importa.

meu vestido está pendurado em lugar nenhum. ou eu não sei. eu moro aqui e não me reconheço em nada, mas não tenho nem o méxico, nem porra nenhuma, como referência.

ah! eu tenho minha vó como referência, mas não posso morar dentro dela. ela não ia deixar.

§

(clarice falou assim, para a irmã, em 5 de maio de 1946, às 16h de um domingo: (...) não há um verdadeiro lugar para se viver. é tudo terra dos outros. onde os outros estão contentes).

§

eu sinto uma vontade bem honesta de virar estado gasoso.

§

hoje xinaider me ligou perguntando onde eu estava, e eu respondi: "não sei". não que eu estivesse perdida (eu estava na paulista), mas faz anos que não sei onde vim parar.

§

relatei todos esses sentimentos a rachel:

"tás com tpm?".







** (ou "seis mil referências pop conspirando para eu assumir que sou assim")

8 comments:

Miss X said...

Sempre me identifico com seus posts meio assim assim...
.
.
.
Não sei se isso é bom ou ruim (e não, a rima não foi proposital! rs)

Gabis said...

Acho que você falou tudo o que eu ando sentindo. Não me sinto em casa em nenhum lugar, mas também tampouco sou turista,sou deportada de um lugar que não era a minha pátria pra um lugar que não é a minha pátria.
Li Ana Cristina ontem: “Acho que eu tenho curiosidade de saber se todas essas coisas minhas são tão públicas assim. Até que ponto todo mundo percebe.”
Nunca tinha comentado aqui antes, mas sempre leio seus posts e acho as suas fotografias íntimas e lindas.

Espero que você melhore. =)

B. said...

Ivi... não sei, quando estamos tristes, a gente tem que curtir a tristeza sim, mas... não devemos alimenta-la. Sabe? A gente também tem que fazer uma forcinha pra ver as coisas lindas da vida. Pensa nas coisas boas que Deus te deu. Familia, amigos, o céu, o sol, as estradas, os gatos, todas as experiencias lindas que voce já viveu até hoje. Enfim. Essas coisas. A vida é boa, Ivi. E, é clichê, eu sei, mas a vida é tb fácil e simples. A gente é que gosta de aprofundar tudo e pensar demais. E viver não é pensar, é só viver.
Vc não tem ido mais à cabalinha? Só to perguntando pq vc nunca mais falou sobre.
Bem, fica bem aí. E desculpa se meu comentário foi idiota. Às vezes sôo Pollyana demais, mas às vezes é preciso ser mesmo, senão a gente tá aqui pra quê? Só chorar é que não é! ;o)
Beijos!

Isa Bela said...

JISUIS..

Você tem uma capacidade de expressar meus sentimentos bem no momento em que eu os sinto....



Ou eu tenho a capacidade d sentir as mesmas coisas q vc sente, bem na hora em que as sente.


E eu adoro poder compartilhar minhas angustias, mesmo que em silêncio, mesmo que com alguém que eu não conheço.

Beijos!

vodca barata said...

isae miss x, pois é, acho que deve ter um quesito inconsciente coletivo nessas tristezas... coo disse a leitorinha nath, fica bem daí que eu fico bem daqui.

e b., eu parei de ir aa cabalinha porque nao tinha mais $$ pra pafar as aulas, e o shabat era bem na hora que eu estava a caminho pro alemao... mas realmente faz uma falta ENORME e eu to bem mais vulneravel desde que parei de ir...

mas
vai ficar td em paz.

bjs em todas

Lia said...

Ivi, "voa e canta enquanto resistirem as asas".

Beijocas.

Marília

Marcela said...

eu queria ser sua amiga, se eu conseguisse ser amiga de alguém.

Dani said...

"mas não tenho nem o méxico, nem porra nenhuma, como referência."


Eu tenho uma paixão pelo México difícil de explicar. Eu sou apaixonada por ele desde os meus 11 anos. Quando fui prá lá os mexicanos disseram que eu sabia mais da terra e da gente deles do que eles mesmos. Há uma hora atrás eu pensava exatamente: "ainda bem que eu tenho o México prá sanar minhas loucuras". A Friduchita é minha referência maior, minha inspiração. Tanto que ela amou demais e eu também. Não sei se me inspirei. Ay...Hoje já escrevi tanto sobre ela, até já fiz análise de quadro na comunidade do Orkut e agora eu chego aqui e leio sobre ela duas vezes em menos de cinco minutos no seu blog. É uma daquelas "coincidências" inexplicáveis.