Tuesday, August 17, 2010

15 tópicos sobre a rússia, sem ordem

15. o último dia, já exausta, pela primeira vez em meses desejando alguma coisa familiar. decidi não voltar pra casa depois do jantar, virei à esquerda. se eu pudesse desejar alguma coisa, desejaria que são petersburgo tivesse um rio que durasse a vida inteira, em cujas margens eu pudesse sair andando até desistir.

mas o fontaka tem fim, e eu não sei exatamente onde é. só sei que dei meia volta quando joguei o anel mágico de jana no rio.

1. moscou cheira a fumaça e eu não quis nem fumar. lá de cima já dava para ver que algo muito errado rolava ali.

2. já no aeroporto de são petersburgo me embananei: no balcão de informações do aeroporto internacional, as atendentes não falavam inglês.

3. consegui sacar rublos, muitos rublos. que moeda fraca: 6 mil rublos duram uns poucos dias. com seis mil reais eu vivo seis meses. peguei um táxi e fui assaltada.

4. explico: o moço, muito charmoso e simpático, cobrou OITOCENTOS RUBLOS por um trajeto que (depois me explicaram) ele devia ter cobrado cinquenta. ok. talvez ele estivesse precisando.

5. o hostel era na esquina da nevski, uma avenidona em são petersburgo que dostoievski tanto falava. e o prédio em que ele ficava era bem dostoievskiano: sujo, escuro, fedido, com goteiras, sem luz, com bêbados rolando escadaabaixo e uma mochileira deslumbrada.

6. a rússia tem a maior concentração de gente sem dente e mulheres com unhas postiças que já vi na minha vida.

7. alexander sdifhodifvjosvki era da sibéria. eu o conheci quando sai para jantar, na minha penúltima noite. ele tinha o tamanho de marcelo gomes e quis me levar pra passear. eu neguei: com um homem daquele tamanho eu corria sério risco de virar patê. mas ser paquerada por um autêntico siberiano me fez sentir bem especial.

8. o outro menino que me paquerou era de kaliningrad e eu achei que ele tinha dentinhos separados como o meu, mas não: faltava um incisivo, mesmo.

9. sentei do lado da catacumba de dostoievski e batemos o maior papo. eu tive que confessar pra ele que a rússia era um sonho, não um objetivo, mas por causa dele. é sempre assim, rapaz: eu, indo pra puta que pariu por causa de um homem.

não obtive resposta.

10. clarice diz que a gente existe a partir do momento em que ganha um nome. eu portanto existo desde 1878 e deve ser por isso que ando tão cansada.

11. a experiência do analfabetismo é exaustiva. eu sempre fui para lugares em que falo minimamente a língua, mas a impossibilidade de ler é violenta: você precisa de ajuda para escolher comida, pegar um ônibus, comprar cigarro.

é a antítese de christina.

12. a ponte kokushkin most é onde raskolnikov (o tabacudo de crime e castigo) parou para pensar se ia matar a véia ou não. ele ficou lá um tempão pensando as merda dele.

eu, morrendo de calor e vontade de ser salva, perguntei ali a mim mesma: se eu tivesse de, aqui, como raskolnikov, tomar a decisão da minha vida, qual seria?

(silêncio).

13. o hermitage é um museu grande demais e sem ar-condicionado no qual você não dá a menor bola pros dançarinos de matisse porque, puta que pariu, que calor do carai.

14. joguei o anel mágico de jana no rio e decidi qual seria a grande decisão da minha vida como raskolniokv na rússia tomada. inspirada numa frase do próprio dostoievski, em carta pro seu irmão, decidi: "a vida é vida em qualquer lugar".
















(16. ok, eram 15. mas o fato de que eu matei armin me faz querer começar tudo de novo, numa novela em que ele esteja vivo para que assim eu mesma encontre sentido em existir.)

2 comments:

Natalia Venturini Pessutti said...

Que loucura de vida!!! Vc foi pra Russia buscar respostas e o que vc trouxe na mochila foram mais perguntas... essa é a tendência das pessoas inteligentes como vc. Quanto ao item 8, achei muito engraçado!!! Beijos.

Jowzinha said...

Curiosidades interessantes e engraçadas!!!
Me diverti lendo isso...
Só n com a 16.

=**, Jowzinha