Monday, August 30, 2010

às voltas com as voltas

nos últimos dias eu estou passando por uma tarefa bem difícil pra mim mesma: descrever o que eu faço. eu escrevo todo dia sobre o que eu sou, mas como não ligo muito pro que eu sou, é só sair tagarelando e ver no que dá.

preciso descrever, em 2 mil caracteres, o trabalho que quero aplicar para as leituras de portfolio do forum. preciso também afinar o conceito do portfolio que quero mandar prum prêmio aí. e hoje precisei descrever, em bem menos caracteres, o slideshow de 100 men, que tô subindo agorinha no vimeo.

mas escrever sobre fotografia-fotografar-o que eu quero dizer-por quê eu digo o que quero dizer, aí é outra história. e o ponto crucial, onde essas duas coisas se encontram, é exatamente aquele ali em cima: se eu não sei sequer que porra eu sou, como vou explicar de que porra consiste meu trabalho?

dia desses, lagarteando comigo no parquinho de weinbergstraße, ricardo me falou: "o que importa é você se emocionar, lendo ou escrevendo". é, ric, é importante se emocionar passiva ou ativamente, artista ou espectador. me diz: fodam-se as explicações, então? armin diria que quem tem que criar significado é o leitor, mas a gente ainda leva em consideração o que ele dizia, ric?

no seminário was wissen die künste?, que rolou na udk logo que cheguei em berlim, o professor werner oeschlin, da uni de zurique, falou: "a arte não tem propósito, a arte é. o propósito da arte é vivê-la".

esses dias, mandei um email pra breno pedindo uns conselho, e falei: "sinceramente, minhas fotos não dizem nada sozinhas, eu preciso tagarelar junto, mas aí talvez fosse o caso de mudar de profissão hahaha". e ele respondeu: "tem que pensar se o trabalho pede tantas explicações assim, às vezes a gente acaba matando o trabalho tentado explicá-lo".

quando é que você sabe quando tem que parar de se explicar? sabe? por exemplo, uma questão que estava justo agora a me atazanar (mas não muito): eu explico que não peguei os 100 homens que aparecem nas fotos? ou não digo nada? eu enriqueço ou empobreço a análise, ao dar explicações morais? se eu digo que não peguei, são somente fotos bonitas (ou feias, dependendo do gosto). se eu não digo nada, pode ser um meio de discutir alguma outra coisa (porque eu realmente acho que o que é seu, você dá para quem quer!). e se eu digo que peguei todos eles estou mentindo, apesar de que há alguns ali que eu realmente merecia ter pegado! hahahaha

tendo nascido num país machista e, pior, na cidade mais pseudo-liberada que conheço (ou, sendo mais direta, com gente mais provinciana do que a de bragança paulista), esse é um tópico que me interessa falar, me interessa pensar.

e sigo com a pergunta: falo com palavras, ou deixo o trabalho falar? e o nível do inconsciente, que perpassa a realização de qualquer obra, esse, como eu faço pra comunicar? gente, como eu sou burra! não sei como fazer isso!

fui pedir ajuda a paul klee, que tem aquele livro bem sabido sobre a arte moderna e outros ensaios. na página 51 ele é muito julia roberts e ajuda a gente:

1. "ao tomar a palavra diante de meus trabalhos, que na verdade deveriam se expressar em sua própria linguagem, fico apreensivo, por não saber se os motivos que me levam a isso são suficientes, ou se vou falar de maneira apropriada". mas paul, eles deveriam mesmo explicar-se sozinhos? e sophie calle fica onde? e eu? e madonna?

2. "se, como pintor, sinto possuir os meios de expressão para pôr os outros em movimento na direção em que eu mesmo sou impelido, não me sinto capaz de, usando palavras, indicar com a mesma certeza tal caminho". nem eu, paul!

3. "para me esquivar da reprovação 'pinte, artista, não fale', gostaria de levar em consideração principalmente a parte do procedimento criativo que, durante a feitura de um trabalho, se realiza mais no subconsciente (...). tem de haver alguma região comum aos espectadores e aos artistas, na qual é possível uma aproximação mútua". acho bom que os espectadores consigam se aproximar de mim sozinhos, porque eu sou uma anta e não consigo explicar nada.

no fim, sigo com a sábia carol, que me falou, no skype: "eu quero ter outras coisas para pensar, mas ainda não as tenho". então, sigo desesperada pensando nas mesmas coisas de sempre.

7 comments:

Daniela D. said...

Ó, eu não sou ninguém pra opinar nesses assuntos de fotografia, mas como sou bocuda, vou fazê-lo mesmo assim.

Eu acho que você não devia dizer nada não. Porque quando eu li sobre os 100 homens e vi umas fotos aqui no Vodca junto com a notícia, não fiquei pensando se você efetivamente pegou cada um deles ou não. Essa dúvida até passou pela minha cabeça - até porque sou a favor da "pegância" - mas só por uns segundos, depois não me fixei nisso.

Porque no final das contas senti que eu tava com inveja porque você esteve com eles daquele jeito em que eles estavam na hora da fotografia: entregues (aos meus olhos, pelo menos).

Pra mim, foi o suficiente. E fiquei aqui condoída de não estar nessa terra gringa aí onde tu arrumou essa expo pra poder ver de perto.

Beijo!

Carolina said...

Então deixa eu dizer que eu saí lá do meu Reader pra vir até aqui falar e veja só, a lheitorinha Daniela já falou. Juro que eu fiquei alguns segundos olhando olhando e pensando qual foi a história que cada um deles teve com vc. Toda uma piração trabalhada em fotos LHINDAS.

Fê Resende said...

independente do resultado final dessa "penssância" toda - se você vai falar ou não - eu não acho que as suas fotos precisam de você tagarelando junto. eu conheci essas imagens antes de te conhecer, e elas já me tocavam. amei esse tópico três do autor do livro que te ajudou, dizendo que é legal compartilhar coisas relacionadas ao processo tanto de confecção do trabalho quanto do modo que o artista escolhe o mostrar pro universo - e se você (também) diz do seu sentimento por ele, lucro da gente. mas não fica achando que precisa "explicar": tudo que você acrescenta às suas imagens também faz parte do trabalho, ivi, eu acho. não é explicação, é continuidade. amiga querida! <3

Alguém me empresta um telemóvel? said...

Posso te ajudar te mostrando a coisa mais interessante que vi em 4 anos de estudos da comunicação:

a comunicação é impossível diz ele.como é que sabes digo eu. porque o que eu digo não é devidamente interpretado pelos outros diz ele. como é que sabes digo eu. estudando a interpretação que os outros dão à minha comunicação diz ele. mas como é que sabes a interpretação que os outros dão à tua comunicação digo eu. falando com eles diz ele. mas se a comunicação é impossível digo eu. por isso mesmo é que tu não mentendes diz ele.

Tainá said...

caralho, telemóvel...

Alguém me empresta um telemóvel? said...

celular em português de Purrtugal.

camilla said...

ivi,
não acho um problema falar sobre a fotografia. isso faz com nossa imaginação não vá tão longe, ou interprete algo errado. por um lado é bom ficar na angústia de não saber se vc pegou os 100 caras. mas por outro deu um certo alívio em descobrir a verdade, pq a gente pode entender melhor e apreciar mais. como você, quando viu que a descrição dos rabiscos rosa claro de frida eram sobre o amor. às vezes basta uma palavra pra criar um link com o espectador. um título, sei lá. vai do artista querer que sua obra seja compreendida como ela deve ser ou que cause variados impactos dependendo da interpretação de cada um. algumas obras são capazes de falar por si só, outras não.

palavras de uma super leiga em artes mas que se emociona mto com ela.

sou louca pelo seu blog! parabéns!!