Friday, May 18, 2012

work in progress #4

antes de encontrar grete, escrevi pra algumas ONGs em berlim que orientam e ajudam jovens com transtorno de gênero. na alemanha existem centenas de organizacoes que cuidam dessas pessoas, fiquei impressionada com tantas. elas foram mais abertas, recebi respostas de todas, e uma em particular, a gleich + gleich, me escreveu oferecendo pra ajudar com orientacao.

fui encontrar a socióloga que trabalha lá, ingrid, e tomamos um café num café dentro dum cemitério (belo). ingrid me explicou muitas coisas que eu nao sabia, e eu me senti uma imbecil por parecer estar apenas interessada no assunto pelo seu coeficiente freak. claro, on the border já acenava nessa direcao, e eu tenho interesse por gênero e sexualidade, mas conhecimento específico sobre transtorno de gênero eu nao tinha nenhum.

ingrid me explicou que eu devia estar preparada nao somente pra lidar com questoes práticas e nao-práticas ligadas ao transtorno de gênero em si, mas também pronta para lidar com outros transtornos da alma, pois a maioria dos trangender sofre de depressao e outras tantas podem ter pânico, ou fobia social, ou borderline etc. nao é uma condicao, ela me explicou, mas é bem comum. claro, né, imagina o tanto que essas meninas e meninos nao têm que passar, por serem vistos apenas como as travesti freak show do bairro.

outra coisa que aprendi: o jeito certo de nomear. uma menina que vira menino se chama transmann e um menino que vira menina se chama transfrau (infelizmente nao sei o nome certo em português, se alguém souber, por favor comenta!).

ingrid também me disse que transgender e sexualidade nao têm relacao direta e nem regra. uma menina que se sente menino, pode se interessar por outros meninos, pode se interessar por outras meninas, pode se interessar por outro transgender, ou por outra transgender. grete, por exemplo, é uma transfrau que gosta de meninos. biologicamente, ela é gay, mas socialmente e por conta do seu gênero ela é hetero.

grete fez as cirurgias todas, mudou todos os documentos, a família dela a chama de grete e a aceitam como menina, que é, no fim das contas, o que ela é. encontrei com grete em sua casa uma tarde de marco (sim, ja faz tempo), e conversamos looongamente. grete fala manso e devagar, e tem um conhecimento enorme sobre história da transsexualidade, e transsexuais famosos, e os ativistas etc. ela é muito inteligente, e temos muito em comum. conversar com ela sobre meninos é maravilhoso, porque ela tem uma certa ingenuidade que às vezes falta em velhas machucadas como eu. a vida de grete comecou há dois anos, quando ela fez a op.

com grete aprendi que lugar de esmalte é na geladeira.



pra ler o work in progress #3

13 comments:

Vanessa Negrão said...

Oi, Ivi.

Eu leio esse blog há muito tempo e já passei por fases comentadeiras e fases em silêncio. Um tempo atrás tive a sensação de que me perdi aqui, porque eu não consigo ser feminista e tenho quase vontade de pedir desculpa por causa disso (não só pra você, pra sociedade inteira, porque parece que a gente tá doing it wrong e traindo o movimento se não é feminista nos dias de hoje).

Eu gosto dos meus direitos, mas gosto dos direitos de todos, sabe? Eu sei que a vida não é fácil pra quem não é homem-branco-rico, mas eu acho que preferiria ser humanista (isso existe?). Eu sei que precisa de um mundo perfeito pra isso, mas ok.

Inclusive, isso não é importante, é só pra dar contexto pro que eu quero comentar de verdade.

Como é triste que a gente seja tão perdido nas aflições humanas, né? Que precise de tanto preparo pra falar com outra pessoa, pra não correr o risco de machucar mais ainda alguém que a sociedade surra tanto.

Conheço uma transfrau que se defende do mundo sendo uma pessoa muito bruta, perto de quem ninguém gosta de ficar, mas acho que funciona pra ela, não sei. Ninguém mais fica desconfortável com a figura feminina que apareceu como masculina na vida das pessoas, mas todo mundo fica desconfortável com a agressividade. Que seja.

O negócio é que eu achei esse texto muito bonitinho. Foi tão leve que nem pareceu que o assunto era sério.

Dá quase pra acreditar no mundo bonitinho em que eu queria morar :)

Sou sua fã. Nas escrita, nas fota, na vida.

Mari Maciel said...

Que lindo texto, Ivi!
Esclarecedor, belo, delicado. <3
Tais vendo tu, quanta beleza encontraste por uma porta que vc abriu porque outra estava fechada?!
Essa vida joga cada uma na cara da gente!! uhuhuh :)
beijinhos para você, de Aveiro sob chuva.
Beijinhos pra Grete e obrigada... a dica do esmalte eu jamais esquecerei! :*

Mariana Steil said...

Ivi, você é ídola.

gordura said...

adoro seu blog...

beijones

gordura said...

adoro seu blog...

não sei muito de você, mas de um tempo pra cá sempre leio o que você escreve.

boa sorte!

beijones

Tassia said...

Lembro de quando a Marilia Gabriela entrevistou a Lea T, e eu fiquei encantada pela personalidade dela. Além da vontade de apoiá-la, porque ela parecia carente de apoio. Jamais vou entender o que se passa na cabeça de um transexual, mas imagino ser um imenso sofrimento não se achar no corpo que nasceu. Que bom que na Alemanha tem tantas organizações pra ajudá-los :)

Mariana Azevedo said...

Oi, oi...
Uma coisa que eu aprendi recentemente com uma (menino que virou menina) "transexual" daqui de Recife é que só se deve considerar transexual aquela pessoa que está vievndo o processo transexualizador. Que depois de finito, (como era o caso dela) é mulher ou homem e pronto! Ponto final.
Mas é claro que para muitos fins se usa e se deve usar (eu acho) esse termo, mesmo se referindo a pessoas que já finalizaram o processo, com os documentos e tudo.
Aí no caso é A transexual para aquelas que tranformaram seu corpo para o de mulher e O transexual para aqueles que transformaram seu corpo para o de homem.
E aqui ainda tem as travestis, que fazem tranformações no cprpo (para mulher) mas não querem fazer a cirurgia e se reconhece, e querem ser reconhecidas como travestis e pronto.
Bem, acho que é isso...
Muito bom acompanhar essa tua incursão..
Biejo, Mari Azevedo

vodca barata said...

amigas queridas, óbregada pelos comments encorajadores! e mari azevedo, brigada pelo comment esclarecedor!

beijos muitos

Miss X said...

Eu tb nunca sabia se era O ou A transex, mas lendo nos blog da vida (como o Bota Dentro, um site q sempre tem umas matérias lgbt bacanas) achei um meio fácil de não esquecer: é só lembrar o gênero q a pessoa está indo: se do fem para masc é O transex e a regra vale pro contrário (como a Mari Azevedo já disse aí em cima).
Sobre o proj dos garotos das ruas, eu tb sou a favor do #naoparaivi
Btw, sou sua fã! rssss

Gabriela Galvão said...

Mulher para homem: trans masculino; homem para mulher: trans feminino.

Vc sabe do caso duma pessoa qe conseguiu qe ñ constasse sexo em sua documentação? Chama-se Norrie May Welby. "Essa pessoa é a primeira pessoa do mundo a não ter sexo. Ela fez uma cirurgia, depois mudou de ideia e, a rigor, ela tem uma genitália híbrida por operação. Ela nasceu no sexo masculino. Mas estando na Austrália, que deve ser o país mais louco do mundo, conseguiu uma identidade onde não tem sexo.
Trip -Não tem sexo na carteira de identidade dele?
A primeira pessoa do mundo que não tem sexo nenhum [risos]. Ele tá, ou ela tá construindo possibilidades gramaticais para lidar com esse problema. Tem coisas que ela discute. Deus por exemplo. Não é "it" no inglês, não é uma coisa. Mas o inglês trata Deus como masculino, coisa que ele não é. Seria um espírito puro, sei lá. Mas também não é "ela". Tem que ter um pronome que não seja "it", "coisa", e que não seja "he" ou "she". Ela está usando "zie", que usa para si e para Deus [risos]." Aspas do Laerte numa entrevista para a Trip (http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/paradoxo-de-salto-alto.html).

Eu ñ sabia desse seu projeto, vou ler as coisas.

(Ai, há um tempo tiha um blog sensacional qe tratava disso regurlamente, mas desde outubro passado a menina ñ posta mais nada. Tb ela migrou do blogspot pro wordpress e ñ sei se constam todos os arqivos lá... Mas o nome é ebomparaquemgosta.)

Beijos e tomara vc descubra o qe qer fazer e como -isso eu já vi qe está pegando.

vodca barata said...

ai gabi brigada pela aulinha e pelos links!
beijao

vodca barata said...
This comment has been removed by the author.
Gabriela Galvão said...

Ñ é o máximo o lance da pessoa conseguir qe nem conste sexo em sua id?! Eu qeria.

Eu sou mulher, amo ser mulher, mas acho qe o sexo em si ñ diz nada de mim.

Só qe como ñ vivemos no mundo possível, mas no tangível...mta água pra rolar ainda... Por enqanto eu foco na mulher.

Tipo qe tem um médico ótimo aí qe pensa essas qestões e vai lá e diz qe ao invés de dizer "É menino" ou "É menino" ao neném nascer, deveriam dizer "Tem falo/ñ tem falo", o qe é altamente machista!
Mas ele ñ é um descerebrado nem desgramado; é só qe a gente engatinha nisso, ainda.
(Linqe http://www.ftmbrasil.org/2011/03/como-mudar-de-sexo.html))

A Suzana Herculano (neurocientista)? Deu uma entrevista incensada pra TPM, me deu vontade de marcar ponto por ponto e mandar de volta pra eles, mas ñ fiz na ocasião e ñ sei se tenho estômago para reler aqilo.

Ó, essa entrevista aí do médico é mto boa, perde ñ!

Beijão!