Monday, November 02, 2015

aquele dia, de anne sexton

Aquele dia

Essa é a mesa à qual me sento
e essa é a mesa onde te amo bem muito
essa diante de mim é a máquina de escrever, posta
onde ainda ontem estava posto teu corpo
com seus ombros curvados como os de um microscopista,
com sua língua de rei baixando decretos,
com sua língua de gato bebendo leite,
com sua língua – e nós dois enrolados nela, escorregadia.
Isso foi ontem, aquele dia.

Aquele foi o dia da tua língua,
tua língua que sai de teus lábios,
dois viajantes, metade animal, metade pássaro
enjaulados no teu átrio direito.
Aquele foi o dia que segui as regras do rei,
correndo pelas tuas veias, as vermelhas e as azuis,
descendo minhas mãos pela tua espinha dorsal, rápida como um
                           [paramédico,
até entre as tuas pernas, onde se apresenta tua sabedoria interior,
onde se escondem minas de diamantes, urgentes,
mais surpreendentes que cidades reconstruidas.
Em segundos está erguido, o monumento.
O sangue, ainda que líquido, faz a torre.
As pessoas deviam se juntar para admirar essa construção.
Já que por um milagre elas jogam confete e esperam em filas.
Certamente a imprensa aparecerá, em busca de uma manchete.
Certamente alguém estará na calçada segurando um cartaz.
Se constroem uma ponte, o prefeito não vai lá cortar a faixa?
Se em Belém nasce uma estrela, não aparecem reis com presentes?
Ontem foi o dia em que eu trouxe presentes para o teu presente
e vim de longe para te encontrar na calçada.
Isso foi ontem, aquele dia.

Aquele foi o dia do teu rosto,
tua cara depois de transar, no travesseiro: uma canção de ninar.
Meio dormindo ao meu lado, deixando aquele relógio velho parar,
nossa respiração virou uma, juntas viraram uma respiração infantil,
enquanto eu desenhava bolinhas nos teus olhos,
enquanto eu desenhava risinhos na tua boca,
enquanto eu desenhava TE AMO no teu peito, no coração batendo,
e cochichei “acorda!” e tu murmuraste qualquer coisa:
“sssssh estamos dirigindo até a praia. Atravessamos uma
ponte. Passamos pela orla”. Praia!
Então em teus sonhos eu te entendi e orei pelo dia
em que eu seria a terra e tu as raízes
e eu carregaria teu fruto, carregaria
a ti ou a teu fantasma na minha horta interior.
Ontem eu não queria me deixar levar
mas é só a máquina de escrever que está na minha frente
e ontem é onde o amor está.


"caraio"



That Day

This is the desk I sit at
and this is the desk where I love you too much
and this is the typewriter that sits before me
where yesterday only your body sat before me
with its shoulders gathered in like a Greek chorus,
with its tongue like a king making up rules as he goes,
with its tongue quite openly like a cat lapping milk,
with its tongue - both of us coiled in its slippery life.
That was yesterday, that day.

That was the day of your tongue,
your tongue that came from your lips,
two openers, half animals, half birds
caught in the doorway of your heart.
That was the day I followed the king's rules,
passing by your red veins and your blue veins,
my hands down the backbone, down quick like a firepole,
hands between legs where you display your inner knowledge,
where diamond mines are buried and come forth to bury,
come forth more sudden than some reconstructed city.
It is complete within seconds, that monument.
The blood runs underground yet brings forth a tower.
A multitude should gather for such an edifice.
For a miracle one stands in line and throws confetti.
Surely The Press is here looking for headlines.
Surely someone should carry a banner on the sidewalk.
If a bridge is constructed doesn't the mayor cut a ribbon?
If a phenomenon arrives shouldn't the Magi come bearing gifts?
Yesterday was the day I bore gifts for your gift
and came from the valley to meet you on the pavement.
That was yesterday, that day.

That was the day of your face,
your face after love, close to the pillow, a lullaby.
Half asleep beside me letting the old fashioned rocker stop,
our breath became one, became a child-breath together,
while my fingers drew little o's on your shut eyes,
while my fingers drew little smiles on your mouth,
while I drew I LOVE YOU on your chest and its drummer
and whispered, 'Wake up!' and you mumbled in your sleep,
'Sh. We're driving to Cape Cod. We're heading for the Bourne
Bridge. We're circling the Bourne Circle.' Bourne!
Then I knew you in your dream and prayed of our time
that I would be pierced and you would take root in me
and that I might bring forth your born, might bear
the you or the ghost of you in my little household.
Yesterday I did not want to be borrowed
but this is the typewriter that sits before me
and love is where yesterday is at.




eu gosto muito desse poema, sinto ele como sendo muito "meu", por isso tomei a ousadia de fazer uma tradução ainda mais traidora que as anteriores. traidora no sentido semântico das palavras, ignorando o 'significado' no original. 

anne gostava de umas pieguices (quem nunca?) das quais eu tento escapar (já falei isso antes, i know), se posso. sem mudar muito a ideia do poema, mas propondo novas imagens. por exemplo a forma metafórica que ela usa
heart que, na tradução, eu transformei literalmente no órgão que pulsa o sangue ("enjaulados no teu átrio direito"). é e não é a mesma coisa, mas funcionou bem, já que mais para frente ela fala de veias e depois, de sangue. 

é bonito ver que o traduzir é vivo e à medida que você avança versos afora, acaba voltando pra outros anteriores e depois seguindo em frente. por exemplo: exatamente por ter dado a heart um caráter fisiológico, acabei "des-traduzindo" o que antes tinha traduzido como "bombeiro" (quando ela fala "my hands down the backbone, down quick like a firepole") e passei para "paramédico" e voltei para a primeira estrofe para fazer de "Greek chorus" "microscopista" (tô ligada, não tem nada a ver).

outro motivo de eu ter especial respeito por esse poema é porque ela traça esse paralelo insolente entre vida e obra. sexo e trabalho.

para mim não está muito claro sobre quem exatamente ela fala nesse poema. algumas interpretações apontam para o marido de anne, kayo, e "aquele dia" seria um dia muito tempo atrás em que o casal casado era feliz. quando ela diz, no antepenúltimo verso, "Yesterday I did not want to be borrowed" seria uma alusão que ontem ela não queria ter transado com
o outro

outras análises dizem que o texto foi sobre algum dos vários amantes escritores que ela teve (que com anne também "compartilhariam" a escrivaninha).
 eu não sei. nem sei se importa muito, porque o sujeito do poema é menos o amante/marido e mais o ato mesmo de escrever o poema, ou onde se (ins)escreve o poema.

por fim, particularmente me move a homenagem que ela faz ao pau e à ereção. lindo demais.

Sunday, November 01, 2015

sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015



de que adianta esse pôster de madonna na
parede da cozinha indicando de qual lado
estou se na papua nova guiné continuam
linchando mulheres a quem chamam de bruxa
a papua pode até ser guiné mas nisso não
tem nada de nova e se for para queimar uma
mulher por bruxaria que queimem logo todas

de que adianta beyoncé avisando que vai sentar
o rabo na cara do boy e de que adianta eu me
inspirar nisso para fazer igual ou parecido se na
papua nova guiné sentam senhoras em telhas de
brasilit e com elas amordaçadas abrem nacos de
carne e sangue que na foto escorria pelas rugas da
telha pelas rugas das costas da mulher essa mulher
de cabelo curto e preto de costas na foto parecia a
minha mãe eu perdi o controle não consegui mais
almoçar e sei que não vou conseguir dormir mas

de que adianta minha insônia e meu jejum e esse
poema se na papua nova guiné não iriam entendê-lo
e mesmo a compreenãso dele não salvaria a vida da
mulher e mesmo no brasil onde se pode entendê-lo já
se sabe que poemas tal qual leis não mudam nada tudo
sobre isso já foi legislado e dito em todas as línguas
também em português mas meu deus

de que adiantaria meu silêncio?
de quem estaria meu silêncio a serviço?


Friday, October 30, 2015

uma verdade

chantal akerman disse que ela mesma ia dizer uma verdade




hoje é dia de manifestação contra o PL 5069, em são paulo, amigas. não deixem de ir!

Sunday, October 25, 2015

FACEBOOK DOS DEPUTADOS QUE VOTARAM A FAVOR DO PL 5069

queridas, perdi minha preciosa manhã de domingo procurando os facebooks dos 37 deputados que votaram a favor do PL 5069/13 - e infernizando suas vidas online, até chegar ao deputado nº 15, quando meu facebook foi temporariamente desativado haha. adelaidinha terrorista.

isso foi o que colei nas páginas dos senhores: #naoaoPL5069 https://www.youtube.com/watch?v=Cei1HUf1wHY

por favor, repassem essa lista!



1. Aguinaldo Ribeiro - (PP/PB)

2. Alceu Moreira - (PMDB/RS)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: ESSE FECHOU PRA COMENTÁRIOS!!!

3. BISPO Antônio Bulhões - (PRB/SP)

4. Arnaldo Faria de Sá - (PTB/SP)

5. Arthur Lira - (PP/AL)

6. Bruno Covas - (PSDB/SP)

7. CAPITÃO Augusto - (PR/SP)

8. Covatti Filho - (PP/RS)

9. DELEGADO Eder Mauro - (PSD/PA)

10. Diego Garcia - (PHS/PR)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU OS COMENTÁRIOS!!!

11. Evandro Gussi - (PV/SP)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU OS COMENTÁRIOS!!!
UPDATE DO DIA 27 DE OUTUBRO: FECHOU PARA COMENTÁRIOS!!!


12. Fausto Pinato - (PRB/SP)

13. Francisco Floriano - (PR/RJ)

14. João Campos - (PSDB/GO)

15. Juscelino Filho - (PRP/MA)

16. Marco Tebaldi - (PSDB/SC)

17. Marcos Rogério - (PDT/RO)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU E FECHOU PARA COMENTÁRIOS!!!

18. Pedro Cunha Lima - (PSDB/PB)

19. PASTOR Eurico - (PSB/PE)

20. Pastor Marco Feliciano - (PSC/SP)

21. Rogério Rosso - (PSD/DF)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: APAGOU E FECHOU PARA COMENTÁRIOS!!!

22. Ronaldo Fonseca - (PROS/DF)
esse só dá pra mandar mensagem!

23. Sergio Souza - (PMDB/PR)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: esse começou a moderar os comentários!!!

24. Veneziano Vital - (PMDB/PB)

25. Alexandre Leite - (DEM/SP)

26. Delegado Waldir - (PSDB/GO)

27. Eduardo Bolsonaro - (PSC/SP)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: apagou todos os comentários relacionaos ao PL.

28. Elmar Nascimento - (DEM/BA)

29. Gonzaga Patriota - (PSB/PE)

30. Gorete Pereira - ( PR/CE)

31. Jefferson Campos - (PSD/SP)

32. Laerte Bessa - (PR/DF)

33. Lincoln Portela - (PR/MG)

34. Paulo Freire - (PR/SP)
UPDATE DO DIA 26 DE OUTUBRO: ESSE FECHOU PRA COMENTÁRIOS!!!

35. Renata Abreu - (PTN/SP)

36. Sóstenes Cavalcante - (PSD/RJ)

37. Vítor Valim - (PMDB/CE)
ESSA é UMA FANPAGE HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA NO PUEDO!


poesia negra e simone de beauvoir no enem...

... na mesma semana em que o PL 5069/13 foi aprovado.

#naoaoPL5069






simone disse que ela mesma ia cair no enem

Saturday, October 24, 2015

(interrompendo a programação)

criei meu primeiro, meme, gente, e ele é genial HAHAH ALOK.



hello ops olar

Friday, October 23, 2015

#naoaopl5069 - algumas formas de se mobilizar

queridas,

é importante a gente se mobilizar e mostrar nas ruas e nas redes o que a gente acha do PL 5069/13. aqui alguns links importantes:

. mude sua foto de perfil

. assine a petição contra o PL 5069/13 (já vamos em 43 mil assinaturas, 13 mil a mais que o esperado!)

. questione o PL no facebook de eduardo cunha e evandro gussi. faça da vida deles um inferninho! : )

. vá às manifestações

em porto alegre  (dia 27 de outubro)

no rio (dia 28 de outubro)

no recife (dia 28 de outubro)

em são paulo (dia 30 de outubro)

em brasília (dia 31 de outubro)


. se não puder ir às manifestações, organize uma em sua cidade!

. se não puder ir, nem organizar, ao menos clique em "eu vou" em todas os eventos linkados acima, para demonstrar apoio!

. pílula fica, cunha sai no facebook (já são quase 20 mil pessoas!!!)

. use a hastag! #naoaopl5069

. repasse pras amigue anti-aborto esse link, em que o dr. drauzio varella explica o que é a pílula do dia seguinte. ou simplesmente copie isso aqui:

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".

"amiga, a pílula do dia seguinte é um CONTRACEPTIVO, como pílula e camisinha. a única diferença é que funciona beeeem mais rápido. ou seja não 'mata um inocente', ao contrário, evita que um aborto tenha que ser feito!".


madonna pró-vida das muié

Thursday, October 22, 2015

in celebration of my uterus, de anne sexton



ontem, o projeto de lei 5069/13, de autoria de eduardo meu cu-nha, que restringe os direitos das vítimas de violência sexual de receberem o atendimento (e acesso um atendimento humanitário e direitos reprodutivos e sexuais básicos), foi aprovado. não é apenas um absurdo, é realmente um passo atrás, um retrocesso, um desavanço, já que retira um direito proposto pela lei 12845/13. (para quem quiser ler mais sobre essas duas leis, por favor clique aqui, é importante saber que não somos soberanas e que existem leis regulando nossos corpos, queridas).

a dificuldade que é alcançar direitos reprodutivos e sexuais é bem clara. o que me dá pavor e saber que um direito alcançado possa ser revogado. é difícil imaginar a construção de uma sociedade menos desigual quando os direitos concedidos começam a ser RETIRADOS.

esse ano, a mobilização popular na alemanha conseguiu fazer com a pílula do dia seguinte passasse a ser vendida sem receita médica - agilizando a decisão e a eficácia do medicamento e, portanto, reiterando o direito da mulher de ter soberania sobre seu corpo. enquanto isso, no brasil, damos esse enorme passo pra trás.

eu mal consegui dormir ontem. preocupada com as 103,5 milhões de brasileiras, que são a maioria da população no país, abandonadas à própria sorte num país governado por coroneis.

eu traduzi esse poema dos love poems hoje de manhã, nas carreiras, com uma tristeza profunda. para celebrar nós mesmas e nosso útero, que é e foi casa de toda gente - inclusive destes vermes em brasília, que esquecem que saíram de dentro de uma mulher.

CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO

Tudo em mim é pássaro.
Bato todas minhas asas.
Eles queriam te tirar de mim
mas eles não vão.
Eles disseram que você é imensamente vazio
mas você não é.
Eles disseram que você estava morrendo
mas eles estavam errados.
Você canta como uma menina.
Você não é em vão.

Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
e a alma dessa mulher que sou
e a criatura central e a sua luz,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, troféu.
Fixo, envólucro. Cobertor e conteúdo.
Olá para a terra destes campos.
Raízes: bem-vindas.

Cada célula existe.
Aqui há o suficiente para satisfazer a nação.
Já chega que essa ralé se apodere desse bem.
Qualquer um, qualquer comunidade diz dele,
“Que bom que esse ano poderemos plantar de novo
e nos alegrar pela colheita.
A vacina contra a praga foi o vaticínio”.
Muitas mulheres, unidas, cantam sobre isso:
ela está na fábrica de sapatos, xingando a máquina,
ela está no zoológico cuidando de uma onça,
ela está triste dirigindo seu Fiesta,
ela está trabalhando no guichê do pedágio,
ela está no desfile da escola de samba,
ela está afinando um violoncelo na Rússia,
ela está mexendo o almoço no Egito,
ela está pintando as paredes do quarto,
ela está morrendo mas lembrando de um café-da-manhã,
ela está fazendo ioga na Tailândia,
ela está limpando a bunda de um filho,
ela está olhando pela janela do ônibus
no meio do Tocantins e ela está
em lugar nenhum e outras estão em todos os lugares e todas
parecem cantar, ainda que algumas sejam
desafinadas.

Querido fardo,
para celebrar a mulher que sou
me deixe usar uma écharpe de 3 metros,
me deixe paquerar os meninos de 19 anos,
me deixe levar as oferendas
(se for o caso).
Me deixe analisar os tecidos cardiovasculares,
e examinar as distâncias entre os meteoros,
me deixe chupar o caule das flores
(se for o caso).
Me deixe ser Iemanjá
(se for o caso).
Por aquilo que o corpo precisa
me deixe cantar
para celebrar o jantar
o beijo
o sim
certeiro.





IN CELEBRATION OF MY UTERUS

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.




ps: existem algumas observações sobre essa tradução que eu gostaria de fazer, mas vou me abster, hoje, de falar sobre isso, porque queria me ater ao assunto da PL 5069/13 e a house of cunha. 

Wednesday, October 21, 2015

medir com os limões a própria febre

queridas leitorinhxs em/de lisboa que não tiverem nada melhor pra fazer amanhã: é o lançamento da versão portuguesa "medir com as próprias mãos a febre" (mariposa azual), livro novo da minha amiga querida ricardo domeneck.

eu acho que vai ser uma noite super linda, com apresentação de miguel martins e leituras das maravilhosas alexandra lucas coelho e matilde campilho, ederval fernandes e ricardo domeneck, mais performance de daniel monteiro. aqui tá link do evento no facebook.

o lançamento no porto vai ser dia 25, ainda não sei onde, mas aviso aqui.

e como se o livro por si só não bastasse, vale dizer que a foto de capa da versão portuguesa é desta que vos amola:



ricardo e a cria


a capa da cria 
e a barriga do primeiro leandro
em 2003 
(gente...)





nos brasil, o livrin já pode ser comprado no site da 7letras. falando em 2003, a dedicatória de ricardo:







Wednesday, October 14, 2015

tire seu collant do armário e save the fate


gente querida, dias 11 e 12 de dezembro eu e jéssica mangaba vamos coordenar uma coreô grupo de auto-ajuda carnificina oficina em são paulo, sobre representação e auto-representação do feminino nas artes contemporâneas.

o nome do negócio é "mrs. dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores" (vocês sabem da minha obsessão com virginia woolf, fotógrafa) e o objetivo é aquecer a reflexão sobre esse assunto, e pensar a mulher como construtora da própria imagem. e falar de astrologia. BRINKS.

o público-alvo é todo mundo, mas só tem doze vagas (e mais 3 para bolsistas), então corre! para saber todos os detalhes de preço, inscrição, onde-e-quando etc., clica aqui.



ana mendieta disse que ela
mesma ia chafurdar na neve

Tuesday, October 13, 2015

363 horas



Rimbaud também chegou andando em Paris, Johannes, como eu chego hoje até aqui, e é engraçado lembrar de Rimbaud agora, porque era assim que eu te chamava, porque você parece com Leonardo di Caprio quando ele era jovem e se ele fosse ruivo, e porque você morou na África e porque eu e Paul Verlaine temos você em comum. Johannes, você abriu minhas cartas?





"this route crosses through france"





trecho do texto mais obcecado que eu escrevi na vida, publicado na nova edição do suplemento pernambuco.



Thursday, October 08, 2015

vem aí e mais






Pequena Nota sobre a Dispersão da Língua
Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck

uau cara eu disse
quando você inclinou meu queixo e nutriu
de cabeça em cuspe a libação de minha língua em fluidos

e uau cara eu disse quando caímos nos trapos e espuma
e uau era a aurora: nós fervemos os cafezais
numa panela batida

uau cara eu disse o dia em que caí de sua graça
(apenas o tom foi outro)
uau cara uai uau eu colhi meu pente
e meus dois livros e sumi e pronto e acabou


com esse post maravilhoso de ricardo domeneck

Wednesday, October 07, 2015

vem aí


eu e jéssica mangaba tamo de colant preparando a pista.


gena








Sunday, October 04, 2015

#ocupeestelita #resisteestelita


quinta-feira passada
em recife
durante uma manifestação
(pacífica)
aí quando vejo uma merda dessa
lembro do que nina simone
dizia
"i'm not non-violent".
tarra certa

Friday, October 02, 2015

carta em que a autora de 33 anos celebra o livro de estreia de sua crush literária (literária, an-ran) de 26 anos*




---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Adelaide Ivánova
Data: 25 de agosto de 2015 01:58
Assunto: volta
Para: William Zeytounlian

1.
a vida facebookiana tá muito sem graça depois que a senhora saiu do FB. ainda tentei dar uma azucrinada em TEXTO CENSURADO hoje, queria TEXTO CENSURADO CENSURADO CENSURADO CENSURADO mas ele não é tia como a gente. 


então volta, amiga.


2.

william,

eu sei que teu livro tá pronto e prescinde de pitacos. sei também que elogio não faz ninguém andar pra frente. o problema é que eu sei que tem ali mais coisa do minha leitura consegue ver. não tenho repertório suficiente pra "traduzir" tudo que tem ali dentro, então minha leitura foi bem roberta miranda: não sei o que dizer, apenas sentir.

é muito bonito observar as ondas que diáspora tem, william, tu passando do coletivo pro privado de um jeito tão "soberano" (essa palavra é um pouco exagerada, mas não achei outra mais calma. eu queria dizer algo entre autônomo e soberano). gosto muito de como na primeira parte tu fala de todo mundo; depois tu convida a gente a chorar tuas pitangas, as privadas mas também as coletivas.

ah uma coisa que eu queria dizer: nos agradecimentos do livro tu fala "sem vocês eu não teria corrido o risco" e de fato é muito arriscado esse passo: combinar texto com foto. sempre acho perigoso quando um tenta me dizer com o outro o que devo sentir. como os poemas são muito sólidos, ao final tiram qualquer chance de auto-indulgência. é um exercício corajoso, tem que ter muito cojones pra não ter medo de botar foto em livro de poesia. tu merecia um nude só por isso hahaha

tenho pensando muito no livro de poesia enquanto projeto (tipo os livros de fotografia) e
diáspora me fez pensar muito em anna akhmatova tematizando a guerra em requiem ou caetano tematizando exílio no disco que tem london, london (não tô comparando os dois pelamor, tô apenas pensando nesses modos operandi aí).

pensei na máquina emotiva de corbusier, mas não sei se pensei certo quando pensei isso. 

também lembrei de joão cabral (capricorniano, claro) que dizia que o material da sua poesia era a memória. tem muita memória no teu livro, as tuas, as que não são tuas. é de novo o risco - nesse caso, o de se misturar aos fatos. numa entrevista com oprah (puro amor), maya angelou disse que os fatos encobrem a verdade, e que a verdade se encontra quando a pessoa se pergunta não o que aconteceu, mas o que ela sentiu quando o acontecido aconteceu. é bonito, né? acho que tu fez isso, ou quis fazer isso. tô certa ou num tô? ALOK.


pensei em john wieners, quando ele diz: "again we go driven by forces/we have no control over", em "a poem for painters" é a gente, william, bicha signo de fogo, escrevendo/vivendo (ainda que john wieners fosse capricorniano como joão cabral). 

tu sabia que celan também era sagitariano feito tu?

falando em fogo, eu gosto MUITO que a primeira palavra do livro é "quente" e a última é "entenderemos". um monte de "E". na tabela pitagórica E, N e W (primeira letra do teu primeiro nome, btw.) têm o valor 5, que é o número da liberdade. acho bonito pensar nisso no contexto dum livro que se chama diáspora, em que a palavra "livre"  aparece sete vezes e "liberdade", duas. e nenhuma vez  "amor" (ainda que a coisa-amor esteja lá; não sou tão burra haha).

o trecho de poema com o gagarin que tu antes tinha mandado começa cantando caetano e fiquei feliz. foi a única coisa que reconheci, além das maiakosvkadas que tu dás no português, obrigada. eu sei que tem mais coisa ainda ali preu descobrir, que passa despercebida na minha leitura analfabeta. desculpa não ter comentários mais inteligentes pra fazer como tu tiveste em relação ao meu!

vai ser bom passar mais tempo com teu livro, vai ser a minha mala educacion hahaha "com o velho dedo que envereda na ferida" (que lindo isso, william, vai tomar no cu).

muitos beijos orgulhosos,
da sua tia.




diáspora é o livro de estreia de de william zeytounlian. vai ser lançado amanhã em são paulo, pelo selo demônio negro e dá pra comprar aqui. no livro, william "traz para sua escrita a experiência diaspórica de sua família, de sua própria avó, sobrevivente dos extermínios do Governo Otomano contra a população armênia do Império no início do século XX. Essa história pessoal, familiar, informa com poder metonímico todo o livro" (trecho do posfácio de ricardo domenek). eu acho importante, ainda, apontar a importância da memória como ferramenta de trabalho, e apontar que a experiência diaspórica é usada também como alegoria para falar de outros contextos, de outras experiências. é um livro muito bonito.

para ler trechos dos poemas, crica aqui.


*o título dessa postagem é roubado do poema "texto em que o poeta celebra o amante de 25 anos" de ricardo domeneck.

o sismógrafo


um sismógrafo não gira em torno de
si mesmo como faria um compasso
(objeto sincero que demarca território ou
ritmo) um sismógrafo vai em frente como faria
uma pessoa decente e entregue como
(não) são as pessoas bernardo que não
são como eu eu sigo bernardo
me movendo em círculos em torno
disso e de você dessa busca
o sismógrafo mede terremotos
no chile e olha para o futuro e para
a segurança de todos os envolvidos
os culpados os absolvidos
seria o sismógrafo bernardo capaz
de medir os batimentos cardíacos e
aquilo que é imprevisível aquilo
que ele mesmo causa?
seria o sismógrafo ignorante de si mesmo
capaz de medir os abalos sísmicos
que a visão de você procurando a nota
de cinco euros no fim da noite
causa em mim? eu poderia bernardo
traduzir em escalas richter todas as desgraças
deste mundo sem nunca poder
traduzir em algarismos romanos ou
arábicos os efeitos desse terremoto
interno causado exclusivamente pela
existência dos seus músculos
bernardo
eu poderia esvaziar esse bar
levar seus donos a falência
pelo puro desejo insaciável
de te ouvir falar.

Thursday, October 01, 2015

todos conhecem a história da outra, de anne sexton

TODOS CONHECEM A HISTóRIA DA OUTRA

É um Walden particular.1
Ela está sozinha na cama
enquanto o corpo dele se ajeita e dispara,
decidido como uma flecha.
Mas isso tá mal explicado.2
A luz do dia não é amiga de ninguém.
Deus chega como se fosse cobrar o aluguel
e acende a luz quando não convém.3
Agora ela está assim-assado.4
Ele põe seus ossos de volta no lugar,
atrasa o relógio em uma hora.
Ela conhece a carne, o balão feito de pele,
os membros partidos, o assoalho,
o teto, o teto removível.5
Ela é meio-período sua eleição.
Você conhece essa história. Fique olhando:
quando termina ele a coloca,
como um telefone, no gancho.6




YOU ALL KNOW THE STORY OF THE OTHER WOMAN

It's a little Walden.
She is private in her breathbed
as his body takes off and flies,
flies straight as an arrow.
But it's a bad translation.
Daylight is nobody's friend.
God comes in like a landlord
and flashes on his brassy lamp.
Now she is just so-so.
He puts his bones back on,
turning the clock band an hour.
She knows flesh, that skin balloon,
the unbound limbs, the boards,
the roof, the removable roof.
She is his selection, part time.
You know the story too! Look,
when it is over he places her,
like a phone, on the hook.


notas
#1Walden é o livro de Thoreau sobre vida simples, isolada, em conexão com natureza (é sobre outra coisa, na verdade, mas esse é o cenário do livro). ao contextualizar a ação do poema citando Walden, Anne faz alusão a um lugar idílico, onde "dentro" é que se passam os conflitos (dentro da casa, no poema; dentro do sujeito, em Thoreau).

#2
"tá" porque no poema ela escreve "it's" em vez de "it is". como sabemos o apreço de Anne pela língua falada, deixei assim.


#3
no original, ela prefere adjetivar a luz do que a ação de deus. como não achei nenhuma traudção pra brassy que me agradasse, e pra manter a musicalidade que aparece aí (nobody's friend/brassy lamp), ficou assim, adjetivando não a lâmpada, mas a própria ação de acender a luz.

quando a luz é acesa ou o dia amanhece (deus acendendo a luz), é quando somos pegos no flagra, é a hora de sentir culpa.

#4
como o poema tem duas perspectivas (a do homem e a da "outra"), confesso que não sei se ela diz
she is so-so no sentido de estar de humor mais ou menos, ou de estar apenas marromeno bonita. tipo: depois que se acende a luz (ou seja, acabou a festa), o humor dela fica abalado - que nunca? - ou depois de se acender a luz (ou seja, acabou a festa), ele a pode ver e já não acha tão bonita assim, acha ela apenas "mais ou menos". então a tradução ficou meio neutra, embora neutra de cu é rola. mas tive que ficar em cima do muro porque não sei o que fazer. por ora, essa é a solução, mas vou continuar pensando nisso. aceitamos mastercard e sugestões.

#5
esses três versos são muito bonitos, como ela mistura descrição de corpo com contexto.
teto removível é uma alusão clara àquelas casas de barbie que se pode retirar o teto e manipular e olhar a boneca desde cima. e quando a brincadeira acaba, metemos a barbie dentro da casa, tampamos com o teto e tchau, até que se tenha vontade de brincar de novo (enquanto isso a boneca fica lá...).

#
6
 o original tem o
look!, que é um recurso não raro de anne (aparece inclusive em o nado nu). quem diz look! aponta um dedo pra alguma coisa, e é disso que esse livro inteiro trata. eu demorei muito pra decidir como traduzir essa estrofe, porque "fique olhando" tem essa denotação voyeuristica também, mas é menos acusativa, é mais sutil do que "olha!". mas como queria respeitar a musicalidade de look/hook, optei por essa solução, porque tampouco não consegui pensar em nenhum sinônimo para 'colocar o telefone no gancho' que rimasse com 'olha'.

outro comentário
eu acho o título desse poema tão triste, no sentindo do autoesculacho que ela mesma se impõe. primeiro porque é importante lembrar que o amante também era casado, mas apenas 
ela tinha o papel de criminosa. cabe apenas a Anne o estigma, porque ela vivia a sexualidade fora do contrato social. já para o amante (casado e que seria "o outro" em relação ao marido de anne) não cabe nenhum julgamento, já que o casamento privilegia a figura masculina em seus acordos (ou seja, ter uma amante faz parte do pacote, tudo ok). 

eu sei, o poema foi escrito na década de 60 nos EUA - mas estamos falando dele hoje. a "outra" é uma personagem a quem ainda não foi conferido nenhum status social. como a sexualidade feminina, regulamentada pelo Estado, é legitimizada unicamente através da figura da esposa, todo tipo de sexualidade experimentada em outros contextos, em outros papeis sociais ("a outra", "a solteira sexualmente ativa (gay ou hetero)", "a assexuada" etc.) é visto como rompimento com o contrato social e é, portanto, marginal, digna de condenação.


pronto, termino afinal essa tradução-ladainha - desculpem o incômodo, mas de que serviriam os poemas se não nos fizessem pensar em outra coisa além do poema em si?




outras traduções de anne sexton:
o beijo
o nado nu

Wednesday, September 30, 2015

poema-protesto do livro novo de ricardo domeneck

dedicado a esta que vos escreve:



a foto é do FB de yasmin nigri



a quem interessar possa, "medir com as próprias mãos a febre" saiu essa semana pela editora 7letras e em outubro sai pela mariposa azul, em portugal.

ricardo.

Saturday, September 26, 2015

o estupro de lucrécia

lucrécia foi estuprada enquanto dormia por sexto tarquínio, filho de lúcio, que viria a ser o último rei de roma. depois da violação, lucrécia se mata em público, clamando por justiça e assim deu-se início uma guerra que acabou com monarquia romana.







o suicídio de lucrécia por lucas cranach


lucrécia e suas amas
(não achei o autor)


ilustração do século 16, mostrando o ataque e depois 
lucrécia pedindo por justiça diante de testemunhas

o suicídio, do estúdio delucas cranach, o autor
assinou como I. W. em 1525


o suicídio por rembrandt, 1664


o estupro por rubens, 1619

o estupro por simon vouet

a pintura é de ticiano, 1571,
mas o que mais me impressiona é 
a legenda do wikipedia português



Friday, September 25, 2015

the nude swim, de anne sexton

O NADO NU1

No sudoeste de Capri
encontramos uma grutinha secreta
onde não havia ninguém e nós
nos metemos nela até o fim e
liberamos nossos corpos de toda
solidão.

Tudo o que em nós é peixe
se deixou levar.
Os peixes de verdade não deram a mínima.
Não atrapalhamos suas vidas íntimas.
Nadamos tranquilos por cima
e por baixo deles, compartilhando
bolhas de ar, brancas, ínfimas
bexigas, que emergiam rápido
até o sol banhando o barco
onde o italiano tirava uma soneca
cobrindo a cara com um chapéu.

A água era tão clara
que dava para ler um livro.
A água era tão tranquila
que se podia boiar sem medo.
Me deito nela como me deito no divã2.
Me deito nela como
a odalisca vermelha de Matisse.
Sendo a água a flor estranha,
é preciso imaginar uma mulher
sem toga nem lenço
num sofá cavado como um túmulo3.

As paredes daquela gruta
tinham todos os tons de azul
e tu disseste "Ó! Teus olhos
são da cor do mar. Ó! Teus olhos
são da cor do céu". E meu olhos
se fecharam em
repentina vergonha4.




The Nude Swim

On the southwest side of Capri
we found a little unknown grotto
where no people were and we
entered it completely
and let our bodies lose all
their loneliness.

All the fish in us
had escaped for a minute.
The real fish did not mind.
We did not disturb their personal life.
We calmly trailed over them
and under them, shedding
air bubbles, little white
balloons that drifted up
into the sun by the boat
where the Italian boatman slept
with his hat over his face.

Water so clear you could
read a book through it.
Water so buoyant you could
float on your elbow.
I lay on it as on a divan.
I lay on it just like
Matisse's Red Odalisque.
Water was my strange flower,
one must picture a woman
without a toga or a scarf
on a couch as deep as a tomb.

The walls of that grotto
were everycolor blue and
you said, 'Look! Your eyes
are seacolor. Look! Your eyes
are skycolor.' And my eyes
shut down as if they were
suddenly ashamed.



reclining odalisque (harmony in red)
matisse, 1927


1.
"o nado nu" não somente me parece solene, como quase antipático, pretensioso. uma tradução que pensei muito foi "nadar pelada", que seria também o jeito mais "normal" de falar da mesma coisa. mas como a última estrofe revela uma "confissão", um momento de "nudez", achei melhor deixar assim. 
2.
é preciso lembrar da relação de anne com a psicanálise e, mais ainda, do fato de que esse livro foi escrito no período que o analista dela era o amante. eu acho a imagem desse verso tão piegas ("deitar na água como se fosse um divã" - pelamor de deus) mas, por outro lado, é um jeito lindo de aludir a ela mesma pensando no amante, enquanto viaja com o marido. no original ela fala do divã de maneira impessoal ("on A divan") mas eu traduzi para "no divã", querendo falar daquele específico, já que os dates de anne e seu analista se davam no consultório dele, ou seja, durante as consultas.
3.
dessa relação com a psicanálise vem o jogo sofá/divã que anne faz. escolhi traduzir como "cavado como um túmulo", ainda que no original ela use "deep", que é fundo/profundo. "cavado" é sim sinônimo pra fundo, mas se usa mais como particípio que como adjetivo e ideia de medida (ao menos não na linguagem falada). de toda forma, escolhi "cavado como um túmulo" primeiro pela sonoridade: "sofá fundo", "sofá profundo" soam mal.

além disso, no sofá da psicanálise se "cavam" as coisas (da vida interna) e, neste sofá especificamente, ela não somente fazia sessões de análise como fazia amor com o analista (a alusão à nudez nos versos "é preciso imagina uma mulher/sem tonga nem lenço" também faz esse paralelismo, entre se desnudar pra fazer amor e se desnudar diante do analista, falar das entranhas). uma relação de transferência complexa - meio a morte da terapia, sei lá. fiquei pensando muito tempo nisso. enfim, ela fala de túmulo do fim do verso, então achei melhor usar "cavado", que lembra cova, cavar a própria cova, sem deixar de ser sinônimo pra "fundo"/"deep".

eu podia ter escrito "fundo como uma cova", que seria uma opção simples e boa, mas ia criar musicalidade com "toga" do verso anterior (e não queria tirar "toga"; que genial essa palavra aí no meio) e no original não há musicalidade entre esses 2 versos.
4.
foi muito difícil traduzir o último verso, por sua simplicidade. "ashamed" é uma vergonha relacionada a culpa, diferente da vergonha embaraço (que é quando há "público"). pensei em traduzir por "remorso", que é bem próximo, ou simplesmente "culpa" (e ainda filosofei pensando em "tristeza" "cansaço" "pesar"), mas nenhuma se aproxima tanto da ideia de "embaraço culpado" de "ashamed". fiquei entre "remorso" e "vergonha". optei pela última, simples e eficaz, que é o que provavelmente uma pessoa falaria na vida real. mas sei que não é a tradução ideal. aceito sugestões.

Wednesday, September 23, 2015

gente bora ajudar o daniel!

o sonho de daniel é ir pra sua formatura com a mastectomia masculinizadora feita.
eu fiquei tão emocionada com a sinceridade e a simplicidade do pedido dele que tive que compartilhar aqui.


clica aqui pra ajudar o rapaz e aproveita e compartilha o link nas ruas redes!





Tuesday, September 22, 2015

a profeta lendo meu livro


érica zíngano fez uma leitura fundamental do meu livro (reclamando da quantidade de pontos finais e da minha incapacidade de pontuar os verbos no passado - entre outras coisas, mais importantes que gramática), em VINTE páginas de um pdf com comentários. mas o que eu queria compartilhar mesmo é o afeto, no final:



"eu tô agarrada com você desde ontem"







ps: o livro sai pela douda correria em 2016.

Sunday, September 20, 2015

look do século

sinceridades feat. obsessão






Friday, September 18, 2015

groupie das amiga

recomendo recomendo recomendo com muito amor.

Sunday, September 13, 2015

schengen goddam




pudessem os homens brancos em bruxelas
e thomas de maizière
ouvir este meu poema estaria resolvida
a questão das fronteiras e seus
problemas veja bem senhor ministro
em minha cama não se pede visto
já troquei lençóis e fronhas
sujos de sêmem made in espanha
hungria áustria zimbábue iraque
alemanha
fazemos a alegria uns dos outros
e diga-me senhor ministro
se não fôssemos nós
quem mais a faria?
e quem faria seu demográfico
crescimento? dele somos
responsáveis - diz fatou diome -
em 40% e sem nós
expatriados diga mesmo
senhor ministro
de onde viriam tantas delícias
as teses os ensaios a vida as baladas
os bares os quadros com quais
lucram vossos museus os livros
premiados com os quais
lucram (ou lucravam) suas poeirentas
livrarias?
haveria para pasolini este
homem europeu
um futuro mais duradouro
tivesse pasolini se refugiado?
talvez fosse morto na síria na líbia
ou na casa de caralho mas menos
por ser refugee e mais por ser viado
(sim um grande problema mas esse
não é hoje o tema do poema)
já deitei em futons tapetes colchões
e carpetes de toda sorte de gente
inclusive os de budapeste que se
mostram agora os mais cabrões
(os jogadores de golf de melilla
não são menos sinistros) o segredo
senhor ministro deixa eu explicar
é abrir não somente as fronteiras
mas o coração sermos bons como lou
salomé que fez a caridade de comer
nietzsche e para o próprio deleite ainda deu
pra rée e (dizem) rilke sermos bons com
quem vier não importando a cor do
passaporte nem do sujeito apenas dando
muito seja lá do quê - um visto um teto
um trabalho um hallo um meio
de transporte mais seguro e
ventilado que um caminhão
e um destino mais humano
que o injusto e raso para onde
eu você e petra laszlo mandamos
o pai anônimo e seu filho (o chão).





apenas aprendam
(rée, salomé e nietzsche)

Friday, September 11, 2015

o beijo, de anne sexton



O BEIJO

Minha boca lateja como uma úlcera.
Fui o ano inteiro ignorada, noites
chatíssimas, nada além de cotovelos ásperos
e caixinhas de Kleenex gritando crybaby
crybaby, sua abestalhada!

Até ontem meu corpo era inútil.
Agora se rasga nas partes ossudas.
Faz do manto de Maria pó, de nó em nó
e olhe – Agora atingida por um certo raio:
Bum! Ressuscitou!

Antigamente havia um barco, de madeira
e sem utilidade, sem mar embaixo
e precisando de uma demão de tinta. Não era muito
além de um bocado de tábua. Mas ela você alçou e laçou.
Ela foi escolhida.

Meus nervos à beira de um ataque. Posso ouvi-los como
instrumentos musicais. Onde antes havia silêncio:
bateria, irremediavelmente as cordas tocam. Você é o responsável.
Trabalho de gênio. Querido, o compositor se mete
fogo adentro.






THE KISS

My mouth blooms like a cut.
I've been wronged all year, tedious
nights, nothing but rough elbows in them
and delicate boxes of Kleenex calling crybaby
crybaby, you fool! 


Before today my body was useless.
Now it's tearing at its square corners.
It's tearing old Mary's garments off, knot by knot
and see — Now it's shot full of these electric bolts.
Zing! A resurrection!

Once it was a boat, quite wooden
and with no business, no salt water under it
and in need of some paint. It was no more
than a group of boards. But you hoisted her, rigged her.
She's been elected.

My nerves are turned on. I hear them like
musical instruments. Where there was silence
the drums, the strings are incurably playing. You did this.
Pure genius at work. Darling, the composer has stepped
into fire.





"o beijo" é o segundo poema do livro love poems. tanto poema quanto livro não são os melhores de anne, mas o que faz de love poems especialmente atraente para mim é o livro de poesia como projeto. é a análise laboratorial que ela desenvolve em torno de um único tema e, ainda que ela aqui e ali fale de outras coisas, o tema ou mote é o adultério e seus protagonistas, com o corpo como arma do crime, por assim dizer.

nos pontos altos, anne transfere a obsessão que antes tinha com a morte e historização da própria biografia, prum homem (o marido e o amante). poemas como for my lover returning to his wife, pelo qual sou especificamente obcecada e cuja tradução pretendo postar aqui um dia antes de 2019, têm uma força mãe-natureza e um nível de empatia que ainda me deixam besta.

os love poems foram escritos durante o romance que anne sexton teve com seu segundo analista. sem saber dessa informação, é mais difícil entender por quê da linguagem às vezes encriptada que anne - uma senhora casada e mãe de filhos, dos subúrbios de boston - utiliza no livro, publicado em 1969. essa linguagem encriptada resulta eventualmente num tom solene que às vezes cai na cafonice, com metáforas fábio júnior distantes da força crua que aparece no livro anterior, all my pretty ones. essa "solenidade" tem sido minha maior dificuldade traduzindo outros dos love poems. nem por isso o livro é menos sexy. se não me engano, foi o que mais vendeu (até a publicação de transformations, em 1971).

nesse livro, anne também relaxa com métrica-e-musicalidade que lhe consagraram em to bedlam and part way back, seu livro de estreia. o cuidado com a versificação que ela mostrou nos seus primeiros dois livros têm, na minha opinião, muito a ver com a doença mental de que ela sofria. em love poems, no entanto, ela transfere a obsessão pela estética em uma obsessão pelo sujeito. uma troca tão ou mais arriscada.

esse poema eu gosto pela imagem da mulher febril que, depois dum período de seca, volta a ser beijada (e comida, né, assim esperamos); eu gosto da descrição da explosão interna que anne faz, de como ela lida com o tesão e a adoração que ela dedica ao boy que a tirou do limbo sexual, chamando-o de gênio.


essa foi então a minha tradução-traição pro português nordestino (tentando diminuir as "solenices" do poema original; tentando me afastar da semântica e me aproximar do que o poema quer dizer, mas mantendo algumas rimas/ecos internos).

Friday, August 28, 2015

having a coke with you, de frank o'hara





tomar uma coca contigo

é ainda mais legal do que ir pra praia
ou passar mal na festinha da praça da prefeitura
em parte por causa da tua camisa de flanela tu parece um kurt cobain                              mais animado
em parte por causa do meu amor por você em parte por causa do seu                          amor por iogurte
em parte por causa dos alecrins ressequidos ao redor da montanha
em parte por causa da ilegalidade da nossa troca de sorrisos quando                       estamos em público
é difícil acreditar quando estou contigo que bem diante das minhas                                     fuças existe
algo tão calmo tão solene tão fuderosamente definitivo quanto essas                                     fotografias
na luz encandeante das 4 da tarde de barcelona a gente perambula
como perambulariam as árvores se pudessem
e naquela exposição os retratos não pareciam ter cara
e tu se pergunta por que caralho alguém nesse mundo faria algo assim


eu olho
pra tu e prefiro mil vezes te olhar do que olhar qualquer outra foto
quer dizer, talvez prefira olhar uma foto tua em alguma exposição
à qual você ainda não teria ido e à qual iríamos juntos
o fato de que tu és tão lindo mais ou menos resolve o futuro da                                               fotografia
até porque quando tô sem fazer nada eu nunca penso em Gursky ou                                               Soth
e quando tô ocupada é uma foto de Diane Arbus que me tira o sossego
que importa tantas fotos tantos fotógrafos se eles
nunca encontraram a pessoa perfeita para comer pão com queijo na                                       montanha
tipo Richard Prince que escolheu o cavalo certo e o cowboy errado


na minha opinião eles foram todos privados de uma vivência                                              maravilhosa
que não passou despercebida por mim e é por isso que te digo tudo                                                 isso.











nota:

#1
essa é a primeira tradução minha que arrisco publicar. existem umas escolhas de contextualização que ainda me sinto meio insegura - o poema original se refere a uma exposição de esculturas e fala de outros artistas, em outra cidade etc. além disso, porque o poema original tem um ritmo de fala, misturei os pronomes ou fiz uso 'errado' deles ("tu se pergunta (...)") e das conjugações, porque é assim que se fala (bom, ao menos em recife a gente fala assim haha). o original tem poucas vírgulas (de novo, a coisa da fala) em elas estão em outros lugares; eu tentei usar vírgulas o menos possível.
#2
para ler o original em inglês
#3
perdi horas lutando com metrificação original e as configurações do blogger, essa foi a solução que encontrei,
forgive me a ignorância de html.

Monday, August 24, 2015

introducing

com alguns dos coautores do projeto que estamos desenvolvendo durante a residência artística em el bruc, sábado passado. aff é muita fofura.


os mano pow, as mina pá

Sunday, August 16, 2015

de "manhã"



adília maravilha
no dia do meu
e do aniversário
de mainha

Saturday, August 15, 2015

"nem pense em jogar essa camiseta fora"

minha mãe fazendo limpeza das coisas que deixei na casa dela e me consultando via skype:



mas minha filha esse trapo já tem 17 anos...



Friday, August 14, 2015

poema inédito na modo de usar & co.

em breve saindo meu segundo livro, até agora chamado de "o martelo", pela douda correria.



um dos poemas foi publicado hoje na modo de usar & co., em postagem do meu amigo e companheiro no vale do rímel borrado, ricardo domeneck.





beijos e boa sexta!

Wednesday, August 12, 2015

Tuesday, August 11, 2015

dr. cornel west

é um vídeo longo, mas vale a pena cada segundo. é tão difícil alguém que tem aceso aos holofotes usar essa chance para aliar num discurso ao mesmo tempo denúncia e enaltecimento da empatia. geralmente só se faz um ou outro.

eu posto esse vídeo hoje desejando que inspire quem o assistir a pensar não somente na sua situação de oprimido - se oprimido for - mas pensar também no outro, pensando de uma outra perscpectiva, daquele "lugar" em que você não sofre.





isso serve para pensar também o que está acontecendo no brasil. como estamos sendo todos manipulados, tentando nos fazer desacreditar no processo democrático, processo esse abalado apenas por um filhinho-de-papai (ou podia apenas dizer "homem cis branco e rico" ou seja, alguém nascido e criado com todos os provilégios - ou seja, alguém que não representa você) que não sabe perder. como podemos nos deixar levar por isso, sem pensar uns nos outros? eu não sei.

esse vídeo foi postado por ricardo domeneck no facebook da modo de usar & co. obrigada, amiga.

Monday, August 10, 2015

Sunday, August 09, 2015

Saturday, August 08, 2015

Friday, August 07, 2015

ricardo domeneck,

meu amigo e bruxo, em trecho de leitura/performance que fez dia desses no berlimbo:


Let me use language to feel feverish. Give me your fever too. Give me your Language, teach me your language again.






como não sei se estou autorizada a postar toda a performance aqui, vou me limitar a postar esse trecho e a repassar os links de onde ele escreve - graças a deus - regularmente:
blog pessoal
coluna na deutsche welle
modo de usar & co. (junto com angélica freitas e marília garcia)

e, sem querer ser groupie mas já sendo, o próximo livro desse tabacudo parece que sai em setembro.

graças a deus.


Wednesday, August 05, 2015

minha vida explicando pro povo

que eu não tenho smart stupid phone:

se quiser miliga



Tuesday, August 04, 2015