
a) sempre que eu olho para frida kahlo me pergunto por que não fui ser pintora. assim, essas duzentas ideias por segundo que tenho iam parar de me atormentar porque não iam precisar de tanto aparato técnico para nascer (tenho querido fazer um auto-retrato fantasiada de portorriquenha, um drama pra fazer a produção) e todas as duzentas ivis em mim ficariam em paz mais vezes.
b) o livro mais importante é o de jan saudek, meu primeiro de fotografia, escolhido porque a capa era bonita, quando eu tinha 18 anos e estava zanzando pela livraria saraiva do shopping plaza de recife. eu não fazia nada que prestasse, só tirava umas foto de buí que quando a gente terminou joguei no lixo. me arrependo, tinha umas foto bonita.
c) quando eu fiz 25, mamãe me deu uma caixa bem cara com os retratos de mapplethorpe, esse é importante também.
d) um milésimo do peso dessa caixa tem o love and before, green and after, do marçolo gomos, mas ele já tinha mudado minha vida antes de lançar esse livro anyways.
e) achei o catálogo da lenny em que a guisela foi fotografada usando o maiô branco que usei em um dos autos da fashion victim 3. o michael roberts que me desculpe, mas minha foto é muito mais legal.

aí achei duas coisas que dizem muito sobre mim:
1. meu único álbum de família, quero dizer, esses álbuns que os pais fazem dos filhos, tem bem pouquinhas fotos. mamãe só fez um, bem conciso, da ultra-som até eu ter 12 anos. deve ter umas 20 fotos, no máximo. e não é que ela editou recentemente e conseguiu ser precisa por causa do distanciamento que o tempo dá - ela foi editando a medida que tirava as fotos (ou seja, ao longo de 12 ou 13 anos) e só pôs lá as que achava realmente importantes. e não pense você que ela pôs numa caixa de sapato as que não foram "promovidas" pro álbum: ela as jogou fora. nunca vi tamanho talento de edição. nem economia de clicação. ela seguia os preceitos annie leibovitz-ais e eu, sem fazer ideia dessa conexão comigo mesma, escrevi esse texto em 2009 e na verdade devo ele à minha mãe, e não a annie (agora sei).
2. outra coisa: encontrei um álbum que fiz em 2003 só com fotos que os outros tiravam de mim HAHAHAHAHHA BEM LHôCA.
e só pra terminar: a gente se conhece de montão ao olhar os entulhos que guardava na estante achando que era referência mas que na verdade nunca mais foi olhar de novo.
foto de moda é que nem as moda em si: logo que ela é feita (por você ou pelos outros), você acha incrível. uns anos depois, você olha e se pergunta: "puta merda como foi que eu achei essa merda bonita um dia?".
por isso que eu amo tanto guy bourdin, quando ele dizia que suas imagens (MARAVILHOSAS ATÉ HOJE) eram pra ser degustadas nas revistas de moda e jogadas fora e esquecidas no mês seguinte. isso é que é self-awareness.

foi tudo pro lixo.





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